sábado, 19 de setembro de 2015

Teorias de inferiorização - Parte 2


A publicação anterior (Teorias de inferiorização – Parte 1) procura explicar o que é uma teoria da inferiorização, quem são as pessoas que criam, porque elas criam estas teorias e como elas agem – ou melhor, reagem ao que entendem como “ataque”. Esta segunda parte irá analisar algumas destas teorias de inferiorização na prática, casos reais de uma pessoa que rechaça a realidade da própria vida e que inspiraram a redação e a publicação dos textos para que você saiba identificar se você é uma pessoa que se esconde por trás das teorias de inferiorização.

Teoria do amor materno não-automático
Esta teoria foi criada por uma filha que possui uma relação péssima com os pais, principalmente com a mãe, com quem convive na mesma casa. Ela se sente incomodada por sentir que sua mãe não a ama, principalmente porque a mesma costuma fazer comentários depreciativos dizendo coisas como “que você vive de teoria e não parte para a prática”, além de, volta e meia, jogar na cara dela a culpa por eventos graves que ocorreram no seio familiar. Devido ao simples fato de ter uma relação ruim com sua mãe e, pressionada por uma sociedade na qual a figura maternal representa um amor incondicional a partir da gestação e onde muitos filhos nutrem uma relação de amor e respeito por suas mães, ela se sente deslocada. Ao invés de simplesmente admitir que sua mãe não a ama, e de se questionar sobre os motivos de sua mãe ou se ela fez ou faz algo que tornou a sensação delas tensa. Mas ao invés de aceitar que sua mãe é simplesmente louca por não gostar gratuitamente dela, ou de refletir sobre o modo como trata sua mãe como alguém que não faz mais do que sua obrigação de criá-la e mantê-la sob o mesmo teto, mesmo que ela já tenha 26 anos, ela preferiu criar a teoria de que o amor materno não é automático (assim que se descobre grávida, a mãe passa a amar incondicionalmente seu filho).

Fica difícil para a filha querer julgar o fato de sua mãe não gostar dela, até mesmo porque ela não fala com o próprio pai, a quem despreza e considera, juntamente com suas outras irmãs e mãe, como sendo pessoas sem inteligência emocional. Então fica muito conveniente criar uma teoria do amor materno não automático, que isto é mito (o que não deixa de ser verdadeiro, pois há mães que abandonam seus filhos ao nascerem ou então que os matam), quando se espera que o amor deva partir exclusivamente da mãe, sem se questionar se ela não está sendo uma filha péssima, arrogante e desprezível que tem nojo e vergonha da própria família porque espera que todos a amem incondicionalmente, pois também sente a pressão social de que “família é sagrada” e que, na hora da dificuldade, é só com ela que podemos contar.

Teoria da inferiorização do amor e de demonstrar sentimentos
Para ela, o amor é um sentimento das pessoas fracas, especialmente das que demonstram sentimentos, que falam que sentem falta da outra, que ficam tristes quando o amor não é correspondido. Aos olhos dela, parece que existe uma ditadura do amor, na qual as pessoas se juntam com a primeira pessoa que aparecer para que provem para si mesmas que não são pessoas sozinhas. Ela entende que o amor é um ato de desespero e de performance, isto para mascarar o fato de que ela simplesmente não tem muita sorte no amor, o que não é difícil de explicar, pois ela é uma pessoa amargurada. E da vez que disse estar amando alguém, guardou tudo isso pra si é só foi revelar quando já era tarde demais. Então a atitude dos outros em amar e demonstrar amor a aborrece. Para ela, o amor é sinônimo de carência, dependência e falta de inteligência emocional e demonstrar e verbalizar que ama alguém é uma atitude de desespero ou chantagem emocional. Tudo isso para mascarar que ela não se permite amar ou simplesmente não consegue amar mesmo, mas se incomoda com o amor alheio interpretando-o como algo idiota e, da rara vez que confessou que estava amando alguém e não foi correspondida, procurou vê-lo como um babaca que deixou de falar com ela porque ela votou na Dilma!

Teoria do seja interessante
Ela se vê como uma pessoa superior, especialmente no quesito intelectual, pois lê muito sobre economia e se vê no direito de procurar doutrinar as pessoas em suas vinte publicações diárias no Facebook sobre o mesmo assunto. Quando alguém contesta suas verdades incontestáveis, mesmo que de forma muito educada, se torna agressiva nas respostas, pois entende tudo como ironia e ataque, agindo de forma a fazer com que o outro se sinta inferior, pois na cabeça dela, ela estudou para isso e o outro é uma pessoa burra que apenas reproduz as coisas. Por esta razão também acha que as Universidades apenas formam profissionais e que lá não se forma conhecimento algum ou pessoas com senso crítico. Performática como é, argumenta que não entrou em uma universidade porque não quis e que teria passado para as melhores se quisesse, afinal de contas, superior como ela é, ela não se contentaria em ser aprovada para uma universidade chinfrim. E por favor, seja interessante para ela, assim como suas centenas de amigos virtuais (físicos nucleares, astronautas da NASA, economistas, juízes, chefes de Estado). Ela não se contém com amigos que tenham uma vida simples e normal, que falem sobre coisas do cotidiano porque se falarem qualquer coisa que não seja edificante com ela, ela não irá se dignar a falar com a “ralé”.

Ou seja, por algumas destas teorias fica claro que são pessoas que criam teorias de inferiorização para qualquer coisa que as desagrade – e que não são poucas. Elas simplesmente têm uma imensa dificuldade de aceitar que sua vida pode ser comum e banal como a de seus pais, amigos e demais pessoas, que nem sempre todas as relações com os pais vão ser das melhores, que nem todos os nossos amores vão nos corresponder e que nem todo mundo irá compartilhar dos nossos mesmos gostos. Então elas precisam inferiorizar essas pessoas que causam essas frustrações e sensações de não pertencimento. Ao lidarem com pessoas que passam pela mesma dificuldade de se encaixar nos padrões ideais de felicidade, amor, inteligência ou o que quer que seja, elas costumam projetar nelas todas essas frustrações. Aí reside uma grande diferença entre a pessoa que tem dificuldades que ou tenta aceitar a realidade ou tenta se adaptar para que finalmente se sinta em paz, e aquelas que enxergam nas tentativas de inferiorização a terceira via para a paz, ou o passatempo para se livrarem do tédio de serem quem são, pois nem elas mesmas se suportam. Neste caso, as atitudes delas falam por elas mesmas e não deveriam se surpreender se suas relações com as outras pessoas são escassas, rasas e artificiais: ela vai procurar teorizar que a vida das outras pessoas não é grande coisa como podem parecem ser ou que é tudo falsidade. Enfim, é um ciclo de miséria que elas optam por viver. Resta a ficar do lado delas quem se vê sem opção ou quem tem comiseração.

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