domingo, 29 de abril de 2012

O mural da fama do Facebook

Porque na internet, você pode ser uma estrela. Porque na internet, você pode aparecer. Todos querem ser uma estrela. Todos querem chamar a atenção...

Meninos e meninas pobres nasceram e cresceram em um ambiente pobre, sem higiene, sem saúde, sem brinquedos. A televisão velha era o pequeno portal para o mundo da fantasia. Dentro dela, crianças bonitas tinham uma família feliz que era capaz de lhes dar os presentes mais caros, seus pais eram atenciosos, a cidade bonita e tinham muitos amigos que gozavam de invejável qualidade e estilo de vida. Se eu me tornar uma modelo, poderei ser rica. Se eu for jogador de futebol, poderei ser rico e pegar geral a mulherada...

Meninos e meninas mais abastados nasceram e cresceram em um ambiente confortável, limpo, saudável em uma casa abastecida com aparelhos tecnológicos sofisticados. Mas era um país pobre. Quando iam para a Disney, sentiam o ar de arrogância das crianças estadunidenses de classe média, educadas a serem xenofóbicas e boçais. Voltavam ao Brasil sentido-se superiores somente às crianças pobres do país, as crianças dos sinais, os filhos do povão. Dinheiro eles já tinham, queriam apenas se sentirem importantes e reconhecidos por todos, até para o povão para que pudessem esnobar...

Porém nem todos se tornaram modelos, jogadores de futebol de renome ou artistas hollywoodianos da Rede Globo. Como poderei ser famoso, amado e odiado sem a televisão?

Então a internet se popularizou, o preço dos computadores caiu e as redes sociais se tornaram um sucesso. Não é a mesma coisa que ser o protagonista da novela das nove mas, pode vir a calhar. E veio. Vários estranhos começaram a fazer amizade entre si. Quanto mais amigos, mais popular serei. Cinquenta amigos... cem amigos... trezentos amigos... seiscentos amigos... novecentos amigos... perfil lotado...

Preciso de fotos bonitas para postar no Orkut... preciso de uma câmera digital nova. Preciso expor pra todo mundo que tenho uma vida social intensa... diga “xis”. Faça biquinho, bata fotos na frente do espelho... Acho que meu corpo não está legal... vou fazer academia... Partiu pra academia! Fotos sem camisa, fotos de peitos, fotos de bundas, fotos lascivas...

Ei, espere. Os pobres agora têm Orkut, vamos ridicularizá-los, vamos pô-los no seu devido lugar porque nós somos os pioneiros deste site e somos melhores que eles... É os pobres tomaram conta do Orkut, vamos para um lugar não tão popular, onde podemos comentar as fotos e ainda podemos nos autoproclamar pioneiros e donos do site...

Twitter para dizer o que estou fazendo, fiz, pretendo fazer. Bom dia, boa tarde, boa noite, Faces. Foursquare para dizer onde estou, na balada, na academia, no shopping, na praia... Instagram para tocar na cara desses pobres mulambentos que eu tenho um iPhone e minhas fotos são cult. Efeito anos 1920 para a praia, efeito anos 1970 para a balada, efeito anos 1980 para a lasanha que acabei de cozinhar.

Mas não basta apenas exibir os lugares requintados que frequento. Não basta apenas enunciar os lugares cool para onde estou indo. Não basta apenas exibir o meu corpo como o meu melhor talento... É necessário ser mais do que uma pessoa desejável financeira e sexualmente, é preciso mostrar conteúdo.

Nunca li Clarice, mas suas frases me impressionam. Não entendo nada de sentimentos, mas Caio Fernando Abreu me toca o coração. Não entendo na de filosofia e matemática, mas Nietzsche e Freud sabem tanto da vida e do ser humano... Ah, Freud era psicanalista? Desculpe, sou tão culto, tão erudito que até confundo os nomes e as profissões.

A situação no Brasil é lamentável mesmo né, a classe rica é rica, a classe pobre é pobre e a classe média, é media! Político ladrão deveria ser substantivo composto, ninguém presta. Dilma terrorista, Lula alcoólatra. A Globo têm razão, a Veja também. Vamos organizar a marcha para a corrupção porque a internet é a única arma que temos.

Que tal falar de amor o tempo todo, sofrer de amor? É um blablablá necessário quando queremos sexo ou um relacionamento para mascarar a solidão. Os likes e os comentários são o meu teste de popularidade. Quem curtir minha foto ousada ou me cutucar, quer transar comigo. Quem comentar positivamente minha postagem polêmica me acha inteligente - e quer transar comigo. Quem for contra a minha opinião, têm inveja de mim - e deveria transar!

Se alguém nos critica, é inveja do nosso sucesso...

Porque na internet você pode ser quem você quiser. Porque na internet, você pode ser o ser humano perfeito, gostoso e photoshopado, munido de frases de efeito que emocionam o Brasil. Porque na internet, você pode ser uma estrela. Porque na internet, você pode aparecer. Todos querem ser uma estrela. Todos querem chamar a atenção...

