domingo, 20 de dezembro de 2015

Lidando com ideias diferentes das suas

A última postagem deste blog procurou incentivar os seus leitores a desenvolverem a autonomia crítica, ou seja, se livrarem de conceitos estabelecidos por instituições que procuram homogeneizar o pensamento de seus seguidores (como fazem a igreja, a imprensa, os partidos políticos, a sociedade, a família, etc). Por outro lado, é importante deixar claro que este blog também não está dizendo que estas instituições são “do mal” ou que não exerçam algum grau de importância e credibilidade na vida das pessoas. O que este blog quis e quer incentivar o leitor é a não acreditar cegamente em tudo o que dizem, mas sim em questionar as suas supostas “verdades”, investigá-las mais a fundo, consultar versões que entram em conflito com aquilo que você acredita ao invés de ir atrás daquelas que você já supõe que só irão reforçar aquilo que você quer acreditar. Enfim, o ideal não é chegar a uma “verdade”, mas a um resultado que chegue o mais próximo possível do justo para as partes conflitantes para que este conflito seja encerrado ou amenizado, principalmente nas questões de juízo de valor devido à sua subjetividade (o que é justo para um pode ser injusto para o outro).

A postagem de hoje ainda é sobre juízos de valor e os conflitos que ocorrem quando os seus valores/crenças são diferentes dos valores/crenças outro. Aqui neste caso, “crenças” não possui um significado exclusivamente religioso, mas acreditar de maneira geral em qualquer coisa (como numa ideologia, por exemplo). Também é importante deixar bem claro que este blog não se propõe a dar receitas para encerrar o conflito, mas sugerir modos de lidar com ele, justamente porque o objetivo desta postagem é propor o respeito à autonomia crítica dos outros.

Pensemos no seguinte exemplo: você é uma pessoa que come carne e alguém que você conhece é uma pessoa que não come carne (vegetariana) ou não consuma nada de origem animal (vegano). Não é esperado que você saia fazendo campanha no seu Facebook, por exemplo, exaltando os benefícios e os prazeres ou benefícios de comer carne porque muitas pessoas consomem carne e produtos de origem animal (ovos, leite, couro, etc.). Pessoas vegetarianas e veganas, por outro lado, estão em um número menor na sociedade, então é esperado que elas se manifestem sobre esta questão alimentar e de direito dos animais. Como o conflito pode surgir entre estes dois tipos de consumidores? Normalmente porque os vegetarianos/veganos acabam levantando questões que acabam aborrecendo as pessoas que consomem carne e produtos de origem animal, argumentado que eles são assassinos de animais e todas as consequências inclusive ambientais para manter este comportamento (por exemplo, o desflorestamento para dar espaço à agropecuária e o alto consumo de água com irrigação).

Como erradicar ou diminuir o conflito neste caso? Bem, para erradicar o conflito, uma das partes teria que convencer a outra de que há um hábito “correto” e o outro “errado”. Isto não é impossível de ocorrer, pois algumas práticas que já foram concebidas como “corretas” antigamente hoje são consideradas arcaicas como, por exemplo, o casamento arranjado nas sociedades ocidentais, porém, no caso do conflito levantado, ele ainda deve demorar muito tempo até que todas as pessoas se convençam que consumir produtos de origem animal é prejudicial ou degradante, ou então que os vegetarianos/veganos estavam errados. Ambas as partes vão continuar em conflito, vão procurar debater com argumentos razoáveis (que não são isentos de manipulação e fraude) ou então vão apelar para a baixaria como é mais comum nos “debates” pelo Facebook. Como foi abordado no último post d’O Cão Ocidental, o problema da baixaria é que ninguém ganha nada com isso e o conflito só se intensifica. É importante que as pessoas mantenham um nível mínimo de civilidade, ou seja, um nível mínimo de respeito, de tolerância e de empatia.

É claro que é importante que as pessoas tenham pelo menos alguma causa para lutar (seja para mudar alguma coisa, seja para mantê-las como estão), pois pelo menos os indivíduos estão raciocinando sobre alguma coisa e vão ser confrontados com visões opostas às suas. Uma pessoa que não se envolve em conflito algum é alienada e serve como massa de manobra desses grupos conflitantes, por mais que se ache neutra (a menos que viva em um universo paralelo à sua realidade na sua imaginação ou em uma ilha deserta). No entanto, uma luta se torna inútil ou pouco inteligente se você não respeita a outra parte e quer fazê-la engolir goela abaixo aquilo que você defende como certo. Não vai ser impondo um conceito de família como sendo formada por um homem, mulher e filhos que os homossexuais vão deixar de existir, da mesma forma que a sociedade não vai compreender as causas LGBTs ou aceitá-los muito bem com uma cartilha direcionada às crianças se os pais entendem muito pouco ou nada sobre a homossexualidade, principalmente em uma sociedade onde as pessoas crescem com uma imagem estereotipada dos gays. Esta é uma das razões da bancada evangélica ter tanta força no Congresso, pois eles “falam a língua do povo” e possuem um trabalho de convencimento mais eficiente (principalmente porque é o grupo que tradicionalmente demoniza homossexuais), enquanto os deputados defensores e os movimentos LGBT possuem uma linguagem de difícil compreensão para quem é leigo no assunto, isto quando não tratam de maneira agressiva a ignorância dos leigos quando usam termos ou expressam acreditar que a homossexualidade é uma “opção”, por exemplo.

