domingo, 20 de maio de 2012

Areia e sangue

Sentiu o cheiro de sangue saindo pelo seu nariz, seu gosto em sua garganta. Sangue que pingava e se misturava à areia. Sentiu-se fraco, estava tonto e muito machucado, via imagens distorcidas e o zumbido nos ouvidos se misturava aos gritos de seus agressores que sentiam prazer na violência.

“Não o machuquem ou a ONU não nos dará apoio político se demonstrarmos desrespeito pelos direitos humanos” - disse o líder da oposição. Ele se virou ao homem agredido: “Não que você não mereça, mas nos interessa mais ocupar o seu lugar e restaurar a república do que vê-lo morto. Isto podemos providenciar depois”.

A Primavera Árabe chegara e o rei, que havia tomado o poder através de um golpe de estado, estava caindo. Seu pai havia sido rei, mas foi assassinado pelos revolucionários que proclamaram a república.

O reinado do rei jovem e bonitão não durou muito e ele não se sentia muito motivado para tal. Sempre achou que o amor fosse besteira afinal de contas, desde quando era um adolescente, ele podia ter as odaliscas que quisesse graças à sua beleza e poder. Ter uma companhia feminina nunca havia sido um problema e achava que nunca fosse ser. Até que ele encontrou uma e se apaixonou de verdade, intensamente. Como ela não tinha uma boa fama diante da sociedade, prometeu fugir com ela para que eles vivessem esse sentimento.

Não foi o que aconteceu. Ele ficou com medo do que estava sentindo, medo de acabar cometendo um grande erro e jogar tudo o que tinha para o alto. Procurou convencer-se de que ela havia sido apenas uma paixão do interminável verão e resolveu dispensá-la. Ele seria rei e precisava de uma primeira-dama à altura.

Veio o golpe de estado, o casamento com uma atriz internacional, o poder mas... não veio a felicidade. Ele voltou a ser o que era antes de conhecer aquela mulher, mas não era a mesma coisa. Ele enxergava um novo mundo, mais amplo, mas via isso como uma maldição porque ele não era mais o mesmo de antes, sentia-se mais vulnerável e essa perda da segurança e a instabilidade psicológica preocupavam seus aliados.

Após um evento de diplomático, o rei começa a agir pior. É como se a loucura o tivesse atacado. Ele resolve se desfazer do conhecimento e entregar-se novamente à luxúria. Conduzido por choferes indianos e assistentes de palco de programas de humor machista do Leste Europeu, ele queimou livros, o conhecimento, o que sentia e foi devorado sexualmente por suas assistentes, para invejinha dos choferes. Esta espécie de sessão de autoexorcismo não deu muito certo porque o rei ficou cada vez pior, cada vez mais depressivo e autodestrutivo.

A onda da Primavera Árabe chegou ao Magreb através do Twitter e do Facebook. Era uma onda revolucionária contra a tirania e o fato de ter tomado o poder através de vias não-democráticas estimulou a oposição opulenta e desejar tomar o poder de uma forma mais aprovável aos olhos dos Estados Unidos e das Nações Unidas. O rei estava deprimido demais para reprimir qualquer manifestação contra o seu governo e assim, foi perdendo o apoio de seus aliados...

Aliados que mudaram de lado. Aliados que entregaram a sua cabeça ao grupo de revolucionários que o agrediam na frente de todos. Nada mais importava, perder o poder, perder sangue, perder a vida. Ele nunca havia se apaixonado antes tão intensamente e não havia aprendido ainda a se recuperar do amor perdido para qualquer mulher. Seu remorso era maior porque ele a dispensara. Amara Sakineh.

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