quarta-feira, 13 de julho de 2016

O cinismo por trás da hashtag #ForaTemer

Engraçado como as personalidades políticas e seus militantes fanáticos são ou cínicos ou ingênuos. Antes que Michel Temer começasse a preparar o terreno para o “golpe”, não houve nenhuma oposição a sua indicação como vice da chapa de Dilma; nem das personalidades políticas do PT e nem de seus militantes. Não havia ninguém que apoiasse Dilma/PT se mobilizando em protestos com cartazes pedindo #ForaTemer e usando os megaeventos esportivos e o Festival de Cannes como palanque para protestos.

Na realidade, a cultura da corrupção do PT e dentro da própria gestão em nome da governabilidade não surge com o “golpe” de 2016. Já em 2005 foi revelado o esquema do Mensalão que, resumidamente, consistia em pagamento de suborno a deputados de partidos menores para que estes votassem a favor das pautas do governo, uma vez que o PT tinha apoio de apenas 1/5 da Câmara dos Deputados. Depois disso, o PT realizou várias alianças com tradicionais inimigos políticos e celebridades da corrupção, como Paulo Maluf. Diante disso, alguns políticos se desfiliaram do partido e migraram para outros ou fundaram novos, ou se mantiveram no partido mesmo com todos os absurdos cometidos pelo PT em nome da governabilidade.

Certamente, não é fácil para o próprio PT e seus militantes lidarem com o embaraço da conivência com a corrupção e a aliança a qualquer político que garanta votos e governabilidade. Uma estratégia que deu muito certo foi contribuir para a atual polarização do cenário político: se você critica o PT, logo você é tucano, neoliberal, coxinha e do diabo a quatro. Utilizando-se de uma retórica anti-PT, esta é uma estratégia para “desviar o foco”, ou seja, responder uma crítica/acusação com outra para se poupar do constrangimento de respondê-la diretamente. Esta estratégia deu muito certo porque a gestão do FHC foi tão problemática em nome da estabilização da economia que ela cresceu pouco. O governo FHC sofreu com diversas crises internacionais (México 1995, Ásia 1997, Rússia 1998 e Argentina 2001), com o fracasso das privatizações simbolizada pela crise energética de 2001 e uma economia que crescia a índices muito baixos. A insatisfação foi tanta que a população optou por eleger Lula, um líder de esquerda em um país tradicionalmente conservador. O governo Lula, por outro lado, contou com um cenário internacional mais favorável, alavancado pelo crescimento chinês, exportação das commodities e expansão do crédito internacional, o que possibilitou o crescimento da economia e fortaleceu uma imagem de que o PSDB simbolizava a fraqueza, a incompetência e a submissão aos interesses estrangeiros em detrimento do interesse nacional.

O PT não aprendeu com as críticas e continuou viciado em realizar alianças com personalidades políticas duvidosas, tais como Michel Temer. Aliás, juntar-se ao PMDB ao mesmo tempo em que pode significar força política (já que não se governa sem apoio deste partido), também pode significar instabilidade, uma vez que eles não tenham diretrizes político-ideológica claras como o PT e o PSDB, mas se juntem ao partido que está no governo.

Diante disto, pegar Michel Temer para Cristo e acusá-lo de ser golpista é não reconhecer que o PT traiu a si próprio e aos seus eleitores que diminuíam a cada eleição. E isto não tem nada a ver com ser coxinha, neoliberal, leitor da Veja ou ter votado no Aécio, pois muita gente votou na Dilma não por acreditar no potencial da presidente afastada, mas por rejeição a tudo que Aécio/PSDB representam no presente e no passado. Com o afastamento de Dilma, é mais cômodo e cínico protestar contra Temer do que reconhecer a conivência do PT com o universo da corrupção e dos jogos de poder e que, cedo ou tarde, poderia ser traído por personalidades políticas nada confiáveis.

Além do pudor em reconhecer os erros do PT e do cinismo dos protestos contra Temer, há também a carência de representatividade da esquerda. Foi durante o governo do PT que as minorias e grupos reprimidos se sentiram encorajados e conquistaram mais vez e voz. O governo Dilma deu mais espaço às mulheres no alto escalão do governo. Embora ainda sofram muito com a violência, os homossexuais brasileiros conquistaram o direito da união homoafetiva muito antes dos Estados Unidos. Os negros ganharam maior poder de expressão e oportunidades de ascensão social com a política de cotas. O mesmo ocorreu com a população mais pobre, que ascendeu para a chamada “classe média”. Mulheres, homossexuais, negros e pobres não conseguem se ver representados em outros partidos, desta forma, se tornaram “reféns do PT”. Esta falta de representatividade ficou nítida na formação dos ministérios de Temer, que contava com uma equipe formada 100% por homens e 100% brancos, ou seja, não havia nenhuma mulher e nenhum negro ou indígena.

A “traição” sofrida por Dilma mostra que o PT se tornou dependente de uma cultura de corrupção e de alianças com políticos comprovadamente corruptos para poder governar e se manter no poder. A esquerda se vê refém da força do PT para se ver representada, principalmente os grupos reprimidos como mulheres, negros, pobres e homossexuais; então não é que eles necessariamente apoiem o PT ou a Dilma, mas sim porque não têm opção (há outros partidos menores, mas sem a mesma força do PT). Infelizmente a polarização política no Brasil se agravou tanto que muita gente não sabe fazer a dissociação “se criticar o PT é coxinha, se elogiar é petralha”, o que é muito problemático, pois inviabiliza uma diálogo e mantém o clima político e social caótico. É uma briga onde todos perdem, pois todos os preconceitos enraizados vêm à tona e de forma violenta. O ideal é o consenso e a paz, seja ela protelada (onde o reprimido aceita a repressão em nome da ordem) ou seja através de justiça social (onde fica difícil distinguir repressor e reprimido).

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