domingo, 5 de fevereiro de 2017

Não tenho preconceito, mas...


Esta frase revela que quem a diz é preconceituoso ao demonstrar que, embora ela possa até aceitar alguma inclusão de quem é “diferente”, entende que existem limites que não podem ou não devem ser superados.

Quando alguém começa uma frase dizendo “não tenho preconceito, mas...”, é muito provável que esta pessoa vá falar algo preconceituoso em seguida e ela imagina que será interpretada exatamente desta forma, porém se utiliza desta frase para procurar desfazer qualquer suposto mal entendido.

Ainda vivemos em uma sociedade extremamente preconceituosa no Brasil e no mundo, mas não necessariamente porque este preconceito parta propriamente das pessoas, e sim porque foram criadas em um mundo que discrimina vários tipos de pessoas por serem quem são e como são, ou por não estar dentro de certos “padrões”.

No domingo passado (29/jan/2017) ocorreu o concurso de Miss Universo, que foi transmitido na TV aberta pela Band. Foram convidados a apresentar o concurso para o público brasileiro Renata Fan (Miss Brasil 1999 e apresentadora de TV), Cássio Reis e Rapha Mendonça. Durante o anúncio das 13 finalistas, os apresentadores não concordaram com a seleção de algumas Misses, o que é natural, pois é algo que depende dos conceitos e opiniões de cada um. No entanto, a frase “não tenho preconceito, mas” se encaixou perfeitamente nas declarações dos três diante do espanto da classificação da Miss Canadá, por ter sido considerada “fora dos padrões” por estar “acima do peso”. Cássio Reis foi mais além na sua demonstração de preconceito ao dizer que a Miss Canadá havia chegado onde chegou por “cotas”, além de ter ridicularizado a escolha do vestido branco pela Miss.

A Miss Canadá chegou entre as 6 finalistas, superando a brasileira Raíssa Santana, e a própria Renata Fan que, mesmo estando dentro dos “padrões”, sequer se classificou para as finalistas das etapas seguintes quando participou do Miss Universo 1999.

O problema da frase “não tenho preconceito, mas” é que, embora a pessoa não queira intencionalmente soar preconceituosa, ela procura argumentar de forma a justificar seu preconceito. No caso dos apresentadores da Band, eles procuraram argumentar que a Miss Canadá não deveria nem estar na lista das 13 finalistas porque o concurso “tem padrões”, como se as vencedoras precisassem ter determinadas medidas, além de saberem escolher os vestidos. No entendimento destes apresentadores, o concurso de Miss Universo é vencido pela Miss que, além de naturalmente bela e bem maquiada, precisa possuir determinadas medidas corporais e saber escolher um vestido que valorize sua beleza, ou seja, eles ultravalorizaram a aparência física e estética, ignorando o lado humano e as outras habilidades de uma Miss.

Um dos papeis mais tradicionais de uma Miss Universo é o de se engajar em causas humanitárias, especialmente àquelas voltadas ao cuidados de crianças e mulheres em situações de vulnerabilidade, portanto, a coroação da Miss Universo não se resume apenas a coroar a mulher mais bonita entre todas as concorrentes da noite (até mesmo porque todas são bonitas), mas alguém com habilidades e características que vão além de sua beleza, suas medidas, sua maquiagem ou seu vestido.

Além disso, demonstraram também desconhecimento das regras do concurso, que diz “A vencedora do Miss Universo deve ser confiante. Ela deve compreender os valores da nossa marca e as responsabilidades do título. [...] A concorrente deve demonstrar autenticidade, credibilidade e exibir graça sob pressão” (regras completas aqui). Em momento algum, as regras citam que existem medidas pré-determinadas (busto, quadril, etc). Além disso, se estes “padrões” constassem nas regras, provavelmente a Miss Canadá nem estaria competindo.

Depois de usar a frase “eu não tenho preconceito, mas”, a pessoa busca justificar o seu preconceito. Os apresentadores da Band procuraram fazer isso – sem sucesso porque não há nada sobre “padrões” nas regras do concurso – e a parte preconceituosa do público que acompanhou o evento pela TV e comentou nas redes sociais fez o mesmo. Esta frase revela que quem a diz é preconceituoso ao demonstrar que, embora ela possa até aceitar alguma inclusão de quem é “diferente”, entende que existem limites que não podem ou não devem ser superados. Para os apresentadores da Band, a Miss Canadá não seria merecedora do título de Miss Universo porque ela estava “acima do peso”, portanto isto a tornaria menos merecedora do título.

Normalmente, as justificativas dos preconceituosos não são baseadas na famosa “minha opinião”. Quase sempre a supostamente “minha” opinião é formada pela opinião dos outros, que pode ser um apresentador de TV, um pensador/filósofo, as regras morais laico-religiosas de uma sociedade ou em algum idiota autoconfiante. O preconceituoso busca citar esse gente toda sob o argumento da “minha opinião” diante do “por que não?” que a pessoa diferente faz à sociedade. Por que não uma Miss pode estar “fora dos padrões” ou, até mesmo, ser gorda? Por que não um casal de homossexuais pode andar de mãos dadas em público ou se beijar na novela? Por que não um negro ou uma mulher pode ocupar uma posição de destaque real na sociedade? Por que não?

Não ser preconceituoso é repensar os próprios preconceitos e o da sociedade a cada dia. Se não for para lutar por igualdade, é pelo menos não atrapalhar ou diminuir a luta de quem busca uma sociedade mais igualitária e com menos discriminação. Utilizar a frase “eu não tenho preconceito, mas” não te torna menos preconceituoso; você apenas sinaliza que ou não aceita que o diferente conquiste mais espaço na sociedade ou você tem alguma dificuldade de aceitação desta nova realidade, uma vez que este problema mexa com algum problema do seu inconsciente ou porque lhe provoca a repensar sobre o que é “certo” e o que é “errado”.