domingo, 24 de junho de 2012

A ordem clichezista


O que seria dos clichezistas se todos os livros de filosofia e psicologia do mundo fossem queimados? De quem iriam copiar frases de efeito?

Ultimamente não está sendo fácil ter uma conversa com qualquer pessoa não muito íntima além das formalidades. Não necessariamente porque elas não tenham conteúdo e sejam alienadas e manipuláveis, mas mais pela previsibilidade das respostas e de uma postura arrogante e inflexível. De uns tempos para cá, o fenômeno do clichezismo vem tomando força, especialmente na internet, o que não quer dizer que fora da internet a coisa seja muito diferente.

Podemos começar falando de bullying. O que é bullying? Até pouco tempo este termo era desconhecido para muita gente, embora qualquer um que já tenha visto um filme ou uma série de TV estadunidense ao menos uma vez na vida, tenha visto uma cena de uma criança ou adolescente fisicamente mais forte e rodeado de capangas, agredir e ridicularizar um outro mais fraco e mais recluso. Era agressão física e humilhação pública: somente isso. Mas estávamos errados, porque bullying é qualquer coisa que desagrade ou ofenda e que possa dificultar o convívio social da vítima mas... será que a vida, especialmente a adulta, é repleta de pessoas preocupadas em não magoar os sentimentos dos outros?

A ordem clichezista também está presente fortemente na política. Falar sobre política no Brasil ainda gera muito desgosto em muita gente, mas dos poucos que falam, muitos dificilmente não conseguem fazê-la sem pender para paixões irrefreadas e clichês. Existe uma verdadeira guerra entre militantes de esquerda e direita. Denúncias de corrupção são comuns e feitas para denegrir a imagem do rival político e fazer demagogias. E como parece ser impossível existir jornalismo sério e imparcial neste país, boicotes e críticas à programas de TV e novelas tendenciosas são sugeridos, além de que até os números 13 e 45 são tão horríveis quanto a suástica nazista.

O politicamente correto é um dos marcos da ordem clichezista. Termos que eram utilizados por décadas foram substituídos por outros com nomes mais complexos e pomposos. Era bullying. Grupos historicamente reprimidos como mulheres, negros e homossexuais vem, finalmente, conquistando um pouco mais de respeito nos últimos anos porém, parece que este respeito é imposto pelas cotas e pela psicologia da culpa. Se um homossexual diz ter orgulho de ser gay, palmas para ele, superou o preconceito. Se um heterossexual diz ter orgulho de ser heterossexual, joguem pedras neste evangélico homofóbico. Se um negro veste uma camisa 100% negro, palmas para ele, superou o preconceito. Se um branco diz ter orgulho de sua cor ou de sua descendência europeia, joguem pedras neste racista nazista.

Há uma tendência, uma ditadura sutil que prega a homogeneização das filosofias e das ideologias. Todos sabemos que não existe a perfeição, mas o erro não é bem aceito. O pensamento livre e a opinião própria são estimulados... Em tese, porque na prática, se você levanta uma opinião contrária a da ordem clichezista, eles respondem com agressão. Os mais toscos xingam. Os mais estudados, especialmente os “intelectuais”, deliciam-se ao ridicularizar com sarcasmo e, para estes, não basta ser pedante: tem que ser prolixo. Pasquales corrigem sua ortografia e pontuação de acordo com a norma culta. Advérbios devem estar de acordo com pesquisas e estudos. Os clichezistas do IBGE querem números: “maioria, minoria, muitos, poucos: quem são? Quero números!”

Reveja seus valores, os clichezistas contestadores antirreligiosos querem ridicularizar a sua fé e repudiar qualquer coisa que tenha base religiosa: “por que a promiscuidade é ruim, por que o estupro é ruim, por que fazer sexo em praça pública é ruim, por que ser hipócrita é ruim? Não sabe responder? Cadê seu Deus agora?”

E o clichezismo do Facebook não apenas recicla clichês clássicos, como também reafirma o óbvio e vende utopias de um mundo onde todos são imaculados, perfeitos, sábios e cheios de causas para nos descabelarmos. É óbvio que todo ser humano perfeito do Facebook respeita os idosos, as mulheres, os gays, os negros, as crianças, a natureza, os animais, Deus e todas as religiões. “É um absurdo um jogador de futebol ganhar milhões pra chutar uma bola e a corrupção, e a violência, e a fome na África, e a educação, e a saúde? Eu quero tchu, eu quero tcha, eu quero reclamar da música popular que faz sucesso enquanto o mundo está morrendo. Que imagem o Brasil vai ter lá fora, meus Deus, a Valesca tem uma música que diz 'pega no meu grelo e mama', meus Deus, acorda para a corrupção, Brasil, por isso esse país não vai para frente, só quer assistir o BBB”...