Uma pessoa que não respeita as pessoas que possuem crenças e valores diferentes dos seus nunca vai conseguir transmitir para o outro a importância que elas têm para ela própria. Não vai ser chamando um consumidor de produtos de origem animais de assassino que você vai conseguir fazê-lo repensar os seus hábitos de consumo e pensar nos direitos dos animais. Talvez ele até pense e reflita sobre o assunto, quem sabe mude até seus hábitos, mas a sua relação com esta pessoa dificilmente será amistosa e respeitosa porque você já perdeu o respeito dela pela sua falta de educação e inteligência emocional na hora de argumentar. Também não vai ser tratando os homossexuais como uma aberração e se embasando em argumentos religiosos que eles passarão a respeitar a sua fé ou aos valores que a sua fé quer universalizar. E, da mesma forma, não vai ser tratando os leigos com ironias e sarcasmo, ou que não possuem o mesmo conhecimento que o seu, que eles irão poder compreender a homossexualidade para, a partir daí, respeitar os homossexuais.

Há duas opções diante de um conflito que não evolui devido à intolerância às visões contrárias:

1ª) Aceitar que a outra parte não vai mudar suas crenças e valores
Isto porque ela está convicta que as suas crenças e valores são os mais “corretos” ou, o mais importante, porque ela se sente bem assim. É inútil para um gay bater-boca com um fanático religioso que acredita em “cura gay”, da mesma forma que é inútil tentar “curar um gay” com quem se sente bem e se aceita como homossexual. Esta é forma mais saudável e adulta de lidar com o conflito e lidar com as diferenças, pois se as duas partes ao menos se respeitarem, ótimo: “o que não tem remédio, remediado está”.

2ª) Continuar se estressado até aniquilar a outra parte
Esta é, evidentemente, a opção mais perigosa e indesejável, pois só uma tirania ou massacre será capaz de aniquilar a outra parte. Várias guerras foram travadas ao longo da história em nome de uma crença ou de um valor, como as cruzadas (para manter a fé católica soberana no mundo), o holocausto (para exterminar os judeus que “ameaçavam” a raça ariana), a “limpeza étnica” na guerra da Bósnia, dentre muitos outros. Embora seja improvável que isto ocorra entre os exemplos dados nesta postagem, não há como negar que nos últimos anos tem aumentado as tensões sociais entre conservadores e grupos tradicionalmente reprimidos (mulheres, negros e homossexuais) à medida que estes últimos vêm conquistando mais visibilidade no Brasil. Da mesma forma, há a questão da xenofobia e da intolerância religiosa na Europa que proporcionou conflitos como os atentados ao jornal Charlie Hebdo (que trata imigrantes e muçulmanos com deboche), o surgimento do Estado Islâmico que conta com um número relevante de europeus filhos de imigrantes, e vários outros episódios durante a crise imigratória no continente (os mortos em naufrágios, em caminhões na Áustria e a jornalista húngara que agrediu um imigrante ao vivo).

O teor desta postagem não se refere somente às pessoas que não questionam às suas instituições, mas também aqueles que são críticos, pois a questão é que dentro destes dois grupos existem pessoas que se acham as donas da razão e que, por isso, estão no direito de destratar qualquer um que discorde dela. Também serve para quem cria as próprias regras em um ambiente onde não existe uma regra universalizada (por exemplo, redes sociais como Facebook e Whatsapp), pois neste ambiente o conflito toma proporções muito maiores porque cada um tem uma “norma de conduta” muito exclusiva (por exemplo: postar imagens de pessoas e animais machucados/multilados é necessário ou de mau gosto, uma pessoa que visualiza e não responde uma mensagem no Whatsapp é mal educada por isso ou não, e assim por diante).

Em todos os ambientes, físicos ou virtuais, lidamos com pessoas que não vão concordar com as nossas visões e valores e, por isso, o conflito pode surgir. O consenso é muito difícil, logo as duas opções mais possíveis são i) a aceitação de que existem pessoas que pensam de modo diferente de você e que não podem e/ou nem querem ser “convertidas” e, ii) aniquilação dos valores de outra pessoa ou da pessoa em si. Seguir a primeira alternativa significa aprender a lidar com a frustração e abrir mão de idealizações egoístas de querer moldar o mundo e as pessoas de acordo com os seus valores, tratando-as com respeito, com tolerância e empatia. Já a segunda alternativa é a prática do desrespeito, da intolerância e do ódio compreendido ou do autoconflito mal-resolvido. Saber como lidar com pessoas que pensam diferente de você é o mais desejável, tanto para se sentir melhor no ambiente em que convive como também para estabelecer diálogos construtivos (que podem ser bem ou mal intencionados devido à possibilidade de manipulação, porém são pacíficos). Pessoas civilizadas respeitam a pluralidade de ideias e valores, enquanto as que não são civilizadas apelam para o seu lado mais hobbesiano e animalesco.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Rezando cartilhas e disseminado o ódio

