domingo, 26 de agosto de 2012

Luz e trevas

É bastante comum fazer comparações entre o presente e o passado. Ao mesmo tempo que tivemos avanços na medicina, na tecnologia e na conquista de maior respeito por grupos minoritários ou historicamente reprimidos (mulheres, homossexuais, negros, portadores de deficiência), a sociedade parece que não evoluiu muito na forma de pensar. O pensamento crítico, que não é muito complexo uma vez que se enxergue os pontos positivos e negativos de qualquer coisa, parece ser mais um “dom” do que uma habilidade que pode ser desenvolvida desde a infância.

Talvez o excesso de informação gerada pela mídia televisiva e pela internet atrofiou nosso cérebro ou perdemos o foco do que vale a pena aproveitar. Para absorver tudo, incluindo o útil é inútil, obras literárias foram ruminadas para aqueles que têm preguiça de pensar. Além disso, os “formadores de opinião” continuam existindo. Ao invés de darem voz àqueles que possuem conhecimento de causa (professores, especialistas, pesquisadores), muitos se baseiam na opinião de jornalistas tendenciosos ou sensacionalistas e de celebridades controversas, interessados apenas na manutenção do status quo.

Progredimos aqui... retrocedemos lá... É como se andássemos em uma esteira ergométrica: caminhamos e nos mantemos no mesmo lugar mas, se pararmos, caímos para trás. Podemos comparar a sociedade ao longo dos anos como a água em seus diferentes estados físicos: água, vapor, gelo... Ao mesmo tempo que ela muda de forma, não muda de essência: continua sendo água, a mesma água de sempre. Ao mesmo tempo que a sociedade mudou nos últimos anos, décadas, séculos, ela parece ter se mantido na mesma. O senso crítico é uma habilidade desenvolvida por poucos, enquanto a sociedade ainda venera a fama, o dinheiro, o poder.

O problema dessa falta de bom senso é que tudo parece se dividir entre o “certo” e o “errado”. Sempre existe esta dualidade, como se duas coisas, aparentemente antagônicas, não pudessem coexistir, ou então, que não existe uma terceira, quarta, quinta via. Vemos muito disso em qualquer comentário em um vídeo no YouTube, em qualquer reportagem de um site de notícias, nas conversas entre as pessoas nos lugares que frequentam. Para um grupo de pessoas, ter humildade de dizer que não sabe sobre determinado assunto soa como um “atestado de falta de cultura”. Para não ficar de fora do grupo dos “antenados”, alguns se convertem ao clichezismo. Entre eles, há uma necessidade desesperada em querer aparecer: se a pessoa não é nem bonita e nem gostosa, muito menos agradável, ela tende a se converter ao clichezismo para poder soar inteligente e querer passar a imagem de uma pessoa culta e de personalidade forte.

Acaba então, existindo uma visão generalizada de tudo e com dois opostos, além de acabarem estimulando a ignorância e o reforço dos mais diversos tipos de preconceito. Ao falar sobre as coisas do Brasil, temos os ufanistas (em menor número) que amam o seu país cegamente e os pessimistas que acham que nada que se faça no Brasil presta ou é possível de dar certo. Na política, ainda há aquela contenda infantil entre petistas e tucanos, que procuram defender seus amados partidos políticos falando de mensalão para não falar de Cachoeira e de Cachoeira para não falar de mensalão (como se corrupção estivesse restrita a um determinado grupo político). Quando se fala de religião, os fervorosos infestam instituições públicas com crucifixos, defendem o moralismo para poder embasarem os seus preconceitos. Os ateus são tão fanáticos quanto ao procurarem atacar as religiões como forma de revide. Enquanto alguns são pessoas corretas e sinceras, outras são falsas e manipuladoras, etc. Estes são apenas alguns exemplos desse pensamento clichê e imaturo, como se todas as coisas fossem óbvias e simples de serem compreendidas e com fórmulas prontas para resolvê-las.

