domingo, 22 de maio de 2016

Resignar-se ou revoltar-se?



Há muitas situações na vida que a gente só entende quando vivencia. Algumas delas podem ser apenas uma fase, enquanto outras duram a vida toda. Pois bem, este texto é sobre pessoas que são oprimidas por alguma característica temporária ou permanente que faz parte da vida delas como gênero, orientação sexual, cor, etnia, classe social, características físicas, ideologia, filosofia de vida, etc. Por possuírem estas características, muitas delas jamais saberão o que é ter uma vida “normal”, livre de julgamentos e coerções diversas, que podem ser sutis desde “comportar-se adequadamente” às mais violentas, como agressão física ou, em alguns casos, até em morte.

Diante destas coerções, há apenas duas opções: resignar-se ou revoltar-se. A pessoa que se resigna, dependendo de como é criada e lida com a sua característica problematizada dentro de um dado meio social (família, sociedade), pode optar por oprimir esta característica dentro dela mesma ou pode procurar se adaptar aos limites que encontra. Por exemplo, um homossexual pode tanto procurar reprimir a sua sexualidade e procurar viver em paz consigo mesmo, ou pode reproduzir a opressão que sofre diante de outro homossexual em atos de homofobia, ou pode até se aceitar a sua homossexualidade, mas se condiciona aos limites da sociedade “normal”, que é o que ocorre com os homossexuais chamados de heteronormativos (aqueles que se aceitam gays, mas procuram agir “como homem”).

É importante salientar que resignar-se não significa encontrar uma forma de conviver bem com os outros e, sobretudo, consigo mesmo. Em muitos casos, significa empurrar com a barriga uma situação que, embora possa causar algum grau maior ou menor de sofrimento para as pessoas ao seu redor, não há pessoa que saia mais prejudicada do que você mesmo. Nem todo mundo é homem, heterossexual, branco, de classe média, bonito, etc. A maior parte das pessoas possuem uma ou mais características que não se encaixam dentro desse tipo que não é discriminado por ser como é. E dentro desse grupo de oprimidos surgem os movimentos que se revoltam e procuram desconstruir tudo o que é imposto como “normal” e “aceitável”.

A reação inicial é de zombaria. Estas pessoas que se revoltam são taxadas de loucas e são tratadas como tal, inclusive por quem sofre discriminação. Romper com os padrões incomoda quem não sabe o que é estar do outro lado porque oprime, da mesma forma que pode também incomodar os próprios oprimidos que não tenham a mesma coragem, ainda, de se aceitarem como são. As redes sociais são, para muitos dos oprimidos, a válvula de escape para conversar com pessoas que também possuam essas características e, dessa forma, se libertarem e se unirem. É claro que isto também gera uma reação. Muitas páginas no Facebook de movimentos LGBT e feministas estão recheadas de debates (muitas vezes, brigas) entre os opressores e os oprimidos e entre os próprios oprimidos. A ação dos opressores é sempre de tentar, na pior das hipóteses, ridicularizar ou ameaçar os oprimidos e, ou na “menos pior” das hipóteses, minimizar as demandas dos oprimidos ou apelar para uma diplomacia questionável.

O papel desta diplomacia merece uma atenção especial, pois mesmo que haja uma boa intenção em procurar evitar o conflito, ela procura deixar tudo como está, ou seja, mantendo uma relação opressor-oprimido quando o ideal seria que se estabelecesse uma relação de respeito mútuo. Dentro deste pensamento diplomático, é a vítima que procura pela própria agressão. Se um homossexual demonstra afeto ou “dá pinta” em público, ele está pedindo para ser zombado ou agredido. Se uma mulher usa roupa curta, ela está pedindo para ser estuprada. Se um negro entra em uma loja de joias, ele está pedindo para ser preso. Esta diplomacia pode ser muita cínica também em muitos casos, como na atual capa da revista IstoÉ, que clama pela união do Brasil depois que Dilma foi afastada da presidência, no entanto, não houve nenhum clamor pela união nacional enquanto o PT ocupava a presidência da república.

