segunda-feira, 25 de julho de 2016

O poder de uma #hashtag



De demonstração de amor das Beliebers a uma ferramenta que inspira revolução. Quais são os poderes de uma hashtag e as ilusões no seu uso?

O que é uma hashtag? Hashtag é uma palavra que vem da combinação das palavras “hash” (o nome do símbolo “#”, que é popularmente conhecido no Brasil como “jogo da velha”) e “tag” (marcação, na linguagem da internet), assim, é uma palavra-chave, tópico ou informação relevante composta e precedida pelo símbolo “#”. No Brasil, elas se popularizaram a partir do microblog Twitter por volta de 2009, período no qual o cantor Justin Bieber começava a se tornar famoso e constantemente figurava no topo dos Trending Topics ou TTs (assuntos mais comentados) a partir de hashtags relacionada a ele.

Ok, mas para o que servem as hashtags? Com a popularização delas no Twitter, outras redes sociais começaram a adotá-las, como o Instagram e o Facebook (onde as pessoas já utilizassem antes disso, embora inutilmente porque não estavam ativadas). Ao inserir uma hashtag (“#” + palavra), estes sites criam um hyperlink que, ao clicar nele, apresentará uma listagem das postagens públicas de seus usuários sobre aquele tema. Por exemplo, se que você tira uma foto ou escreve uma publicação relacionada ao pôr-do-sol na Praia de Cobacabana, você poderia utilizar hashtags como #pôrdosol e #praiadecopacabana, podendo ignorar as letras maiúsculas e minúsculas, acentuação e hífens muitas vezes. Ao clicar em #praiadecopacabana, o site que cria um hyperlink a partir das hashtags irá listar várias postagens públicas dos usuários que utilizaram esta hashtag. Então você pergunta: ok, e daí?

Se inicialmente o uso das hashtags no Brasil era mais inocente e coordenado pelas fãs de Justin Bieber, com o passar do tempo elas passaram a se tornar um instrumento de coordenação política, não necessariamente para debater ou apoiar o político ou pauta A ou B, mas para dar visibilidade a temas que, até então, eram restritos a determinados círculos sociais. Embora o movimento feminista tenha surgido nos anos 1960 (o que não quer dizer antes disso o feminismo não existisse), hashtags relacionadas podem facilitar o encontro entre feministas no ambiente virtual, e também de seus críticos. Dependendo da quantidade de vezes que uma hashtag é citada, ela pode aparecer nos TTs do Twitter, o que dá visibilidade ao que ela quer dizer.

Nas últimas semanas, os assassinatos de cidadãos negros têm gerado revolta nos movimentos de defesa dos negros e seus apoiadores neste país e fora dele. A hashtag que se tornou “lema” desta revolta foi #BlackLivesMatter (tradução: a vida dos negros importa). Figurando nos TTs, pessoas que desconhecem o que esta hashtag quer dizer podem ficar curiosas e pesquisar sobre, ou ainda, uma hashtag pode sinalizar às autoridades a questão do assassinato de negros motivados por racismo. Ou seja, além de simplesmente catalogar imagens ou postagens sobre determinado assunto, como um simples #pôrdosol, as hashtags também possuem a finalidade de chamar a atenção para determinado assunto sobre o que elas estão fazendo (assistindo o #TheVoice) ou querendo (#ForaDunga, #NãoVaiTerGolpe).

Os eventos da Primavera Árabe, uma série de revoluções políticas iniciada em 2010 no norte da África, espalhando-se depois para o Oriente Médio, mostraram que as redes sociais, como o Facebook, tinham o poder de mobilizar as pessoas em prol de uma determinada causa. Tunísia, Argélia, Egito, Iêmen e Líbia tiveram seus líderes depostos ou mortos, e a Síria vive uma guerra civil que dura até os dias atuais devido à resistência do presidente Bashar Al-Assad em se manter no cargo. O poder de mobilização do Facebook facilitou outros tipos de protestos das populações de outros países. O efeito não foi o mesmo, afinal de contas, uma coisa é quando uma ditadura obriga as pessoas a se unir em massa em prol do mesmo objetivo, enquanto em regimes democráticos a união é difícil, pois há múltiplos interesses que se chocam entre si. Os políticos podem até dar uma atenção maior às redes sociais, pois facilita a identificação das suas demandas, mas em países como o Brasil nenhum deles temerá nem pelo seu cargo, muito menos pela sua vida.

