sexta-feira, 25 de março de 2016

Escudo humano


Talvez nós fôssemos as duas pessoas certas na hora errada naquela época. Duas pessoas que se viram obrigadas a se moldar depois de cada um ter passado o que passou, algo sobre o qual pouco tocamos no assunto, talvez para deixarmos tudo isso enterrado no passado, talvez por autopreservação. Eu e as minhas “amizades” que nada mais eram do que conselhos online por detrás de uma tela de computador. E alguém que eu considerava uma grande amiga, a quem eu confidenciava tudo o que eu vivia e sentia, traiu a minha confiança e usou tudo o que eu havia confiado a ela como uma arma contra mim, demonstrando que a suposta amizade dela era uma mentira e eu nunca percebi. Como eu poderia confiar então em uma pessoa que eu ainda estava conhecendo? Será que ela também não abusaria da minha confiança e a usaria contra mim? Seria você quem Nietzsche odiaria que “me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia”?

De qualquer forma, por mais que eu tivesse frustrado, ou descrente, ou desconfiado, nada me dava o direito de descontar essas coisas em você. Pelo contrário, tentei ser com você a pessoa que eu gostaria que tivessem sido comigo e a melhor pessoa que eu poderia ter sido dentro do que estava ao meu alcance.

Tentei compreender você a sua história para poder entender como agia, por isso eu desejei que tudo fosse conversado com sinceridade e transparência. De todas as experiências e sentimentos ruins que eu havia experimentado, eu queria que você não precisasse sentir enquanto estivesse comigo do meu lado. Jamais quis que você se sentisse completamente sozinho, traído por amigos, usado por pessoas que diziam gostar de você, mas que, na realidade, estavam pouco se fudendo com o que você sentia ou deixava de sentir. Queria que você pudesse ter em mim a segurança de que, mesmo que eu não pudesse te dar tudo o que você desejava ou merecesse, ao menos teria o meu amor e o meu carinho para enfrentar qualquer situação adversa. Até mesmo da frustração de receber um “não” eu queria te poupar, mesmo das vezes que você ultrapassava os limites.

Erro meu. É claro que é egoísmo da nossa parte fazer algo para alguém e esperar algo em troca. Você me fazia bem quando estava bem, e me fazia mal quando estava mal. Então se eu conseguisse fazer com que você estivesse bem, você poderia me fazer bem também. Acho que eu nunca consegui me fazer entender e o meu amor era sempre insuficiente e a sensação de impotência havia se tornado uma constante na minha vida. Eu era visto como inimigo. Qualquer imperfeição, erro da minha parte, falha de comunicação ou comportamento fora das expectativas eram razões suficientes para o silêncio, comportamentos frios e desabafos cruéis no Facebook para que todos os seus amigos pudessem ler.

Tudo mudou. Houve altos e baixos depois disso, uma ilusão da minha parte de que as coisas estariam bem, depois um telefonema perdido que nos afastaria de vez, o sentimento de descarte e de ter sido trocado por outro poucas semanas depois. Depois mais altos e baixos, fins de semana juntos e uma sensação mágica de felicidade seguida depois de vácuos e a sensação de que eu sou uma pessoa com um prazo de validade prestes a vencer. Isso tudo me machuca e das vezes que me retraio, você pensa que estou sendo indiferente ou que eu não estou nem aí para você.

Quando estou bem, simplesmente não penso nisso e das vezes que penso em você, penso nas coisas boas. Mas das vezes que me sinto sozinho ou estou com saudades, ou quando coço a ferida, às vezes me vem à memória algumas das sacanagens que você fez comigo e ainda fico sem compreender por qual motivo algumas delas tinham que ser um espetáculo de crueldade. Não é algo que eu remoa, ou uma mágoa que eu alimente todas as noites quando vou dormir. Eu simplesmente queria esquecer essas lembranças ruins, mas mais do que isso, jamais gostaria de tê-las vivenciado. Assim como eu tentei ser um escudo humano que protegesse você e os seus sentimentos, queria que você também tivesse sido o meu.

Moldar-se

Muitas vezes nos aprisionamos em alguém que não somos ou não queremos ser porque a nossa espontaneidade foi interpretada de uma maneira tão ruim que nos vimos obrigados a nos autocensurarmos. É comum que as pessoas represem sentimentos, por exemplo, tanto os positivos quanto os negativos. Um “eu te amo” pode ser tudo o que alguém pode querer ouvir de alguém nessa vida, ao mesmo tempo que ele possui um significado tão forte e acolhedor quando é verdadeiro, pode esconder más intenções quando não é, implicando em sofrimento à outra parte. Então, é mais do que normal que as pessoas tenham receio de expressar os seus sentimentos, porque nada garante que a outra parte vai entender exatamente o que você quer dizer. Caso ela entenda, ótimo, você se sente acolhido pela compreensão, mas o fato de entender errado ou sequer querer entender, por outro lado, é algo que pode ser frustrante ou muito doloroso.

