domingo, 27 de novembro de 2016

Você não é obrigado a se (o)posicionar


Sobre quando o engajamento serve para dar vazão a uma natureza violenta e maximizar a palavra final. E a falta de respeito contra quem não quer se (o)posicionar.

Desde que Michel Temer assumiu a presidência, ele tem encontrado uma oposição tão forte quanto a ex-presidente Dilma, que não se dá mais apenas na forma de hashtags e stickers de vômito no Facebook, mas é observável também de forma concreta através das ocupações de escolas e universidades e greves contra a PEC 55.

O Brasil, que nunca observou o lema de “ordem e progresso” de sua bandeira, está cada vez mais caótico na esfera política. Brasília vive em clima de guerra política com os rotineiros escândalos, denúncias e algumas cassações e prisões (Eduardo Cunha, Garotinho e Sérgio Cabral). As greves e ocupações contra Michel Temer e suas medidas são uma forma de colocar a população contra o atual governo, no entanto, elas vêm sendo conduzidas de uma forma que coloca a população contra estes movimentos anti-Temer.

Em Florianópolis, os protestos pelo impeachment se deram com o fechamento das vias de acesso às duas pontes que ligam a ilha ao continente, deixando o trânsito ainda mais caótico do que já é. Há, ainda, as ocupações que se deram nas instituições de ensino superior IFSC, UFSC e UDESC contra a PEC 55, sendo que a desocupação foi determinada pela justiça.

Ainda em relação à ocupação, percebe-se claramente o embate entre os grupos que fazem oposição a Temer sob a forma de greves, manifestações e ocupações e entidades a favor de Temer, como a imprensa e os órgãos do governo. Os grupos anti-Temer buscam colocar a população contra o presidente Temer quando prejudicam o direito de ir e vir de toda a população (seja ela a favor, contra e indiferente). A base de apoio de Temer busca colocar a população contra os grupos de oposição, ressaltando as ações violentas em protestos e adiando o ENEM nas escolas ocupadas (mesmo que as salas de aula estejam livres de ocupação). A população como um todo fica no meio de um fogo cruzado, onde os dois grupos lutam para recrutar a maior quantidade de indivíduos.

O objetivo desta postagem é propor uma reflexão sobre os militantes dos grupos favoráveis e contrários a Temer, como estes grupos agem e como lidam com a população que não é nem contra nem à favor a Michel Temer.

Por que uma pessoa se engaja em uma causa? Inicialmente, poderíamos pensar que é porque ela acredita nesta causa, mas parece que há mais um motivo: para dar vazão à sua agressividade latente e “maximizar a palavra final”, principalmente se a causa for de cunho político-social. Talvez isto explique porque os grupos rivais não conseguem se respeitar: eles exigem respeito, mas sem respeitar quem pensa diferente deles. Dentro destes grupos, existem indivíduos que militam com a intenção de extravasar a sua natureza violenta na forma, não necessariamente porque acreditam nesta causa. Eles demonstram isso desde um comentário sarcástico às agressões verbais, físicas e depredações, quando lidam diretamente com opiniões e visões contrárias, ou com o grupo rival.

Algumas ocupações em escolas e universidades buscam catequizar/recrutar tanto a população que é contra quanto aquela que não tem um posicionamento. Isto pode se dar de maneira soft através da promoção de debates e aulas públicas explicando o que do que se trata a PEC 55 e quais são os supostos perigos que eles acreditam que ela representa para a saúde e educação. Por outro lado, há demonstrações mais invasivas e desrespeitosas, como o bloqueio das vias públicas, das greves e das ocupações que perturbam a rotina dos estudantes ou o seu direito de estudar. Tentar catequizar/recrutar a população contrária ou ainda, pertubá-la, é uma demonstração de falta de respeito com o espaço dos outros.

As pessoas não são obrigadas a se (o)posicionar sobre toda e qualquer causa e, da mesma forma, deveriam ser respeitadas por isso, o que acaba não acontecendo. As greves, bloqueios e ocupações acabam sendo um tiro no pé dos movimentos que promovem estes atos. A lógica “vamos impor um desconforto a toda a população, que ficará indignada com isso e irá se juntar a eles na causa contra o grupo rival”. Não é isto que geralmente acontece, mas o contrário, quando o indivíduo acaba se posicionando sim, mas contra o grupo que está promovendo a suposta “conscientização” através do transtorno de uma população que já está cansada e estressada depois de um dia de trabalho.

Falta a estes grupos a conscientização e o respeito aos grupos que não querem se (o)posicionar. Ninguém é obrigado a levantar uma bandeira e lutar a favor dela. As pessoas perdem o interesse pela política ou se colocam contrárias aos grupos que tratam a sua ignorância em um assunto como uma agressão sutil (sarcasmo) ou mais pesada (violência física ou verbal), ou quando também são agressivos quando a pessoa não se posiciona (“se você não está com a gente, então está contra nós”, “você é alienado”).

Está faltando RESPEITO! Respeito é uma via de mão dupla. É preciso respeitar e lidar com as opiniões divergentes, ter inteligência emocional para não cair em provocações, e respeitar o espaço de quem não concorda e nem discorda de uma determinada causa para ser respeitado. Participar de uma militância sobre qualquer causa não deveria servir para dar vazão a uma agressividade latente, da mesma forma que o objetivo de uma militância não deveria ser “maximizar a palavra final” sobre alguma coisa.

Certamente, é muito importante que existam pessoas engajadas em uma causa, seja ela política, econômica, social, ambiental, de direito dos animais, etc., mas as pessoas sem posicionamento preferem se manter longe destes grupos quando exigem respeito sem respeitar opiniões divergentes, sem respeitar quem não tem um posicionamento, por usar estes grupos para dar vazão à sua agressividade e por lidar com pessoas sem posicionamento como indivíduos a serem recrutadas e usadas para a sua causa.