Uma hashtag não é nada sem ação e a própria Primavera Árabe mostrou isso, pois o Facebook combinou o desejo por democracia em países que vivam sob regimes ditatoriais (houve união em prol desse objetivo) com ação (a população realizou os protestos ou pegou em armas). O Brasil carece de uma demanda que una a população em prol de uma causa. As demandas das manifestações de 2013 começaram com o aumento das passagens no transporte público em São Paulo e depois se tornaram mais gerais, pedindo qualidade nos serviços públicos, o que não foi nenhuma novidade, pois as pautas eram exatamente as mesmas de toda e qualquer eleição no Brasil. Como inicialmente houve ação, a presidente Dilma propôs um pacote de medidas para atender estas demandas, mas sem consultar a população efetivamente. Depois disso, os protestos diminuíram e adotaram um viés partidário (a favor ou contra o impeachment) e as ações se resumiram às hashtags nas redes sociais.

Várias hashtags com um viés revolucionário e profético não se confirmaram. Diante das exigências de uma instituição comprovadamente corrupta como a FIFA, e da submissão do governo à elas, uma parte da população se revoltou, pois a FIFA tinha um poder coercitivo sobre o governo maior do que a própria população que o elegeu (e reelegeu em 2014). A FIFA e a Copa do Mundo passaram a ser alvo dos protestos em manifestações e através da hashtag #NãoVaiTerCopa. Teve Copa e não aconteceu nada que comprometesse a realização da competição do início ao fim. Desta vez, não há nenhum movimento para impedir a realização das Olimpíadas. Não existe uma hashtag em prol disso como #NãoVaiTerOlimpíada ou suas variantes. O máximo que as pessoas podem tentar impedir é a passagem da chama de uma tocha para a outra ao tentar apagá-la com água ou extintores de incêndio, mas como abordado no último post, isto é inútil.

Outra hashtag profética e revolucionária que não se concretizou foi #NãoVaiTerGolpe. Teve golpe/impeachment e, se ele existiu, foi justamente pela falta de ação popular em prol disso. Apesar da guerra que ocorreu nas redes sociais entre pessoas que eram favoráveis e contrárias ao impeachment, os deputados puderam votar “sim” ou “não” na maior tranquilidade como, ainda, utilizaram do seu espaço ao vivo na televisão como palanque de campanha através de seus discursos populistas como “em nome da minha família, eu voto sim”. A votação do impeachment no Congresso era para julgar a presidente Dilma Rousseff por ter cometido, ou não, crime de responsabilidade fiscal, e não uma consulta de satisfação com o seu governo.

Desta forma, não adianta usar excessivamente a hashtag #ForaTemer como se o presidente interino fosse renunciar de sua posição se, eventualmente, figurar no top dos TTs do Twitter. Ele não cortar os pulsos ou se suicidar se jogando do alto do Palácio do Planalto. Tampouco fará os deputados e senadores se mobilizaram para tal porque a população está pedindo na forma de hashtags. Se as hashtags em si, carregam pouca efetividade prática, estão se tornando cada vez mais banais e idiotizadas. Foi o caso que ocorreu recentemente quando alguém disse que seu nome era “Fora Temer” a um funcionário do Starbucks, que ficou chamando pelo cliente “Fora Temer”. O cliente filmou, expôs o funcionário ao ridículo e se achou muito engraçado.

No Brasil, os políticos não possuem o receio de perderem seus cargos, pois sabem que a população os reelegerá, até mesmo porque muitos votam e nem lembram em quem votaram. Além disso, sabem que os protestos são sempre pacíficos e quando alguém se exalta um pouco e depreda o patrimônio público, esta pessoa é detida por uma política adestrada para ser repressiva. Os políticos não sentem medo da população porque sabem que serão reeleitos e que os protestos não comprometem a sua integridade física ou de sua família. A única ameaça aos políticos são os próprios políticos.

As hashtags, então, seguem a seguinte lógica para quem as utiliza como forma de campanha ou denúncia: 1) faz-se a denúncia através das redes sociais, 2) as pessoas curtem e compartilham a publicação, 3) esta publicação ganha tanta repercussão que chama a atenção da imprensa, 4) a imprensa faz uma reportagem, 5) os políticos, numa atitude habermasiana, entendem que esta é uma demanda legítima da população; se for uma denúncia, a justiça a leva em consideração 6) os políticos acatam a demanda e criam uma lei; no caso de uma denúncia, as autoridades investigam e punem. No entanto, sem ação e sem uma ameaça da não-reeleição/deposição ou da violência, as hashtags serão inúteis e um símbolo de frustração, portanto não adianta compartilhar 30 reportagens por dia denunciando os atos do deputado X ou Y no Facebook, usar hashtags como #ForaTemer à exaustão ou expor funcionários do Starbucks ao ridículo ao forçá-los a proferir hashtags como se fossem nomes de cliente. Teve Copa, teve golpe e Temer só dará o fora se os nossos políticos assim o desejarem, independente de qual seja o desejo da população adepta ao uso das hashtags.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Olimpíadas para quê?



