domingo, 8 de abril de 2012

O vômito azedo de Sakineh

As recepções do embaixador são conhecidas pelo gosto requintado do anfitrião que conquista sempre os seus convidados.

Sakineh ficou negativamente surpresa ao revê-lo. Mesmo que ela tivesse superado seus traumas do passado, sentiu uma raiva crescente dentro de si. O fato de ele não estar solteiro e sim, casado com uma ocidental que mal sabia vestir um hijab com decência a enfurecia ainda mais.

Diferentemente dela, seu ex-amante ficou positivamente feliz ao revê-la. Isto devia-se ao fato de Sakineh estar ainda mais espetaculosa e também porque ele não havia visto o médico turco-iraquiano com quem ela havia se casado. Mas quando o garçom saiu de vista levando consigo a torre de bombons Ferrero Rocher, daí sim ele ficou transtornado ao ver que Sakineh era casada. Apesar de tudo o que ele havia feito e dito, ele ainda a amava.

Desconfortável, Sakineh pediu licença e dirigiu-se ao toalete. A esposa eslava do ex-amante ofereceu-lhe um bombom e disse sussurrando baixando em seu ouvido:

“Com Ferrero Rocher estamos conquistados”.

Exasperado, ele a empurrou no chão dizendo: “Sai de perto de mim, vadia”. Ela não se constrangeu com tamanho ato de grosseria e aproveitou para tentar seduzir os outros embaixadores com um olhar lascivo mordiscando os lábios. Alguns deles filmavam a primeira-dama jogada no chão na embaixada enquanto ela dizia “Me filma, me edita”.

Como nunca havia visitado a Embaixada da Arábia Saudita antes, Sakineh perdeu-se e acabou parando na cozinha. Foi onde seu ex-amante finalmente a encontrou para que pudessem conversar e Sakineh vomitar tudo o que ela sempre quis dizer e não pôde. Ela também se sentia segura e amparada naquela cozinha repleta de facas e cutelos de prata reluzentes.

Sakineh, como é bom revê-la. Senti sua falta por esses anos todos, dias e noites. É como se o Sol não pudesse me aquecer, como se a Lua não pudesse iluminar minhas noites escuras. – disse-lhe seu ex-amante usando as mesmas palavras de antes.
Sentiu tanta falta que me abandonou! Sentiu tanta falta que se casou com uma atriz pornô da Eslováquia! Você jogou fora o amor que eu te dei, o sonho que eu sonhei. Isso não se faz! Você jogou fora a minha ilusão, a louca paixão. É tarde demais... – falou Sakineh.
Saki, aconteceram coisas em minha vida. Coisas que eu não podia lhe contar, desconfiei que você pudesse ser uma odalisca interesseira nas minhas conquistas. Acabei ascendendo ao poder e eu precisava de uma mulher a altura e você era apenas uma odalisca. O que eu poderia esperar de uma mulher que eu conheci dançando pole dance para soldados estadunidenses em uma boate em Bagdá? 
Eu era uma dançarina que queria fazer fama e fortuna através da dança e a gente precisa começar de baixo, porém, isto não queria dizer que eu não te amava. Eu te dei todo o meu amor e você jogou ele na lata do lixo, me trocou por uma mulher que vê você como um pedaço de carne e você provavelmente deve vê-la da mesma forma afinal de contas, pior que dançar em pole dance é ser uma atriz pornô mundialmente famosa! – esbravejou Sakineh. 
Eu errei, Sakineh. Você sempre foi meu amor verdadeiro e eu fui estúpido por procurar coisa melhor. Com você, descobri que amar é muito fácil, difícil é esquecer que um dia todo o amor que eu tinha eu dei pra você. Quando percebi que não foi demais, já era muito tarde pra voltar atrás e te dar o que eu não te dei. 
Poupe-me do seu arrependimento tardio, não acredito em mais nada que saia de sua boca de veludo. Não diga que me ama se não for para sempre. Não diga que precisa de mim se você não vai ficar, não me dê esta impressão porque eu acreditaria somente nisso. Faça acontecer ou leve tudo isso embora com você.
Cozinheiros iranianos adentraram na cozinha e os dois ficaram quietos. Sakineh não quis olhar-lhe nos olhos. Ela apenas mirava um reluzente sobre a mesa, imaginando estar cortando aquele homem que um dia ela amou em partes bem miúdas para servi-lo em uma sopa de sangue.

Quando a cozinha foi novamente esvaziada. Sakineh resolveu acabar com aquela conversa. Ela não sentia mais nada por ele além de nojo e de uma grande mágoa por aquele homem que ela não tinha a mínima vontade de perdoar.

Sakineh, eu quero você de volta. Volta para mim, vem ser minha primeira-dama. Vem me fazer feliz! – implorou com os olhos marejados.
Sou feliz sem você. Nunca conheci um homem tão covarde, fraco, frio, insensível e mentalmente instável como você. Se você realmente me amasse, não teria feito o que fez, não teria falado comigo como falou. Teria me aceitado como sou com minhas imperfeições porque eu te aceitei mesmo com aquele comportamento dúbio. Eu realmente te amei e nunca duvidei deste meu sentimento por você. Nunca fui em busca de coisa melhor. Você construiu um sentimento bom a dois, mas quando destruiu, o fez sozinho e sem se importar com o que eu ia sentir. Minha vida se tornou um inferno, passei a ser usuária de drogas. Você teve a sua chance de ser feliz comigo antes e desperdiçou. Você poderia ter tido uma segunda chance se eu não tivesse conhecido meu marido turco-iraquiano que trata como uma mulher de verdade, que se importa comigo e com o que eu sinto. Você é um imaturo egoísta que não se importa com os outros, só com o próprio prazer... – dizia com frieza e aquilo a fazia bem; estava colocando pra fora o que sempre quis falar.
Mas Sakineh... – tentou interrompê-la.
Você cale a sua boca porque você não tem moral para falar. Quero mais é que você sofra porque só assim para você entender o que eu passei. Você é indigno do amor pois você não sabe amar ninguém. Siga a sua vida sem mim, você podia me ter, mas não quis. A escolha foi sua, a decisão foi somente sua. Cansei de você, arrumei outro. Não me procure mais. Adeus. – e Sakineh virou-lhe as costas...

Ele permaneceu na cozinha, paralisado com aquelas palavras. Ele esperava que Sakineh fosse se jogar em seus braços mas, para a sua surpresa, ela estava completamente diferente, mais madura do que ele, inclusive. Ele nunca havia sido amado tão fortemente e nunca havia amado alguém tão intensamente como a Sakineh. Sentiu-se sozinho e seu discurso sobre o calor do Sol deixou de ser uma conversa mole para ser um fato. Era como se um vento frio estivesse circulando seu corpo, como se um alçapão tivesse se aberto sobre seus pés...

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