segunda-feira, 25 de julho de 2016

O poder de uma #hashtag



De demonstração de amor das Beliebers a uma ferramenta que inspira revolução. Quais são os poderes de uma hashtag e as ilusões no seu uso?

O que é uma hashtag? Hashtag é uma palavra que vem da combinação das palavras “hash” (o nome do símbolo “#”, que é popularmente conhecido no Brasil como “jogo da velha”) e “tag” (marcação, na linguagem da internet), assim, é uma palavra-chave, tópico ou informação relevante composta e precedida pelo símbolo “#”. No Brasil, elas se popularizaram a partir do microblog Twitter por volta de 2009, período no qual o cantor Justin Bieber começava a se tornar famoso e constantemente figurava no topo dos Trending Topics ou TTs (assuntos mais comentados) a partir de hashtags relacionada a ele.

Ok, mas para o que servem as hashtags? Com a popularização delas no Twitter, outras redes sociais começaram a adotá-las, como o Instagram e o Facebook (onde as pessoas já utilizassem antes disso, embora inutilmente porque não estavam ativadas). Ao inserir uma hashtag (“#” + palavra), estes sites criam um hyperlink que, ao clicar nele, apresentará uma listagem das postagens públicas de seus usuários sobre aquele tema. Por exemplo, se que você tira uma foto ou escreve uma publicação relacionada ao pôr-do-sol na Praia de Cobacabana, você poderia utilizar hashtags como #pôrdosol e #praiadecopacabana, podendo ignorar as letras maiúsculas e minúsculas, acentuação e hífens muitas vezes. Ao clicar em #praiadecopacabana, o site que cria um hyperlink a partir das hashtags irá listar várias postagens públicas dos usuários que utilizaram esta hashtag. Então você pergunta: ok, e daí?

Se inicialmente o uso das hashtags no Brasil era mais inocente e coordenado pelas fãs de Justin Bieber, com o passar do tempo elas passaram a se tornar um instrumento de coordenação política, não necessariamente para debater ou apoiar o político ou pauta A ou B, mas para dar visibilidade a temas que, até então, eram restritos a determinados círculos sociais. Embora o movimento feminista tenha surgido nos anos 1960 (o que não quer dizer antes disso o feminismo não existisse), hashtags relacionadas podem facilitar o encontro entre feministas no ambiente virtual, e também de seus críticos. Dependendo da quantidade de vezes que uma hashtag é citada, ela pode aparecer nos TTs do Twitter, o que dá visibilidade ao que ela quer dizer.

Nas últimas semanas, os assassinatos de cidadãos negros têm gerado revolta nos movimentos de defesa dos negros e seus apoiadores neste país e fora dele. A hashtag que se tornou “lema” desta revolta foi #BlackLivesMatter (tradução: a vida dos negros importa). Figurando nos TTs, pessoas que desconhecem o que esta hashtag quer dizer podem ficar curiosas e pesquisar sobre, ou ainda, uma hashtag pode sinalizar às autoridades a questão do assassinato de negros motivados por racismo. Ou seja, além de simplesmente catalogar imagens ou postagens sobre determinado assunto, como um simples #pôrdosol, as hashtags também possuem a finalidade de chamar a atenção para determinado assunto sobre o que elas estão fazendo (assistindo o #TheVoice) ou querendo (#ForaDunga, #NãoVaiTerGolpe).

Os eventos da Primavera Árabe, uma série de revoluções políticas iniciada em 2010 no norte da África, espalhando-se depois para o Oriente Médio, mostraram que as redes sociais, como o Facebook, tinham o poder de mobilizar as pessoas em prol de uma determinada causa. Tunísia, Argélia, Egito, Iêmen e Líbia tiveram seus líderes depostos ou mortos, e a Síria vive uma guerra civil que dura até os dias atuais devido à resistência do presidente Bashar Al-Assad em se manter no cargo. O poder de mobilização do Facebook facilitou outros tipos de protestos das populações de outros países. O efeito não foi o mesmo, afinal de contas, uma coisa é quando uma ditadura obriga as pessoas a se unir em massa em prol do mesmo objetivo, enquanto em regimes democráticos a união é difícil, pois há múltiplos interesses que se chocam entre si. Os políticos podem até dar uma atenção maior às redes sociais, pois facilita a identificação das suas demandas, mas em países como o Brasil nenhum deles temerá nem pelo seu cargo, muito menos pela sua vida.

