domingo, 6 de dezembro de 2015

Rezando cartilhas e disseminado o ódio

Em quase dez anos de blog, muita coisa mudou em relação aos pensamentos expostos aqui porque tudo muda, simplesmente. As pessoas mudam, o mundo muda, a realidade ao nosso redor muda, então mudar é uma forma de se adaptar ao contexto da realidade na qual vivemos. As mudanças não são boas ou ruins, pois isto é relativo e depende da forma como você enxerga o mundo e lida com essa realidade. Em geral, a mudança é uma forma de tornar a realidade mais confortável ou menos desagradável.

Mas o que as mudanças têm a ver com este texto? Que algumas coisas não mudam e nesse tempo que O Cão Ocidental está no ar, o que não mudou é a tentativa de estimular quem o lê a pensar, a refletir, não dizendo amém a cada linha e a cada parágrafo, mas pensar com autonomia. Vários filósofos e pensadores escreveram várias teorias e ensaios sobre isso. Autonomia tem muito a ver com liberdade (ou tudo a ver). Kant, por exemplo, realiza essa ligação entre autonomia e liberdade. Para ele, ser livre é responder pelas próprias ações sem colocar a culpa de seu ato em outros, é ser dono do próprio destino, basicamente. Isto, contudo, não significa dizer que ser livre é não se submeter a regras. Por exemplo, quando você procura emprego, você é livre no momento que decide onde quer trabalhar. A partir do momento que você é contratado por uma empresa, você precisa acatar às suas regras, pois foi você quem procurou a empresa a trabalhar e não o contrário; e mesmo que isto acontecesse, você é livre e responsável em responder “sim” ou “não” a esta oferta de emprego.

A partir desta introdução sobre mudanças e autonomia/liberdade, podemos, então, PENSAR sobre o tema central deste texto que é questionar o comportamento, tanto seu quanto das outras pessoas, sobre não pensar sobre as várias coisas que acontecem ao nosso redor.

Quem nunca bateu boca pessoalmente ou através das redes sociais, ou que pelo menos não tenha testemunhado algum barraco ou debate neste sentido? Podemos entender como barraco quando duas opiniões/pensamentos diferentes se chocam e o clima é sempre tenso, onde as pessoas se tratam com agressividade através de ironias, sarcasmos, xingamentos e, em casos mais extremos, ocorrem agressões físicas ou até mesmo mortes. Em um barraco nenhuma das partes nunca irá mudar de opinião ou pelo menos rever seus conceitos: são duas verdades absolutas duelando para ver qual das duas “verdades” é a mais “verdadeira”. Em um barraco, o consenso inexiste e a tentativa de reflexão, muito menos, e há sempre alguém que sai ofendido de algum modo. Um debate é quando duas opiniões/pensamentos diferentes dialogam entre si com a expectativa de um nível mínimo de respeito e civilidade. A preocupação maior não é impor uma verdade sobre a outra (pelo menos aparentemente), mas expor à outra parte, com base em argumentos razoáveis (como desejaria Habermas), ou seja, argumentos com alguma fundamentação reconhecida por ambos os lados como legítima, que o seu ponto de vista é o mais correto/verdadeiro e que o outro ponto de vista não está completamente errado ou seja falso. Ao mesmo tempo, cada uma das partes se dispõe a ouvir os argumentos do outro lado e pensar a respeito, estabelecer críticas ao que discorda e também reconhecer verdades ou argumentos plausíveis do outro lado. Desta forma, o debate pode gerar o consenso, mas isto não é regra, sem que nenhum dos lados precise aniquilar os pontos de vista do outro.

Um dos temas que mais gera barraco atualmente no Brasil envolve a política e, em seguida, temas que envolvem a política de alguma forma. Este blog já alertou algumas vezes para os perigos dessa polaridade, em grande parte por causa da imprensa, de demonizar o PT e endeusar o PSDB ou vice-versa. É como se existisse só os dois partidos, como se somente o/a presidente da República fosse o único responsável por tudo de bom ou ruim que acontece no país, como se o impeachment fosse a única e a melhor solução para a atual crise econômica, moral e política do país, e por aí afora. Esta polaridade ocorre por vários motivos, como por estímulo da imprensa.