Em quase dez anos de blog, muita coisa mudou em relação aos pensamentos expostos aqui porque tudo muda, simplesmente. As pessoas mudam, o mundo muda, a realidade ao nosso redor muda, então mudar é uma forma de se adaptar ao contexto da realidade na qual vivemos. As mudanças não são boas ou ruins, pois isto é relativo e depende da forma como você enxerga o mundo e lida com essa realidade. Em geral, a mudança é uma forma de tornar a realidade mais confortável ou menos desagradável.

Mas o que as mudanças têm a ver com este texto? Que algumas coisas não mudam e nesse tempo que O Cão Ocidental está no ar, o que não mudou é a tentativa de estimular quem o lê a pensar, a refletir, não dizendo amém a cada linha e a cada parágrafo, mas pensar com autonomia. Vários filósofos e pensadores escreveram várias teorias e ensaios sobre isso. Autonomia tem muito a ver com liberdade (ou tudo a ver). Kant, por exemplo, realiza essa ligação entre autonomia e liberdade. Para ele, ser livre é responder pelas próprias ações sem colocar a culpa de seu ato em outros, é ser dono do próprio destino, basicamente. Isto, contudo, não significa dizer que ser livre é não se submeter a regras. Por exemplo, quando você procura emprego, você é livre no momento que decide onde quer trabalhar. A partir do momento que você é contratado por uma empresa, você precisa acatar às suas regras, pois foi você quem procurou a empresa a trabalhar e não o contrário; e mesmo que isto acontecesse, você é livre e responsável em responder “sim” ou “não” a esta oferta de emprego.

A partir desta introdução sobre mudanças e autonomia/liberdade, podemos, então, PENSAR sobre o tema central deste texto que é questionar o comportamento, tanto seu quanto das outras pessoas, sobre não pensar sobre as várias coisas que acontecem ao nosso redor.

Quem nunca bateu boca pessoalmente ou através das redes sociais, ou que pelo menos não tenha testemunhado algum barraco ou debate neste sentido? Podemos entender como barraco quando duas opiniões/pensamentos diferentes se chocam e o clima é sempre tenso, onde as pessoas se tratam com agressividade através de ironias, sarcasmos, xingamentos e, em casos mais extremos, ocorrem agressões físicas ou até mesmo mortes. Em um barraco nenhuma das partes nunca irá mudar de opinião ou pelo menos rever seus conceitos: são duas verdades absolutas duelando para ver qual das duas “verdades” é a mais “verdadeira”. Em um barraco, o consenso inexiste e a tentativa de reflexão, muito menos, e há sempre alguém que sai ofendido de algum modo. Um debate é quando duas opiniões/pensamentos diferentes dialogam entre si com a expectativa de um nível mínimo de respeito e civilidade. A preocupação maior não é impor uma verdade sobre a outra (pelo menos aparentemente), mas expor à outra parte, com base em argumentos razoáveis (como desejaria Habermas), ou seja, argumentos com alguma fundamentação reconhecida por ambos os lados como legítima, que o seu ponto de vista é o mais correto/verdadeiro e que o outro ponto de vista não está completamente errado ou seja falso. Ao mesmo tempo, cada uma das partes se dispõe a ouvir os argumentos do outro lado e pensar a respeito, estabelecer críticas ao que discorda e também reconhecer verdades ou argumentos plausíveis do outro lado. Desta forma, o debate pode gerar o consenso, mas isto não é regra, sem que nenhum dos lados precise aniquilar os pontos de vista do outro.

Um dos temas que mais gera barraco atualmente no Brasil envolve a política e, em seguida, temas que envolvem a política de alguma forma. Este blog já alertou algumas vezes para os perigos dessa polaridade, em grande parte por causa da imprensa, de demonizar o PT e endeusar o PSDB ou vice-versa. É como se existisse só os dois partidos, como se somente o/a presidente da República fosse o único responsável por tudo de bom ou ruim que acontece no país, como se o impeachment fosse a única e a melhor solução para a atual crise econômica, moral e política do país, e por aí afora. Esta polaridade ocorre por vários motivos, como por estímulo da imprensa.

