sexta-feira, 27 de maio de 2016

Sobre o impeachment de Dilma


Passado o clima do calor do impeachment de Dilma, pelo menos entre as massas, agora seria relativamente possível fazer uma análise pragmática de tudo o que aconteceu, sobretudo de todos os interesses políticos e de grandes empresas (aquelas que faturam milhões) por detrás deles e de como as massas são importantes para a legitimação do que quer que se queira legitimar. Muitas questões podem e devem ser pensadas e aqui irão algumas delas:

1. O que significa democracia para os brasileiros?
Por mais avacalhada que esteja a política brasileira, não há político que diga que é contra a democracia abertamente, mesmo que seus discursos digam o contrário. Já a população, que não precisa em ser democraticamente eleita, pode acabar fazendo a mesma coisa: por ignorância, se diz democrática, mas defende a volta da ditadura militar, por exemplo. No entanto, se entendermos democracia como “vontade de povo”, nem sempre sua voz será ouvida. O processo de impeachment de Dilma contou, teoricamente, com o apoio das massas, que se mobilizou e foi às ruas e, portanto, legitimaria o impeachment mesmo que ele fosse juridicamente questionável. Então o que vale mais: a vontade popular imediata ou o que está escrito na Constituição? Além disso, é importante saber quem é essa “maioria” e qual é a sua real vontade. A vontade de ir às ruas protestar tanto a favor quanto contra o impeachment é uma vontade autônoma ou genuína da população ou ela está indo lá sendo guiada pela emoção, por suas visões político-ideológicas e pelo o que a imprensa noticia à exaustão?

2. Em nome da democracia a agonia deve ser prorrogada até 2018?
Dilma não conseguiu governar desde que venceu as eleições de 2014, quando o PSDB pediu uma recontagem de votos e a possibilidade de impeachment começou a partir dali. Para piorar, Dilma fez exatamente o contrário do que prometeu fazer e, mesmo com o slogam “Pátria Educadora”, cortou verbas da educação e muitos outros setores. O governo perdeu popularidade rapidamente e este foi o cenário perfeito para a oposição derrubar a imagem de Lula e do PT pretendo associá-los a todo e qualquer esquema de corrupção. Desta forma, a população começou a se sentir traída e a desejar a saída de Dilma. A oposição procurou criar o clima de revolta perfeito para fazer a população ir às ruas e pedir a saída de Dilma, numa forma de causar e legitimar sua queda. Porém, em nome da democracia o agonizante governo Dilma deveria ser prorrogado até 2018? Se não houve crime, a resposta é sim. A democracia não é perfeita e não dá para retirar do poder todo e qualquer mal gestor, pois, se assim fosse, quase nenhum vereador, prefeito, deputado, governador sobreviveria no cargo. A diferença, porém, é que o cargo de Presidente é muito visado e há uma imagem no imaginário popular de que o Presidente tudo pode e que não depende de ninguém, assim como nos filmes do cinema estadunidense.

3. Dilma ainda pode voltar
Por mais que o clima de golpe seja evidente (iniciado pelo vazamento das conversas do ex-ministro Romero Jucá), falar em golpe antes do julgamento do impeachment pode ter sido um tanto quanto imprudente, pois o golpe não foi consumado (ainda). A presidente Dilma foi afastada após o processo ter sido aprovado no Senado depois de ter passado no Congresso, no entanto, ela ainda não foi julgada pelo suposto crime e, se não houver provas, ela irá voltar (teoricamente). Se mesmo sem provas ela for afastada da presidência, então terá sido, de fato, um golpe.

4. Onde estão os 54 milhões de votos que Dilma recebeu?
Dizer que 54 milhões votaram em Dilma porque queriam Dilma é exagerado. Muitos podem ter votado nela por falta de opção ou por rejeição a Aécio. Em menos de um ano e meio, foram poucos os que saíram às ruas para protestar a favor de Dilma abertamente e uma parcela defendia a Constituição, não o seu governo. É importante saber separar o que é Constituição e o que é defender um político.

5. Quem votou em Dilma não tem o direito de duvidar da presidente e mudar de opinião?
Um argumento muito utilizado nestas discussões sem fim nos Facebooks da vida é o de polarizar tudo a PT ou PSDB. Para alguém que votou em Dilma, duvidar do PT pode soar como uma heresia ou um flerte com o golpismo. Por mais tendenciosa que tenha sido a imprensa, a manobra de nomear Lula como ministro para livrá-lo da Lava Jato mostra que, para se manter no poder, vale tudo. Isto gerou todo um alarde e impedimentos judiciais, porém, o que houve quando Temer fez o mesmo nomeando SETE ministros envolvidos na Lava Jato foi consentimento da imprensa e da população, silêncio e nenhum juiz querendo bancar o herói nacional. Se Dilma não obteve o apoio dos 54 milhões para se manter no poder não foi exclusivamente graças à sua política econômica impopular, mas também a uma santidade que não existe no PT e em nenhum outro partido.

