quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Lições da crise



Enquanto não houver reflexão alguma, seremos o eterno país do futuro que persiste em repetir o seu passado há mais de 500 anos.

Não tirar lições do passado é perpetuar os problemas no futuro. Essa é a história do Brasil: um ciclo de políticos populistas que adotam medidas heterodoxas sendo substituídos, muitas vezes pelo uso da força, por políticos que adotam medidas ortodoxas às custas do sacrifício das camadas sociais mais pobres. Mais uma vez, a história se repete. É como se tivéssemos voltado ao ano de 1964 quando os militares tomaram o poder, em um clima de intensa polarização política a respeito do que ocorre hoje.

O grande problema é que tanto o povo quanto a elite intelectual partidária não leva a história do Brasil a sério, possui pouco conhecimento de política e economia, pensa no curto prazo e não pensa no interesse nacional, mas sim no interesse da classe da qual faz parte. O Brasil nunca se encaixou dentro do conceito de Estado-nação, pois apesar de termos um Estado consolidado, a nação brasileira nunca chegou a existir. A construção da nacionalidade é problemática, pois os brancos chegaram depois dos índios que já viviam no país e se autointitularam os “descobridores” de uma terra da qual, imediatamente, usurparam. Escravizaram estes índios e, posteriormente, trouxeram negros escravos da África uma vez que os índios resistiram à escravidão e eram fisicamente menos resistentes ao trabalho pesado e às doenças trazidas pelos europeus. Desta forma, tivemos um país onde os brancos não viam índios e negros como iguais, mas inferiores, visão que perdura até os dias de hoje, apesar de mais da metade da população ser miscigenada.

O nacionalismo no Brasil nunca deu certo apesar dos esforços durante a proclamação da República através da construção de uma identidade nacional, um sentimento que poderia unir a todos. O mesmo ocorreu de forma passional durante a ditadura militar (1964-1985), mas mostrando que “todos os brasileiros são iguais, mas uns brasileiros são mais iguais que os outros”, readaptando a famosa frase de George Orwell em “A Revolução dos Bichos”.

Não é só o racismo que mina o ideal da identidade nacional e a busca pelo interesse nacional, mas principalmente a estrutura que se formou onde o país é dividido mais socialmente do que racialmente. Para muitos, os privilégios de um grupo social é justificável porque estes “têm méritos”, ou porque “se esforçaram para isso”, o que é um pensamento muito forte tanto entre os privilegiados que nasceram e cresceram dentro de condições que o permitiram prosperar e manter sua posição social, do que entre aqueles que aceitam a sua condição de subalternidade, entendendo que, se não sobem de classe social, é porque não se esforçam o bastante. É como se vivêssemos em uma sociedade de castas, onde quem é pobre morre pobre e quem é rico morre rico. Logicamente, há exceções: alguém que nunca precisou se esforçar e realizar sacrifícios na vida pode se deixar levar por seus prazeres e comprometer uma estrutura de privilégios herdada de seus antepassados, como empresas familiares. Da mesma forma, a ambição, a criatividade e a ousadia podem garantir a um indivíduo que nasceu pobre consiga ascender socialmente.

Estes fatos, no entanto, são rotulados como “discursos da esquerda”, onde a classe privilegiada é cínica e ignora estes privilégios e preconceitos. O Brasil sempre procurou copiar, primeiramente, o modelo de vida europeu: seus costumes, sua cultura, seus valores e, desde a I Guerra Mundial, a referência se tornou os Estados Unidos e sua cultura consumista. O que é problemático é que o Brasil toma como referência os países desenvolvidos sem considerar como eles chegaram a este estágio. A democracia britânica não se consolidou do dia para a noite, mas demandou muita luta da classe trabalhadora. E se falarmos em classe trabalhadora no Brasil, a visão que se tem tanto entre a classe média quanto entre a classe trabalhadora de fato é: “um bando de comunistas, de marxistas de petralhas, de corruptos”, e outros clichês. É contraditório que tanto os políticos quanto os próprios trabalhadores defendam os “trabalhadores”, ao mesmo tempo em que, para eles, o termo trabalhador possui uma imagem muito ligada aos valores e ideais tradicionalmente associados a Karl Marx e à esquerda. O Brasil desconsidera a história destes países para entender como eles chegaram ao patamar de país desenvolvido de hoje. Muitos brasileiros desejam copiar o American way of life desconsiderando também que este país possui problemas sérios de racismo, de chacinas provocadas pelo fácil acesso às armas e onde todos os serviços são privados. A ideia da nacionalidade é culturalmente muito forte: não há um filme onde não se veja a bandeira dos Estados Unidos e, apesar da divisão do país entre republicanos e democratas, a população não é adepta da autossabotagem como nós, brasileiros. Por outro lado, a população dos Estados Unidos precisa pagar pela sua educação e a sua saúde – e não paga barato. No Brasil, mesmo que o SUS esteja muito longe do sucesso do modelo britânico, cedo ou tarde as pessoas são atendidas apesar da demora, e apesar do ensino fundamental e médio público serem sofríveis, o Brasil possui algumas universidades públicas de alto nível.