Habermas, assim como muita gente, considera que os políticos são muito sensíveis ao que sai nos veículos de comunicação. Não é por acaso que há emissoras de televisão que são, de maneira velada ou explícita, alinhadas com uma determinada ideologia política. A Revista Veja, por exemplo, é claramente defensora do livre mercado, do capitalismo, da direita política, ou seja, não é por acaso que critica Lula, Dilma, o PT e os regimes de esquerda no Brasil e no mundo desde que existe. Uma pessoa que lê a Veja o faz porque ela endossa tudo aquilo o que o seu leitor já concebe como certo e verdadeiro. O contrário também é verdadeiro em relação à Carta Capital, que procura fazer frente à Veja. Ou seja, os meios de comunicação importam para os políticos e não é a toa que recursos como a censura (como a que ocorreu no Brasil e como ocorreu e ocorre na Venezuela) ou o monopólio estatal dos meios de comunicação (como na Coreia do Norte, que procura passar uma imagem à população de que o país é uma maravilha e que tudo dá certo). Então, se ainda não enxergamos o óbvio, os veículos de comunicação estão sujeitos à manipulação política e vai existir sempre algum nível de parcialidade, pois querendo ou não, ela defende valores que acredita serem certos e isto é relativo, pois o que pode ser certo para um pode ser errado para outro.

É importante observar que esse comportamento não é exclusivo da televisão, dos jornais impressos, das revistas, ou seja, da imprensa de modo geral. Livros, intelectuais, personalidades influentes (artistas, por exemplo) e pessoas comuns do nosso dia a dia (professores, amigos, inimigos e familiares) também disseminam as suas ideias e as suas crenças nas nossas esferas de convivência. A Bíblia, por exemplo, é um livro que propaga os princípios e valores do cristianismo. “O Capital”, de Marx, é a bíblia de muitos políticos e intelectuais da esquerda enquanto “O Caminho da Servidão”, de Hayek, é um dos livros mais importantes para os políticos e intelectuais da direita. Vários atores da Globo e cantores brasileiros têm o poder de influenciar o pensamento de seus fãs, não é a toa que são chamados ou se voluntariam para apoiar candidatos políticos durante as eleições. Se um Papa diz que usar camisinha é um pecado contra a vida, ou se diz que os seus fieis devem acolher os homossexuais, ele pode fazer com que a comunidade cristã e também a não-cristã reflita sobre esses temas ou acate às suas palavras. E dentro da sociedade e da família que vivemos crescemos concebendo algumas coisas como verdade como, por exemplo, que é função do homem trabalhar e a mulher deve cuidar da casa e dos filhos, que quando o homem trai a culpa é da esposa que não deu “assistência” ou da outra “vagabunda” que destruiu o casamento, que todo negro é ladrão e que ser homossexual é motivo de vergonha dentro de uma família, mas nada que uma boa surra não resolva. Então quando as pessoas lidam com uma opinião ou uma realidade diferente, o conflito é inevitável, ou pelo menos um desconforto inicial, por mais mente-aberta e respeitosa que uma pessoa procure ser.

A questão mostrada é que as pessoas não pensam sobre essas coisas, mas sim, se deixam levar pelas opiniões dos outros e as concebem como uma verdade absoluta. Muita gente concebe como verdade tudo o que assiste na televisão ou até mesmo em imagens publicadas no Facebook e grupos do Whatsapp, por mais absurdas que sejam estas informações. Muita gente “reza bíblias” cegamente, sem se questionar. É muito cômodo para alguém que, por alguma razão que ela não entende (ou finge não entender) se apoiar na Bíblia para condenar os homossexuais dizendo que eles irão para o inferno dizendo que “não são preconceituosos” e que estão apenas seguindo o que está na Bíblia e não é raro que citem passagem bíblicas para defender o seu ponto de vista, sendo que ela nem precisa ser religiosa de verdade, mas fingir ser e se esconder atrás da Bíblia para mascarar o seu ódio, ou seja, colocar na Bíblia a desculpa para o seu preconceito. Há também aqueles militantes que acham que tudo o que a sua corrente político-ideológica dite e faça seja correto e verdadeiro, enquanto o outro lado representa tudo de mau que possa existir. Ou seja, através destes exemplos fica claro que não existe um questionamento sobre o por quê de as coisas serem como são.

Uma pessoa muito religiosa (nesse caso, mais preconceituosa que religiosa) não está preocupada em entender os homossexuais, mas sim em achar que eles estão errados e vão para o inferno porque “Deus fez o homem e a mulher, Adão e Eva e não Adão e Ivo”. Enquanto há muita manipulação, sobretudo de bispos que se aproveitam da fé e da ignorância de seus fieis, há pessoas que realmente acreditam em tudo o que eles dizem, sem questionar os interesses por trás de bispos, como se fossem entidades imaculadas e enviados puros de Deus e, muito menos, que questionam as contradições da própria Bíblia, pois enquanto uma passagem pode dizer que “homem com homem é abominação”, outra passagem diz para “amar ao próximo como a si mesmo”. A crítica, neste caso, não é a quem tem uma fé, a quem é cristão ou a própria Bíblia, mas ao fato de ter um imenso pudor em cogitar a hipótese de questionar. Muitos fieis são incentivados a não questionar estas passagens controversas da Bíblia e sequer pensar em questionar a Bíblia, pois isto é contestar a vontade de Deus, é um pecado, é uma passagem só de ida ao inferno e a ter um pensamento egoísta de que “a minha salvação depende da inferiozação do outro, do pecador, daquele que não acredita no mesmo que eu”. Talvez o fato de ver que os outros não compartilhem das mesmas crenças que você é o que mais choca, seja essa crença religiosa, política, etc.