Habermas, assim como muita gente, considera que os políticos são muito sensíveis ao que sai nos veículos de comunicação. Não é por acaso que há emissoras de televisão que são, de maneira velada ou explícita, alinhadas com uma determinada ideologia política. A Revista Veja, por exemplo, é claramente defensora do livre mercado, do capitalismo, da direita política, ou seja, não é por acaso que critica Lula, Dilma, o PT e os regimes de esquerda no Brasil e no mundo desde que existe. Uma pessoa que lê a Veja o faz porque ela endossa tudo aquilo o que o seu leitor já concebe como certo e verdadeiro. O contrário também é verdadeiro em relação à Carta Capital, que procura fazer frente à Veja. Ou seja, os meios de comunicação importam para os políticos e não é a toa que recursos como a censura (como a que ocorreu no Brasil e como ocorreu e ocorre na Venezuela) ou o monopólio estatal dos meios de comunicação (como na Coreia do Norte, que procura passar uma imagem à população de que o país é uma maravilha e que tudo dá certo). Então, se ainda não enxergamos o óbvio, os veículos de comunicação estão sujeitos à manipulação política e vai existir sempre algum nível de parcialidade, pois querendo ou não, ela defende valores que acredita serem certos e isto é relativo, pois o que pode ser certo para um pode ser errado para outro.

É importante observar que esse comportamento não é exclusivo da televisão, dos jornais impressos, das revistas, ou seja, da imprensa de modo geral. Livros, intelectuais, personalidades influentes (artistas, por exemplo) e pessoas comuns do nosso dia a dia (professores, amigos, inimigos e familiares) também disseminam as suas ideias e as suas crenças nas nossas esferas de convivência. A Bíblia, por exemplo, é um livro que propaga os princípios e valores do cristianismo. “O Capital”, de Marx, é a bíblia de muitos políticos e intelectuais da esquerda enquanto “O Caminho da Servidão”, de Hayek, é um dos livros mais importantes para os políticos e intelectuais da direita. Vários atores da Globo e cantores brasileiros têm o poder de influenciar o pensamento de seus fãs, não é a toa que são chamados ou se voluntariam para apoiar candidatos políticos durante as eleições. Se um Papa diz que usar camisinha é um pecado contra a vida, ou se diz que os seus fieis devem acolher os homossexuais, ele pode fazer com que a comunidade cristã e também a não-cristã reflita sobre esses temas ou acate às suas palavras. E dentro da sociedade e da família que vivemos crescemos concebendo algumas coisas como verdade como, por exemplo, que é função do homem trabalhar e a mulher deve cuidar da casa e dos filhos, que quando o homem trai a culpa é da esposa que não deu “assistência” ou da outra “vagabunda” que destruiu o casamento, que todo negro é ladrão e que ser homossexual é motivo de vergonha dentro de uma família, mas nada que uma boa surra não resolva. Então quando as pessoas lidam com uma opinião ou uma realidade diferente, o conflito é inevitável, ou pelo menos um desconforto inicial, por mais mente-aberta e respeitosa que uma pessoa procure ser.

A questão mostrada é que as pessoas não pensam sobre essas coisas, mas sim, se deixam levar pelas opiniões dos outros e as concebem como uma verdade absoluta. Muita gente concebe como verdade tudo o que assiste na televisão ou até mesmo em imagens publicadas no Facebook e grupos do Whatsapp, por mais absurdas que sejam estas informações. Muita gente “reza bíblias” cegamente, sem se questionar. É muito cômodo para alguém que, por alguma razão que ela não entende (ou finge não entender) se apoiar na Bíblia para condenar os homossexuais dizendo que eles irão para o inferno dizendo que “não são preconceituosos” e que estão apenas seguindo o que está na Bíblia e não é raro que citem passagem bíblicas para defender o seu ponto de vista, sendo que ela nem precisa ser religiosa de verdade, mas fingir ser e se esconder atrás da Bíblia para mascarar o seu ódio, ou seja, colocar na Bíblia a desculpa para o seu preconceito. Há também aqueles militantes que acham que tudo o que a sua corrente político-ideológica dite e faça seja correto e verdadeiro, enquanto o outro lado representa tudo de mau que possa existir. Ou seja, através destes exemplos fica claro que não existe um questionamento sobre o por quê de as coisas serem como são.

