segunda-feira, 5 de setembro de 2016

As manipulações do PT e os dilemas morais de Michel Temer


Vaias, vomitaço nas redes sociais, baixa aprovação popular. Como ficam os sentimentos e os dilemas morais de Michel Temer diante de tanta rejeição?

A confirmação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff no último 31 de agosto incendiou novamente os ânimos da população brasileira, que havia sido apaziguado durante os Jogos Olímpicos. Desde então, vem acontecendo nas redes sociais várias discussões a respeito do teor violento que as manifestações contra o impeachment tomaram, o que não é muito diferente das que se seguem desde 2013 quando elas eram, até então, “apartidárias”. Dentro de um grupo que realizava as manifestações pacificamente, um grupo mais radical utilizava este ato para cometer crimes contra o patrimônio público através de pichações e depredações.

Diante destes atos de vandalismo, o papel da imprensa é extremamente questionado por querer atribuir ao coletivo a responsabilidade pelos atos de alguns. Esta atitude tendenciosa é interpretada, quase automaticamente por aqueles com algum senso crítico, como uma forma de apoio a um determinado pensamento político em detrimento de outro. No entanto, este tipo de argumentação não justifica a destruição do patrimônio público, da mesma forma que não justifica a resposta violenta da polícia diante dos manifestantes. Então, instala-se um debate inútil sobre o que é mais grave – a jovem que perdeu a visão de um olho ao ser atingida por uma bala de borracha ou os atos de vandalismo – quando, na realidade, a violência policial não justifica o vandalismo e vice-versa.

As últimas postagens sobre a questão impeachment procuraram mostrar que não se deve pensar em bem e mal absolutos em política, sobretudo no que tange ao discurso manipulado do PT que o que ocorreu foi um golpe disfarçado de impeachment. Embora seja inegável todo um clima golpista que se formou para a derrubada de Dilma, especialmente depois da votação circense na Câmara dos Deputados que levou a votação ao Senado, o PT foi mais uma vez cínico e oportunista em diversas ocasiões desde então.

Primeiramente, por criar uma imagem demonizada de Michel Temer como se ele fosse um mero golpista que surgiu do nada. É muito conveniente ignorar o fato de que ele foi convidado pelo próprio PT para o cargo de vice-presidente nas eleições de 2010 e 2014. Além disso, Michel Temer já não era uma figura política que inspirava confiança, portanto, cedo ou tarde seriam “traídos” assim que o jogo virasse.

Em segundo lugar, pela manipulação do argumento dos 54 milhões de votos. Não vimos 54 milhões de pessoas indo para as ruas protestar contra o impeachment. É importante lembrar que no 1º turno Dilma conquistou os votos de 43,2 milhões. No 2º turno, Aécio Neves foi o candidato que acumulou mais votos dos candidatos derrotados (16 milhões contra 11 de Dilma). Os 6 milhões de votos brancos e nulos teriam garantido a derrota de Dilma se fossem a favor de Aécio. Além disso, os números sozinhos não falam por si só, pois muitos eleitores não votaram em Dilma porque acreditavam que ela era a melhor candidata, mas porque foi uma disputa entre o ruim e o pior e a rejeição ao que Aécio e o PSDB representam continuaram sendo muito fortes.

Em terceiro lugar, e ainda utilizando o argumento dos 54 milhões de votos, o PT é muito cínico ao supor que todos os seus eleitores do 2º turno fossem manter o seu voto após se sentirem traídos pelas mentiras do programa eleitoral de 2014. A população sofreu e não ficou nem um pouco feliz com a queda na qualidade de vida e no poder de compra com a alta nos preços da energia elétrica, da gasolina e dos alimentos. Por mais ridícula que tenha sido a votação na Câmara dos Deputados em termos de argumentos favoráveis ao impeachment, boa parte da população queria estar fazendo exatamente o mesmo que eles: um plebiscito sobre a satisfação do eleitor durante a 2ª gestão do governo Dilma.

E em quarto lugar, a Constituição nunca teve tanto valor para o PT como durante o rito do impeachment. É como se antes disso ela jamais tivesse sido violada pelo próprio PT para a construção da Usina de Belo Monte, na aprovação do novo Código Florestal, no enquadramento das manifestações populares como terrorismo e da repressão policial, diante do assassinato de vários jovens negros e pobres, e por aí vai. É como se nos 14 anos de PT nunca houvesse existido um “golpe na democracia”.

