sexta-feira, 25 de março de 2016

Moldar-se

Muitas vezes nos aprisionamos em alguém que não somos ou não queremos ser porque a nossa espontaneidade foi interpretada de uma maneira tão ruim que nos vimos obrigados a nos autocensurarmos. É comum que as pessoas represem sentimentos, por exemplo, tanto os positivos quanto os negativos. Um “eu te amo” pode ser tudo o que alguém pode querer ouvir de alguém nessa vida, ao mesmo tempo que ele possui um significado tão forte e acolhedor quando é verdadeiro, pode esconder más intenções quando não é, implicando em sofrimento à outra parte. Então, é mais do que normal que as pessoas tenham receio de expressar os seus sentimentos, porque nada garante que a outra parte vai entender exatamente o que você quer dizer. Caso ela entenda, ótimo, você se sente acolhido pela compreensão, mas o fato de entender errado ou sequer querer entender, por outro lado, é algo que pode ser frustrante ou muito doloroso.

Há vários manuais (livros de autoajuda, conselhos, indiretas do Facebook) que procuram nos ensinar a como proceder. Como dizer que você gosta de alguém sem assustá-la? Como dizer que você se sente só sem ser interpretado como louco solitário? Como lidar com sentimentos não-correspondidos? Essas e várias outras perguntas fazem com que a gente tenha que se moldar para evitarmos frustrações, mas a realidade é que moldar-se não é a solução e nem é um bom paliativo. O importante é a gente entender a razão de algo nos frustrar, entender o que queremos e o que não queremos, querer o que é melhor para nós mesmos sem que isso signifique a dor do outro, entender o real significado de algo/alguém para nós e vice-versa. Este é um exercício cansativo e que demanda muita comunicação e muito autoesclarecimento, além disso, nem sempre será possível conciliar tudo e a frustração é inevitável. Moldar-se parece uma solução mais rápida e prática porque pode realmente nos poupar de sofrimentos desnecessários, mas ao mesmo tempo tira a nossa espontaneidade e nos aprisiona em quem não somos ou não queremos ser.

A palavra “jogo” por vezes se associa ao amor porque normalmente nos tornamos jogadores quando alguém se envolve emocionalmente mais que o outro. Quando essa pessoa mais envolvida demonstra os seus sentimentos e não vê a mesma intensidade do sentimento da outra parte, ela se retrai como forma de autopreservação (ou “vingança”) ou então é censurada pela outra parte, o que pode intensificar ainda mais a distância na intensidade dos sentimentos entre os dois. Situações assim se tornam frustrantes para ambos porque enquanto um se vê obrigado a girar um botão de diminuir a intensidade de sentimentos (que ninguém possui, da mesma forma que não há um botão de liga e desliga), a outra parte acaba se tornando mais fria e distante, ou acaba passando essa impressão, mesmo que não seja ou queira. Quando uma ou nenhuma das partes realmente sentia o que dizia/demonstrava sentir, elas lidam bem isso e já partem para uma próxima sem o menor problema. Porém, quando existe um sentimento verdadeiro da parte de alguém, essa assincronia dói.

Então, quando nos moldamos, não somos nós mesmos e é praticamente lógico que a superficialidade não vai trazer o que/quem quer que seja de verdadeiro para a vida da gente. Moldar-se nada mais é do que evitar a dor ao máximo, sendo que ela é inevitável. No fundo, no fundo, todos nós gostaríamos de ser quem realmente somos, sem jogos, sem a necessidade de ajustar o grau de intensidade quando percebemos a assincronia. Porém, isto só acontece quando a gente abre mão desse escudo de vidro que nos protege quando nos moldamos, perde o medo de caminhar no escuro e aceita correr o risco de cair e se machucar na busca de luz e conforto.

Um comentário:

  1. Tu fala de uma forma tão suave. Nunca fui do tipo que se adapta ao outro e talvez isso tenha sido o que me afastou do único cara puro, único e verdadeiro que passou pela minha vida. Depois que nos machucamos, preferimos o escudo...

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