domingo, 23 de setembro de 2012

Durkheim sabia

Havia sido enviado ao inferno em Terra, mas não sabia exatamente como havia parado lá. Tudo estava errado, tudo dava errado. Seu emprego era uma bosta e mesmo que fosse muito talentoso e criativo, era sempre visto como preguiçoso e oportunista. Sentia que não tinha amigos porque ninguém demonstrava muita simpatia por ele. Eram todos interesseiros que apenas lembravam dele nos momentos de extrema tristeza e, depois que se sentiam melhores, fugiam dele como o diabo foge da cruz.

Era como se ele estivesse sendo excluído de todo o processo. Ele engoliu muitas coisas, procurou abstrair as mágoas, mas o silêncio polido apenas o corroía, o ódio o corroía. Chorava de raiva. Sentia muito ódio reprimido. Por que diabos ele se aprisionada em uma vida que não era a dele? Por que recebia indiferença quando dava amor? Por que via todo mundo amando viver naquele baile de máscaras, naquele teatro de roteiro previsível? Ele não conseguia enganar a si mesmo. Ele estava sempre fora do processo e esse isolamento o matava a cada dia, a cada hora, a cada segundo.

Decidiu então aceitar o mundo lúgubre onde vivia, apesar de querer desesperadamente sair dele. Ele apenas queria ser mais um, queria ser mais um alienado, que fosse, queria apenas não mais sentir-se rejeitado como sempre fora. Mas descobriu que não encontrava a plenitude nem mesmo se lançando espontaneamente no fogo do inferno. Que droga! É como se a merdidão de sua vida fosse uma espécie de reality show de humor negro, onde ele estava lá para ser o motivo de riso das pessoas normais e felizes.

Achou que era a hora de dar um basta. Que estava sendo demasiadamente altruísta em seguir os valores falidos de justiça de uma sociedade que excluía. Por que ser bom com aqueles que só o desprezavam? Por que sorrir para as pessoas que lhe mostravam o dedo médio? Por que contar até 10 quando era xingado em seu trabalho por seu chefe que estudou só até a 4ª série? Por que era tão bonzinho e correto? Por que não revidava?

Então ele explodiu. Resolveu destruir a sua vida de vez, fazer por merecer toda a repulsa que sempre sentira. Iria canalizar o seu ódio, iria finalmente ser ele mesmo, ser aquela pessoa louca e perigosa que o rotulavam em palavras nunca enunciadas. Iria para o inferno, mas não iria sozinho.

Roubou uma metralhadora de um trombadinha de 14 anos que foi esfaqueado previamente. Adentrou no shopping center mais chique da cidade portando suas melhores roupas. Comprou uma entrada para assistir uma adaptação de um conto de fadas da Disney. Entrou na sala de cinema lotada e a metralhadora foi acionada. Miolos voaram para tudo quando é canto e seus olhos brilhavam pela primeira vez na vida. Havia nascido para matar. Sentia prazer naquilo. Todos iriam pagar com a vida pela dor que ele sentira durante todos aqueles anos. A sala virara uma piscina de sangue e quando o príncipe beijou a Bela Adormecida, ele tirou a própria vida com um tiro na boca.

Um bilhete foi encontrado em seu bolso horas depois e divulgado para a mídia necromaníaca. Ele havia pedido perdão para as famílias das vítimas, mas havia recebido uma missão divina. Necromaníacos exigiam a pena de morte no Brasil, mesmo que o assassino em série tivesse cometido suicídio. Uma missa foi rezada para ele. Seus colegas de trabalho estavam perplexos com o tal comportamento: “ele era uma pessoa tão calma”, diziam. Mas a sociedade podre não foi capaz de analisar o que aconteceu. Era a mesma sociedade que fingia pesar e horror pela chacina, mas que fuçava na internet pelas fotos das vítimas todas despedaçadas porque isso dava a elas prazer sádico. Não perceberam que eram todos homicidas. Não sabiam quem havia sido Durkheim...

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