Do orgulho de ser brasileiro em um momento que a economia brasileira estava no seu auge à plataforma de protestos contra o governo. Que lições as Olimpíadas deixam como legado?

Quando Tiririca disse que “pior do que está não fica”, certamente ele não estava considerando a incrível capacidade do Brasil (brasileiros e seus políticos) de se superarem no pior. Pior do que está ficou: se antes a população tinha pavor em falar de política, hoje quase todos têm algo a dizer e se dividem entre petralhas e coxinhas que se ofendem mutuamente nas redes sociais. Com a queda de Dilma, a hashtag revolucionária e profética (mas que nunca se cumpre) da vez deixou de ser #NãoVaiTerGolpe e passou a ser #ForaTemer.

Com a aproximação das Olimpíadas, mais uma vez os brasileiros utilizam um megaevento esportivo como plataforma de manifestação de sua insatisfação interna diante dos olhos do mundo. Esta tradição se iniciou nos Jogos Pan-Americanos de 2007 no Rio de Janeiro, quando o então presidente Lula foi vaiado ao proferir o discurso de abertura. Seis anos mais tarde, seria a vez de Dilma ser vaiada na abertura da Copa das Confederações e tendo como advogado de defesa o então presidente da FIFA, Joseph Blatter, que perguntou aos que a vaiaram “cadê o fair play”? Vale lembrar que Blatter foi banido da FIFA no ano passado após o seu envolvimento em esquemas de corrupção. Resumindo: através destes megaeventos esportivos que chamam a atenção do mundo para o Brasil, os manifestantes procuram constranger as autoridades políticas nacionais diante da mídia internacional na esperança inútil de que os nossos políticos se comportem depois de passar vergonha, ou que as autoridades estrangeiras venham ao nosso socorro.

Com o afastamento de Dilma, aparentemente o país está se pacificando, principalmente porque a imprensa parou de noticiar denúncias e esquemas de corrupção envolvendo o PT à exaustão, e o juiz Sérgio Moro não tem mais tomado medidas que o tornam um herói nacional para todos aqueles que não são simpáticos ao PT. Aliado a isto, a realização das Olimpíadas do Rio vem sendo o novo alvo das manifestações populares diante de diversos problemas: saúde, segurança, desemprego, transporte, educação, corrupção, etc. Estes debates se dão na forma de gritos e cartazes pedindo #ForaTemer ou em tentativas de apagar a tocha olímpica.

Não é a primeira vez que o revezamento da tocha é palanque de protestos. Em 2008, quando as Olimpíadas foram realizadas em Pequim (China), houve uma série de protestos quando a tocha percorria outros países que denunciavam a violação de direitos humanos por este país e pediam pela independência do Tibet. A partir daí, o Comitê Olímpico acabou com a tradição do revezamento da tocha por vários países, reduzindo-o à Grécia, onde ela é acesa, e indo direto para o país-sede*. No entanto, se nas Olimpíadas de Pequim os protestos aconteceram fora do país-sede, no Rio acontecem dentro.

Os brasileiros, no entanto, não têm moral para reclamar, somente agora, que o país tem “problemas mais importantes para resolver”. A maioria parece não entender que se o Brasil sedia um Pan, uma Copa ou uma Olimpíada, não é porque a ODEPA, a FIFA ou o COI quiseram, mas sim porque o Brasil quis sediar estes eventos. Em 2007, a FIFA queria realizar a Copa do Mundo de 2014 na América do Sul seguindo a sua política do rodízio continental: apenas Colômbia e Brasil tinham interesse, mas pouco antes da escolha a primeira desistiu, restando o Brasil como único candidato. Em outubro de 2009, o COI escolheu o Rio de Janeiro para ser a sede das Olimpíadas deste ano em uma eleição que tinha como candidatas as cidades de Chicago, Tóquio e Madri. Até então, não havia nenhum engajamento da população contra a realização destes eventos, pelo contrário**, foram até motivo de orgulho nacional. Devemos nos lembrar que, em 2009, o mundo sofria os efeitos da crise mundial do ano anterior e havia uma grande otimismo nacional e internacional diante do rápido crescimento econômico do Brasil, o que mais justifica a derrota das outras cidades do que a vitória do Rio.

