domingo, 4 de dezembro de 2016

A tragédia da Chapecoense, o futebol e seu poder de união



O triste episódio da tragédia com o voo da Chapecoense na madrugada de terça-feira (29/nov) fez renascer em muitas pessoas um sentimento de solidariedade e fraternidade que não víamos há muito tempo no Brasil e no mundo. Neste difícil ano de 2016, o esporte parece ser a única coisa que une as pessoas pelo que elas têm de melhor, diferentemente da política, que tem promovido exatamente o oposto.

O acidente tocou as pessoas por diversas razões. Dos 77 tripulantes, entre jogadores da Chapecoense, comissão técnica, imprensa e tripulação da aeronave, 71 morreram na queda e apenas seis sobreviveram. Muitos dos jogadores eram pessoas de origem humilde, com sonhos e uma história de vida que geram uma identificação muito forte pela maioria dos brasileiros. A equipe da Chapecoense era a alegria do futebol catarinense na Série A do Campeonato Brasileiro (as demais costumam lutar contra o rebaixamento), e ganhou uma projeção nacional muito rapidamente, conquistando a promoção para a Série C em 2009, para a Série B em 2012 e para a Série A já no ano seguinte. Além disso, pela primeira vez uma equipe catarinense chegou a uma final de um campeonato internacional como a Copa Sul-Americana. Por fim, a Chapecoense representa um estado que não possui muita tradição no futebol e vem de cidade pequena do oeste catarinense, que se destaca por abrigar grandes indústrias do setor agropecuário. Ou seja, a Chapecoense era uma equipe muito carismática e um acidente destas proporções causa uma comoção geral, seja pela identificação popular, seja pela identificação como ser humano, seja pela perda que representou para o esporte.

A Colômbia, o Brasil e o mundo prestaram uma série de homenagens e demonstrações de solidariedade e fraternidade que há muito tempo não víamos. A população colombiana prestou uma linda homenagem na noite em que seria realizado o primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana de 2016, e as Forças Armadas da Colômbia prestaram honras militares quando os caixões foram conduzidos aos aviões da Aeronáutica brasileira. A população de Chapecó também prestou uma linda homenagem na Arena Condá na noite da última quarta-feira. Várias equipes de futebol mundialmente famosas prestaram homenagens e um minuto de silêncio: a torcida do Liverpool cantou “You’ll never walk alone”, Wembley e vários monumentos nacionais e internacionais foram iluminados de verde. As equipes brasileiras propuseram emprestar jogadores, entrar com a camisa da Chapecoense na última rodada do Campeonato Brasileiro (vai faltar camisa) e que a equipe não seja rebaixada nos próximos três anos. O Club Atlético Nacional, adversário da Chapecoense na final, abriu mão do título da Sul-Americana e o Atlético Mineiro, adversário da Chape na última rodada, não deseja jogar. Um fã de futebol, que nem era torcedor da Chapecoense, sugeriu que as pessoas se associassem ao clube, e este número dobrou em menos de 24 horas.

Houve uma ampla cobertura da imprensa sobre o acidente, com homenagens aos jogadores, à Chapecoense e aos jornalistas. Infelizmente, por outro lado, houve “jornalistas-militantes” que quiseram aparecer às custas da tragédia dos outros, como a página Catraca Livre com as suas listas de mau gosto relacionadas ao ocorrido. Aqui vemos que o pessoal que defende “mais amor, por favor” e que possui um viés político é incapaz não somente de se sensibilizar com a dor das famílias que perderam um filho, um neto, um irmão, um marido ou um pai, como tentam tirar proveito disso.

Os últimos anos têm mostrado o poder da política em desunir as pessoas, em semear o ódio e a intolerância: Trump se elegeu unindo os americanos pelo que eles podiam sentir de pior pelas outras pessoas. Eventos como a tragédia do voo Chapecoense mostram que o futebol não é coisa de “alienado” como muitas pessoas engajadas na política criticam, mas além de uma alegria, tem a ver com amizade, com respeito e com fraternidade, ou seja, sentimentos positivos que andam cada vez mais adormecidos. Foram esses sentimentos que ressurgiram nos últimos dias, sentimentos que uniram as pessoas não apenas em Chapecó, ou em Santa Catarina, ou no Brasil, mas no mundo do futebol, que é um esporte que possui esse poder de unir o mundo por mexer com os sentimentos das pessoas de forma positiva. Quem poderia esperar que uma equipe pequena do interior de Santa Catarina pudesse ser tratada com tanto carinho pelos maiores clubes do Brasil e do mundo? E quem poderia esperar que uma tragédia pudesse unir as pessoas pelo que elas podem sentir de melhor enquanto a política cada vez mais promove o contrário?