O mesmo também ocorre na política e isto é perigoso, pois independente se você gosta do Partido A ou do Partido B, estes e os outros criam leis e políticas públicas que influenciam diretamente na sua vida. O grande problema é que não existe um debate, mas em alguns casos, um barraco domesticado. Para um militante fanático do PT, é Deus no céu e Lula na Terra e nada que o PSDB fez é bom ou deu certo, e o contrário também é verdadeiro por parte de um militante fanático do PSDB que vai acreditar que nada do PT e da esquerda presta/prestou. Eles rezam cartilhas político-ideológicas sem questionar nada, então não existe um debate, uma troca de ideias diferentes das suas, e cada um vai ir atrás das suas “bíblias” que apenas reforcem aquilo que eles já acreditam.

E o mesmo ocorre na nossa sociedade. Atualmente, questões como o feminismo, a homossexualidade e o racismo estão muito mais presentes em novelas e nas páginas de Facebook do que estava há alguns anos atrás. Algumas pessoas pensam que feministas, homossexuais e negros estão querendo “privilégios” ou que o racismo não existe. Na realidade, estes grupos vem é realizado estes questionamentos da sociedade onde vivem onde a mulher sempre foi tratada à sombra do homem, onde gays sempre foram tratados como aberrações ou que precisavam de tratamento para exorcizar seus demônios e deixarem de ser gays, ou que os negros devessem se conformar a crescer dentro das suas “castas”, morando nas suas “favelas” e respeitando o “espaço dos brancos na sociedade”. Então a partir do momento que um grupo questiona a sociedade na qual vive e questiona as “bíblias” sem dizem amém, amém, amém, que questiona as construções sociais desta sociedade, certamente o pessoal que não questiona vai se sentir incomodado. É muito comum que ocorram mais barracos do que debates entre estes grupos, pois para que o debate ocorra, os dois grupos precisam entender o outro lado e isto é muito difícil. Assim como é muito muitos religiosos condenam os homossexuais por terem “escolhido” serem homossexuais, há muitos ateus homossexuais ou não que também discriminam as pessoas religiosas, sendo que nem todo religioso é homofóbico e nem todo gay é ateu ou “cristofóbico”.

As pessoas deveriam questionar os seus dogmas religiosos, os seus políticos e suas ideologias, a sociedade onde vivem. Parar de julgar com base em preconceitos e procurarem entender o outro lado para poder defender o seus pontos de vista de uma maneira racional e respeitosa. Isto sim é ser livre, é ter a liberdade de tomar as próprias decisões em vez de dizer amém às coisas sem se questionar o por quê delas. É ter a liberdade de aproveitar o que considera de melhor de cada “bíblia” ou de não seguir bíblia nenhuma, ou até mesmo criar uma própria. É ter a curiosidade de procurar entender a complexidade da realidade na qual está inserido ao invés de achar que é tudo preto no branco, que as pessoas “viram” gays porque querem e quando querem, ou que a Dilma pode fazer tudo o que ela quer, ou que o impeachment vai resolver tudo. Cada parte tem a sua parcela de razão e verdade. O problema é quando ela quer ou acha que concentra a verdade em sua plenitude.

Questione! Não reze Cartilhas! Não dissemine ódio e ignorância!

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Limpando a casa


A nossa vida pode ser comparada à casa onde vivemos e o ideal é que ela esteja sempre limpa. Mesmo que estar com a casa limpa não implique em felicidade automática, ao menos significa que ela está ordem e que nada nela nos incomoda ao ponto de comprometer nossa felicidade. A questão é: como administrar essa casa deixando ela sempre limpa na maior parte do tempo? Bem, podemos ir limpando aos poucos, lavando os copos, varrendo a casa, etc., à medida que sujam. Ou ok, tudo bem se um copo permanecer sujo de uma noite para a outra ou jazer lá por dias, contanto que não se cause nenhum grande incômodo. O problema é deixar acumular, já que quando a sujeira ultrapassa o limite que você mesmo considera aceitável, ela se torna caótica e corrói a sua paz.

Quando a casa está saturada de sujeira, fica difícil até saber por onde começar e, nessas horas, ou você contrata uma diarista para limpar a sua sujeira ou você tenta limpá-la por conta própria, procurando não varrer a poeira para baixo do tapete ou atirando as coisas pela janela ou no lixo, até mesmo porque elas vão continuar sujas do mesmo jeito e se livrar delas não fará com que fiquem limpas, ou seja, realocar a sujeira não ajuda e tem um custo mais alto do que limpar. Além disso, ao contratar uma diarista, você vai estar sempre dependendo de alguém para limpar a sua sujeira.

Mas nem toda bagunça é necessariamente ruim. Há três cenários possíveis: i) a bagunça que, quando acumulada e em excesso. compromete a sua felicidade, ii) a casa limpa que não traz felicidade, mas pelo menos não te deixa infeliz e, iii) preparar a casa para uma festa.