6. O que importa mais para a população: a satisfação de seus desejos imediatos ou uma Constituição que a maioria deles nem sabe para o que serve?
Em um país onde a escolaridade é baixa e que se tenta democratizar de cima para baixo (ampliando as cotas nas universidades, mas com ensino básico precário), não é de se esperar que a população tenha noções básicas de economia e direito, por exemplo. Muitos só conseguem compreender estas ciências quando ingressam no ensino superior, o que não significa que se formem sendo especialistas no assunto tampouco. A economia está dividida em três vertentes que debatem valores subjetivos: liberalismo, keynesianismo e marxismo. Dentro de uma população de 205 milhões, logicamente vai existir gente que defende que tudo deva ser privatizado e que as pessoas devam gastar o seu salário da maneira como acharem melhor, enquanto outras defendem que vários serviços devam ser públicos porque muita gente não teria como pagar por educação e saúde básicas, por exemplo. Depende de quem se é e como se vive. No direito, as leis são criadas para defender aqueles que são considerados os valores caros de uma sociedade e nem sempre vão contar com o apoio da maioria da população.

Em um clima de crise econômica e política, a população apenas quer que tudo isto seja solucionado rapidamente e o problema é justamente esse: qualquer medida que resolva o problema mesmo que de maneira paliativa basta, mesmo que as consequências futuras sejam piores. O milagre econômico do regime militar iludiu (e ainda ilude) muita gente que acha que as coisas só dependem de vontade política para acontecer, mas tudo isso depende de muita análise. Os projetos da época do “milagre” foram financiados com o capital estrangeiro baseados na taxa de juros dos EUA. A crise do petróleo dos anos 1970 causou danos à economia dos EUA, que aumentou a sua taxa de juros e tornou as dívidas externas dos anos 1980 impagáveis. Ou as pessoas acham que o cenário de hiperinflação ocorreu da noite para o dia?

7. Quem votou em Dilma, votou em Temer
Esta é uma verdade inconveniente e custa ao PT querer aceitar. Em nome da governabilidade e para se manter no poder, o PT se aliou com qualquer partido ou político que fosse importante, por mais ficha-suja que fosse. O PMDB sempre foi um partido que procurou estar ao lado dos grandes e não tem uma ideologia política definida. Uma hora é aliado da esquerda, numa outra hora é da direita, dependendo de quem estiver no poder. Em 1994, lançaram uma chapa própria (Quércia) e perderam. Em 1998, apoiaram FHC (PSDB) e venceram. Em 2002, apoiaram Serra (PSDB) e perderam. Em 2006, se mantiveram neutros. Em 2010, apoiaram Dilma (PT) e venceram, tal como em 2014. Ou seja, o PMDB procura estar sempre do lado que está ganhando, mas desde 1994 não lançam um candidato próprio e em 2002, 2010 e 2014, sempre foram vices nas chapas. Foi ingenuidade do PT esperar fidelidade política de um partido que está sempre ao lado de quem ocupa o poder e que pula para fora do barco quando ele começa a afundar.

8. Posição de deputados e senadores
A maioria dos deputados e senadores que votaram a favor do impeachment eram da base de apoio do PT até pouco tempo. A maioria daqueles deputados que votaram pelo “sim” em nome da própria família, e não porque acreditavam ter existido crime de responsabilidade fiscal, já tiveram a Dilma ou o Lula estampados em seus santinhos de campanha eleitoral. Mais uma vez, isto mostra que não existe fidelidade partidária. Ninguém se ama ou se odeia na política, todos amam o poder e usam o povo como massa de manobra colocando-o contra seus adversários políticos no momento das eleições, mas passado isto, eles voltam a ser amigos e a negociar ministérios.

9. Função do povo
O povo é muito ingênuo ao pensar que existe o “bem” e o “mal” na política, e os políticos reconhecem isso e sabem, habilmente, como manipular o povo que é comandado pelas suas emoções, e não pela sua racionalidade. É o povo quem legitima qualquer governo, mesmo que não seja legítimo, como o de Vargas após o golpe de 1930 e dos militares, em 1964, ou de Sarney após a morte de Tancredo (era vice, mas não era o candidato que a população queria). Contanto que suas medidas sejam populistas e busquem a satisfação imediata, esta legitimação pode ser alcançada, mesmo que o desastre venha depois e perdure por anos (relembrar do milagre econômico). Sem o povo se revoltando e indo as ruas pedir o #ForaDilma, o seu impeachment não seria bem recebido como está sendo. Nenhum político se importa realmente com o povo, mas em sim em se eleger. Porém o povo, sem saber que serve apenas como massa de manobra, age como um animal adestrado que defende seus donos com unhas e dentes, o que explica as várias discussões e provocações acaloradas no ambiente virtual e, em alguns casos, nas brigas físicas entre as torcidas políticas (sim, a militância é uma torcida, independente do lado que for). Enquanto isso, a integridade física dos seus políticos segue intacta.