Há vários manuais (livros de autoajuda, conselhos, indiretas do Facebook) que procuram nos ensinar a como proceder. Como dizer que você gosta de alguém sem assustá-la? Como dizer que você se sente só sem ser interpretado como louco solitário? Como lidar com sentimentos não-correspondidos? Essas e várias outras perguntas fazem com que a gente tenha que se moldar para evitarmos frustrações, mas a realidade é que moldar-se não é a solução e nem é um bom paliativo. O importante é a gente entender a razão de algo nos frustrar, entender o que queremos e o que não queremos, querer o que é melhor para nós mesmos sem que isso signifique a dor do outro, entender o real significado de algo/alguém para nós e vice-versa. Este é um exercício cansativo e que demanda muita comunicação e muito autoesclarecimento, além disso, nem sempre será possível conciliar tudo e a frustração é inevitável. Moldar-se parece uma solução mais rápida e prática porque pode realmente nos poupar de sofrimentos desnecessários, mas ao mesmo tempo tira a nossa espontaneidade e nos aprisiona em quem não somos ou não queremos ser.

A palavra “jogo” por vezes se associa ao amor porque normalmente nos tornamos jogadores quando alguém se envolve emocionalmente mais que o outro. Quando essa pessoa mais envolvida demonstra os seus sentimentos e não vê a mesma intensidade do sentimento da outra parte, ela se retrai como forma de autopreservação (ou “vingança”) ou então é censurada pela outra parte, o que pode intensificar ainda mais a distância na intensidade dos sentimentos entre os dois. Situações assim se tornam frustrantes para ambos porque enquanto um se vê obrigado a girar um botão de diminuir a intensidade de sentimentos (que ninguém possui, da mesma forma que não há um botão de liga e desliga), a outra parte acaba se tornando mais fria e distante, ou acaba passando essa impressão, mesmo que não seja ou queira. Quando uma ou nenhuma das partes realmente sentia o que dizia/demonstrava sentir, elas lidam bem isso e já partem para uma próxima sem o menor problema. Porém, quando existe um sentimento verdadeiro da parte de alguém, essa assincronia dói.

Então, quando nos moldamos, não somos nós mesmos e é praticamente lógico que a superficialidade não vai trazer o que/quem quer que seja de verdadeiro para a vida da gente. Moldar-se nada mais é do que evitar a dor ao máximo, sendo que ela é inevitável. No fundo, no fundo, todos nós gostaríamos de ser quem realmente somos, sem jogos, sem a necessidade de ajustar o grau de intensidade quando percebemos a assincronia. Porém, isto só acontece quando a gente abre mão desse escudo de vidro que nos protege quando nos moldamos, perde o medo de caminhar no escuro e aceita correr o risco de cair e se machucar na busca de luz e conforto.

sábado, 19 de março de 2016

Somos massa de manobra

Talvez a semana que se passou tenha sido histórica para os rumos que a democracia do Brasil pode vir a tomar em breve e também no futuro. Parece uma unanimidade, ou até mesmo um clichê, dizer que o Brasil está ainda pior do que sempre foi, mas o fato é que as coisas atingiram um grau de gravidade que não se via desde o impeachment de Collor, em dezembro de 1992 e podemos estar vendo o repetir da História.

É como se tivéssemos voltado para 1954, quando havia uma intensa polarização política. De um lado, um líder carismático com obcessão pelo poder, o “pai dos pobres” Getúlio Vargas. De outro lado, uma oposição que não se conformou com a derrota nas últimas eleições e fez uma oposição dura e agressiva. A crise atingiu o seu auge quando um guarda de Getúlio tentou assassinar o opositor Carlos Lacerda. Então Getúlio é pressionado a renunciar, mas era tão obcecado pelo poder, ou pela democracia, que ele cometeu suicídio. O evento causou grande comoção, a oposição perdeu apoio e o golpe foi adiado em dez anos.

Podemos fazer um paralelo com o que acontece agora. Getúlio seria Lula, que acredita ser a representação da vontade popular. O PT possui uma obcessão pelo poder, embora tenha vencido quatro eleições democraticamente. A oposição atual de direita (lideradas pelo PSDB e pela figura de Aécio Neves) contesta a reeleição de Dilma desde as eleições de 2014 e, juntamente com a imprensa, vem realizando um trabalho para retirá-la do poder e envolver o ex-presidente Lula no escândalo do Petrolão.

A jogada política de Dilma ao tentar nomear Lula seu ministro da Casa Civil, juntamente com o grampo do telefonema da presidente, mostram que Dilma e Lula não são os santos que pretendem mostrar que são. Estes eventos apenas mostram que o PT e nem um outro partido político é incorruptível, por mais que digam que “são a contra a corrupção e a favor da democracia”, mas ora, quem em sã consciência defenderia a corrupção publicamente?

Ok, Lula e Dilma mostraram o seu “lado negro” para os ingênuos que ainda defendem os dois com o mesmo fervor que um fanático religioso possui pela figura de Deus ou Alá. Assim como muitos outros partidos políticos, o PT mostrou novamente que, para se manter no poder, apela para manobras políticas se necessário for. No entanto, graças a imprensa e à ignorância da população sobre economia, política e direito, o PT/Dilma/Lula foram pegos para Cristo, como se apenas eles fossem corruptos e realizassem essas manobras e todos os outros partidos não estivessem envolvidos também no esquema do Petrolão, mas em muitos outros processos que foram arquivados e abafados pela imprensa.