Diante de um momento em que a economia estava bem (aparentemente), ninguém iria pensar que no futuro tudo iria mudar quando a economia começou a desaquecer. A população não foi para as ruas protestar contra Lula ou os problemas na economia, saúde, segurança, educação, etc., porque a economia ia bem, tanto que Lula deixou a presidência com uma aprovação acima de 80%. O marco inicial das manifestações contra o governo se deram a partir do momento que a economia parou de crescer, e não porque todos estes problemas não existiam antes. Além disso, o otimismo era tanto que alguém que alertasse sobre o “legado” que as Olimpíadas trouxeram para Atenas (vários elefantes brancos e obras mal-acabadas) seria ignorado pelo seu negativismo.

Como desta vez o PT não está na presidência porque foi traído pelo próprio vice-presidente, o partido que estava no governo se encontra, agora, como oposição, utilizando as Olimpíadas mais para protestar #ForaTemer do que protestar contra os outros problemas (corrupção, desemprego, saúde, segurança, etc). Aqueles que não estão nem aí para Temer contanto que o PT não governe mais estão mais preocupados em apagar a tocha olímpica, o que além de ser um ato de vandalismo é inútil.

Em primeiro lugar, tentar apagar a tocha é inútil porque não vai ser apagando a sua chama que os problemas do Brasil irão se resolver. Mesmo que a intenção seja chamar a atenção do mundo para os problemas do Brasil, os estrangeiros não possuem o menor poder de resolver os nossos problemas e eles já tem algo melhor para fazer: resolver os problemas deles. Somente os brasileiros podem resolver os problemas do próprio país. E se a intenção for constranger os políticos aos olhos do mundo, isto também é inútil, pois a preocupação com a honra só existe entre as pessoas honestas e pobres. Os políticos corruptos não estão preocupados em ser honestos, muito menos no que a população pensa ou deixa de pensar sobre eles, pois eles sabem que sempre são reeleitos mesmo assim. Os políticos corruptos estão preocupados em se manterem ricos, já que para eles é melhor ser um rico desonesto do que um pobre honesto.

Em segundo lugar, tentar apagar a tocha é inútil porque ela já é projetada para não apagar por causa do vento ou da chuva. Além disso, ela já foi conduzida debaixo d’água duas vezes: no mar de Coral no revezamento das Olimpíadas de Sydney (2000) e das Olimpíadas de inverno de Sochi (2014). Então se nem a água do mar apaga essa coisa, não vai ser um extintor de incêndio ou garrafinhas d’água que vão fazer isso. O máximo que algum “herói” desses vai conseguir é ser detido, aparecer em um programa policial, ficar com a ficha policial suja (o que vai atrapalhar a sua busca por emprego no futuro) e, no máximo, virar meme na internet e ser idolatrado por pessoas tão obtusas quanto ele.

Diante do quadro atual, muitos podem perguntar: Olimpíadas para quê? A resposta seria: para quase nada. Quando o Brasil foi eleito como sede, experimentamos um sentimento inédito para muitos: orgulho nacional. Falava-se sobre o tal do “legado olímpico” como obras que melhorariam a infraestrutura do Rio de Janeiro e que fomentariam o esporte como instrumento de construção da cidadania entre os jovens, além de vislumbrar o Brasil como potência olímpica. Quem realmente saiu ganhando foram os megaempresários e políticos com o superfaturamento das obras, além de quem lucra com o turismo no Rio. A Cidade Maravilhosa só existe para os estrangeiros que não conhecem o Rio de Janeiro por detrás da publicidade turística ou para quem tem tanto dinheiro que não precisa se importar se a cidade é cara ou violenta: quem não tem tanto dinheiro se vê obrigado a morar nas favelas ou cada vez mais longe das áreas centrais, mas são incentivados a serem cordiais com os estrangeiros por mais que as Olimpíadas os segreguem em seu próprio território.

É claro que as demandas e reclamações da população são legítimas e é melhor ter uma população que protesta do que uma população que consente com o absurdo. No entanto, os brasileiros precisam aprender a canalizar melhor o alvo de seus protestos: enquanto eles ficam se ofendendo em coxinhas e petralhas, os megaempresários e políticos continuam com os seus esquemas de corrupção porque sabem que a revolta popular não os tornará mais pobres. Precisam também aprender a protestar e a pensar em longo prazo: a FIFA e o COI escolhem as suas sedes com uma antecedência de 7 anos, e em 7 anos muita coisa pode mudar no mundo e na economia. O orgulho de ser brasileiro quando durante o bom momento da economia não deu espaço para “pensamentos negativos” e nem levou em conta a habilidade dos políticos em superfaturarem em cima de tudo. E, por fim, a tentativa de apagar a tocha pode ser muito ousada, ao mesmo tempo em que pode ser muito estúpida, uma vez que quem tenta isso está cometendo um crime, apenas se prejudica e tem uma enorme chance de insucesso, uma vez que a tocha já foi conduzida até debaixo d’água.
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* Este ano houve uma pequena exceção com a inclusão da Suíça no itinerário.
** "Pesquisas mostravam que mais de 90% da população apoiavam a Copa do Mundo aqui". Fonte: O Globo.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Não quero ser grande


