terça-feira, 19 de julho de 2016

Não quero ser grande


A vida adulta não é fácil. São tantos problemas que os adultos precisaram enfrentar que, vez ou outra, sintam uma nostalgia do tempo que eram crianças. O que diferencia a vida adulta da infância?

Alguns comportamentos são típicos e esperados das pessoas a partir do momento que atingem uma determinada idade. Embora muitas crianças desejem se tornar adultos o mais rápido possível e sejam, desde muito cedo preparadas para a vida adulta através de tradicionais brincadeiras de criança (brincar de casinha, de médico, polícia e ladrão), a partir do momento que elas passam a ganhar mais responsabilidade e independência, surgem problemas ocasionais ou típicos da vida adulta que, em algum momento, as faz desejar voltar no tempo de quando eram crianças.

Tornar-se adulto é romper com a dependência, quer a pessoa queira, quer não. Em muitos países, quando o jovem atinge os 18 anos, é esperado que ele inicie a própria vida, saindo da casa dos pais para estudar e/ou trabalhar, ou seja, já existe uma pressão social para isto nesta idade ou antes. Esta realidade não é tão visível no Brasil, onde os filhos costumam permanecer anos morando com os pais; nem sempre por uma questão de afeto, mas muitas vezes por despreparo emocional diante dos desafios de uma vida independente. Até mesmo quando os jovens têm filhos e casam antes dos 18 anos, muitos costumam morar muito próximo ou continuem a morar na casa dos pais. O mínimo que se espera desses jovens é que eles estejam ou trabalhando (mais comum entre os pobres) ou cursando o ensino superior (mais comum nas famílias de classe média).

No entanto, as crises de nostalgia devem ser mais típicas dos adultos independentes, isto é, aqueles que não dependem mais dos pais para ter onde morar, ter o que gastar ou até mesmo da sua afeição, ou seja, eles “não lhes devem mais satisfações”. Assim, elas precisam enfrentar por conta própria vários problemas que não enfrentavam na infância: não precisavam se preocupar em pagar contas, em se submeter a determinadas pessoas e comportamentos para manter o emprego e poder pagar estas contas, e a destinar um tempo muito maior ao trabalho (que pode ser tortuoso para alguns/muitos) do que para o lazer.

A mesma dependência dos pais se rompe no campo afetivo. Nas famílias mais emocionalmente bem estruturadas, os pais amam os filhos e esse é um amor que, para as crianças, basta. Nenhuma desilusão amorosa na infância ou adolescência é duradoura por muito tempo, quase ninguém cai em depressão após um término de namoro na adolescência porque o amor incondicional dos pais preenche o vazio deixado por uma “desilusão amorosa”. Aliás, a redoma de vidro deste amor incondicional dos pais se quebra longe deles, pois na vida adulta, o amor é condicional: os dois precisam se amar mutuamente e ter afinidades que vão além do campo afetivo, como o campo sexual, por exemplo; do contrário, uma ou ambas as partes se sentirão infelizes e, nesses momentos, tendem a sentir a falta do amor incondicional dos pais. O amor na vida adulta pode procurar, muitas vezes, preencher a lacuna afetiva que é aberta no momento que se perde o convívio com os pais. Desta forma, as separações podem ser mais dolorosas e levar a depressão, especialmente quando o adulto não possui amor próprio e não tenha sido emocionalmente bem estruturado para lidar com frustrações e perdas.

Diante deste quadro de autossuficiência forçada que, por um lado pode ser muito bom para a construção da autoestima no momento que a pessoa se sente capaz de tomar as rédeas da própria vida, por outro pode ser muito cansativo e estressante, uma vez que o indivíduo se sinta obrigado a carregar o fardo da própria vida por conta própria, isto quando não tem marido/esposa e crianças para se preocupar também. Não é a toa que a vida adulta é pontilhada de problemas das naturezas mais variadas (financeira, emocional-sexual, social, etc), o que torna os adultos mais propensos a situações de estresse, raiva ou depressão do que situações positivas e alegres, mais comuns à época que eram crianças.

É por razões como estas que é muito importante que crianças e adolescentes sejam tratadas com um especial cuidado durante a sua formação, para que quando atinjam a vida adulta estejam bem estruturadas psicologicamente e socialmente. Crianças e adolescentes continuam a ser marginalizadas pelas políticas públicas de países como o Brasil e continuam sendo alvo das frustrações de adultos. É comum que um adulto frustrado que precisou ter que trabalhar desde muito cedo seja a favor da redução de uma idade mínima para trabalhar e até mesmo, da redução da maioridade penal. Por trás deste discurso conservador que “criança não tem que querer”, existe uma espécie de amargor e inveja que esta pessoa talvez nem seja capaz de compreender, pois esta é uma forma de privar uma criança ou adolescente de ter um futuro que ela não pôde ter e de fazer escolhas que ela não pôde fazer. Ela entende, então, que “a vida é assim” tomando como referência a própria vida. Não é de se surpreender que este discurso seja ainda mais comum entre pessoas com baixa escolaridade e que elas não compreendam a importância da educação como ferramenta para o fomento da cidadania e desenvolvimento socioeconômico.

Em uma sociedade onde crianças e adolescentes sejam tratadas como miniadultos sem serem educados de forma adequada para a vida adulta, não é de se surpreender que tenhamos uma sociedade imatura e infantil. A maturidade não é construída na vida adulta ao se atingir 18 anos, mas já durante a infância e adolescência. Quem não teve uma boa estrutura afetiva nesta fase estará mais propenso a ser infeliz no amor, por exemplo, podendo sofrer ou praticar agressões física e/ou psicológicas constantemente, uma vez que elas não tenham trabalhado as questões como a frustração, a autonomia de querer e poder tomar as próprias decisões e respeitar as dos outros. Também não é raro que muitos adultos queiram recuperar uma infância que não tiveram ou prolongar a sua infância através de atitudes infantis cotidianas. De certa forma, não há problema algum em “ser criança” algumas vezes; o problema é não conseguir abandonar a infância quando a vida e a sociedade exigem um comportamento mais maduro de você.

O despreparo para a vida adulta se vê em diversas situações da vida em sociedade: são filhos que não conseguem sair da casa dos pais e terem uma vida própria, pessoas que preenchem a falta de afeto dos pais com outras pessoas, pessoas que não sabem respeitar as outras e as diferenças e que tomam a própria vida como referência universal, pessoas que não sabem lidar com a frustração... Então diante destes e de diversos outros problemas, em algum momento da vida as pessoas sentem saudades de quando eram crianças e não precisavam se preocupar com nada, pois o amor incondicional e a proteção dos pais eram o escudo que tinham em meio à infantilidade do mundo adulto.


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