Era uma vez a simplicidade, a espontaneidade, a humildade e a liberdade de ser quem se é ao invés de se submeter a ser um ideal, uma utopia, o seguidor doente de uma ditadura.

domingo, 15 de abril de 2012

Tromsø

O leite quente aquecia minhas mãos durante o ensolarado, porém frio, dia de inverno em Tromsø. No momento em que meus olhos repousaram no pote de petit suisse aberto, a neve lá fora derreteu e voltei ao verão de 1992. A neve foi substituída pelo verde vivo da grama.

Corríamos descalços ao longo da margem do rio de água transparente. Podíamos ver seu fundo cheio de pedras e até alguns peixes. E pelos campos vastos e abertos, podíamos soltar pipa e admirar as formas curiosas das nuvens. Ou as várias estrelas que as luzes da cidade não podiam esconder no céu.

Os reis do mundo escavavam o chão procurando por tesouros. Escalavam algumas colinas como se fossem um grande fjord. Quanta história poderia haver em uma casa abandonada?

Dois potes de petit suisse e um barbante e tínhamos um telefone. Música calma e aconchegante tocando dentro da casa. Um cachorro correndo atrás de uma bola. O som da água da chuva caindo no telhando e na poça de água que se formava no chão. Sem preocupações.

Sopa de galinha se você pegou um resfriado. Conselhos quando você estava inseguro. Estudar juntos quando um de nós tinha uma prova difícil na faculdade. Abraços quando falhávamos, abraços quando vencíamos. Presença quando um de nossos parentes partia.

Naquele tempo, vivíamos bem. Éramos amigos, éramos parceiros. Pelo olhar, podíamos ler palavras nunca ditas, podíamos entender facilmente o que um estava sentindo e pensando. Não estávamos preocupados com a irritabilidade das pessoas chatas. Não víamos graça em rir de quem era diferente ou excêntrico. Não estávamos preocupados em julgar a tudo e a todos. Nunca queremos ser o centro das atenções, ser melhor ou pior. Nunca estivemos desesperados pelo feedback dos desconhecidos.

Estávamos preocupados apenas em viver, em apreciar a beleza da vida, aproveitar uma vida simples sem esperar milagres ou coisas grandiosas. Não queríamos perder tempo com a tristeza e suas consequências desagradáveis.

Nada mudou, estamos apenas mais velhos. Ainda vemos o mundo com os mesmos olhos. Ainda podemos ver a sentir a beleza mesmo nas pequenas coisas.

Temos um ao outro. Somos mais que amigos, mais que irmãos, mais que uma família. Somos uma fortaleza quando estamos juntos. Somos a luz quando está escuro. Nós nos importamos, nos cuidamos um do outro. Somos uma dupla que a vida uniu, incapazes de sermos separados por qualquer um.

domingo, 8 de abril de 2012

O vômito azedo de Sakineh

As recepções do embaixador são conhecidas pelo gosto requintado do anfitrião que conquista sempre os seus convidados.

Sakineh ficou negativamente surpresa ao revê-lo. Mesmo que ela tivesse superado seus traumas do passado, sentiu uma raiva crescente dentro de si. O fato de ele não estar solteiro e sim, casado com uma ocidental que mal sabia vestir um hijab com decência a enfurecia ainda mais.

Diferentemente dela, seu ex-amante ficou positivamente feliz ao revê-la. Isto devia-se ao fato de Sakineh estar ainda mais espetaculosa e também porque ele não havia visto o médico turco-iraquiano com quem ela havia se casado. Mas quando o garçom saiu de vista levando consigo a torre de bombons Ferrero Rocher, daí sim ele ficou transtornado ao ver que Sakineh era casada. Apesar de tudo o que ele havia feito e dito, ele ainda a amava.

Desconfortável, Sakineh pediu licença e dirigiu-se ao toalete. A esposa eslava do ex-amante ofereceu-lhe um bombom e disse sussurrando baixando em seu ouvido:

“Com Ferrero Rocher estamos conquistados”.

Exasperado, ele a empurrou no chão dizendo: “Sai de perto de mim, vadia”. Ela não se constrangeu com tamanho ato de grosseria e aproveitou para tentar seduzir os outros embaixadores com um olhar lascivo mordiscando os lábios. Alguns deles filmavam a primeira-dama jogada no chão na embaixada enquanto ela dizia “Me filma, me edita”.

Como nunca havia visitado a Embaixada da Arábia Saudita antes, Sakineh perdeu-se e acabou parando na cozinha. Foi onde seu ex-amante finalmente a encontrou para que pudessem conversar e Sakineh vomitar tudo o que ela sempre quis dizer e não pôde. Ela também se sentia segura e amparada naquela cozinha repleta de facas e cutelos de prata reluzentes.