Quem se importa de fato com política é uma pequena elite (econômica e intelectual), enquanto a maior parte dos brasileiros não está nem aí se com a queda de Dilma assume o Temer, Cunha ou o Tiririca. Essa imensa maioria não tem opinião própria, mas suas opiniões são formadas por tudo o que recebem da mídia e até mesmo de montagens no Facebook e grupos de Whatsapp. Isto porque a maior parte dessa população não é abarcada pelo governo e sente que é tratada como um mero voto, então eles não estão nem aí para esse jogo de interesses que é a política. Então se há alguma racionalidade dentro dessa massa é em não ser vítima de uma Síndrome de Estocolmo em grandes proporções. O brasileiro não ama o político que lhe explora gratuitamente. Ele ama quem lhe oferecer os melhores benefícios, ou lhe vender a mais encantadora ilusão.

domingo, 22 de maio de 2016

Resignar-se ou revoltar-se?



Há muitas situações na vida que a gente só entende quando vivencia. Algumas delas podem ser apenas uma fase, enquanto outras duram a vida toda. Pois bem, este texto é sobre pessoas que são oprimidas por alguma característica temporária ou permanente que faz parte da vida delas como gênero, orientação sexual, cor, etnia, classe social, características físicas, ideologia, filosofia de vida, etc. Por possuírem estas características, muitas delas jamais saberão o que é ter uma vida “normal”, livre de julgamentos e coerções diversas, que podem ser sutis desde “comportar-se adequadamente” às mais violentas, como agressão física ou, em alguns casos, até em morte.

Diante destas coerções, há apenas duas opções: resignar-se ou revoltar-se. A pessoa que se resigna, dependendo de como é criada e lida com a sua característica problematizada dentro de um dado meio social (família, sociedade), pode optar por oprimir esta característica dentro dela mesma ou pode procurar se adaptar aos limites que encontra. Por exemplo, um homossexual pode tanto procurar reprimir a sua sexualidade e procurar viver em paz consigo mesmo, ou pode reproduzir a opressão que sofre diante de outro homossexual em atos de homofobia, ou pode até se aceitar a sua homossexualidade, mas se condiciona aos limites da sociedade “normal”, que é o que ocorre com os homossexuais chamados de heteronormativos (aqueles que se aceitam gays, mas procuram agir “como homem”).

É importante salientar que resignar-se não significa encontrar uma forma de conviver bem com os outros e, sobretudo, consigo mesmo. Em muitos casos, significa empurrar com a barriga uma situação que, embora possa causar algum grau maior ou menor de sofrimento para as pessoas ao seu redor, não há pessoa que saia mais prejudicada do que você mesmo. Nem todo mundo é homem, heterossexual, branco, de classe média, bonito, etc. A maior parte das pessoas possuem uma ou mais características que não se encaixam dentro desse tipo que não é discriminado por ser como é. E dentro desse grupo de oprimidos surgem os movimentos que se revoltam e procuram desconstruir tudo o que é imposto como “normal” e “aceitável”.

A reação inicial é de zombaria. Estas pessoas que se revoltam são taxadas de loucas e são tratadas como tal, inclusive por quem sofre discriminação. Romper com os padrões incomoda quem não sabe o que é estar do outro lado porque oprime, da mesma forma que pode também incomodar os próprios oprimidos que não tenham a mesma coragem, ainda, de se aceitarem como são. As redes sociais são, para muitos dos oprimidos, a válvula de escape para conversar com pessoas que também possuam essas características e, dessa forma, se libertarem e se unirem. É claro que isto também gera uma reação. Muitas páginas no Facebook de movimentos LGBT e feministas estão recheadas de debates (muitas vezes, brigas) entre os opressores e os oprimidos e entre os próprios oprimidos. A ação dos opressores é sempre de tentar, na pior das hipóteses, ridicularizar ou ameaçar os oprimidos e, ou na “menos pior” das hipóteses, minimizar as demandas dos oprimidos ou apelar para uma diplomacia questionável.

