sábado, 19 de março de 2016

Somos massa de manobra

Talvez a semana que se passou tenha sido histórica para os rumos que a democracia do Brasil pode vir a tomar em breve e também no futuro. Parece uma unanimidade, ou até mesmo um clichê, dizer que o Brasil está ainda pior do que sempre foi, mas o fato é que as coisas atingiram um grau de gravidade que não se via desde o impeachment de Collor, em dezembro de 1992 e podemos estar vendo o repetir da História.

É como se tivéssemos voltado para 1954, quando havia uma intensa polarização política. De um lado, um líder carismático com obcessão pelo poder, o “pai dos pobres” Getúlio Vargas. De outro lado, uma oposição que não se conformou com a derrota nas últimas eleições e fez uma oposição dura e agressiva. A crise atingiu o seu auge quando um guarda de Getúlio tentou assassinar o opositor Carlos Lacerda. Então Getúlio é pressionado a renunciar, mas era tão obcecado pelo poder, ou pela democracia, que ele cometeu suicídio. O evento causou grande comoção, a oposição perdeu apoio e o golpe foi adiado em dez anos.

Podemos fazer um paralelo com o que acontece agora. Getúlio seria Lula, que acredita ser a representação da vontade popular. O PT possui uma obcessão pelo poder, embora tenha vencido quatro eleições democraticamente. A oposição atual de direita (lideradas pelo PSDB e pela figura de Aécio Neves) contesta a reeleição de Dilma desde as eleições de 2014 e, juntamente com a imprensa, vem realizando um trabalho para retirá-la do poder e envolver o ex-presidente Lula no escândalo do Petrolão.

A jogada política de Dilma ao tentar nomear Lula seu ministro da Casa Civil, juntamente com o grampo do telefonema da presidente, mostram que Dilma e Lula não são os santos que pretendem mostrar que são. Estes eventos apenas mostram que o PT e nem um outro partido político é incorruptível, por mais que digam que “são a contra a corrupção e a favor da democracia”, mas ora, quem em sã consciência defenderia a corrupção publicamente?

Ok, Lula e Dilma mostraram o seu “lado negro” para os ingênuos que ainda defendem os dois com o mesmo fervor que um fanático religioso possui pela figura de Deus ou Alá. Assim como muitos outros partidos políticos, o PT mostrou novamente que, para se manter no poder, apela para manobras políticas se necessário for. No entanto, graças a imprensa e à ignorância da população sobre economia, política e direito, o PT/Dilma/Lula foram pegos para Cristo, como se apenas eles fossem corruptos e realizassem essas manobras e todos os outros partidos não estivessem envolvidos também no esquema do Petrolão, mas em muitos outros processos que foram arquivados e abafados pela imprensa.

Mais absurdo do que ainda acreditar no PT/Dilma/Lula é realmente acreditar que os outros partidos estão defendendo o impeachment em nome da moral e da ética política. É tudo uma disputa pelo poder, como foi desde sempre, o que muda é o discurso para ganhar o apoio popular. A oposição defende o impeachment porque quer tomar o poder. Se houve o processo de redemocratização do país foi porque a elite política que apoiou um regime militar porque eles seriam uma escada para que eles subissem ao poder, algo que não ocorreu. Os militares não entregaram o poder a essas elites como eles esperavam e prometiam devolver o comando do país aos civis na posse de cada novo presidente militar e esse processo durou 20 anos. Não foi por acaso que a própria elite que apoiou o golpe militar era a mesma que exigia a volta da democracia, já que ela se sentiu traída pelos militares. É por isso que esquerda e direita se dizem a favor da democracia, pois se os militares voltassem ao poder, os dois grupos ficariam de fora. Ou seja, eles não defendem a democracia porque são bonzinhos, mas porque ao assumirem o poder eles podem usar a máquina pública em prol de benefícios próprios. Não é a toa que há uma grande quantidade de médios e grandes empresários envolvidos com a política, principalmente se candidatando e se elegendo. Todas as acusações contra Lula são o maior exemplo disso (há várias empresas e empresários envolvidos no esquema), mas podemos pensar também nos vereadores da nossa cidade e nos deputados do nosso estado. Não é o colono que se candidata a um posto desses, mas é o empresário que possui terras e cabeças de gado que se lança candidato e, ao ter sido eleito, quer flexibilizar as leis de modo que elas sejam vantajosas para ele.

O que vimos nessa semana que se passou foi uma disputa onde vale tudo pelo poder. Dilma nomeia Lula ministro para livrá-lo do processo da Lava Jato. O juiz Sérgio Moro, por outro lado, se coloca acima da lei ao grampear o telefonema da presidente, a exigir a prisão temporária de Lula, assim como episódio da condução coercitiva. Muita gente aplaude o juiz e o enxerga como o nosso novo Salvador da Pátria porque, se necessário for, ele passa por cima mesmo da Constituição e esta é claramente uma atitude corrupta. Não me parece coerente combater corrupção com corrupção. Corrupção é desrespeitar as regras e as leis quando nos é conveniente, o que é perigoso, pois é a própria Constituição a garantia de que os nossos direitos não sejam violados. É claro que desrespeitar a Constituição não é exclusividade do juiz Moro e muitos outros políticos e a população comum a faz todo dia porque, do contrário, não haveriam crimes. Portanto, é minimamente hipocrisia nossa dizer que somos contra a corrupção sendo que, nós mesmos, somos corruptos. É claro que há níveis e níveis de corrupção. Desviar milhões de reais não é tão grave quanto furar a fila do ônibus, mas são ambas atitudes corruptas porque estamos violando uma lei do direito ou uma regra do convívio em sociedade.

Então o que vemos nesta bagunça toda, se olharmos para dentro de nós mesmos e deixarmos de ser escravos das nossas emoções, é que vemos o sujo falando do mal lavado. O PT/Dilma/Lula não são santos, da mesma forma que PSDB/Aécio/oposição também não são. Dizer que somos contra a corrupção, dizer que queremos resgatar a moral e a ética política é tudo um discurso bonito, mas cínico, de quem quer chegar ao poder custe o que custar, mas que para se legitimar no poder, precisa do apoio popular e essas manifestações "contra" e "a favor" de Dilma são o exemplo disso. As pessoas precisam acreditar na ilusão de que Político X é honesto e vai salvar o país, quando, na verdade, ele deseja alcançar o mesmo que PT/Dilma/Lula alcançaram. É lógico que há políticos que estão, sim, preocupados em construir um país melhor, mas infelizmente estes são muito poucos e não ganham a visibilidade que deveriam. Não adianta esperarmos que um novo Messias irá nos salvar e salvar o Brasil da corrupção e nos colocar no trilho do desenvolvimento quando a própria sociedade está rachada em vários setores que se rivalizam, e uma minoria muito rica da sociedade está no seio da política lutando pelos próprios privilégios e se autointitulando porta-vozes de uma população pobre que sustenta a sua riqueza. O que vemos no Brasil é uma disputa pelo poder onde a população é apenas massa de manobra, mas que é ignorante demais para se dar conta disso.

Para refletir: Não seja “contra” ou “a favor” de Dilma (como a imprensa gosta de taxar as manifestações desta semana), seja a favor de um país melhor e mais digno onde a democracia, a Constituição e os SEUS direitos sejam respeitados e garantidos. Não seja ingênuo de achar que um partido é melhor do que o outro sendo que eles só estão preocupados em chegar ao poder e usam a população como massa de manobra para legitimar a sua posição.

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