terça-feira, 19 de junho de 2012

Nostalgia dlç

Vai e vem como as ondas do mar, sobe e desce como as ações da bolsa de valores. Há dias onde tudo vai bem, outros onde nada vai bem, há dias de apatia, dias de revolta diante de coisas pequenas, noites de solidão e desesperança, e noites onde a alegria se recicla.

Cada pessoa vive o seu universo particular da maneira que mais lhe for conveniente. Apesar da tentativa de uniformização das ideologias e do estilo de vida, as pessoas ainda têm liberdade para imaginar. As memórias, embora possam parecer sem valor para algumas pessoas próximas ou distantes, são individuais, únicas, intransferíveis.

E não somente o que você viveu, como também o que você pensa e sente. As pessoas podem até tentar imaginar o que você sente quando compartilha algumas dessas emoções e memórias, mas elas nunca chegarão perto. Primeiro, porque elas não viveram a sua sensação; segundo, onde você enxerga magia, elas podem enxergar algo comum; terceiro, você não têm como saber devido a impenetrabilidade das almas.

Mas chegar perto é meio caminho andado. Identificar-se em partes também. É como sentir um perfume que pode agradar a você por trazer boas lembranças enquanto dá dor de cabeça à outra. Ou entender a profundidade de uma pintura enquanto um outro indivíduo enxerga apenas rabiscos. E pode ser apenas rabiscos, talvez o pintor estivesse tão de saco cheio pelo trabalho não reconhecido que resolveu rabiscar porque isso é art noveau – ou foi ou quiçá um dia será. O admirador da arte interpreta o mundo de acordo com a janela de seus olhos, não como lhe dizem para interpretá-lo. As pessoas dão um valor e um significado próprio as coisas. Impor é inútil. Contestar também. Então nesses casos é melhor artificializar expressões e reações.

A música... ah, a música. Capaz de promover um espetáculo de sinestesia e despertar memórias e sensações de anos e décadas atrás. É ouvir Crying In The Rain e lembrar-se de um amanhecer frio, as luzes do poste ainda acesas e todos dormindo em um colchão no chão da sala. É ouvir She Drives Me Crazy e isso remeter a vez que você pulou na barriga do seu irmão mais novo. É ouvir Total Eclipse of the Heart e lembrar que nesse momento as pessoas matutas da sua rua ficavam impressionadas com um balão de São João ardendo no céu – seria um ovni?

As músicas mais velhas trazem de volta sensações boas, trazem um pouco daquela pessoa que você foi; menos experiente, mas mais pura e sonhadora. E quando se olha de volta ao passado, é como se a vida tivesse mais cores. Cores que vão desaparecendo aos poucos, até que nos reste só o preto, o branco e o cinza enquanto não nos encontramos com a morte no breu total ou durante a escuridão da indiferença. Mas não só por isso, parecia que as pessoas eram mais alegres, simples e espontâneas, diferente das desesperadas de hoje para fazer parte de uma ditadura que promete felicidade mas que só as torna mais internamente infelizes, apesar dos sorrisos amarelos e das lágrimas de vapor serem aparentemente convincentes para provar o contrário.

As músicas têm esse poder de despertar a nostalgia delícia que você quer compartilhar, mas é meio desanimador quando você o faz e o retorno é menos efusivo. Não é uma questão de antipatia, mas o que tem um peso ego-histórico para você, pode não ter para o outro, enfim. E bem, aceitemos e curtamos o rico universo da nossa imaginação, da nossa terra da liberdade. Sonhar é bom, mas seria melhor poder sonhar a dois numa noite de sábado, fria e chuvosa, ouvindo a programação delícia da Antena 1 relembrando os grandes clássicos e se empanturrando de pizza sem culpa.

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