A vida adulta não é fácil. São tantos problemas que os adultos precisaram enfrentar que, vez ou outra, sintam uma nostalgia do tempo que eram crianças. O que diferencia a vida adulta da infância?

Alguns comportamentos são típicos e esperados das pessoas a partir do momento que atingem uma determinada idade. Embora muitas crianças desejem se tornar adultos o mais rápido possível e sejam, desde muito cedo preparadas para a vida adulta através de tradicionais brincadeiras de criança (brincar de casinha, de médico, polícia e ladrão), a partir do momento que elas passam a ganhar mais responsabilidade e independência, surgem problemas ocasionais ou típicos da vida adulta que, em algum momento, as faz desejar voltar no tempo de quando eram crianças.

Tornar-se adulto é romper com a dependência, quer a pessoa queira, quer não. Em muitos países, quando o jovem atinge os 18 anos, é esperado que ele inicie a própria vida, saindo da casa dos pais para estudar e/ou trabalhar, ou seja, já existe uma pressão social para isto nesta idade ou antes. Esta realidade não é tão visível no Brasil, onde os filhos costumam permanecer anos morando com os pais; nem sempre por uma questão de afeto, mas muitas vezes por despreparo emocional diante dos desafios de uma vida independente. Até mesmo quando os jovens têm filhos e casam antes dos 18 anos, muitos costumam morar muito próximo ou continuem a morar na casa dos pais. O mínimo que se espera desses jovens é que eles estejam ou trabalhando (mais comum entre os pobres) ou cursando o ensino superior (mais comum nas famílias de classe média).

No entanto, as crises de nostalgia devem ser mais típicas dos adultos independentes, isto é, aqueles que não dependem mais dos pais para ter onde morar, ter o que gastar ou até mesmo da sua afeição, ou seja, eles “não lhes devem mais satisfações”. Assim, elas precisam enfrentar por conta própria vários problemas que não enfrentavam na infância: não precisavam se preocupar em pagar contas, em se submeter a determinadas pessoas e comportamentos para manter o emprego e poder pagar estas contas, e a destinar um tempo muito maior ao trabalho (que pode ser tortuoso para alguns/muitos) do que para o lazer.

A mesma dependência dos pais se rompe no campo afetivo. Nas famílias mais emocionalmente bem estruturadas, os pais amam os filhos e esse é um amor que, para as crianças, basta. Nenhuma desilusão amorosa na infância ou adolescência é duradoura por muito tempo, quase ninguém cai em depressão após um término de namoro na adolescência porque o amor incondicional dos pais preenche o vazio deixado por uma “desilusão amorosa”. Aliás, a redoma de vidro deste amor incondicional dos pais se quebra longe deles, pois na vida adulta, o amor é condicional: os dois precisam se amar mutuamente e ter afinidades que vão além do campo afetivo, como o campo sexual, por exemplo; do contrário, uma ou ambas as partes se sentirão infelizes e, nesses momentos, tendem a sentir a falta do amor incondicional dos pais. O amor na vida adulta pode procurar, muitas vezes, preencher a lacuna afetiva que é aberta no momento que se perde o convívio com os pais. Desta forma, as separações podem ser mais dolorosas e levar a depressão, especialmente quando o adulto não possui amor próprio e não tenha sido emocionalmente bem estruturado para lidar com frustrações e perdas.

Diante deste quadro de autossuficiência forçada que, por um lado pode ser muito bom para a construção da autoestima no momento que a pessoa se sente capaz de tomar as rédeas da própria vida, por outro pode ser muito cansativo e estressante, uma vez que o indivíduo se sinta obrigado a carregar o fardo da própria vida por conta própria, isto quando não tem marido/esposa e crianças para se preocupar também. Não é a toa que a vida adulta é pontilhada de problemas das naturezas mais variadas (financeira, emocional-sexual, social, etc), o que torna os adultos mais propensos a situações de estresse, raiva ou depressão do que situações positivas e alegres, mais comuns à época que eram crianças.