O grande problema do Brasil é essa miopia na hora de resolver os seus problemas e decidir o seu futuro. Não existe um compromisso dos políticos em criar projetos de longo prazo porque isto não dá voto, principalmente se for para investir em creches e escolas de nível fundamental. Além disso, os resultados de um investimento sério em educação demoram para aparecer e a população desenvolve a impressão de que nada foi feito, ou não de maneira eficiente. Um projeto sério em educação básica dificilmente apresenta resultados em menos de 20 anos, desta forma, os políticos preferem investir no acesso ao ensino superior e em projetos universitários porque é criada uma imagem de “igualdade no acesso de oportunidades” entre a população negra e mais pobre*. No entanto, poucos projetos são voltados ao que realmente gera riqueza: inovação e tecnologia. E as habilidades necessárias para tal demandam um conhecimento em áreas nas quais os estudantes dos níveis básicos de educação apresentam as suas maiores dificuldades: matemática, física, química e biologia. Sabemos, no entanto, que educação não é a prioridade da população, que entende que a segurança e a saúde são problemas muito mais urgentes. Tanto a população quando seus políticos estão mais preocupados em combater a violência do que preveni-la, desta forma, não é a toa que pautas como o acesso às armas, contestação dos direitos humanos e redução da maioridade penal sejam mais debatidos na esfera pública do que qualquer projeto educacional.

Outro grande problema é essa polaridade de esquerda e direita como se seus ideais fossem sempre, necessariamente excludentes e como se uma visão representasse o bem e a outra, o mal. O desejável é que indivíduo nenhum adote qualquer visão como uma verdade universal, mas tenha senso crítico para identificar o que é viável e o que não é de aplicabilidade para cada cenário em cada uma das visões. Não é heresia aceitar que há pautas defendidas pela esquerda que podem ser positivas e dar certo, e o mesmo pode se dizer da direita. Na cabeça de muitos, ou você é esquerda ou é direita e é um pecado mortal flertar com algumas pautas da vertente “inimiga”, já que esta polaridade é muito fervorosa, quase religiosa. É como se alguém temente a Deus duvidasse de sua existência, ou pensasse que Deus sofre de transtorno bipolar (ora é amoroso, ora é mau e vingativo) e, por causa desses pensamentos, sentisse culpa e medo de ser enviado para o inferno.

A história e a formação cultural e econômica do Brasil não são idênticas às das nações europeias e dos Estados Unidos, desta forma, um projeto de desenvolvimento nacional deve ser pensado considerando a nossa história, a nossa formação cultural e econômica e o interesse nacional. É difícil pensar em interesse nacional quando a identidade nacional não existe, já que não se pensa no bem comum dos brasileiros como um todo, mas de alguns brasileiros apenas.

A atual crise política desconstruiu uma imagem imaculada/mítica do ex-presidente Lula e de seu modelo de desenvolvimento econômico. A cultura de corrupção do PT, antes tolerada porque a economia estava bem, agora é alvo de protestos constantes e a principal razão para defender o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Obviamente, os adversários de Lula, Dilma e do PT não são santos e são tão corruptos quanto. Assim como eles, têm sede pelo poder e o que muda de fato são os seus discursos: enquanto o PT alerta que os pobres irão sofrer mais (e não deixam de ter razão), a oposição advoga que é preciso cortar gastos e controlar a inflação para recuperar a economia e, então, gerar empregos.