Por isso é desanimador estarmos em 2012, em pleno século XXI, uma era que costumava ser imaginada como aquela que o homem iria parar com as guerras e pensar no bem-comum, e notarmos que a sociedade pouco mudou em sua essência. Muitos ainda continuam agindo de maneira egoísta e irresponsável: o dinheiro é nosso deus moderno, um recurso básico e finito (a água) ainda é desperdiçada, o consumismo continua firme e forte destruindo os recursos naturais para que algumas pessoas possam se sentir melhores por possuírem coisas que as outras não são capazes de comprar, muita gente continua morrendo no trânsito por causa de bebida e por aí afora. É desanimador constatar que com tanta informação disponível para quem quiser acessá-la, o clichezismo venha ganhando força e desestimulando o pensamento crítico, sem que isto signifique ser rude ou alienado a uma visão bitolada de que tudo precisa ser ou luz ou trevas.

domingo, 19 de agosto de 2012

Uma vida incrível

Estamos submetidos à vários tipos de ditaduras em nossa sociedade. Muitas são impostas de maneira sutil, mas muito presente. Não há ninguém colocando uma arma em nossas cabeças nos obrigado a fazer uma determinada coisa. É a sociedade, é a cultura quem nos põe esta arma invisível na cabeça. Mas a mão que efetua o disparo nunca é a deles e sim, a nossa. A escolha é nossa.

Uma das ditaduras é a da felicidade. Não que a felicidade seja algo ruim, óbvio que não é, mas acontece que não dá para conceituá-la. O que faz alguém feliz, pode fazer outro infeliz. A ditadura da felicidade não leva isto em consideração e estabelece um padrão. E este padrão parece ser acessível apenas àqueles que tem dinheiro – muito dinheiro.

Felicidade é possuir uma casa grande e confortável, um carro importado, poder viajar ao exterior, ter uma pele bonita, ter um cabelo bonito, ter um corpo bonito, ter um bom emprego, poder frequentar as melhores festas e comer do bom e do melhor. Fama, poder e dinheiro: se você possui os três, você seria feliz de acordo com a ditadura.

Mas sabemos que os ricos também choram. De que adianta ter estas coisas se você não têm amigos, já que as pessoas se aproximam de você por interesse? É possível ser feliz vivendo como um prisioneiro escoltado por seguranças e vivendo em uma prisão de luxo? Enfim, pouca gente se dá conta desta ditadura. Pouca gente pensa de maneira crítica, adulta e sensata. Muitos preferem viver na confortável bolha da ignorância, felizes com suas verdades e filosofias de vida carpedienzistas.

Para ser feliz, você precisa pensar grande, ter grandes sonhos. A felicidade, então, fica atrelada a coisas que muitas vezes são irreais e inacessíveis para muita gente. Na busca por este sonho, as pessoas vivem o futuro e esquecem o presente. E na busca por coisas “maiores e melhores”, as coisas menores passam a ser ignoradas.

Não adianta seguir esta ditadura da felicidade, é preciso ostentá-la. Agindo assim, estaremos contribuindo para que as armas continuem apontadas para a cabeça das pessoas, perpetuando o ciclo. Precisamos afirmar e reafirmar para nós mesmos e para os outros que esta ditadura da felicidade traz felicidade. Quem está de fora, é tratado como infeliz e levado a acreditar que é realmente infeliz, passando a questionar a sua auto-estima.

Para sermos felizes, devemos ter uma vida incrível. Deveríamos nos envergonhar de fazer coisas simples e banais, especialmente de falar sobre elas. Devemos ter horror ao trivial, à rotina. E devemos, é claro, praticar o exercício da auto-afirmação. Tudo tem que ser grandioso, do contrário, é desprezível e merecedor de adjetivos de depreciação cuidadosamente escolhidos, pois é preciso destruir a auto-estima das pessoas para que nos sintamos melhores com nós mesmos.

Mas a verdade é que quase ninguém vive uma vida hollywoodiana. Quase ninguém vive a vida tão intensivamente assim que causaria comentários de inveja (boa): “Nossa! Que Carpe Diem bem seguido!” Somos levados a tratar as celebridades como deuses e a acreditar piamente que dinheiro traz todas aquelas coisas materiais, que traz fama, que traz sucesso, que traz amor e traz felicidade. Deveríamos nos envergonhar de nossa vida simples, ridícula e banal. E nessa busca cega por uma felicidade idealizada, deixamos a vida passar porque sempre estivemos vivendo o futuro, mas nunca o presente.