domingo, 11 de novembro de 2012

Equipe Capitão Planeta

Ela então desceu de seu carro, vestida elegantemente, pôs seus óculos escuros e acendeu um cigarro. Mas logo o barulho do ônibus chegando à estação a acordou de súbito e ela despertou para a sua realidade comum e banal. Ela havia conseguido um lugarzinho para sentar com muito esforço e ficou ali, comprimida entre a janela e a senhora obesa cuja banha serviu de travesseiro. Foi o que ela pensou e seu chip da moralidade apitou em sua consciência, censurando-a afinal, o termo “banha” soa extremamente ofensivo quando relacionado a uma pessoa obesa. Ela chamaria de “gorda”, mas o chip da moralidade condená-la-ia ainda mais. Estava se cansando dessa auto-vigilância constante que a reprimia o tempo todo, obrigando-a a pensar na etimologia de cada palavrinha para não ser condenada como um ser humano terrível e cheio de preconceitos desprezíveis.

Ela não se sentia mais livre para ser quem era. Ela se sentia uma pessoa moldada. Em uma conversa informal com um desconhecido que chamou a sua atenção na faculdade, não somente pelo físico, mas até por ter um “ar” de pessoa culta, ela ouviu uma lição de moral sutil quando empregou o termo “denegrir”. Aquilo a broxou tremendamente. Foi informada que denegrir significa “tornar negro”, numa relação negativa direta às pessoas de cor negra. Ela não era racista. Nunca tratou um negro de maneira descortês por sua cor, mas o simples fato de desconhecer a origem da palavra “denegrir” a tornava racista, mesmo que de forma velada. Parecia que ou ela se adaptava ao politicamente correto, que ela comparava ao “crime de pensamento” do livro 1984, de George Orwell, ou era obrigada a ser apedrejada com discursos de um mundo perfeito, florido, cheio de coelhos fofos e saltitantes com arco-íris no final que só não existia porque pessoas preconceituosas como ela existiam na Terra.

Resolveu ficar quieta. Gostaria de mandar este grupo de controle de linguagem tomarem em um determinado lugar, mas preferiu agir com moral e guardar seus xingamentos para si, afinal de contas, quem usa de violência verbal perde a razão e blablabla. Ela não se sentia mais livre nem para xingar.

O pior é que ela via muita gente passando a fazer parte deste grupo engajado. Ela não sabia se isto era uma espécie de coerção moral ou até mesmo moda. Há algum tempo ela começara a reparar que há uma onda que dita que todos os seres humanos devem ser engajados em alguma causa. Quem não é engajado ou critica que esse engajamento é por pura vaidade, para parecer mais “inteligente” ou “cult” ou “revolucionário fodão”, parecia ser menos merecedor de respeito pelo o que ela percebia. E o rechaço vinha dos tais discursos moralistas, dos olhares de decepção ou censura, da mãozinha na boca numa expressão de incredulidade e horror, ou do suposto sentimento de “pena”. Ela estava fora dessa moda e isso a molestava. Não que ela quisesse fazer parte, mas ela sentia que as pessoas estavam passando a ser menos espontâneas e até mesmo, mais insuportáveis e chatas.

“Mas será que a chata não sou eu? Será que o problema não sou eu?” questionava-se o tempo todo.

Talvez fosse. Das vezes que ela tentara aderir a essa “moda”, por assim dizer, ela se sentia extremamente artificial. Risos artificiais, interesses artificiais. Ela não se sentia mais livre para ser ela mesma, aquela pessoa que soltava um palavrão de vez em quando, que não ia tão a fundo na raiz etimológica das palavras, que usava termos politicamente incorretos e que não era engajada numa causa ou escrava das próprias vaidades, obcecada em querer aparecer, soar culta e socialmente responsável, em causar ansiando por um Prêmio Nobel. Ela queria ser “preconceituosa”, “ignorante”, “irresponsável” de acordo com os engajados, mas se sentia sozinha sendo ela mesma. A nova ordem parecia ser a artificialidade no seu estágio mais elevado. Ela se considerava autêntica, mas isto era feio e algo do qual ela deveria se envergonhar.

Enfim, pensava demais também e isto era outra coisa que a aborrecia profundamente. Então o melhor era aceitar, procurar abstrair isto e pegar seu ônibus para a faculdade, num trajeto tortuoso de quase uma hora, novamente comprimida na janela por qualquer pessoa com um alto índice de massa corporal. Quem sabe ela pudesse adormecer novamente sobre uma área de grande reserva de glicogênio e sonhar com um mundo onde as pessoas não eram tão neuróticas em relação à linguagem ou em sair voando como o Capitão Planeta marxista, loucas para salvar o mundo da degradação causada pelo burguês capitalista opressor e fazer coraçãozinho com as mãos.

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