quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Por que investir em esportes?


Não se deve investir em esportes com a única finalidade de formar atletas. O esporte também traz diversos benefícios para aqueles que não são/serão atletas.

Durante as Olimpíadas e, diante da tradicional insatisfação de muitos diante das poucas medalhas conquistadas pelo Brasil, em especial na primeira semana dos Jogos, população e a imprensa falaram sobre investir mais em esporte. O problema, no entanto, é que a finalidade que do investimento visava melhorar a posição do Brasil no quadro de medalhas, desta forma, demonstraram possuir uma visão ostentarória e limitada do papel do esporte.

Embora o Brasil tenha melhorado a sua posição no quadro de medalhas pelo recorde de medalhas de ouro e pelo total de medalhas, mostra que a política do governo federal é um pouco mais séria do que os governos anteriores, mas ainda é ineficiente. O principal projeto para o esporte nos últimos anos foi o Programa Atletas de Alto Rendimento (PAAR), firmado em 2008 pelos ministérios do Esporte e da Defesa. Resumidamente, é repassado ao Ministério da Defesa uma verba maior para o investimento em equipamentos e de infraestrutura para que os atletas possam treinar. Em contrapartida, os atletas se tornam militares e precisam realizar também treinamentos militares. Isto explica a grande quantidade de atletas medalhistas batendo continência no pódio. Do total de 19 medalhas conquistadas pelo Brasil, 14 delas foram de atletas militares. O Governo também implementou outras políticas como o Bolsa Atleta e o Bolsa Pódio.

Apesar da melhora do Brasil no quadro de medalhas, o PAAR ao deixa de ser uma política controversa e que pensa a curto prazo. O técnico do ginasta medalhista, Arthur Zanetti, (ouro em Londres e prata no Rio, nas argolas) criticou esta política ao afirmar que as Forças Armadas “só pegam atleta pronto” e completou “no dia que os militares formarem crianças, apoiar a iniciação, apoiar treinador, aí eu tiro o chapéu”. Esta crítica mostra que o PAAR é mais uma das políticas do ex-presidente Lula de querer melhorar as coisas de cima para baixo porque apresentam resultados imediatos, embora demonstre ser ineficiente a longo prazo. Nenhum dos programas fez o que o técnico de Zanetti salientou na crítica, ou seja, na formação de crianças e treinadores. Este seria um projeto contínuo de descoberta de renovação e descoberta de novos talentos, além de dar suporte para que se evite a desistência do esporte e o comprometimento do treinamento pela falta de infraestrutura para competir e treinar. O PAAR é minimamente oportunista ao selecionar os sobreviventes do “darwinismo esportivo” e utilizá-los como ferramenta de propaganda da suposta eficiência das Forças Armadas.

Até então, estes são exemplos do esporte sendo utilizado apenas com a finalidade ostentatória de melhorar a posição do Brasil no quadro de medalhas. Uma política eficiente não é “pegar atletas prontos”, como criticou o técnico de Zanetti, mas investir desde cedo nas crianças e na infraestrutura para descobrir talentos potenciais, evitar que eles desistam com o passar do tempo e poder oferecer treinamento contínuo e de alto nível.

Não se deve investir em esporte visando apenas a formação de atletas; esta deve ser uma consequência, já que nem todo mundo sonha em ser atleta ou tenha o talento necessário para tal. O investimento no esporte não deve pensar apenas na formação de atletas, mas deve também considerar que é uma forma de promover diversão e lazer para a população comum, afinal de contas, é ela que paga, com seus impostos, o investimento público em esporte.

Mas mais importante do que formar atletas e promover diversão e lazer, o esporte também é uma ferramenta importante em prol de uma vida mais saudável e na socialização dos indivíduos. O esporte é uma combinação de exercícios físicos com a socialização. Isto é fundamental desde a infância, pois é nesta fase que as crianças vão desenvolver as habilidades e comportamentos que vão carregar na vida adulta. Uma criança acima do peso pode sofrer com o bullying e problemas de autoestima que pode transformá-la em um adulto inseguro. Além da questão psicológica, já é do conhecimento comum que o esporte ajuda na prevenção de várias doenças que podem decorrer devido ao excesso de peso ou ao sedentarismo.

O esporte, sobretudo os esportes coletivos, são importantes para desenvolver e fortalecer habilidades e valores como o respeito às diferenças, a amizade, o trabalho em equipe, a empatia, a perseverança e a aprender a lidar com a derrota. Todas estas habilidades são importantes para o estabelecimento de boas relações interpessoais dentro das famílias, nos relacionamentos amorosos, no ambiente educacional, no trabalho, com amigos e com desconhecidos. O desenvolvimento destas habilidades é ainda mais importante quando ela abarca crianças e jovens das classes sociais mais baixas, que se tornam menos inclinadas a ver no crime um estilo de vida e a única opção de sobrevivência ou ascensão social. Desta forma, o esporte também pode ser uma ferramenta para formar cidadãos e estimular um convívio respeitoso em sociedade.


Investir em esporte é, ao mesmo tempo, investir em educação além da sala de aula. Investir em esporte é dar a um atleta as mesmas oportunidades que o Estado dá para formar outros profissionais (médicos, advogados, jornalistas, engenheiros, professores, etc) e, da mesma forma, também é preciso investir de baixo para cima para gerar resultados no longo prazo e evitar o desperdício de talentos. O esporte não deve ser visto como ferramenta única e ostentatória de melhorar a posição do Brasil no quadro de medalhas nas Olimpíadas; deve ser visto também como um meio de diversão e lazer, de promoção de uma vida mais saudável e de socialização e disseminação de valores para o bom convívio em sociedade.

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