Neste último caso, a casa se torna uma bagunça mesmo, mas é uma bagunça que está te proporcionando felicidade e é uma festa que você não gostaria que acabasse, mas tem sempre uma vizinha chata que liga para a polícia ou alguém na própria festa vê que já deu a hora e acende as luzes para as pessoas se tocarem que está na hora de ir embora. Pode ser que mais alguém na festa te ajude a limpar a bagunça, mas a grande diferença para aquela do primeiro cenário é que pelo menos você não vai sucumbir ao caos para perceber que precisa limpar a casa; e o mais importante, assumindo a responsabilidade sobre a limpeza da própria casa.

sábado, 19 de setembro de 2015

Teorias de inferiorização - Parte 2


A publicação anterior (Teorias de inferiorização – Parte 1) procura explicar o que é uma teoria da inferiorização, quem são as pessoas que criam, porque elas criam estas teorias e como elas agem – ou melhor, reagem ao que entendem como “ataque”. Esta segunda parte irá analisar algumas destas teorias de inferiorização na prática, casos reais de uma pessoa que rechaça a realidade da própria vida e que inspiraram a redação e a publicação dos textos para que você saiba identificar se você é uma pessoa que se esconde por trás das teorias de inferiorização.

Teoria do amor materno não-automático
Esta teoria foi criada por uma filha que possui uma relação péssima com os pais, principalmente com a mãe, com quem convive na mesma casa. Ela se sente incomodada por sentir que sua mãe não a ama, principalmente porque a mesma costuma fazer comentários depreciativos dizendo coisas como “que você vive de teoria e não parte para a prática”, além de, volta e meia, jogar na cara dela a culpa por eventos graves que ocorreram no seio familiar. Devido ao simples fato de ter uma relação ruim com sua mãe e, pressionada por uma sociedade na qual a figura maternal representa um amor incondicional a partir da gestação e onde muitos filhos nutrem uma relação de amor e respeito por suas mães, ela se sente deslocada. Ao invés de simplesmente admitir que sua mãe não a ama, e de se questionar sobre os motivos de sua mãe ou se ela fez ou faz algo que tornou a sensação delas tensa. Mas ao invés de aceitar que sua mãe é simplesmente louca por não gostar gratuitamente dela, ou de refletir sobre o modo como trata sua mãe como alguém que não faz mais do que sua obrigação de criá-la e mantê-la sob o mesmo teto, mesmo que ela já tenha 26 anos, ela preferiu criar a teoria de que o amor materno não é automático (assim que se descobre grávida, a mãe passa a amar incondicionalmente seu filho).

Fica difícil para a filha querer julgar o fato de sua mãe não gostar dela, até mesmo porque ela não fala com o próprio pai, a quem despreza e considera, juntamente com suas outras irmãs e mãe, como sendo pessoas sem inteligência emocional. Então fica muito conveniente criar uma teoria do amor materno não automático, que isto é mito (o que não deixa de ser verdadeiro, pois há mães que abandonam seus filhos ao nascerem ou então que os matam), quando se espera que o amor deva partir exclusivamente da mãe, sem se questionar se ela não está sendo uma filha péssima, arrogante e desprezível que tem nojo e vergonha da própria família porque espera que todos a amem incondicionalmente, pois também sente a pressão social de que “família é sagrada” e que, na hora da dificuldade, é só com ela que podemos contar.

Teoria da inferiorização do amor e de demonstrar sentimentos
Para ela, o amor é um sentimento das pessoas fracas, especialmente das que demonstram sentimentos, que falam que sentem falta da outra, que ficam tristes quando o amor não é correspondido. Aos olhos dela, parece que existe uma ditadura do amor, na qual as pessoas se juntam com a primeira pessoa que aparecer para que provem para si mesmas que não são pessoas sozinhas. Ela entende que o amor é um ato de desespero e de performance, isto para mascarar o fato de que ela simplesmente não tem muita sorte no amor, o que não é difícil de explicar, pois ela é uma pessoa amargurada. E da vez que disse estar amando alguém, guardou tudo isso pra si é só foi revelar quando já era tarde demais. Então a atitude dos outros em amar e demonstrar amor a aborrece. Para ela, o amor é sinônimo de carência, dependência e falta de inteligência emocional e demonstrar e verbalizar que ama alguém é uma atitude de desespero ou chantagem emocional. Tudo isso para mascarar que ela não se permite amar ou simplesmente não consegue amar mesmo, mas se incomoda com o amor alheio interpretando-o como algo idiota e, da rara vez que confessou que estava amando alguém e não foi correspondida, procurou vê-lo como um babaca que deixou de falar com ela porque ela votou na Dilma!