É por razões como estas que é muito importante que crianças e adolescentes sejam tratadas com um especial cuidado durante a sua formação, para que quando atinjam a vida adulta estejam bem estruturadas psicologicamente e socialmente. Crianças e adolescentes continuam a ser marginalizadas pelas políticas públicas de países como o Brasil e continuam sendo alvo das frustrações de adultos. É comum que um adulto frustrado que precisou ter que trabalhar desde muito cedo seja a favor da redução de uma idade mínima para trabalhar e até mesmo, da redução da maioridade penal. Por trás deste discurso conservador que “criança não tem que querer”, existe uma espécie de amargor e inveja que esta pessoa talvez nem seja capaz de compreender, pois esta é uma forma de privar uma criança ou adolescente de ter um futuro que ela não pôde ter e de fazer escolhas que ela não pôde fazer. Ela entende, então, que “a vida é assim” tomando como referência a própria vida. Não é de se surpreender que este discurso seja ainda mais comum entre pessoas com baixa escolaridade e que elas não compreendam a importância da educação como ferramenta para o fomento da cidadania e desenvolvimento socioeconômico.

Em uma sociedade onde crianças e adolescentes sejam tratadas como miniadultos sem serem educados de forma adequada para a vida adulta, não é de se surpreender que tenhamos uma sociedade imatura e infantil. A maturidade não é construída na vida adulta ao se atingir 18 anos, mas já durante a infância e adolescência. Quem não teve uma boa estrutura afetiva nesta fase estará mais propenso a ser infeliz no amor, por exemplo, podendo sofrer ou praticar agressões física e/ou psicológicas constantemente, uma vez que elas não tenham trabalhado as questões como a frustração, a autonomia de querer e poder tomar as próprias decisões e respeitar as dos outros. Também não é raro que muitos adultos queiram recuperar uma infância que não tiveram ou prolongar a sua infância através de atitudes infantis cotidianas. De certa forma, não há problema algum em “ser criança” algumas vezes; o problema é não conseguir abandonar a infância quando a vida e a sociedade exigem um comportamento mais maduro de você.

O despreparo para a vida adulta se vê em diversas situações da vida em sociedade: são filhos que não conseguem sair da casa dos pais e terem uma vida própria, pessoas que preenchem a falta de afeto dos pais com outras pessoas, pessoas que não sabem respeitar as outras e as diferenças e que tomam a própria vida como referência universal, pessoas que não sabem lidar com a frustração... Então diante destes e de diversos outros problemas, em algum momento da vida as pessoas sentem saudades de quando eram crianças e não precisavam se preocupar com nada, pois o amor incondicional e a proteção dos pais eram o escudo que tinham em meio à infantilidade do mundo adulto.


sábado, 16 de julho de 2016

Questionando a tentativa de golpe na Turquia


Os acontecimentos da última sexta-feira (15/julho) na Turquia trouxeram à tona questões e visões estereotipadas sobre os significados de “democracia”, “golpe” e “regime militar”, questões estas ainda muito recentes no Brasil devido ao processo de impeachment que afastou a presidente Dilma Rousseff. Para uma melhor compreensão destes três conceitos, vamos analisá-los separadamente.

Democracia: este é um conceito muito controverso, mas no entendimento geral, uma democracia emana da vontade do povo* e direitos e liberdades fundamentais são respeitadas e asseguradas. Mesmo governada por civis, uma sociedade não pode ser considerada democrática se a população como um todo, ou em parte, é privada destes direitos. A Turquia não é um exemplo, uma vez que jornalistas que façam oposição ao governo sejam presos. Além disso, os protestos de 2013 (que estimularam os protestos de junho de 2013 no Brasil), já mostravam que a população não estava muito feliz com Erdogăn. No entanto, fatos como este não são levados em conta, ou são até mesmo esquecidos por jornalistas e analistas de Relações Internacionais que acabam entendendo democracia simplesmente como “um regime que elege democraticamente o seu líder de acordo com a Constituição deste país”.

Desta forma, acabamos tendo uma visão muito míope do que signifique democracia, pois fica parecendo que um país é democrático simplesmente pelo fato de ter um civil no poder, ou porque ele foi eleito de acordo com o que é previsto pela Constituição. Hitler não chegou ao poder na Alemanha através de um golpe de Estado: poderíamos então dizer que o seu governo foi democrático ou que sua deposição seria um golpe?

