domingo, 19 de agosto de 2012

Uma vida incrível

Estamos submetidos à vários tipos de ditaduras em nossa sociedade. Muitas são impostas de maneira sutil, mas muito presente. Não há ninguém colocando uma arma em nossas cabeças nos obrigado a fazer uma determinada coisa. É a sociedade, é a cultura quem nos põe esta arma invisível na cabeça. Mas a mão que efetua o disparo nunca é a deles e sim, a nossa. A escolha é nossa.

Uma das ditaduras é a da felicidade. Não que a felicidade seja algo ruim, óbvio que não é, mas acontece que não dá para conceituá-la. O que faz alguém feliz, pode fazer outro infeliz. A ditadura da felicidade não leva isto em consideração e estabelece um padrão. E este padrão parece ser acessível apenas àqueles que tem dinheiro – muito dinheiro.

Felicidade é possuir uma casa grande e confortável, um carro importado, poder viajar ao exterior, ter uma pele bonita, ter um cabelo bonito, ter um corpo bonito, ter um bom emprego, poder frequentar as melhores festas e comer do bom e do melhor. Fama, poder e dinheiro: se você possui os três, você seria feliz de acordo com a ditadura.

Mas sabemos que os ricos também choram. De que adianta ter estas coisas se você não têm amigos, já que as pessoas se aproximam de você por interesse? É possível ser feliz vivendo como um prisioneiro escoltado por seguranças e vivendo em uma prisão de luxo? Enfim, pouca gente se dá conta desta ditadura. Pouca gente pensa de maneira crítica, adulta e sensata. Muitos preferem viver na confortável bolha da ignorância, felizes com suas verdades e filosofias de vida carpedienzistas.

Para ser feliz, você precisa pensar grande, ter grandes sonhos. A felicidade, então, fica atrelada a coisas que muitas vezes são irreais e inacessíveis para muita gente. Na busca por este sonho, as pessoas vivem o futuro e esquecem o presente. E na busca por coisas “maiores e melhores”, as coisas menores passam a ser ignoradas.

Não adianta seguir esta ditadura da felicidade, é preciso ostentá-la. Agindo assim, estaremos contribuindo para que as armas continuem apontadas para a cabeça das pessoas, perpetuando o ciclo. Precisamos afirmar e reafirmar para nós mesmos e para os outros que esta ditadura da felicidade traz felicidade. Quem está de fora, é tratado como infeliz e levado a acreditar que é realmente infeliz, passando a questionar a sua auto-estima.

Para sermos felizes, devemos ter uma vida incrível. Deveríamos nos envergonhar de fazer coisas simples e banais, especialmente de falar sobre elas. Devemos ter horror ao trivial, à rotina. E devemos, é claro, praticar o exercício da auto-afirmação. Tudo tem que ser grandioso, do contrário, é desprezível e merecedor de adjetivos de depreciação cuidadosamente escolhidos, pois é preciso destruir a auto-estima das pessoas para que nos sintamos melhores com nós mesmos.

Mas a verdade é que quase ninguém vive uma vida hollywoodiana. Quase ninguém vive a vida tão intensivamente assim que causaria comentários de inveja (boa): “Nossa! Que Carpe Diem bem seguido!” Somos levados a tratar as celebridades como deuses e a acreditar piamente que dinheiro traz todas aquelas coisas materiais, que traz fama, que traz sucesso, que traz amor e traz felicidade. Deveríamos nos envergonhar de nossa vida simples, ridícula e banal. E nessa busca cega por uma felicidade idealizada, deixamos a vida passar porque sempre estivemos vivendo o futuro, mas nunca o presente.

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