Uma pessoa muito religiosa (nesse caso, mais preconceituosa que religiosa) não está preocupada em entender os homossexuais, mas sim em achar que eles estão errados e vão para o inferno porque “Deus fez o homem e a mulher, Adão e Eva e não Adão e Ivo”. Enquanto há muita manipulação, sobretudo de bispos que se aproveitam da fé e da ignorância de seus fieis, há pessoas que realmente acreditam em tudo o que eles dizem, sem questionar os interesses por trás de bispos, como se fossem entidades imaculadas e enviados puros de Deus e, muito menos, que questionam as contradições da própria Bíblia, pois enquanto uma passagem pode dizer que “homem com homem é abominação”, outra passagem diz para “amar ao próximo como a si mesmo”. A crítica, neste caso, não é a quem tem uma fé, a quem é cristão ou a própria Bíblia, mas ao fato de ter um imenso pudor em cogitar a hipótese de questionar. Muitos fieis são incentivados a não questionar estas passagens controversas da Bíblia e sequer pensar em questionar a Bíblia, pois isto é contestar a vontade de Deus, é um pecado, é uma passagem só de ida ao inferno e a ter um pensamento egoísta de que “a minha salvação depende da inferiozação do outro, do pecador, daquele que não acredita no mesmo que eu”. Talvez o fato de ver que os outros não compartilhem das mesmas crenças que você é o que mais choca, seja essa crença religiosa, política, etc.

O mesmo também ocorre na política e isto é perigoso, pois independente se você gosta do Partido A ou do Partido B, estes e os outros criam leis e políticas públicas que influenciam diretamente na sua vida. O grande problema é que não existe um debate, mas em alguns casos, um barraco domesticado. Para um militante fanático do PT, é Deus no céu e Lula na Terra e nada que o PSDB fez é bom ou deu certo, e o contrário também é verdadeiro por parte de um militante fanático do PSDB que vai acreditar que nada do PT e da esquerda presta/prestou. Eles rezam cartilhas político-ideológicas sem questionar nada, então não existe um debate, uma troca de ideias diferentes das suas, e cada um vai ir atrás das suas “bíblias” que apenas reforcem aquilo que eles já acreditam.

E o mesmo ocorre na nossa sociedade. Atualmente, questões como o feminismo, a homossexualidade e o racismo estão muito mais presentes em novelas e nas páginas de Facebook do que estava há alguns anos atrás. Algumas pessoas pensam que feministas, homossexuais e negros estão querendo “privilégios” ou que o racismo não existe. Na realidade, estes grupos vem é realizado estes questionamentos da sociedade onde vivem onde a mulher sempre foi tratada à sombra do homem, onde gays sempre foram tratados como aberrações ou que precisavam de tratamento para exorcizar seus demônios e deixarem de ser gays, ou que os negros devessem se conformar a crescer dentro das suas “castas”, morando nas suas “favelas” e respeitando o “espaço dos brancos na sociedade”. Então a partir do momento que um grupo questiona a sociedade na qual vive e questiona as “bíblias” sem dizem amém, amém, amém, que questiona as construções sociais desta sociedade, certamente o pessoal que não questiona vai se sentir incomodado. É muito comum que ocorram mais barracos do que debates entre estes grupos, pois para que o debate ocorra, os dois grupos precisam entender o outro lado e isto é muito difícil. Assim como é muito muitos religiosos condenam os homossexuais por terem “escolhido” serem homossexuais, há muitos ateus homossexuais ou não que também discriminam as pessoas religiosas, sendo que nem todo religioso é homofóbico e nem todo gay é ateu ou “cristofóbico”.

As pessoas deveriam questionar os seus dogmas religiosos, os seus políticos e suas ideologias, a sociedade onde vivem. Parar de julgar com base em preconceitos e procurarem entender o outro lado para poder defender o seus pontos de vista de uma maneira racional e respeitosa. Isto sim é ser livre, é ter a liberdade de tomar as próprias decisões em vez de dizer amém às coisas sem se questionar o por quê delas. É ter a liberdade de aproveitar o que considera de melhor de cada “bíblia” ou de não seguir bíblia nenhuma, ou até mesmo criar uma própria. É ter a curiosidade de procurar entender a complexidade da realidade na qual está inserido ao invés de achar que é tudo preto no branco, que as pessoas “viram” gays porque querem e quando querem, ou que a Dilma pode fazer tudo o que ela quer, ou que o impeachment vai resolver tudo. Cada parte tem a sua parcela de razão e verdade. O problema é quando ela quer ou acha que concentra a verdade em sua plenitude.

Questione! Não reze Cartilhas! Não dissemine ódio e ignorância!

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