Uma hashtag não é nada sem ação e a própria Primavera Árabe mostrou isso, pois o Facebook combinou o desejo por democracia em países que vivam sob regimes ditatoriais (houve união em prol desse objetivo) com ação (a população realizou os protestos ou pegou em armas). O Brasil carece de uma demanda que una a população em prol de uma causa. As demandas das manifestações de 2013 começaram com o aumento das passagens no transporte público em São Paulo e depois se tornaram mais gerais, pedindo qualidade nos serviços públicos, o que não foi nenhuma novidade, pois as pautas eram exatamente as mesmas de toda e qualquer eleição no Brasil. Como inicialmente houve ação, a presidente Dilma propôs um pacote de medidas para atender estas demandas, mas sem consultar a população efetivamente. Depois disso, os protestos diminuíram e adotaram um viés partidário (a favor ou contra o impeachment) e as ações se resumiram às hashtags nas redes sociais.

Várias hashtags com um viés revolucionário e profético não se confirmaram. Diante das exigências de uma instituição comprovadamente corrupta como a FIFA, e da submissão do governo à elas, uma parte da população se revoltou, pois a FIFA tinha um poder coercitivo sobre o governo maior do que a própria população que o elegeu (e reelegeu em 2014). A FIFA e a Copa do Mundo passaram a ser alvo dos protestos em manifestações e através da hashtag #NãoVaiTerCopa. Teve Copa e não aconteceu nada que comprometesse a realização da competição do início ao fim. Desta vez, não há nenhum movimento para impedir a realização das Olimpíadas. Não existe uma hashtag em prol disso como #NãoVaiTerOlimpíada ou suas variantes. O máximo que as pessoas podem tentar impedir é a passagem da chama de uma tocha para a outra ao tentar apagá-la com água ou extintores de incêndio, mas como abordado no último post, isto é inútil.

Outra hashtag profética e revolucionária que não se concretizou foi #NãoVaiTerGolpe. Teve golpe/impeachment e, se ele existiu, foi justamente pela falta de ação popular em prol disso. Apesar da guerra que ocorreu nas redes sociais entre pessoas que eram favoráveis e contrárias ao impeachment, os deputados puderam votar “sim” ou “não” na maior tranquilidade como, ainda, utilizaram do seu espaço ao vivo na televisão como palanque de campanha através de seus discursos populistas como “em nome da minha família, eu voto sim”. A votação do impeachment no Congresso era para julgar a presidente Dilma Rousseff por ter cometido, ou não, crime de responsabilidade fiscal, e não uma consulta de satisfação com o seu governo.

Desta forma, não adianta usar excessivamente a hashtag #ForaTemer como se o presidente interino fosse renunciar de sua posição se, eventualmente, figurar no top dos TTs do Twitter. Ele não cortar os pulsos ou se suicidar se jogando do alto do Palácio do Planalto. Tampouco fará os deputados e senadores se mobilizaram para tal porque a população está pedindo na forma de hashtags. Se as hashtags em si, carregam pouca efetividade prática, estão se tornando cada vez mais banais e idiotizadas. Foi o caso que ocorreu recentemente quando alguém disse que seu nome era “Fora Temer” a um funcionário do Starbucks, que ficou chamando pelo cliente “Fora Temer”. O cliente filmou, expôs o funcionário ao ridículo e se achou muito engraçado.

No Brasil, os políticos não possuem o receio de perderem seus cargos, pois sabem que a população os reelegerá, até mesmo porque muitos votam e nem lembram em quem votaram. Além disso, sabem que os protestos são sempre pacíficos e quando alguém se exalta um pouco e depreda o patrimônio público, esta pessoa é detida por uma política adestrada para ser repressiva. Os políticos não sentem medo da população porque sabem que serão reeleitos e que os protestos não comprometem a sua integridade física ou de sua família. A única ameaça aos políticos são os próprios políticos.

As hashtags, então, seguem a seguinte lógica para quem as utiliza como forma de campanha ou denúncia: 1) faz-se a denúncia através das redes sociais, 2) as pessoas curtem e compartilham a publicação, 3) esta publicação ganha tanta repercussão que chama a atenção da imprensa, 4) a imprensa faz uma reportagem, 5) os políticos, numa atitude habermasiana, entendem que esta é uma demanda legítima da população; se for uma denúncia, a justiça a leva em consideração 6) os políticos acatam a demanda e criam uma lei; no caso de uma denúncia, as autoridades investigam e punem. No entanto, sem ação e sem uma ameaça da não-reeleição/deposição ou da violência, as hashtags serão inúteis e um símbolo de frustração, portanto não adianta compartilhar 30 reportagens por dia denunciando os atos do deputado X ou Y no Facebook, usar hashtags como #ForaTemer à exaustão ou expor funcionários do Starbucks ao ridículo ao forçá-los a proferir hashtags como se fossem nomes de cliente. Teve Copa, teve golpe e Temer só dará o fora se os nossos políticos assim o desejarem, independente de qual seja o desejo da população adepta ao uso das hashtags.

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