domingo, 16 de setembro de 2012

A raiva nunca morre

A vida não é fácil. A vida não é justa. A felicidade não é algo inalcançável, mas ela não cai do céu: você tem que fazer por onde, você tem que lutar para isso.

Felicidade é algo que todos buscam. Quem seria louco de ansiar pela infelicidade senão o louco? Mas o que é a felicidade? Poucos sabem, poucos entendem a respeito porque muitos pensam que o conceito de felicidade é universal quando, na verdade, ele é subjetivo.

A sociedade de performance procura padronizar este conceito e aqueles que vivem na minoridade constantemente se frustram pelo constante sentimento de infelicidade e vazio. Neste caso, a felicidade não está no presente, mas ou no futuro, repousando na esperança de que as coisas vão melhorar um dia, ou no passado, uma época de lembranças agradáveis. Este amor Eros à performance cega e o indivíduo fica incapacitado de questionar certas coisas sobre si e o mundo e, consequentemente, de compreender a miséria da qual tanto reclama.

A preguiça e a covardia são coisas tão difíceis de lutar contra... romper a bolha e sair de sua zona de conforto é tão difícil... “é tão cômodo ser menor”, diria Kant... é tão difícil ter atitude para procurar mudar: mudar a si, mudar a própria realidade. É tão mais fácil amaldiçoar e invejar. É tão mais fácil procurar menosprezar as conquistas dos outros para que o miserável de espírito sinta-se menos pior toda vez que se permite molestar pela felicidade alheia...

Para ser feliz, ou pelo menos sentir-se feliz sem precisar apelar para meios artificiais como drogas e remédios antidepressivos, o indivíduo deve, primeiro, ter a humildade de reconhecer os próprios defeitos e fragilidades. Isto não é abraçar a derrota ou ser ridículo. Ridículo é pensar que se está sendo ridículo ao confessar a si os próprios medos que podem soar bobos e infantis, mais ridículo ainda é ter uma visão romântica da vida achando que a felicidade repousa numa vida hollywoodiana incrível ou que ela é, necessariamente, o padrão da sociedade de performance.

A vida não é fácil. A vida não é justa. A felicidade não é algo inalcançável, mas ela não cai do céu: você tem que fazer por onde, você tem que lutar para isso. Inclui certos sacrifícios e o caminho para a felicidade pode ser, ironicamente, tortuoso no início. Sair da zona de conforto nunca é fácil, largar a mão do tutor e caminhar por um caminho pelo breu total é um pouco desesperador, mas se você quer ser livre, ouse romper com a minoridade! Você precisa ao menos tentar. Cair, chorar e ficar eternamente sequelado, traumatizado com a dor nunca vai ajudar ninguém a chegar a lugar algum, exceto talvez se houver uma apelação ao emocional e à pena, o que não é nem um pouco virtuoso, pelo contrário, é patético, é orgulhar-se da própria covardia.

Projetar os próprios defeitos nos outros usando-os como arma e escudo pode até ser inteligente em um primeiro momento, mas quem é que realmente perde com isso? Você pode tentar ferir uma pessoa, mas se ela tiver o mínimo de maturidade e amor-próprio, ela não vai se deixar abalar pelas palavras de alguém que parece sentir um prazer doentio pelo próprio sofrimento e em remoer ódios. Ela não está nem aí, ela está fazendo o que a criança rancorosa sempre quis fazer mas nunca teve coragem para tal: ela está sendo feliz, ela está vivendo! Por isso o sentimento de inveja e menosprezo pelo êxito alheio.

Ninguém gosta deste tipo de gente negativa. Ninguém gosta de gente que vive reclamando todo santo dia das mesmas coisas, projetando a razão de sua infelicidade nas outras. Ninguém gosta de gente que vive na defensiva pronta para dar coices e que recusa ajuda e recusa-se a se ajudar. Ninguém gosta de gente sequelada pelo primeiro e único tombo que acha que nada nem ninguém presta. Que o mundo é mau, que as pessoas lhe invejam, que o mundo é ignorante e que ela é apenas uma pessoa que, como não nasceu em berço de ouro, está fadada a ser um talento nunca reconhecido. Depois ela não entende porque o mundo lhe dá as costas e mesmo assim, graças a sua arrogância, ela acha que é o mundo que é errado e injusto, mas ela nunca é capaz de reconhecer que o problema é ela. Ela não permite que ninguém goste dela e vive desconfiada de que, a qualquer momento, poderá levar uma rasteira. É tão mais prático projetar este defeito nos outros e ironizar... Isto é ser feliz?

Bom, a felicidade é subjetiva. Se um indivíduo é feliz remoendo ódios, bom para ele, embora isto seja muito duvidoso Para ser feliz, não é preciso ter tudo o que a sociedade de performance nos impõe a ter e a ser, o que não significa também que é refutar tudo o que ela diz. O mais importante é estar bem consigo mesmo, fazendo as coisas que gosta, rodeado de pessoas que vem para somar e não diminuir e te diminuir, sentido-se bizarramente felizes ao tentarem puxar você para o fundo do poço onde elas espontaneamente decidiram viver.



Referências
FERRY, Luc. O que é uma vida bem sucedida? Rio de Janeiro: DIFEL, 2004. p. 9-40
KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: O que é o Esclarecimento? Königsberg: Revista Büsching, 13 de setembro de 1784.
COMTE-SPONVILLE, André. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Cap. 18.

Um comentário:

  1. infelizmente tem gente que precisa diminuir o outro pra se sentir bem. pessoas assim são sempre infelizes.

    outro erro é procurar ser feliz com aquilo que você não tem. é preciso encontrar a felicidade naquilo que temos e dentro da gente mesmo.

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