Golpe: no consenso geral, entende-se que todo golpe de Estado é, necessariamente, a coisa mais horrorosa que pode acontecer dentro de um regime democrático. Mas e quando este Estado não é democrático mesmo governado por um civil? Existe um consenso no mundo inteiro de que um golpe é sempre algo ruim, especialmente nas últimas décadas após vivenciarmos ditaduras sangrentas e repressivas na América Latina e no Leste Europeu, por exemplo. Nós, brasileiros, quando ouvimos a palavra “golpe” quase que imediatamente já associamos ao golpe de 1964 e o tomamos como base. Esquecemos, no entanto, que a Proclamação da República de 1889 nada mais foi do que um golpe de Estado e através dos militares (marechal Deodoro da Fonseca) que derrubou a monarquia de Dom Pedro II no ano seguinte à abolição da escravatura, com o apoio das elites cafeicultoras que não tinham seu poder econômico refletido em poder político.

Regime militar: os militares ainda causam muito horror na população civil, muito pelo seu histórico de envolvimento em golpes de Estado nos vários cantos do mundo e em regimes autoritários. Um golpe militar na Turquia mostra que, possivelmente, não aconteceria nada além da troca de um regime autoritário por outro com a diferença que, em vez de civis, militares estariam no controle. É ingênuo não ver Erdogăn como uma ameaça à democracia da Turquia, pois se ele já não respeita aos direitos e liberdades, o que o impede de desrespeitar a Constituição e cancelar as próximas eleições? O histórico dos militares no poder é negativo, mas enxergá-los como um inimigo constante pode ser injusto e tende a nos fazer pensar que um regime civil sempre será melhor do que um regime militar, por pior que seja.

Resumidamente, esta postagem propõe que reflitamos melhor sobre os nossos conceitos e pré-conceitos quando nos deparamos com questões como estas, especialmente quando envolvem um país que pouco sabemos como a Turquia. Diante da nossa ignorância, devemos ter muita cautela com as informações que recebemos através dos meios de comunicação (jornais, televisão, internet), pois o jornalismo não tem a função de educar, mas sim de transmitir as informações de maneira curta, clara e de fácil compreensão, comprometendo uma análise mais aprofundada da realidade e da gravidade das coisas.

Não dá para comparar a tentativa de golpe** (que, aliás, pode ter sido armado uma estratégia para fortalecer ainda mais o governo atual), com o histórico brasileiro. Quando ouvimos falar de golpe, lembramos-nos do impeachment de Dilma e do golpe de 1964 como se a situação fosse a mesma. Quando falamos em democracia, ignoramos o fato de que governantes civis podem ser tão autoritários quanto os militares. Ou seja, acabamos contaminando uma análise sensata quando levamos em conta os nossos preconceitos e pré-julgamentos tomando as nossas próprias experiências como referência em um país que não é igual ao nosso. O atual regime da Turquia não é idêntico ao de Dilma ou João Goulart, a situação política não é a mesma e a postura militar também não será a mesma. Então não sejamos ingênuos e precipitados e vamos aprender a separar as coisas, ok?

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* Nem sempre a vontade do povo será racional, portanto, a vontade da maioria pode ser prejudicial a uma parcela minoritária da população ou à própria população em maioria.
** Lembrar do Golpe do Estado Novo de 1937, quando Getúlio Vargas forjou um documento conhecido como “Plano Cohen” que dizia que o Brasil vivia sob uma ameaça comunista. Assim, com a aproximação das eleições de 1938, Vargas deu um novo golpe e adquire poderes ainda maiores em nome do combate ao comunismo.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O cinismo por trás da hashtag #ForaTemer

Engraçado como as personalidades políticas e seus militantes fanáticos são ou cínicos ou ingênuos. Antes que Michel Temer começasse a preparar o terreno para o “golpe”, não houve nenhuma oposição a sua indicação como vice da chapa de Dilma; nem das personalidades políticas do PT e nem de seus militantes. Não havia ninguém que apoiasse Dilma/PT se mobilizando em protestos com cartazes pedindo #ForaTemer e usando os megaeventos esportivos e o Festival de Cannes como palanque para protestos.

Na realidade, a cultura da corrupção do PT e dentro da própria gestão em nome da governabilidade não surge com o “golpe” de 2016. Já em 2005 foi revelado o esquema do Mensalão que, resumidamente, consistia em pagamento de suborno a deputados de partidos menores para que estes votassem a favor das pautas do governo, uma vez que o PT tinha apoio de apenas 1/5 da Câmara dos Deputados. Depois disso, o PT realizou várias alianças com tradicionais inimigos políticos e celebridades da corrupção, como Paulo Maluf. Diante disso, alguns políticos se desfiliaram do partido e migraram para outros ou fundaram novos, ou se mantiveram no partido mesmo com todos os absurdos cometidos pelo PT em nome da governabilidade.

