domingo, 20 de dezembro de 2015

Lidando com ideias diferentes das suas

A última postagem deste blog procurou incentivar os seus leitores a desenvolverem a autonomia crítica, ou seja, se livrarem de conceitos estabelecidos por instituições que procuram homogeneizar o pensamento de seus seguidores (como fazem a igreja, a imprensa, os partidos políticos, a sociedade, a família, etc). Por outro lado, é importante deixar claro que este blog também não está dizendo que estas instituições são “do mal” ou que não exerçam algum grau de importância e credibilidade na vida das pessoas. O que este blog quis e quer incentivar o leitor é a não acreditar cegamente em tudo o que dizem, mas sim em questionar as suas supostas “verdades”, investigá-las mais a fundo, consultar versões que entram em conflito com aquilo que você acredita ao invés de ir atrás daquelas que você já supõe que só irão reforçar aquilo que você quer acreditar. Enfim, o ideal não é chegar a uma “verdade”, mas a um resultado que chegue o mais próximo possível do justo para as partes conflitantes para que este conflito seja encerrado ou amenizado, principalmente nas questões de juízo de valor devido à sua subjetividade (o que é justo para um pode ser injusto para o outro).

A postagem de hoje ainda é sobre juízos de valor e os conflitos que ocorrem quando os seus valores/crenças são diferentes dos valores/crenças outro. Aqui neste caso, “crenças” não possui um significado exclusivamente religioso, mas acreditar de maneira geral em qualquer coisa (como numa ideologia, por exemplo). Também é importante deixar bem claro que este blog não se propõe a dar receitas para encerrar o conflito, mas sugerir modos de lidar com ele, justamente porque o objetivo desta postagem é propor o respeito à autonomia crítica dos outros.

Pensemos no seguinte exemplo: você é uma pessoa que come carne e alguém que você conhece é uma pessoa que não come carne (vegetariana) ou não consuma nada de origem animal (vegano). Não é esperado que você saia fazendo campanha no seu Facebook, por exemplo, exaltando os benefícios e os prazeres ou benefícios de comer carne porque muitas pessoas consomem carne e produtos de origem animal (ovos, leite, couro, etc.). Pessoas vegetarianas e veganas, por outro lado, estão em um número menor na sociedade, então é esperado que elas se manifestem sobre esta questão alimentar e de direito dos animais. Como o conflito pode surgir entre estes dois tipos de consumidores? Normalmente porque os vegetarianos/veganos acabam levantando questões que acabam aborrecendo as pessoas que consomem carne e produtos de origem animal, argumentado que eles são assassinos de animais e todas as consequências inclusive ambientais para manter este comportamento (por exemplo, o desflorestamento para dar espaço à agropecuária e o alto consumo de água com irrigação).

Como erradicar ou diminuir o conflito neste caso? Bem, para erradicar o conflito, uma das partes teria que convencer a outra de que há um hábito “correto” e o outro “errado”. Isto não é impossível de ocorrer, pois algumas práticas que já foram concebidas como “corretas” antigamente hoje são consideradas arcaicas como, por exemplo, o casamento arranjado nas sociedades ocidentais, porém, no caso do conflito levantado, ele ainda deve demorar muito tempo até que todas as pessoas se convençam que consumir produtos de origem animal é prejudicial ou degradante, ou então que os vegetarianos/veganos estavam errados. Ambas as partes vão continuar em conflito, vão procurar debater com argumentos razoáveis (que não são isentos de manipulação e fraude) ou então vão apelar para a baixaria como é mais comum nos “debates” pelo Facebook. Como foi abordado no último post d’O Cão Ocidental, o problema da baixaria é que ninguém ganha nada com isso e o conflito só se intensifica. É importante que as pessoas mantenham um nível mínimo de civilidade, ou seja, um nível mínimo de respeito, de tolerância e de empatia.

É claro que é importante que as pessoas tenham pelo menos alguma causa para lutar (seja para mudar alguma coisa, seja para mantê-las como estão), pois pelo menos os indivíduos estão raciocinando sobre alguma coisa e vão ser confrontados com visões opostas às suas. Uma pessoa que não se envolve em conflito algum é alienada e serve como massa de manobra desses grupos conflitantes, por mais que se ache neutra (a menos que viva em um universo paralelo à sua realidade na sua imaginação ou em uma ilha deserta). No entanto, uma luta se torna inútil ou pouco inteligente se você não respeita a outra parte e quer fazê-la engolir goela abaixo aquilo que você defende como certo. Não vai ser impondo um conceito de família como sendo formada por um homem, mulher e filhos que os homossexuais vão deixar de existir, da mesma forma que a sociedade não vai compreender as causas LGBTs ou aceitá-los muito bem com uma cartilha direcionada às crianças se os pais entendem muito pouco ou nada sobre a homossexualidade, principalmente em uma sociedade onde as pessoas crescem com uma imagem estereotipada dos gays. Esta é uma das razões da bancada evangélica ter tanta força no Congresso, pois eles “falam a língua do povo” e possuem um trabalho de convencimento mais eficiente (principalmente porque é o grupo que tradicionalmente demoniza homossexuais), enquanto os deputados defensores e os movimentos LGBT possuem uma linguagem de difícil compreensão para quem é leigo no assunto, isto quando não tratam de maneira agressiva a ignorância dos leigos quando usam termos ou expressam acreditar que a homossexualidade é uma “opção”, por exemplo.