Graças a ordem clichezista, as pessoas sentem a necessidade de se converter, de aderir ao movimento para se sentirem incluídos por um grupo que eles tanto detestam. Não se pode ser uma metamorfose ambulante, suas opiniões devem ser iguais as dos clichezistas porque ela é a politicamente correta e absoluta. Tenha uma opinião sobre tudo, tudo! E como isto é impossível, adote o clichezismo. Tenha uma frase pronta e decorada para qualquer situação da vida, curta uma página de humor inteligente no Facebook. Leia duas horas de sinopses no site da livraria e tenha discussões ganhas pelo resto do mês. Os clichezistas se contentam com argumentos e ideias superficiais porque o conhecimento deles também é superficial. Não é preciso captar a essência dos livros, muito menos lê-los, pois frases de efeito e os escritores pensaram e se expressaram por você. Com o clichezismo, você pode disfarçar a sua necessidade de autoafirmação através de frases com filosofias mastigadas. Não precisa pensar. Apenas vista a camisa.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Nostalgia dlç

Vai e vem como as ondas do mar, sobe e desce como as ações da bolsa de valores. Há dias onde tudo vai bem, outros onde nada vai bem, há dias de apatia, dias de revolta diante de coisas pequenas, noites de solidão e desesperança, e noites onde a alegria se recicla.

Cada pessoa vive o seu universo particular da maneira que mais lhe for conveniente. Apesar da tentativa de uniformização das ideologias e do estilo de vida, as pessoas ainda têm liberdade para imaginar. As memórias, embora possam parecer sem valor para algumas pessoas próximas ou distantes, são individuais, únicas, intransferíveis.

E não somente o que você viveu, como também o que você pensa e sente. As pessoas podem até tentar imaginar o que você sente quando compartilha algumas dessas emoções e memórias, mas elas nunca chegarão perto. Primeiro, porque elas não viveram a sua sensação; segundo, onde você enxerga magia, elas podem enxergar algo comum; terceiro, você não têm como saber devido a impenetrabilidade das almas.

Mas chegar perto é meio caminho andado. Identificar-se em partes também. É como sentir um perfume que pode agradar a você por trazer boas lembranças enquanto dá dor de cabeça à outra. Ou entender a profundidade de uma pintura enquanto um outro indivíduo enxerga apenas rabiscos. E pode ser apenas rabiscos, talvez o pintor estivesse tão de saco cheio pelo trabalho não reconhecido que resolveu rabiscar porque isso é art noveau – ou foi ou quiçá um dia será. O admirador da arte interpreta o mundo de acordo com a janela de seus olhos, não como lhe dizem para interpretá-lo. As pessoas dão um valor e um significado próprio as coisas. Impor é inútil. Contestar também. Então nesses casos é melhor artificializar expressões e reações.

A música... ah, a música. Capaz de promover um espetáculo de sinestesia e despertar memórias e sensações de anos e décadas atrás. É ouvir Crying In The Rain e lembrar-se de um amanhecer frio, as luzes do poste ainda acesas e todos dormindo em um colchão no chão da sala. É ouvir She Drives Me Crazy e isso remeter a vez que você pulou na barriga do seu irmão mais novo. É ouvir Total Eclipse of the Heart e lembrar que nesse momento as pessoas matutas da sua rua ficavam impressionadas com um balão de São João ardendo no céu – seria um ovni?

As músicas mais velhas trazem de volta sensações boas, trazem um pouco daquela pessoa que você foi; menos experiente, mas mais pura e sonhadora. E quando se olha de volta ao passado, é como se a vida tivesse mais cores. Cores que vão desaparecendo aos poucos, até que nos reste só o preto, o branco e o cinza enquanto não nos encontramos com a morte no breu total ou durante a escuridão da indiferença. Mas não só por isso, parecia que as pessoas eram mais alegres, simples e espontâneas, diferente das desesperadas de hoje para fazer parte de uma ditadura que promete felicidade mas que só as torna mais internamente infelizes, apesar dos sorrisos amarelos e das lágrimas de vapor serem aparentemente convincentes para provar o contrário.

As músicas têm esse poder de despertar a nostalgia delícia que você quer compartilhar, mas é meio desanimador quando você o faz e o retorno é menos efusivo. Não é uma questão de antipatia, mas o que tem um peso ego-histórico para você, pode não ter para o outro, enfim. E bem, aceitemos e curtamos o rico universo da nossa imaginação, da nossa terra da liberdade. Sonhar é bom, mas seria melhor poder sonhar a dois numa noite de sábado, fria e chuvosa, ouvindo a programação delícia da Antena 1 relembrando os grandes clássicos e se empanturrando de pizza sem culpa.