Teoria do seja interessante
Ela se vê como uma pessoa superior, especialmente no quesito intelectual, pois lê muito sobre economia e se vê no direito de procurar doutrinar as pessoas em suas vinte publicações diárias no Facebook sobre o mesmo assunto. Quando alguém contesta suas verdades incontestáveis, mesmo que de forma muito educada, se torna agressiva nas respostas, pois entende tudo como ironia e ataque, agindo de forma a fazer com que o outro se sinta inferior, pois na cabeça dela, ela estudou para isso e o outro é uma pessoa burra que apenas reproduz as coisas. Por esta razão também acha que as Universidades apenas formam profissionais e que lá não se forma conhecimento algum ou pessoas com senso crítico. Performática como é, argumenta que não entrou em uma universidade porque não quis e que teria passado para as melhores se quisesse, afinal de contas, superior como ela é, ela não se contentaria em ser aprovada para uma universidade chinfrim. E por favor, seja interessante para ela, assim como suas centenas de amigos virtuais (físicos nucleares, astronautas da NASA, economistas, juízes, chefes de Estado). Ela não se contém com amigos que tenham uma vida simples e normal, que falem sobre coisas do cotidiano porque se falarem qualquer coisa que não seja edificante com ela, ela não irá se dignar a falar com a “ralé”.

Ou seja, por algumas destas teorias fica claro que são pessoas que criam teorias de inferiorização para qualquer coisa que as desagrade – e que não são poucas. Elas simplesmente têm uma imensa dificuldade de aceitar que sua vida pode ser comum e banal como a de seus pais, amigos e demais pessoas, que nem sempre todas as relações com os pais vão ser das melhores, que nem todos os nossos amores vão nos corresponder e que nem todo mundo irá compartilhar dos nossos mesmos gostos. Então elas precisam inferiorizar essas pessoas que causam essas frustrações e sensações de não pertencimento. Ao lidarem com pessoas que passam pela mesma dificuldade de se encaixar nos padrões ideais de felicidade, amor, inteligência ou o que quer que seja, elas costumam projetar nelas todas essas frustrações. Aí reside uma grande diferença entre a pessoa que tem dificuldades que ou tenta aceitar a realidade ou tenta se adaptar para que finalmente se sinta em paz, e aquelas que enxergam nas tentativas de inferiorização a terceira via para a paz, ou o passatempo para se livrarem do tédio de serem quem são, pois nem elas mesmas se suportam. Neste caso, as atitudes delas falam por elas mesmas e não deveriam se surpreender se suas relações com as outras pessoas são escassas, rasas e artificiais: ela vai procurar teorizar que a vida das outras pessoas não é grande coisa como podem parecem ser ou que é tudo falsidade. Enfim, é um ciclo de miséria que elas optam por viver. Resta a ficar do lado delas quem se vê sem opção ou quem tem comiseração.

Teorias de inferiorização - Parte 1


É muito mais fácil e prático criar teorias de inferiorização do que admitir determinadas realidades e atitudes que nos incomodam profundamente, por mais que tentemos mascará-las ou enganar a nós mesmos porque não conseguimos lidar com elas. Pode-se dizer que estas teorias são bem sucedidas quando acreditamos, principalmente, que tudo se divide em dualidades como “certo e errado” e “o bem e o mal” e quando o alvo destas teorias se deixa atingir por elas, passando a questionar as próprias atitudes ao invés das reais intenções e os conflitos internos por trás de quem formula estas teorias.

Vivemos em um mundo onde somos levados a acreditar que não podemos nunca estar errados e que, se fazemos algo que prejudique uma outra pessoa, podemos até admitir uma parcela da culpa, mas jamais ela em sua totalidade, pois podemos nos esconder atrás da desculpa de que “estávamos apenas nos defendendo”, reagindo a algo que nos incomoda. Esta forma de reação é perfeitamente comum e ainda é impreciso rotulá-la como sendo “certa ou errada”, até mesmo porque esses conceitos são subjetivos: o que é certo para você pode ser errado para outra pessoa e vice-versa. No entanto, esconder-se por trás da subjetividade desses conceitos também é muito conveniente, por isso, deve-se pensar com empatia. Se a outra pessoa reagisse da mesma forma com você e você, sendo o mais puramente sincero com você mesmo, ainda aprovasse e até mesmo esperasse tal reação sem a menor possibilidade de mágoas e ressentimentos da sua parte, então ótimo; os dois estão implicitamente em consenso sobre o que é “certo e errado”. Mas se a outra pessoa toma atitudes que você tomaria no lugar dela e você se ofende com elas, daí o “errado” da história é você por estar sendo hipócrita, o que pode ser tão pior quanto estar simplesmente “errado”.

Além disso, também vivemos em um mundo onde nos vemos obrigados não a necessariamente sermos melhores que os outros, mas que devamos estar sempre “por cima da carne seca” ou que não devemos estar por baixo de ninguém. Aqui nos deparamos com outros dois conceitos bem subjetivos: o de superioridade e inferioridade. Neste caso, as pessoas parecem se dividir nestas duas categorias (de pessoas inferiores e superiores) e em diversos quesitos: posição social, inteligência, beleza física, caráter, simpatia, etc. Dificilmente alguém não se sentirá superior ou inferior a outra pessoa em algum dos quesitos citados, não somente porque é difícil criar um conceito do que é ser superior e o que é ser superior. Tanto o excesso ou a ausência de autoestima são desagradáveis tanto para a própria pessoa quanto para as outras que convivem com ela, pois pouca gente gosta de verdade de pessoas arrogantes ou depressivas. O ideal mesmo é não se sentir melhor ou pior do que ninguém por qualquer motivo que seja e, principalmente, respeitar as pessoas que são iguais a você nos mais diversos quesitos.