Uma pessoa que não respeita as pessoas que possuem crenças e valores diferentes dos seus nunca vai conseguir transmitir para o outro a importância que elas têm para ela própria. Não vai ser chamando um consumidor de produtos de origem animais de assassino que você vai conseguir fazê-lo repensar os seus hábitos de consumo e pensar nos direitos dos animais. Talvez ele até pense e reflita sobre o assunto, quem sabe mude até seus hábitos, mas a sua relação com esta pessoa dificilmente será amistosa e respeitosa porque você já perdeu o respeito dela pela sua falta de educação e inteligência emocional na hora de argumentar. Também não vai ser tratando os homossexuais como uma aberração e se embasando em argumentos religiosos que eles passarão a respeitar a sua fé ou aos valores que a sua fé quer universalizar. E, da mesma forma, não vai ser tratando os leigos com ironias e sarcasmo, ou que não possuem o mesmo conhecimento que o seu, que eles irão poder compreender a homossexualidade para, a partir daí, respeitar os homossexuais.

Há duas opções diante de um conflito que não evolui devido à intolerância às visões contrárias:

1ª) Aceitar que a outra parte não vai mudar suas crenças e valores
Isto porque ela está convicta que as suas crenças e valores são os mais “corretos” ou, o mais importante, porque ela se sente bem assim. É inútil para um gay bater-boca com um fanático religioso que acredita em “cura gay”, da mesma forma que é inútil tentar “curar um gay” com quem se sente bem e se aceita como homossexual. Esta é forma mais saudável e adulta de lidar com o conflito e lidar com as diferenças, pois se as duas partes ao menos se respeitarem, ótimo: “o que não tem remédio, remediado está”.

2ª) Continuar se estressado até aniquilar a outra parte
Esta é, evidentemente, a opção mais perigosa e indesejável, pois só uma tirania ou massacre será capaz de aniquilar a outra parte. Várias guerras foram travadas ao longo da história em nome de uma crença ou de um valor, como as cruzadas (para manter a fé católica soberana no mundo), o holocausto (para exterminar os judeus que “ameaçavam” a raça ariana), a “limpeza étnica” na guerra da Bósnia, dentre muitos outros. Embora seja improvável que isto ocorra entre os exemplos dados nesta postagem, não há como negar que nos últimos anos tem aumentado as tensões sociais entre conservadores e grupos tradicionalmente reprimidos (mulheres, negros e homossexuais) à medida que estes últimos vêm conquistando mais visibilidade no Brasil. Da mesma forma, há a questão da xenofobia e da intolerância religiosa na Europa que proporcionou conflitos como os atentados ao jornal Charlie Hebdo (que trata imigrantes e muçulmanos com deboche), o surgimento do Estado Islâmico que conta com um número relevante de europeus filhos de imigrantes, e vários outros episódios durante a crise imigratória no continente (os mortos em naufrágios, em caminhões na Áustria e a jornalista húngara que agrediu um imigrante ao vivo).

O teor desta postagem não se refere somente às pessoas que não questionam às suas instituições, mas também aqueles que são críticos, pois a questão é que dentro destes dois grupos existem pessoas que se acham as donas da razão e que, por isso, estão no direito de destratar qualquer um que discorde dela. Também serve para quem cria as próprias regras em um ambiente onde não existe uma regra universalizada (por exemplo, redes sociais como Facebook e Whatsapp), pois neste ambiente o conflito toma proporções muito maiores porque cada um tem uma “norma de conduta” muito exclusiva (por exemplo: postar imagens de pessoas e animais machucados/multilados é necessário ou de mau gosto, uma pessoa que visualiza e não responde uma mensagem no Whatsapp é mal educada por isso ou não, e assim por diante).

Em todos os ambientes, físicos ou virtuais, lidamos com pessoas que não vão concordar com as nossas visões e valores e, por isso, o conflito pode surgir. O consenso é muito difícil, logo as duas opções mais possíveis são i) a aceitação de que existem pessoas que pensam de modo diferente de você e que não podem e/ou nem querem ser “convertidas” e, ii) aniquilação dos valores de outra pessoa ou da pessoa em si. Seguir a primeira alternativa significa aprender a lidar com a frustração e abrir mão de idealizações egoístas de querer moldar o mundo e as pessoas de acordo com os seus valores, tratando-as com respeito, com tolerância e empatia. Já a segunda alternativa é a prática do desrespeito, da intolerância e do ódio compreendido ou do autoconflito mal-resolvido. Saber como lidar com pessoas que pensam diferente de você é o mais desejável, tanto para se sentir melhor no ambiente em que convive como também para estabelecer diálogos construtivos (que podem ser bem ou mal intencionados devido à possibilidade de manipulação, porém são pacíficos). Pessoas civilizadas respeitam a pluralidade de ideias e valores, enquanto as que não são civilizadas apelam para o seu lado mais hobbesiano e animalesco.

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