sexta-feira, 22 de julho de 2016

Olimpíadas para quê?



Do orgulho de ser brasileiro em um momento que a economia brasileira estava no seu auge à plataforma de protestos contra o governo. Que lições as Olimpíadas deixam como legado?

Quando Tiririca disse que “pior do que está não fica”, certamente ele não estava considerando a incrível capacidade do Brasil (brasileiros e seus políticos) de se superarem no pior. Pior do que está ficou: se antes a população tinha pavor em falar de política, hoje quase todos têm algo a dizer e se dividem entre petralhas e coxinhas que se ofendem mutuamente nas redes sociais. Com a queda de Dilma, a hashtag revolucionária e profética (mas que nunca se cumpre) da vez deixou de ser #NãoVaiTerGolpe e passou a ser #ForaTemer.

Com a aproximação das Olimpíadas, mais uma vez os brasileiros utilizam um megaevento esportivo como plataforma de manifestação de sua insatisfação interna diante dos olhos do mundo. Esta tradição se iniciou nos Jogos Pan-Americanos de 2007 no Rio de Janeiro, quando o então presidente Lula foi vaiado ao proferir o discurso de abertura. Seis anos mais tarde, seria a vez de Dilma ser vaiada na abertura da Copa das Confederações e tendo como advogado de defesa o então presidente da FIFA, Joseph Blatter, que perguntou aos que a vaiaram “cadê o fair play”? Vale lembrar que Blatter foi banido da FIFA no ano passado após o seu envolvimento em esquemas de corrupção. Resumindo: através destes megaeventos esportivos que chamam a atenção do mundo para o Brasil, os manifestantes procuram constranger as autoridades políticas nacionais diante da mídia internacional na esperança inútil de que os nossos políticos se comportem depois de passar vergonha, ou que as autoridades estrangeiras venham ao nosso socorro.

Com o afastamento de Dilma, aparentemente o país está se pacificando, principalmente porque a imprensa parou de noticiar denúncias e esquemas de corrupção envolvendo o PT à exaustão, e o juiz Sérgio Moro não tem mais tomado medidas que o tornam um herói nacional para todos aqueles que não são simpáticos ao PT. Aliado a isto, a realização das Olimpíadas do Rio vem sendo o novo alvo das manifestações populares diante de diversos problemas: saúde, segurança, desemprego, transporte, educação, corrupção, etc. Estes debates se dão na forma de gritos e cartazes pedindo #ForaTemer ou em tentativas de apagar a tocha olímpica.

Não é a primeira vez que o revezamento da tocha é palanque de protestos. Em 2008, quando as Olimpíadas foram realizadas em Pequim (China), houve uma série de protestos quando a tocha percorria outros países que denunciavam a violação de direitos humanos por este país e pediam pela independência do Tibet. A partir daí, o Comitê Olímpico acabou com a tradição do revezamento da tocha por vários países, reduzindo-o à Grécia, onde ela é acesa, e indo direto para o país-sede*. No entanto, se nas Olimpíadas de Pequim os protestos aconteceram fora do país-sede, no Rio acontecem dentro.

Os brasileiros, no entanto, não têm moral para reclamar, somente agora, que o país tem “problemas mais importantes para resolver”. A maioria parece não entender que se o Brasil sedia um Pan, uma Copa ou uma Olimpíada, não é porque a ODEPA, a FIFA ou o COI quiseram, mas sim porque o Brasil quis sediar estes eventos. Em 2007, a FIFA queria realizar a Copa do Mundo de 2014 na América do Sul seguindo a sua política do rodízio continental: apenas Colômbia e Brasil tinham interesse, mas pouco antes da escolha a primeira desistiu, restando o Brasil como único candidato. Em outubro de 2009, o COI escolheu o Rio de Janeiro para ser a sede das Olimpíadas deste ano em uma eleição que tinha como candidatas as cidades de Chicago, Tóquio e Madri. Até então, não havia nenhum engajamento da população contra a realização destes eventos, pelo contrário**, foram até motivo de orgulho nacional. Devemos nos lembrar que, em 2009, o mundo sofria os efeitos da crise mundial do ano anterior e havia uma grande otimismo nacional e internacional diante do rápido crescimento econômico do Brasil, o que mais justifica a derrota das outras cidades do que a vitória do Rio.

Diante de um momento em que a economia estava bem (aparentemente), ninguém iria pensar que no futuro tudo iria mudar quando a economia começou a desaquecer. A população não foi para as ruas protestar contra Lula ou os problemas na economia, saúde, segurança, educação, etc., porque a economia ia bem, tanto que Lula deixou a presidência com uma aprovação acima de 80%. O marco inicial das manifestações contra o governo se deram a partir do momento que a economia parou de crescer, e não porque todos estes problemas não existiam antes. Além disso, o otimismo era tanto que alguém que alertasse sobre o “legado” que as Olimpíadas trouxeram para Atenas (vários elefantes brancos e obras mal-acabadas) seria ignorado pelo seu negativismo.

Como desta vez o PT não está na presidência porque foi traído pelo próprio vice-presidente, o partido que estava no governo se encontra, agora, como oposição, utilizando as Olimpíadas mais para protestar #ForaTemer do que protestar contra os outros problemas (corrupção, desemprego, saúde, segurança, etc). Aqueles que não estão nem aí para Temer contanto que o PT não governe mais estão mais preocupados em apagar a tocha olímpica, o que além de ser um ato de vandalismo é inútil.

