segunda-feira, 8 de agosto de 2016

O Brasil visto de dentro e de fora


Por que o Brasil se preocupa tanto com a imagem que passa ao exterior? O Brasil deve se adequar à cultura dos estrangeiros ou deve aceitar a própria?

Por causa dos Jogos Olímpicos do Rio 2016, inevitavelmente passamos a lidar com os estrangeiros talvez da maneira mais intensa e inédita na história do país, uma vez que todos os países do mundo estão representados neste evento, ao contrário da Copa do Mundo que se restringe a 32. A questão da imagem que o Brasil tem “lá fora” representa uma preocupação antiga desde os tempos do Brasil Império, quando se queria formar uma imagem de “país civilizado” aos olhos da Europa e dentro dos moldes europeus. Por razões como estas, o Brasil sempre olhou os seus vizinhos da América Latina com muito desprezo e fazia questão de se manter ligado à Europa nas áreas comercial e cultural até a I Guerra, quando o referencial de progresso e civilidade passou a ser os Estados Unidos.

Nos últimos anos, a preocupação com a imagem aumentou a partir do momento que o Brasil conquistou o direito de sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Por mais de 200 anos que o Brasil tenta se projetar no cenário internacional nas áreas cultural e econômica, mas não consegue, pelo menos não da forma como gostaria. A uma elite nacional e uma “elite periférica”, não os agrada muito o estereótipo de que o Brasil seja o país do carnaval, porque indiscutivelmente o carnaval é uma festa popular que agrada desde os ricos aos mais pobres. O que os desagrada é que muitos elementos da nossa cultura possuem uma origem boêmia e marginal. Não é a toa que a Semana de Arte Moderna de 1922 foi tão chocante, pois em vez tentar criar uma cultura europeizada do Brasil, os artistas se voltam para os índios, para os negros e para a cultura popular, ou seja, aceitaram a cultura que já existia no país em vez de forjar uma cultura artificial e importada da Europa.

Em vez de apelar para o cinismo e tentar inventar um Brasil que não existe apenas “para gringo ver”, o cineasta Fernando Meirelles optou por mostrar a cultura e o Brasil de muitos em vez de um Brasil de poucos. Há quatro anos, quando o Brasil realizou uma pequena apresentação na cerimônia de encerramento das Olimpíadas de Londres, o público na internet se mostrava preocupado com a imagem que o Brasil iria passar. A apresentação não foi muito diferente da cerimônia de abertura do Rio: teve samba (Seu Jorge e o gari Sorriso), teve MPB (Marisa Monte), teve rap (BNegão), teve uma modelo internacionalmente famosa (Alessandra Ambrósio) e como não podia deixar de ser, teve futebol (Pelé). Com exceção de Marina Monte de Alessandra Ambrósio que representam elementos mais próximos da elite, os demais são absolutamente populares (isto é, do gosto da população mais pobre).

Nas semanas que antecediam a cerimônia de abertura, as críticas ao Brasil foram mais fortes a partir do momento que os atletas chegaram à Vila Olímpica e se depararam com apartamentos sem o devido acabamento. A Delegação da Austrália foi a primeira a chegar e a se queixar, tendo uma resposta irônica do prefeito Eduardo Paes de que “colocaria um canguru na porta do prédio da delegação”. Seguidamente, outras delegações realizaram as mesmas queixas. A preocupação com o zika vírus também se deu através da desistência de atletas do golfe, no uso de telas de dormir e repelentes por atletas da China, e de uniformes especiais da Coreia do Sul. Tais queixas e preocupações tem feito alguns brasileiros sentirem vergonha de ser brasileiros.

Apesar das preocupações, protestos contra Temer, reclamações das delegações estrangeiras e do receio de que a cerimônia fosse um vexame, ela não foi. Pelo contrário, não houve nenhuma falha na apresentação, arrancou elogios da imprensa internacional e o estádio cantou junto músicas populares como País Tropical e Deixa A Vida Me Levar.

As Olimpíadas nos mostram a imagem que os brasileiros têm de si. O Brasil reclama muito do próprio país, critica a falta de “bom gosto” e rejeita tudo o que tiver uma origem marginal. Critica a política, mas ou possui uma visão muito fundamentalista ou simplesmente não se importa. Por outro lado, há também brasileiros patrióticos que amam o país e sua cultura, apesar dos problemas, e os fanáticos que levantam a bandeira da ditadura militar.

E o que os estrangeiros pensam sobre o Brasil?

Os brasileiros ainda possuem uma obsessão muito forte sobre o que os estrangeiros pensam ou deixam de pensar sobre o nosso país, preocupação que data desde o Brasil Império. No entanto, dentro desta obsessão, muitos brasileiros, independentemente de classe social, olham para os Estados Unidos e a Europa como referencial de civilidade e desenvolvimento. Tudo o que seja produzido no próprio Brasil é menosprezado, é inferiorizado, é “motivo de vergonha”. Ao se mirar nos Estados Unidos, desconsideram que este país, assim como seus vizinhos latino-americanos, queria se livrar da influência política, econômica e cultural da Europa. Hoje os Estados Unidos influenciam mais a Europa do que o contrário, então por que o Brasil não pode aceitar a própria cultura?