Sakineh, como é bom revê-la. Senti sua falta por esses anos todos, dias e noites. É como se o Sol não pudesse me aquecer, como se a Lua não pudesse iluminar minhas noites escuras. – disse-lhe seu ex-amante usando as mesmas palavras de antes.
Sentiu tanta falta que me abandonou! Sentiu tanta falta que se casou com uma atriz pornô da Eslováquia! Você jogou fora o amor que eu te dei, o sonho que eu sonhei. Isso não se faz! Você jogou fora a minha ilusão, a louca paixão. É tarde demais... – falou Sakineh.
Saki, aconteceram coisas em minha vida. Coisas que eu não podia lhe contar, desconfiei que você pudesse ser uma odalisca interesseira nas minhas conquistas. Acabei ascendendo ao poder e eu precisava de uma mulher a altura e você era apenas uma odalisca. O que eu poderia esperar de uma mulher que eu conheci dançando pole dance para soldados estadunidenses em uma boate em Bagdá? 
Eu era uma dançarina que queria fazer fama e fortuna através da dança e a gente precisa começar de baixo, porém, isto não queria dizer que eu não te amava. Eu te dei todo o meu amor e você jogou ele na lata do lixo, me trocou por uma mulher que vê você como um pedaço de carne e você provavelmente deve vê-la da mesma forma afinal de contas, pior que dançar em pole dance é ser uma atriz pornô mundialmente famosa! – esbravejou Sakineh. 
Eu errei, Sakineh. Você sempre foi meu amor verdadeiro e eu fui estúpido por procurar coisa melhor. Com você, descobri que amar é muito fácil, difícil é esquecer que um dia todo o amor que eu tinha eu dei pra você. Quando percebi que não foi demais, já era muito tarde pra voltar atrás e te dar o que eu não te dei. 
Poupe-me do seu arrependimento tardio, não acredito em mais nada que saia de sua boca de veludo. Não diga que me ama se não for para sempre. Não diga que precisa de mim se você não vai ficar, não me dê esta impressão porque eu acreditaria somente nisso. Faça acontecer ou leve tudo isso embora com você.
Cozinheiros iranianos adentraram na cozinha e os dois ficaram quietos. Sakineh não quis olhar-lhe nos olhos. Ela apenas mirava um reluzente sobre a mesa, imaginando estar cortando aquele homem que um dia ela amou em partes bem miúdas para servi-lo em uma sopa de sangue.

Quando a cozinha foi novamente esvaziada. Sakineh resolveu acabar com aquela conversa. Ela não sentia mais nada por ele além de nojo e de uma grande mágoa por aquele homem que ela não tinha a mínima vontade de perdoar.

Sakineh, eu quero você de volta. Volta para mim, vem ser minha primeira-dama. Vem me fazer feliz! – implorou com os olhos marejados.
Sou feliz sem você. Nunca conheci um homem tão covarde, fraco, frio, insensível e mentalmente instável como você. Se você realmente me amasse, não teria feito o que fez, não teria falado comigo como falou. Teria me aceitado como sou com minhas imperfeições porque eu te aceitei mesmo com aquele comportamento dúbio. Eu realmente te amei e nunca duvidei deste meu sentimento por você. Nunca fui em busca de coisa melhor. Você construiu um sentimento bom a dois, mas quando destruiu, o fez sozinho e sem se importar com o que eu ia sentir. Minha vida se tornou um inferno, passei a ser usuária de drogas. Você teve a sua chance de ser feliz comigo antes e desperdiçou. Você poderia ter tido uma segunda chance se eu não tivesse conhecido meu marido turco-iraquiano que trata como uma mulher de verdade, que se importa comigo e com o que eu sinto. Você é um imaturo egoísta que não se importa com os outros, só com o próprio prazer... – dizia com frieza e aquilo a fazia bem; estava colocando pra fora o que sempre quis falar.
Mas Sakineh... – tentou interrompê-la.
Você cale a sua boca porque você não tem moral para falar. Quero mais é que você sofra porque só assim para você entender o que eu passei. Você é indigno do amor pois você não sabe amar ninguém. Siga a sua vida sem mim, você podia me ter, mas não quis. A escolha foi sua, a decisão foi somente sua. Cansei de você, arrumei outro. Não me procure mais. Adeus. – e Sakineh virou-lhe as costas...

Ele permaneceu na cozinha, paralisado com aquelas palavras. Ele esperava que Sakineh fosse se jogar em seus braços mas, para a sua surpresa, ela estava completamente diferente, mais madura do que ele, inclusive. Ele nunca havia sido amado tão fortemente e nunca havia amado alguém tão intensamente como a Sakineh. Sentiu-se sozinho e seu discurso sobre o calor do Sol deixou de ser uma conversa mole para ser um fato. Era como se um vento frio estivesse circulando seu corpo, como se um alçapão tivesse se aberto sobre seus pés...