O papel desta diplomacia merece uma atenção especial, pois mesmo que haja uma boa intenção em procurar evitar o conflito, ela procura deixar tudo como está, ou seja, mantendo uma relação opressor-oprimido quando o ideal seria que se estabelecesse uma relação de respeito mútuo. Dentro deste pensamento diplomático, é a vítima que procura pela própria agressão. Se um homossexual demonstra afeto ou “dá pinta” em público, ele está pedindo para ser zombado ou agredido. Se uma mulher usa roupa curta, ela está pedindo para ser estuprada. Se um negro entra em uma loja de joias, ele está pedindo para ser preso. Esta diplomacia pode ser muita cínica também em muitos casos, como na atual capa da revista IstoÉ, que clama pela união do Brasil depois que Dilma foi afastada da presidência, no entanto, não houve nenhum clamor pela união nacional enquanto o PT ocupava a presidência da república.

Então se a resignação significa prolongar a solução de um problema, revoltar-se é o caminho? Aqui depende do grau de revolta, porque é necessário avaliar o que é revolta e qual é a sua legitimidade.

A revolta pode se dar de maneira violenta ou não, mas é muito comum que seja sim de maneira violenta. Foi a partir do momento que muitas pessoas se rebelaram com as suas condições de vida que a sociedade mudou violentamente (literalmente). A Revolução Francesa foi uma delas, quando a exploração do terceiro estado, gerou a revolta do povo, que vivia na miséria. Estas revoluções também não ocorrem de maneira ordenada, enfrenta uma série de crises internas e leva muito tempo para se consolidar. Durante a escravidão, havia os negros que se rebelavam, que fugiam ou eram punidos e, entre os oprimidos, havia aqueles que delatavam os planos de fuga ou caçavam os escravos fugidos. Entre as mulheres, ainda existe uma cultura machista de viver em função do homem e temer à ameaça de perdê-los para as outras “vagabundas”. Entre os homossexuais, há aqueles que se ridicularizam por ser mais ou menos afeminados. Esta desunião perpetua a situação de opressão, o sentimento de impotência entre os oprimidos e de superioridade dos opressores. Nestas brigas, os oprimidos que defendem o tradicional agem como soldados que defendem uma causa que os aprisiona. O atual cenário político brasileiro é a pintura desta síndrome de Estocolmo política onde o oprimido passa a defender o seu opressor. Outro ponto interessante é a questão da psicologia da opressão, onde o oprimido acredita realmente que está defendendo “a própria opinião”, mas que, na realidade, é a opinião de quem oprime.

Há casos em que a revolta não se limita a um bate boca nas redes sociais. Diante de tantas humilhações e agressões, é possível que a revolta se dê de maneira violenta, quando a agressão (física ou psicológica) é devolvida na mesma medida. Mais uma vez, os pacifistas entram em cena dizendo que não se deve responde agressão com mais agressão. Mais uma vez, o oprimido é levado a crer que, se ele partiu para a agressão ele “perdeu a razão” (como se ele tivesse alguma razão, aos olhos do pacifista). Mas então o que é que resta para o oprimido? Continuar sendo humilhado, baixar a cabeça e ser obediente? É exatamente isto que o discurso pacifista prega, mas que não verbaliza e procura não demonstrar. No entanto, não é que o pacifista seja deliberadamente cínico, pois ele pode reprovar a posição do opressor. Ele não quer resolver nada e nem se indispor com o opressor. Ele apenas quer que oprimidos sejam obedientes e que os opressores respeitem algum limite, mas efetivamente, ele não deseja mudar nada, pois é só a revolta que muda.

Os grupos sociais que sofrem opressão são inúmeros. Cabe a cada indivíduo escolher se deseja se resignar e aceitar ser tratado de maneira inferior ou revoltar-se. Revoltar-se é um ato de coragem e que implica em muitos desafios. Constantemente as suas demandas são ridicularizadas, ou diminuídas. A prática opressora é antiga e conta com um exército de oprimidos que não despertaram para a liberdade por medo do preço que teriam que pagar e com uma série de práticas tidas como “normais” e “aceitáveis”. Questionar estas práticas é algo desgastante e muitos desistem pelo caminho quando sua vida melhora um pouco quando conquista alguma vitória. A grande questão é, voltando ao começo do texto, que há muitas situações na vida que a gente só entende quando vivencia. E muita gente morreu e vai nascer não sabendo o que é ter paz, o que é ser respeitado, em função do seu gênero, da sua orientação sexual, da cor da sua pele, de sua etnia e de muitas outras características que elas não podem mudar. Isso cansa. Para quem está de fora, são todos “loucos”, são todos “anormais”. O mais importante entre resignar-se ou revoltar-se é estar bem consigo mesmo, nem que seja vivendo uma ilusão dentro de uma realidade lúgubre, porque quem está bem consigo mesmo não faz mal aos outros.