Então as teorias de inferiorização são a absolvição perfeita do agressor/pessoa que reage, pois o exime de qualquer sentimento de culpa e peso na consciência, já que ele se sente “superior” ao outro por ser o “certo” (na sua concepção de “certo e errado”) da história, por isso, não se vê moralmente obrigado a reparar os danos que causou ao outro, nem que seja simplesmente pedindo desculpas nos casos em fazemos algo que não aprovaríamos se o outro fizesse para nós mesmos. Quando uma pessoa é toda hobbesiana e já está tão armada que reage a qualquer coisinha como se fosse uma agressão e, de modo que ela consideraria a outra pessoa “errada” dentro da sua própria concepção de “certo e errado”, ela tem um problema sério por ser excessivamente paranoica e hipócrita. E o pior é quando ela procura criar teorias de inferiorização para absolver a si própria da culpa, ou reconhecer apenas uma parcela da culpa porque ela não suporta e considera inadmissível ela estar completamente errada e precisa, no mínimo, dividir a culpa para se sentir menos “monstruosa” – porque se fosse o outro, ele seria o “mostro”.

Mas o que são exatamente as teorias de inferiorização? São teorias que a pessoa cria com o intuito de se livrar de qualquer peso na consciência e de um sentimento de culpa. Ela mesma está em conflito porque, dentro de si, reconhece que agiu de forma errada (dentro do seu conceito de “errado”), mas admitir o erro ou reparar os danos lhe parece uma insuportável humilhação, por isso ela procura cometer um abuso psicológico conhecido como “gaslightning”, fazendo com que o outro se sinta culpado quando, na realidade, não deveria. Nessas teorias, ela procura se convencer de que está em uma posição superior, livre de qualquer sentimento de culpa e peso na consciência e que, por isso, a outra pessoa é inferior ou é um monstro. Mas a pessoa que inferioriza não se sente confortável em estar bem com ela mesma e a outra na mesma situação ao mesmo tempo: ela precisa verbalizar e praticar a inferiorização para, daí sim, deitar sua cabeça tranquila no travesseiro com a sensação de “missão cumprida”. Caso ela fique remoendo os acontecimentos sem verbalizar o quanto considera a outra pessoa inferior, ela represará tudo, explodirá violentamente e ela não irá se contentar simplesmente em deixar a outra pessoa magoada com ela: ela precisa tentar aniquilá-la psicologicamente.

As pessoas que se utilizam das teorias de inferiorização se escondem por trás das teorias que criam, ou para se sentirem superiores ou então para que, ao menos, não se sintam inferiores. São pessoas performáticas devido a sua necessidade de se provarem melhores do que as outras o tempo todo, principalmente diante das pessoas que consideram inferiores porque estas, acreditam elas, estariam mais suscetíveis a se deixarem abalar por suas “teorias de inferiorização” e causar nelas o sentimento de “gaslightning” e de que elas considerem que são sim pessoas inferiores. São também pessoas que reconhecem ou questionam, pelo menos para si próprias e em alguma medida, se elas não são loucas ou psicopatas, mas como nossa sociedade tende a lidar muito mal com as pessoas que tem problemas psicológicos, elas também criam uma teoria de inferiorização para os psicólogos, psicoterapeutas, etc. Para elas, os loucos são os outros, nunca elas mesmas e que elas são as únicas pessoas sãs e que prestam neste mundo terrível.

Então é importante que as pessoas reflitam sobre as suas atitudes, sejam sinceras com elas mesmas e sejam muito bem esclarecidas com os conceitos de “certo e errado”, “bem e mal”, “superior e inferior”. Vivemos em uma sociedade que procura nos escravizar por detrás de seus conceitos morais e comerciais inflexíveis, e que também procura promover torturas psicológicas para que as pessoas se sintam mal e se ajustem ao padrão “correto”. Do contrário, aqueles que não conseguem se encaixar irão criar suas “teorias de inferiorização” quando, na realidade, deveriam questionar estes padrões ou pelo menos viverem em paz com elas mesmas buscando o esclarecimento ou a aceitação, sem procurar inferiorizar ninguém para que não se sinta tão “incorreta” diante destes padrões ou então, dentro dos seus padrões pessoais de “certo e errado”. São pessoas que não conseguem lidar com as frustrações pessoais sem que procurar inferiorizar ninguém. Não há problema algum em ter dificuldades para lidar com a frustração porque não é fácil mesmo: o problema é querer inferiorizar gente que não tem nada a ver com o seu problema ou em atacar amigos e parentes porque você não admite estar em conflito consigo mesmo, abusando da confiança que elas tinham em você e usando-a como arma a seu favor.