Certamente, não é fácil para o próprio PT e seus militantes lidarem com o embaraço da conivência com a corrupção e a aliança a qualquer político que garanta votos e governabilidade. Uma estratégia que deu muito certo foi contribuir para a atual polarização do cenário político: se você critica o PT, logo você é tucano, neoliberal, coxinha e do diabo a quatro. Utilizando-se de uma retórica anti-PT, esta é uma estratégia para “desviar o foco”, ou seja, responder uma crítica/acusação com outra para se poupar do constrangimento de respondê-la diretamente. Esta estratégia deu muito certo porque a gestão do FHC foi tão problemática em nome da estabilização da economia que ela cresceu pouco. O governo FHC sofreu com diversas crises internacionais (México 1995, Ásia 1997, Rússia 1998 e Argentina 2001), com o fracasso das privatizações simbolizada pela crise energética de 2001 e uma economia que crescia a índices muito baixos. A insatisfação foi tanta que a população optou por eleger Lula, um líder de esquerda em um país tradicionalmente conservador. O governo Lula, por outro lado, contou com um cenário internacional mais favorável, alavancado pelo crescimento chinês, exportação das commodities e expansão do crédito internacional, o que possibilitou o crescimento da economia e fortaleceu uma imagem de que o PSDB simbolizava a fraqueza, a incompetência e a submissão aos interesses estrangeiros em detrimento do interesse nacional.

O PT não aprendeu com as críticas e continuou viciado em realizar alianças com personalidades políticas duvidosas, tais como Michel Temer. Aliás, juntar-se ao PMDB ao mesmo tempo em que pode significar força política (já que não se governa sem apoio deste partido), também pode significar instabilidade, uma vez que eles não tenham diretrizes político-ideológica claras como o PT e o PSDB, mas se juntem ao partido que está no governo.

Diante disto, pegar Michel Temer para Cristo e acusá-lo de ser golpista é não reconhecer que o PT traiu a si próprio e aos seus eleitores que diminuíam a cada eleição. E isto não tem nada a ver com ser coxinha, neoliberal, leitor da Veja ou ter votado no Aécio, pois muita gente votou na Dilma não por acreditar no potencial da presidente afastada, mas por rejeição a tudo que Aécio/PSDB representam no presente e no passado. Com o afastamento de Dilma, é mais cômodo e cínico protestar contra Temer do que reconhecer a conivência do PT com o universo da corrupção e dos jogos de poder e que, cedo ou tarde, poderia ser traído por personalidades políticas nada confiáveis.

Além do pudor em reconhecer os erros do PT e do cinismo dos protestos contra Temer, há também a carência de representatividade da esquerda. Foi durante o governo do PT que as minorias e grupos reprimidos se sentiram encorajados e conquistaram mais vez e voz. O governo Dilma deu mais espaço às mulheres no alto escalão do governo. Embora ainda sofram muito com a violência, os homossexuais brasileiros conquistaram o direito da união homoafetiva muito antes dos Estados Unidos. Os negros ganharam maior poder de expressão e oportunidades de ascensão social com a política de cotas. O mesmo ocorreu com a população mais pobre, que ascendeu para a chamada “classe média”. Mulheres, homossexuais, negros e pobres não conseguem se ver representados em outros partidos, desta forma, se tornaram “reféns do PT”. Esta falta de representatividade ficou nítida na formação dos ministérios de Temer, que contava com uma equipe formada 100% por homens e 100% brancos, ou seja, não havia nenhuma mulher e nenhum negro ou indígena.

A “traição” sofrida por Dilma mostra que o PT se tornou dependente de uma cultura de corrupção e de alianças com políticos comprovadamente corruptos para poder governar e se manter no poder. A esquerda se vê refém da força do PT para se ver representada, principalmente os grupos reprimidos como mulheres, negros, pobres e homossexuais; então não é que eles necessariamente apoiem o PT ou a Dilma, mas sim porque não têm opção (há outros partidos menores, mas sem a mesma força do PT). Infelizmente a polarização política no Brasil se agravou tanto que muita gente não sabe fazer a dissociação “se criticar o PT é coxinha, se elogiar é petralha”, o que é muito problemático, pois inviabiliza uma diálogo e mantém o clima político e social caótico. É uma briga onde todos perdem, pois todos os preconceitos enraizados vêm à tona e de forma violenta. O ideal é o consenso e a paz, seja ela protelada (onde o reprimido aceita a repressão em nome da ordem) ou seja através de justiça social (onde fica difícil distinguir repressor e reprimido).