sábado, 16 de julho de 2016

Questionando a tentativa de golpe na Turquia


Os acontecimentos da última sexta-feira (15/julho) na Turquia trouxeram à tona questões e visões estereotipadas sobre os significados de “democracia”, “golpe” e “regime militar”, questões estas ainda muito recentes no Brasil devido ao processo de impeachment que afastou a presidente Dilma Rousseff. Para uma melhor compreensão destes três conceitos, vamos analisá-los separadamente.

Democracia: este é um conceito muito controverso, mas no entendimento geral, uma democracia emana da vontade do povo* e direitos e liberdades fundamentais são respeitadas e asseguradas. Mesmo governada por civis, uma sociedade não pode ser considerada democrática se a população como um todo, ou em parte, é privada destes direitos. A Turquia não é um exemplo, uma vez que jornalistas que façam oposição ao governo sejam presos. Além disso, os protestos de 2013 (que estimularam os protestos de junho de 2013 no Brasil), já mostravam que a população não estava muito feliz com Erdogăn. No entanto, fatos como este não são levados em conta, ou são até mesmo esquecidos por jornalistas e analistas de Relações Internacionais que acabam entendendo democracia simplesmente como “um regime que elege democraticamente o seu líder de acordo com a Constituição deste país”.

Desta forma, acabamos tendo uma visão muito míope do que signifique democracia, pois fica parecendo que um país é democrático simplesmente pelo fato de ter um civil no poder, ou porque ele foi eleito de acordo com o que é previsto pela Constituição. Hitler não chegou ao poder na Alemanha através de um golpe de Estado: poderíamos então dizer que o seu governo foi democrático ou que sua deposição seria um golpe?

Golpe: no consenso geral, entende-se que todo golpe de Estado é, necessariamente, a coisa mais horrorosa que pode acontecer dentro de um regime democrático. Mas e quando este Estado não é democrático mesmo governado por um civil? Existe um consenso no mundo inteiro de que um golpe é sempre algo ruim, especialmente nas últimas décadas após vivenciarmos ditaduras sangrentas e repressivas na América Latina e no Leste Europeu, por exemplo. Nós, brasileiros, quando ouvimos a palavra “golpe” quase que imediatamente já associamos ao golpe de 1964 e o tomamos como base. Esquecemos, no entanto, que a Proclamação da República de 1889 nada mais foi do que um golpe de Estado e através dos militares (marechal Deodoro da Fonseca) que derrubou a monarquia de Dom Pedro II no ano seguinte à abolição da escravatura, com o apoio das elites cafeicultoras que não tinham seu poder econômico refletido em poder político.

Regime militar: os militares ainda causam muito horror na população civil, muito pelo seu histórico de envolvimento em golpes de Estado nos vários cantos do mundo e em regimes autoritários. Um golpe militar na Turquia mostra que, possivelmente, não aconteceria nada além da troca de um regime autoritário por outro com a diferença que, em vez de civis, militares estariam no controle. É ingênuo não ver Erdogăn como uma ameaça à democracia da Turquia, pois se ele já não respeita aos direitos e liberdades, o que o impede de desrespeitar a Constituição e cancelar as próximas eleições? O histórico dos militares no poder é negativo, mas enxergá-los como um inimigo constante pode ser injusto e tende a nos fazer pensar que um regime civil sempre será melhor do que um regime militar, por pior que seja.

Resumidamente, esta postagem propõe que reflitamos melhor sobre os nossos conceitos e pré-conceitos quando nos deparamos com questões como estas, especialmente quando envolvem um país que pouco sabemos como a Turquia. Diante da nossa ignorância, devemos ter muita cautela com as informações que recebemos através dos meios de comunicação (jornais, televisão, internet), pois o jornalismo não tem a função de educar, mas sim de transmitir as informações de maneira curta, clara e de fácil compreensão, comprometendo uma análise mais aprofundada da realidade e da gravidade das coisas.

Não dá para comparar a tentativa de golpe** (que, aliás, pode ter sido armado uma estratégia para fortalecer ainda mais o governo atual), com o histórico brasileiro. Quando ouvimos falar de golpe, lembramos-nos do impeachment de Dilma e do golpe de 1964 como se a situação fosse a mesma. Quando falamos em democracia, ignoramos o fato de que governantes civis podem ser tão autoritários quanto os militares. Ou seja, acabamos contaminando uma análise sensata quando levamos em conta os nossos preconceitos e pré-julgamentos tomando as nossas próprias experiências como referência em um país que não é igual ao nosso. O atual regime da Turquia não é idêntico ao de Dilma ou João Goulart, a situação política não é a mesma e a postura militar também não será a mesma. Então não sejamos ingênuos e precipitados e vamos aprender a separar as coisas, ok?

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* Nem sempre a vontade do povo será racional, portanto, a vontade da maioria pode ser prejudicial a uma parcela minoritária da população ou à própria população em maioria.
** Lembrar do Golpe do Estado Novo de 1937, quando Getúlio Vargas forjou um documento conhecido como “Plano Cohen” que dizia que o Brasil vivia sob uma ameaça comunista. Assim, com a aproximação das eleições de 1938, Vargas deu um novo golpe e adquire poderes ainda maiores em nome do combate ao comunismo.

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