Mas e onde entram os dilemas morais de Michel Temer?

Dentro de todas estas tentativas de manipulação popular que não atingiram o seu objetivo (o golpe foi consumado), houve uma intensa campanha para desestimular o golpe ao tentar jogar a população contra Michel Temer e legislativo golpista. As vaias na abertura das Olimpíadas, que se tornaram uma tradição desde as vaias a Lula na abertura dos Jogos Pan-Americanos do Rio 2007, não geraram um constrangimento de Michel Temer a ponto de ele desistir do impeachment, por mais constrangedor que tivesse sido para ele em um momento que os olhos do mundo estavam voltados ao Brasil.

Os stickers (figurinhas) do Facebook para promover um “vomitaço” muito menos, até mesmo porque nunca houve reação pública dos políticos no próprio Facebook ou na imprensa nacional e, muito menos, internacional. Da mesma forma, as hashtags também não chamaram a atenção da imprensa nacional, nem internacional e nem das pessoas que não são tão “conectadas”. Os políticos não ficam online o dia todo no Facebook, Twitter e WhatsApp.

Apesar da tendenciosidade da imprensa e dos institutos de pesquisa ao apresentarem os números de manifestantes nos protestos e os números da aprovação ao governo Temer, o atual presidente pouco se importa com isto, principalmente porque estará inelegível em 2018 e, portanto, não está preocupado em ser reeleito.

Estas tentativas de constranger Michel Temer não o abalam porque, assim como os outros políticos, ele não está preocupado com vaias, com vomitaços, com hashtags ou protestos maciços na vida real, mas em simplesmente se manter no poder. O que faz Michel Temer temer alguma coisa não são os eleitores brasileiros, mas os outros políticos que, da mesma forma que lhe colocaram no poder, podem retirá-lo caso ele perca apoio da mesma forma que Dilma perdeu.

A população comum ainda toma a si própria como referência, como se todos os políticos recuassem diante de constrangimentos e vivessem dilemas morais por não terem a ampla aprovação popular. Além disso, o povo é hipócrita por ansiar honestidade de seus políticos sendo que eles mesmos não são honestos. A interpretação de desonestidade é muito seletiva, como se apenas o desvio de milhões de reais dos cofres públicos fosse inaceitável, mas tudo bem estacionar em lugar proibido, furar fila, falsificar documentos para conquistar benefícios legais...

Não, Michel Temer não se abala, da mesma forma que Marcela Temer e o filho deles não irão se abalar se continuarem vivendo sob um guarda chuva de dinheiro e poder. Eduardo Cunha mal conseguiu chorar. Os dois utilizaram e procuraram realizar apelos emocionais para tentar tocar o coração do povo que se deixa levar pelas sentimentalidades, sendo que é o próprio povo que sofre quando se vê submetido a várias violações de direitos por falta de segurança, educação, saúde, emprego... É essa população que mais sofre que virou as costas para Dilma e que não está nem aí se foi golpe ou se não foi, se poderíamos nos tornar uma ditadura militar ou não. O povo perde a fé na política quando se sente usado e enganado.

Portanto, toda esta discussão a respeito do golpe apenas escancara o cinismo dos partidos políticos (sobretudo do PT que se voltou ao povo justamente porque perdeu o poder) e um misto de cinismo e ingenuidade entre aqueles que defendem que Dilma foi vítima de um golpe, ou que houve um “golpe na democracia”. Criticar a hipocrisia do PT diante do tétrico teatro circense do impeachment não significa ser a favor de Temer e dos oportunistas que tomaram o poder junto com ele, mas sim a necessidade da sociedade brasileira de enxergar que todo este caos que se instalou no Brasil é resultado de um jogo de poder onde a população é manipulada pelo médio através de ameaças de “vai piorar” sendo que ela já vive uma situação péssima. Este é um período que a sociedade precisa se perguntar o que representa para os políticos e repensar as próprias atitudes como cidadão, pois não adianta projetar nos políticos uma imagem de alguém que deva servir de exemplo sendo que procuramos minimizar ao máximo a corrupção nossa de cada dia.

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