Comportamentos que simbolizam essa rejeição do brasileiro pela própria cultura se viam na preocupação pela presença das cantoras Anitta, Ludmilla e Karol Conka. Gêneros musicais como o funk e o sertanejo universitário, por exemplo, esbarram no conservadorismo até dos mais jovens, que cresceram sendo ensinados que nada que o Brasil produz é de boa qualidade. O jornalista e "fiscal do bom gosto" William Waack, ao entrevistar Anitta após a cerimônia de abertura, demonstrou preocupação com a “imagem que o Brasil tem lá fora” ao tentar insinuar que Anitta estaria em uma categoria inferior à Caetano Veloso e Gilberto Gil. Em resposta, ela diz que a música passa por renovações.

Neste domingo, o site UOL publicou uma reportagem sobre a reclamação de alguns atletas diante do fervor da torcida brasileira, ao vaiar adversários e não fazer silêncio em competições que exigem concentração, como a esgrima. Algo que a imprensa ainda não abordou e nem criticou é a postura arrogante de alguns atletas estrangeiros em relação ao Brasil, pois eles desconsideram que estão em um país completamente diferente do deles em termos culturais e sociais. Se procurassem entender um pouco melhor da cultura brasileira, saberiam que embora o brasileiro costume ser muito crítico do próprio país, ele se ofende quando um estrangeiro se acha na liberdade de fazer o mesmo.

Enquanto o brasileiro normalmente é gentil e hospitaleiro com os estrangeiros (especialmente se forem brancos e europeus), mais do que com os próprios brasileiros, ele tem uma probabilidade maior de sofrer xenofobia principalmente nos países que mais tenta agradar. Isto revela que o brasileiro, além de superiorizar as outras culturas, se submete aos caprichos e a arrogância de alguns estrangeiros mesmo dentro do próprio país.

Qualquer estrangeiro que vá para um país diferente do seu, deve ter a prudência de conhecer um pouco da cultura do outro para que não cometa gafes ou não seja desagradável. Em relação ao Brasil, alguns atletas não tiveram a menor preocupação em entender a cultura local e serem cordiais. A preocupação exagerada com o zika vírus através das desistências, das telas para dormir e as roupas especiais são um símbolo do deboche para com os brasileiros. A mudança do tom da Delegação da Austrália em relação à Vila Olímpica pode ter sido uma tentativa de desfazer uma má impressão inicial. Por ter sido a primeira a fazer críticas ao Brasil, desconsideraram o fato de que ganhar a antipatia do país anfitrião nunca é bom, especialmente em um país que ama e se ofende fácil como o Brasil.

Embora possa prejudicar na concentração, os atletas deveriam ter a ciência de que o Brasil não é uma potência olímpica e não costuma ganhar muitas medalhas, portanto sua torcida vai torcer, sim, para os seus atletas. Os ingressos não são baratos, as obras foram superfaturadas e eles ainda esperam que os brasileiros não torçam e fiquem em silêncio como se estivessem em um funeral? Além disso, é como se quisessem impor ao Brasil um modelo ideal de como se deve torcer, mais uma vez desconsiderando a cultura local. Não é a primeira vez que isso acontece: é só lembrar das vuvuzelas que foram controladas na Copa do Mundo da África do Sul, em 2010, após as críticas estrangeiras.

Os brasileiros precisam aprender a ter orgulho do próprio país e se desprender do referencial estrangeiro que nutre a nossa tradicional síndrome de vira-latas. Precisam compreender que cultura não se resume a tudo o que uma elite dita o que é bom e o que é ruim com seus fiscais do bom gosto, muito menos que é tudo que venha de fora. A cultura vai além dos gostos do europeu nostálgico e depressivo do século XVIII. Também precisam compreender que aquilo que é rotulado como “cultura” ou algo de “bom gosto”, nem sempre é uma invenção das elites, mas muitas vezes uma apropriação de algo extremamente popular e marginal que sofre um processo de gentrificação (ou “gourmetização”), como o samba e a cachaça.

Também precisam aprender a se impor diante do comportamento arrogante de estrangeiros de modo geral. Da mesma forma que eles esperam que o brasileiro se adeque aos seus costumes quando no país deles, os estrangeiros não precisam se adequar à cultura brasileira, mas devem ser, no mínimo, respeitosos. As reclamações da Vila Olímpica eram legítimas porque eram problemas que existiam, no entanto, alguns veículos da imprensa internacional fizeram um alarde que escancara preconceitos com o Brasil ao chamar a cerimônia de abertura como cínica ou noticiar insatisfações pesadas e roubos. O Brasil é cheio de problemas e nós sabemos disso, no entanto, não sofre com atentados sofisticados como muito “país civilizado” por aí.

É importante que os brasileiros reconheçam as suas falhas e os seus problemas, mas é preciso desenvolver a autoestima ao parar de inferiorizar o que vem de dentro e a supervalorizar o que vem de fora. Além disso, precisam ter discernimento em relação ao modo como os estrangeiros veem o país: nem todos são um exemplo de cultura e civilidade e, também precisamos parar de dizer amém para o comportamento arrogante e preconceituoso de determinados atletas e veículos de imprensa internacional.

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