Não existe solução ótima quando falamos em economia: medidas ortodoxas racionalizam os gastos do governo e preparam o terreno para os investimentos internacionais e a estabilidade econômica (que reflete na estabilidade política). O preço disso é que os mais pobres sempre acabam arcando com um percentual muito alto de sua renda para pagar impostos e o crescimento é baixo. Medidas heterodoxas podem promover um crescimento rápido da economia, distribuição de renda, diminuição do desemprego e aumento no poder de compra. Que maravilha, não? No entanto, se for conduzida de maneira irresponsável – como geralmente é – gera o aumento da dívida pública e o aumento da inflação. Alguém vai ter que pagar esta dívida. Serão os bancos ou o trabalhador comum? O trabalhador comum, é claro! Desta forma, são tomadas medidas ortodoxas, que normalmente causam desemprego. Podemos identificar medidas típicas dos presidentes Fernando Henrique, Lula e Dilma apenas neste parágrafo. As medidas econômicas aplicadas por Dilma no ano passado deram força ao processo de impeachment uma vez que a população retirou o seu apoio à presidente afastada quando os preços da energia elétrica, da gasolina e dos alimentos subiram rapidamente. Somado a isso, a campanha anti-PT ganhou força através de denúncias maciças contra o partido e a figura mítica de Lula através da Operação Lava Jato, exaustivamente noticiada nas principais emissoras de TV e mídias impressas.

Seria apenas um caso de perseguição se nada de ilegal e antiético tivesse ocorrido. Apesar de o impeachment ser questionado pelos poucos que defendem o PT, ou a Constituição, os deputados, senadores e a população em geral não são favoráveis ao retorno da presidente Dilma, o que não quer dizer que morram de amores por Temer e seus aliados que são tão corruptos quanto o PT. Na realidade, houve uma cisão interna, visto que Temer foi o vice de Dilma e Eduardo Cunha apoiava o governo enquanto deixasse ele e sua conta na Suíça em paz. Os partidos que ficaram 13 anos longe do poder se juntaram aos insatisfeitos dentro da aliança encabeçada pelo PT. E não se juntaram porque são éticos, mas porque não foram convidados a participar dos esquemas de corrupção do PT. Além disso, a presença da população mais pobre contribuindo para engarrafamentos maiores nas rodovias e aeroportos, espaços tradicionalmente dominados pelos mais “ricos”, causou ressentimento da classe média que, assim como os mais pobres, é sobrecarregada pela elevada carga de impostos criados para limpar as cagadas e a corrupção do governo. Mesmo que se sinta superior aos mais pobres, a classe média está no mesmo barco que eles, pois a classe que o governo quer defender é a dos superricos com suas megaempresas que financiam suas campanhas, categoria na qual nem eles e, muito menos os mais pobres, se encaixam.

É por estas razões que os brasileiros precisam refletir e a questionar quem são os seus políticos e de que lado estão. Os brasileiros não precisam se unir através de símbolos forjados como uma bandeira (que é praticamente a mesma do Brasil Império), hinos ou camisas da CBF (que é uma instituição tradicionalmente corrupta). Mas devem se unir através de um interesse nacional, que pode ser facilitado quando se combate as desigualdades sociais ou quando os racistas aprenderem a tolerar que negros, índios e pobres possam estar nos mesmos espaços ou patamar social que eles. Ficar se xingando de coxinha e de petralha, de ficar farejando “doutrinação” em textos acadêmicos e reportagens, ficar defendendo seus políticos como seres acima do bem e do mal, entender que todo pobre é eleitor do PT porque recebe Bolsa Família ou que todo artista critique o golpe/impeachment porque é beneficiado pela “Bolsa” Rouanet é míope, é estúpido e é egoísta. A maioria da população, que é a que mais sofre com a instabilidade econômica e política, pratica autossabotagem ao brigar entre si, sendo que, na realidade, existe um grupo muito pequeno de políticos e empresas que está muito bem, obrigado, e com um exército de militantes idiotas se matando e os defendendo.

Enquanto não houver reflexão alguma, seremos o eterno país do futuro que persiste em repetir o seu passado há mais de 500 anos.
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* No Brasil, a responsabilidade pelo ensino superior é do Governo Federal, enquanto a educação básica é de responsabilidade dos municípios, tal como a saúde, mas constantemente possuem problemas de disponibilidade de recursos. Diante disto, se tornam dependentes da burocracia estatal para captarem verbas dos estados e da União.

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