domingo, 9 de março de 2014

Ser você mesmo

Não é fácil para cada um ser o que é, mesmo que às vezes possa parecer que esta afirmação não procede. Uma criança cujos pais faziam todas as suas vontades tem uma grande tendência a se tornar um adulto infantilizado, incapaz de assumir a responsabilidade sobre seus atos e a ter grandes dificuldades em lidar com frustrações. Por outro lado, uma criança que foi privada de várias coisas incluindo afeto e respeito, sofre desde pequena e aprende a conceber a sua condição como algo que não tem mais volta ou que nunca poderá mudar. O fato é: todos sofrem, seja pela vida que têm ou tiveram, ou porque tiveram de tudo e nunca souberam valorizar nada.

Se Deus atualmente não é mais tão amado e temido quanto era na Idade Média, talvez seja porque parte da idolatria migrou da religiosidade para o fútil. Cultuamos coisas materiais como smarthphones e diversos acessórios eletrônicos, carros, a beleza e o sucesso/status como um novo deus. As duas formas de endeusamento servem para preencher vazios e deixam as pessoas mais seguras de si e, até certo ponto, mais felizes.

Desde crianças, as pessoas são expostas a uma cultura onde possuir determinados bens materiais, frequentar determinados lugares, seguir um determinado estilo de vida e comportamento são vendidos como verdadeiros “padrões de felicidade”. Sociedades capitalistas e altamente competitivas são mais psicologicamente agressivas ao procurar vender seus produtos através de um marketing que inferioriza aqueles que não podem ou não querer consumir seus produtos. Crianças e adolescentes são os que sofrem mais quando estão fora dos padrões de riqueza, beleza e sucesso, principalmente. É bastante comum assistir em filmes e séries destinadas ao público adolescente um grupo de meninas que quer fazer parte do grupo mais “popular”, que sejam loucas pelo menino mais bonito e popular da escola, por exemplo. Não interessa muito que estas garotas, por exemplo, se limitem a conversar sobre futilidades como roupas e maquiagens, enquanto o menino ambiciona é apenas bonito, mas um poço de ignorância: o importante é estar incluída.

Os adolescentes fora dos padrões são considerados “esquisitos” por aqueles que são ou que se julgam populares, estão mais suscetíveis ao “bullying” ou a questionarem a própria felicidade e auto-estima. No entanto, é claro, muitos deles podem perfeitamente não se tornarem pessoas paranoicas, pelo contário, nesta fase da vida podem afirmar para si prórpios sua auto-confiança.

O objetivo deste texto não é criticar o quanto o capitalismo pode ser cruel ou criticar as futilidades. Não há problema em ser fútil contanto que se tenha consciência do que traz de bom e ruim para o indivíduo. O que pretende-se é apenas uma reflexão sobre até que ponto vale a pena seguir um estilo de vida que homogeiza mesmo que, ironicamente, estimule a originalidade.

Ser você mesmo e estar na margem oposta dos padrões sociais impostos por uma minoria que se considera superior aos demais é difícil para uma pessoa que teme pela rejeição das pessoas ao seu redor. A subversão aos padrões tradicionais também não deixa de ser uma forma de coação psicológica que procura inferiorizar aqueles que não desejam seguí-la. Os adolescentes são um outro exemplo típico. Se ser uma criança boa e comportada é o principal padrão de comportamento, ser um adolescente rebelde e que se veste de modo que vá contra a aprovação dos pais e da sociedade de modo geral, é a tendência dominante. Alguns comportamentos como fumar, beber ou usar roupas rasgadas chocavam há algumas décadas por serem normalmente atos de rebeldia. Atualmente, é esperado que os adolescentes ao menos iniciem na bebida como se fosse uma espécie de “grito de independência”, “originalidade” ou “ousadia”.

É muito comum que os jovens se vejam reféns de determinados padrões de vida e comportamento para que possam se inserir em um grupo de amigos. Se um grupo de amigos fuma, aquele que não fuma pode se sentir coagido a começar a fumar para se incluir no grupo, por exemplo. O mesmo em relação à bebida, entre outros. E para que não se sintam excluídos ou esquisitos, vários adolescentes adotam padrões de vida e comportamento que não lhes agradam de verdade, mas são levados a concebê-los como “normais”. Então ele sofre por se ver sem opção a não ser se converter aos padrões que as pessoas fúteis concebem como uma espécie de “fonte da felicidade” ou a padrões de outros grupos menos fúteis, mas não menos excludentes, mesmo que fazer parte destes grupos mantenha seus vazios cada vez mais escancarados ao mesmo tempo que este procura fingir para si mesmo que eles não existem. Vale ressaltar que não somente os jovens se veem pressionados e se curvam a estes padrões; muitos adultos também.

Não é fácil sermos nós mesmos e sermos aceitos pelo o que somos. Muitos de nós temos medo da rejeição, de perder “amigos” e, principalmente, de abrir mão de todos os padrões que vendem a felicidade como se fosse algo simples e fácil de adquirir; basta viver e agir de determinadas formas e consumir determinados serviços e produtos. É uma ilusão convincente, ainda mais quando todos aqueles que a seguem se esforçam ao máximo para fingir ser e gostar de coisas que não são e não gostam porque entendem que não há outra forma de ser e viver que proporcione mais felicidade.

Mas a vida não é só dor e sofrimento e a felicidade repousa, necessariamente, nas ditaduras de comportamento ideal. Ser você mesmo pode ser libertador de várias formas. É libertador viver sem máscaras, sem precisar reprimir vontades e sentimentos. É libertador quando o indivíduo tem autonomia sobre o que gosta e o que quer fazer. É libertador quando ele se dá a oportunidade de ser amado pelo jeito que é, e não mais precisar fingir ser o que não é para agradar aqueles que são incapazes de amá-lo como realmente é. As pessoas podem optar por uma felicidade artificial onde o vazio ecoa sonoramente em suas cabeças, ou por uma felicidade natural onde as pessoas podem ser amadas pelo o que são, sem precisar mendigar este sentimento ao fingir ser o que não são.

Sobre a imagem: na novela “Amor à Vida”, a atriz Fabiana Karla interpretou uma enfermeira com baixa auto-estima pelo fato de estar acima do peso.