Então se a resignação significa prolongar a solução de um problema, revoltar-se é o caminho? Aqui depende do grau de revolta, porque é necessário avaliar o que é revolta e qual é a sua legitimidade.

A revolta pode se dar de maneira violenta ou não, mas é muito comum que seja sim de maneira violenta. Foi a partir do momento que muitas pessoas se rebelaram com as suas condições de vida que a sociedade mudou violentamente (literalmente). A Revolução Francesa foi uma delas, quando a exploração do terceiro estado, gerou a revolta do povo, que vivia na miséria. Estas revoluções também não ocorrem de maneira ordenada, enfrenta uma série de crises internas e leva muito tempo para se consolidar. Durante a escravidão, havia os negros que se rebelavam, que fugiam ou eram punidos e, entre os oprimidos, havia aqueles que delatavam os planos de fuga ou caçavam os escravos fugidos. Entre as mulheres, ainda existe uma cultura machista de viver em função do homem e temer à ameaça de perdê-los para as outras “vagabundas”. Entre os homossexuais, há aqueles que se ridicularizam por ser mais ou menos afeminados. Esta desunião perpetua a situação de opressão, o sentimento de impotência entre os oprimidos e de superioridade dos opressores. Nestas brigas, os oprimidos que defendem o tradicional agem como soldados que defendem uma causa que os aprisiona. O atual cenário político brasileiro é a pintura desta síndrome de Estocolmo política onde o oprimido passa a defender o seu opressor. Outro ponto interessante é a questão da psicologia da opressão, onde o oprimido acredita realmente que está defendendo “a própria opinião”, mas que, na realidade, é a opinião de quem oprime.

Há casos em que a revolta não se limita a um bate boca nas redes sociais. Diante de tantas humilhações e agressões, é possível que a revolta se dê de maneira violenta, quando a agressão (física ou psicológica) é devolvida na mesma medida. Mais uma vez, os pacifistas entram em cena dizendo que não se deve responde agressão com mais agressão. Mais uma vez, o oprimido é levado a crer que, se ele partiu para a agressão ele “perdeu a razão” (como se ele tivesse alguma razão, aos olhos do pacifista). Mas então o que é que resta para o oprimido? Continuar sendo humilhado, baixar a cabeça e ser obediente? É exatamente isto que o discurso pacifista prega, mas que não verbaliza e procura não demonstrar. No entanto, não é que o pacifista seja deliberadamente cínico, pois ele pode reprovar a posição do opressor. Ele não quer resolver nada e nem se indispor com o opressor. Ele apenas quer que oprimidos sejam obedientes e que os opressores respeitem algum limite, mas efetivamente, ele não deseja mudar nada, pois é só a revolta que muda.

Os grupos sociais que sofrem opressão são inúmeros. Cabe a cada indivíduo escolher se deseja se resignar e aceitar ser tratado de maneira inferior ou revoltar-se. Revoltar-se é um ato de coragem e que implica em muitos desafios. Constantemente as suas demandas são ridicularizadas, ou diminuídas. A prática opressora é antiga e conta com um exército de oprimidos que não despertaram para a liberdade por medo do preço que teriam que pagar e com uma série de práticas tidas como “normais” e “aceitáveis”. Questionar estas práticas é algo desgastante e muitos desistem pelo caminho quando sua vida melhora um pouco quando conquista alguma vitória. A grande questão é, voltando ao começo do texto, que há muitas situações na vida que a gente só entende quando vivencia. E muita gente morreu e vai nascer não sabendo o que é ter paz, o que é ser respeitado, em função do seu gênero, da sua orientação sexual, da cor da sua pele, de sua etnia e de muitas outras características que elas não podem mudar. Isso cansa. Para quem está de fora, são todos “loucos”, são todos “anormais”. O mais importante entre resignar-se ou revoltar-se é estar bem consigo mesmo, nem que seja vivendo uma ilusão dentro de uma realidade lúgubre, porque quem está bem consigo mesmo não faz mal aos outros.

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