Mais absurdo do que ainda acreditar no PT/Dilma/Lula é realmente acreditar que os outros partidos estão defendendo o impeachment em nome da moral e da ética política. É tudo uma disputa pelo poder, como foi desde sempre, o que muda é o discurso para ganhar o apoio popular. A oposição defende o impeachment porque quer tomar o poder. Se houve o processo de redemocratização do país foi porque a elite política que apoiou um regime militar porque eles seriam uma escada para que eles subissem ao poder, algo que não ocorreu. Os militares não entregaram o poder a essas elites como eles esperavam e prometiam devolver o comando do país aos civis na posse de cada novo presidente militar e esse processo durou 20 anos. Não foi por acaso que a própria elite que apoiou o golpe militar era a mesma que exigia a volta da democracia, já que ela se sentiu traída pelos militares. É por isso que esquerda e direita se dizem a favor da democracia, pois se os militares voltassem ao poder, os dois grupos ficariam de fora. Ou seja, eles não defendem a democracia porque são bonzinhos, mas porque ao assumirem o poder eles podem usar a máquina pública em prol de benefícios próprios. Não é a toa que há uma grande quantidade de médios e grandes empresários envolvidos com a política, principalmente se candidatando e se elegendo. Todas as acusações contra Lula são o maior exemplo disso (há várias empresas e empresários envolvidos no esquema), mas podemos pensar também nos vereadores da nossa cidade e nos deputados do nosso estado. Não é o colono que se candidata a um posto desses, mas é o empresário que possui terras e cabeças de gado que se lança candidato e, ao ter sido eleito, quer flexibilizar as leis de modo que elas sejam vantajosas para ele.

O que vimos nessa semana que se passou foi uma disputa onde vale tudo pelo poder. Dilma nomeia Lula ministro para livrá-lo do processo da Lava Jato. O juiz Sérgio Moro, por outro lado, se coloca acima da lei ao grampear o telefonema da presidente, a exigir a prisão temporária de Lula, assim como episódio da condução coercitiva. Muita gente aplaude o juiz e o enxerga como o nosso novo Salvador da Pátria porque, se necessário for, ele passa por cima mesmo da Constituição e esta é claramente uma atitude corrupta. Não me parece coerente combater corrupção com corrupção. Corrupção é desrespeitar as regras e as leis quando nos é conveniente, o que é perigoso, pois é a própria Constituição a garantia de que os nossos direitos não sejam violados. É claro que desrespeitar a Constituição não é exclusividade do juiz Moro e muitos outros políticos e a população comum a faz todo dia porque, do contrário, não haveriam crimes. Portanto, é minimamente hipocrisia nossa dizer que somos contra a corrupção sendo que, nós mesmos, somos corruptos. É claro que há níveis e níveis de corrupção. Desviar milhões de reais não é tão grave quanto furar a fila do ônibus, mas são ambas atitudes corruptas porque estamos violando uma lei do direito ou uma regra do convívio em sociedade.

Então o que vemos nesta bagunça toda, se olharmos para dentro de nós mesmos e deixarmos de ser escravos das nossas emoções, é que vemos o sujo falando do mal lavado. O PT/Dilma/Lula não são santos, da mesma forma que PSDB/Aécio/oposição também não são. Dizer que somos contra a corrupção, dizer que queremos resgatar a moral e a ética política é tudo um discurso bonito, mas cínico, de quem quer chegar ao poder custe o que custar, mas que para se legitimar no poder, precisa do apoio popular e essas manifestações "contra" e "a favor" de Dilma são o exemplo disso. As pessoas precisam acreditar na ilusão de que Político X é honesto e vai salvar o país, quando, na verdade, ele deseja alcançar o mesmo que PT/Dilma/Lula alcançaram. É lógico que há políticos que estão, sim, preocupados em construir um país melhor, mas infelizmente estes são muito poucos e não ganham a visibilidade que deveriam. Não adianta esperarmos que um novo Messias irá nos salvar e salvar o Brasil da corrupção e nos colocar no trilho do desenvolvimento quando a própria sociedade está rachada em vários setores que se rivalizam, e uma minoria muito rica da sociedade está no seio da política lutando pelos próprios privilégios e se autointitulando porta-vozes de uma população pobre que sustenta a sua riqueza. O que vemos no Brasil é uma disputa pelo poder onde a população é apenas massa de manobra, mas que é ignorante demais para se dar conta disso.

Para refletir: Não seja “contra” ou “a favor” de Dilma (como a imprensa gosta de taxar as manifestações desta semana), seja a favor de um país melhor e mais digno onde a democracia, a Constituição e os SEUS direitos sejam respeitados e garantidos. Não seja ingênuo de achar que um partido é melhor do que o outro sendo que eles só estão preocupados em chegar ao poder e usam a população como massa de manobra para legitimar a sua posição.