Em primeiro lugar, tentar apagar a tocha é inútil porque não vai ser apagando a sua chama que os problemas do Brasil irão se resolver. Mesmo que a intenção seja chamar a atenção do mundo para os problemas do Brasil, os estrangeiros não possuem o menor poder de resolver os nossos problemas e eles já tem algo melhor para fazer: resolver os problemas deles. Somente os brasileiros podem resolver os problemas do próprio país. E se a intenção for constranger os políticos aos olhos do mundo, isto também é inútil, pois a preocupação com a honra só existe entre as pessoas honestas e pobres. Os políticos corruptos não estão preocupados em ser honestos, muito menos no que a população pensa ou deixa de pensar sobre eles, pois eles sabem que sempre são reeleitos mesmo assim. Os políticos corruptos estão preocupados em se manterem ricos, já que para eles é melhor ser um rico desonesto do que um pobre honesto.

Em segundo lugar, tentar apagar a tocha é inútil porque ela já é projetada para não apagar por causa do vento ou da chuva. Além disso, ela já foi conduzida debaixo d’água duas vezes: no mar de Coral no revezamento das Olimpíadas de Sydney (2000) e das Olimpíadas de inverno de Sochi (2014). Então se nem a água do mar apaga essa coisa, não vai ser um extintor de incêndio ou garrafinhas d’água que vão fazer isso. O máximo que algum “herói” desses vai conseguir é ser detido, aparecer em um programa policial, ficar com a ficha policial suja (o que vai atrapalhar a sua busca por emprego no futuro) e, no máximo, virar meme na internet e ser idolatrado por pessoas tão obtusas quanto ele.

Diante do quadro atual, muitos podem perguntar: Olimpíadas para quê? A resposta seria: para quase nada. Quando o Brasil foi eleito como sede, experimentamos um sentimento inédito para muitos: orgulho nacional. Falava-se sobre o tal do “legado olímpico” como obras que melhorariam a infraestrutura do Rio de Janeiro e que fomentariam o esporte como instrumento de construção da cidadania entre os jovens, além de vislumbrar o Brasil como potência olímpica. Quem realmente saiu ganhando foram os megaempresários e políticos com o superfaturamento das obras, além de quem lucra com o turismo no Rio. A Cidade Maravilhosa só existe para os estrangeiros que não conhecem o Rio de Janeiro por detrás da publicidade turística ou para quem tem tanto dinheiro que não precisa se importar se a cidade é cara ou violenta: quem não tem tanto dinheiro se vê obrigado a morar nas favelas ou cada vez mais longe das áreas centrais, mas são incentivados a serem cordiais com os estrangeiros por mais que as Olimpíadas os segreguem em seu próprio território.

É claro que as demandas e reclamações da população são legítimas e é melhor ter uma população que protesta do que uma população que consente com o absurdo. No entanto, os brasileiros precisam aprender a canalizar melhor o alvo de seus protestos: enquanto eles ficam se ofendendo em coxinhas e petralhas, os megaempresários e políticos continuam com os seus esquemas de corrupção porque sabem que a revolta popular não os tornará mais pobres. Precisam também aprender a protestar e a pensar em longo prazo: a FIFA e o COI escolhem as suas sedes com uma antecedência de 7 anos, e em 7 anos muita coisa pode mudar no mundo e na economia. O orgulho de ser brasileiro quando durante o bom momento da economia não deu espaço para “pensamentos negativos” e nem levou em conta a habilidade dos políticos em superfaturarem em cima de tudo. E, por fim, a tentativa de apagar a tocha pode ser muito ousada, ao mesmo tempo em que pode ser muito estúpida, uma vez que quem tenta isso está cometendo um crime, apenas se prejudica e tem uma enorme chance de insucesso, uma vez que a tocha já foi conduzida até debaixo d’água.
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* Este ano houve uma pequena exceção com a inclusão da Suíça no itinerário.
** "Pesquisas mostravam que mais de 90% da população apoiavam a Copa do Mundo aqui". Fonte: O Globo.

Um comentário:

  1. Os brasileiros somos imediatistas - e não apenas nós, nestes tempos de fragmentações - e também "esquecem" rapidamente certas lições. Quando os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro foram anunciados para 2007 (se não me falha a memória), o discurso corrente e fácil era do "legado": legado do pan em infra-estrutura, mobilidade, em educação, segurança, turismo. Passou o Pan e o legado foi... zero. Até um estádio de futebol ( o Engenhão) está hoje interditado para obras. E continuamos a cair no conto do "legado": legado da Copa, legado das olimpíadas. O que resta de "legado", além de um 7 x 1 vergonhoso, é a farra das construtoras e empreiteiras nestas obras de estádios, vila olímpica e demais infra-estruturas, como você bem destacou no texto.

    Há protestos aqui e ali acontecendo, mas creio que vá acontecer o mesmo que houve na Copa do Mundo: quando os jogos começaram, quase todo mundo esqueceu dos problemas e foi curtir os jogos - e não é que o Pelé foi profético? Com os jogos olímpicos será a mesma coisa e aí veremos aquela coisa irritante de um atleta brasileiro que é desprezado pelas mídias (que só têm olhos para o futebol) ganhar alguma medalha e ser alçado à categoria de "herói" e o corinho "sou brasileiro com muito orgulho" sendo cantado em verso e prosa. E adeus, protestos.

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