domingo, 8 de julho de 2012

A controvérsia do carpedienzismo


Se alguém seguia a filosofia de vida do “carpe diem” antes de o termo virar a filosofia de vida (verbal) dos clichezistas, provavelmente não deve ter gostado da ridicularização do termo. Tal como as pessoas que realmente leram Clarice, Nietzsche, Freud e compreenderam e não saíram por aí metralhando frases a torto e a direito, seja na Revista Caras virtual, seja na vida real mesmo. O “carpe diem” já é a filosofia de vida positivista dos clichezistas. Clarice é o livro de cabeceira dos românticos, Caio Fernando Abreu dos depressivos e Nietzsche dos intelectuais.

Clichezistas não pensam. O “carpe diem” e o pensamento dos escritores foram distorcidos, fatalmente. O pensamento ingênuo de que o mundo se divide em “bem” e “mal” ganhou mais força e, é claro, que muitos estão do lado do bem porque temem as dores do inferno.

A filosofia carpedienzista dos clichezistas é uma utopia, e por ser uma utopia, cedo ou tarde seus seguidores farão coisas que vão contra o que ela prega. O carpedienzista é aquela pessoa forçadamente positiva que enxerga o mundo com os olhos de Pollyana. É o ideal de ser humano moralmente perfeito: são pessoas educadas, amam os animais, ajudam os pobres, comovem-se com a fome na África, não falam palavrão, não bebem, não fumam, não escutam “baixarias”, não fazem piadas, não soltam gases, perdoam e não guardam mágoas, são sinceros, não sentem inveja, respeitam todas as pessoas independentemente da raça, cor, credo ou orientação sexual, etc.

Talvez esta pessoa seja a Maria do Bairro ou alguma Helena da novela do Manoel Carlos. Sabemos que pessoas assim não existem, mas mesmo assim, os clichezistas pensam e esperam que as pessoas sejam assim já que “eles são assim”.

Apesar de pregarem e procurarem seguir o carpedienzismo como filosofia de vida, eles acabam agindo de maneira contraditória quando alguém “pisa no calo deles”. É aí que eles relevam o seu lado “mau”, ou “justo” como eles preferem se justificar.

As frases acima ilustram um pouco desta dualidade do bem e do mal do clichezista. Onde está o perdão e todo o amor daquele ser humano imaculado carpedienzista?

Os clichezistas são pessoas agressivas e inflamáveis. Ao mesmo tempo que eles “são puro amor”, estão sempre com uma frase de efeito rude para ofender ao menor sinal de ameaça. Com a popularização da internet, não é raro se deparar com fóruns que terminem em barraco. Estas contendas geralmente envolvem os clichezistas durante o seu “repente de clichês”. Os clichezistas sentem a necessidade de vencer todas as suas argumentações, especialmente as mais irrelevantes e fúteis. É a guerra de egos. E uma guerra segura pois o clichezista “troll” está atrás de uma tela de computador e é covarde demais para se envolver em uma contenda offline.

“Sinceridade” virou sinônimo de grosseria. Todos os clichezistas são “sinceros”. Inveja é um sentimento que todos sentem pelo clichezista, por mais fracassado que ele seja na vida real. Todos usam máscaras e todos são falsos. O clichezista é um coitado, uma vítima de bullying e ele não é revoltado porque quer, mas porque “o mundo o fez assim”.

Os clichezistas carpedienzistas se magoam e se ofendem facilmente com a maldade do mundo. Os mais fervorosos procuram conter a raiva e as lágrimas diante das injustiças do mundo; “porque grandes garotas não choram”. Aqueles que sabem que Deus é justo rezam pedindo para que Ele tenha piedade na hora de castigá-los. Os mais polidos ofendem de maneira refinada, com sarcasmos e ironias puídas. Os mais toscos xingam. Não é a toa que eles estão sempre na defensiva, prontos para atacar ao menor sinal de ameaça.

O carpedienzimo clichezista é muito bonito, mas é uma utopia. O carpedienzismo real é uma contradição: são clichezistas pregando o amor desde que sejam amados, do contrário, pregarão o ódio e a intolerância. É o refúgio dos complexados ingênuos e egocentristas que acham que o mundo é como uma novela onde eles são os mocinhos cercados de “vilões com inveja do seu sucesso”, mas não importa, “seu sucesso faz a minha fama”, “bem ou mal, mas falem de mim”. E isto tudo é muito clichê, mas eles são clichezistas. E clichezistas não pensam.

Um comentário:

  1. esses 'mantras' são bons quando ajudam as pessoas a ser otimistas e ver o lado positivo das coisas. mas nada em excesso faz bem.

    #chatiada vem do inglês upiset? rs

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