domingo, 23 de dezembro de 2012

A tragédia chique

Tudo é imagem. Sabemos que a beleza chama a atenção e que todos querem se sentir bonitos. Se não fosse por isso, não faria sentido tomar banho, pentear o cabelo, cortar as unhas, vestir roupas limpas, fazer academia, etc. Não é somente uma questão de saúde, mas é uma questão de estética também. Não há problema algum em querer se sentir mais bonito ou sentir atração pelo o que é belo; o problema é quando uma pessoa tem a beleza como único talento, ou quando a beleza é rechaçada por pessoas que são (ou pensam que são) feias devido ao seu complexo de inferioridade e com preguiça em cuidar da própria aparência.

A atração pela beleza não se resume somente à beleza física de algumas pessoas, mas pela beleza de modo geral. Isto inclui riqueza e poder também. Algumas tragédias recentes têm evidenciado o quanto as pessoas são fixadas na tríade beleza-riqueza-poder. Podemos falar de dois tipos de programas de TV que fazem muito sucesso no Brasil: novelas e reality shows. Os participantes de um reality show são pessoas jovens, ricas e bonitas – o padrão do ideal de beleza – e o público, muitas vezes, é o oposto dessa gente. As novelas e até mesmo a nossa literatura focam, principalmente, nos dramas de uma família burguesa.

Agora falando de um assunto que a mídia brasileira adora vender (tragédias) apesar da falsa comoção da população que finge pesar para disfarçar o seu fascínio por elas, temos vários exemplos do que pode ser chamado de “tragédia chique”.

O caso da menina Isabela Nardoni teria causado tanta comoção nacional se ela não fosse uma menina bonita de uma família de classe média? E se fosse uma menina negra, não muito bela e de uma família pobre, atirada da laje de um barraco da favela, ela teria conseguido causar a mesma comoção? Por que o “mendigo gato” de Curitiba foi capaz de mobilizar as redes sociais para localizar sua família e “comoveu” essa gente por causa de seu drama com as drogas? Por que os vários mendigos feios, sujos, drogados e alcoolizados não conseguiram comover esse povo tão “humano” das redes sociais se é tão mais fácil encontrar um mendigo dormindo nas ruas até mesmo em cidades pequenas? Por que é tão comum ver um menor de idade sendo tratado como um criminoso condenado em rede nacional enquanto ele é suspeito, especialmente se ele for negro e pobre? Por que a violência contra homossexuais causa revolta nas redes sociais somente quando o agredido é bonito e masculino, enquanto o feio e afeminado é motivo de chacota até mesmo entre os próprios gays? Por que não existe a mesma pré-condenação da mídia quando o criminoso é um apresentador de televisão que se recusa a fazer o teste do bafômetro, quando um grupo de jovens coloca fogo em um índio, ou quando adolescentes de classe média estupram uma garota?

E na esfera internacional, será que os ataques de 11 de setembro teriam o tradicional destaque mórbido mundial anual midiático se tivessem sido realizados em um país econômica e culturalmente pouco expressivo a nível mundial como a Somália? Por que o furacão Sandy chamou tanto a atenção da mídia e da população brasileira se problemas de proporções maiores e piores costumam acontecer todos os anos no sudeste asiático? Por que o recente ataque a estudantes em uma escola nos EUA causa tanta “comoção” por parte do Brasil e do mundo? O caso na escola do Realengo não fez o mundo chorar suas lágrimas de vapor e não existe um ritual doentio por parte da mídia internacional de noticiar o aniversário da tragédia.

A fixação da sociedade vai muito além da beleza física. Até mesmo a sua humanidade está condicionada a ela. A “tragédia chique” mostra que o sentimento de humanidade é seletivo: o que envolve pessoas ou coisas bonitas, ricas e poderosas, comove; o que envolve pessoas ou coisas feias, pobres e sem poder, não comove ou é seletivamente ignorado. A tragédia chique mostra o quanto as pessoas são superficiais e fúteis, até mesmo quando procuram não transparecer isso ao máximo devido à sua fixação pela própria imagem diante da sociedade. A tragédia chique mostra o quanto o mal está banalizado e o quanto as pessoas são hipócritas ao tentarem fingir pesar quando, na verdade, elas são sádicas e nutrem uma verdadeira obsessão pela dor e o insucesso alheio.

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