domingo, 25 de março de 2012

As feridas abertas de Sakineh


Doidona após ter cheirado cocaína da Bolívia, Sakineh saiu para as ruas de Marrakesh. Devido ao efeito das drogas, ela sempre viajava, fugia para outra realidade, se livrava dos problemas quando dançava. Através da dança, ela se envolvia em uma espécie de abraço invisível que ela sempre quis receber. E permaneceu dançando no meio da rua totalmente alheia aos acontecimentos ao seu redor. Foi então, atropelada por um camelo...

Então começou. Era a sensação de rodar, rodar, rodar sem saber exatamente para onde estava indo, como se já estivesse no céu. Ela não sabia o que estava acontecendo porque não sabia como começou a acontecer. Uma tarde de domingo linda, maravilhosa. Um Sol belo, azul, dezessete horas. Ela havia ouvido alguém dizer “Berenice, segura! Nós vamos bater”. Nada mais ela se lembrava.

O subconsciente de Sakineh não resgatou memórias de seu passado como num flashback. Suas memórias repousaram no homem que a fez decair tanto e se afundar nas drogas. Ela reviveu esta dolorosa história que se somava a dor física de estar sangrando após o atropelamento enquanto Berenice e outra pessoa fugiam sem prestar socorro. As pessoas ao seu redor ouviam, curiosas os seus gemidos de dor. Ninguém se dispôs a ajudá-la. Estavam ocupados demais filmando-a com seus telefones celulares para postar tudo no YouTube depois.

Era um homem jovem e bonitão. Sakineh sempre teve baixa autoestima por ser pobre e por ter sido uma adolescente fora dos padrões de beleza, mesmo que se escondesse por detrás de um véu. Um homem bonito como aquele interessado nela é como se ela tivesse ganho na loteria. Mesmo assim, ele tinha um comportamento dúbio.
Havia ocasiões que ele era gentil com Sakineh. Dava presentes a ela como joias de ouro, reparava no seu hijab, ouvia-a, aconselhava-a. Ele era o tipo de homem perfeito que Sakineh sempre sonhou quando brincava com suas Barbies vestidas dos pés a cabeça com um longo niqab. Por outro lado, em algumas ocasiões, era distante, parecia querer evitá-la como se ela pudesse descobrir algo perigoso para ele. Era misterioso e cheio de segredos. Esta dualidade deixava-a constantemente angustiada porque sentia, às vezes, que era um romance pela metade e se perguntava qual era o problema. Devido a sua falta de autoconfiança, Sakineh sempre acreditava que era ela quem estava fazendo algo errado, e odiava-se por não saber exatamente o quê.
Sakineh também era muito intuitiva. Um dia, muito apressadamente, seu companheiro disse-lhe que eles precisavam conversar e, quando eles se encontraram em uma ruína abandonada, ele foi seco e direto ao ponto.
“Cansei de você. Arrumei outra. Não me procure mais. Adeus”.
E partiu, assim, sem maiores explicações. Sakineh ficou arrasada, embora sua intuição já lhe dissesse que o fim do relacionamento às escondidas dos dois fosse iminente. Nem os fogos de artifício que estouravam para comemorar o golpe de estado que depôs a família real foi capaz de animar aquela alma destruída que foi procurar conforto nas drogas e na dança...

Depois de permanecer vários minutos agonizando no meio da rua, ela foi resgatada por um médico turco que havia visto-a dançar. Ele a levou ao hospital mais próximo e, depois que Sakineh finalmente de recuperou, ele disse que sua irmã tinha uma escola de dança em Istambul onde ela poderia dançar e dar aulas de dança.

Sakineh largou as drogas e passou a ser conhecida e reconhecida como uma grande dançarina. Ela casou-se com esse médico de origem turco-iraquiana. Ela havia voltado a viver. Viver sem drogas, viver da dança, viver um relacionamento amoroso de verdade e sem mentiras ou omissões. Após uma vida toda de supressões e sofrimento, ela havia finalmente encontrado a felicidade.

Felicidade que ficou abalada em um evento diplomático na Embaixada da Arábia Saudita em Ankara. Ela havia reencontrado aquele homem que a abandonou e a fez sofrer. O mundo árabe era muito pequeno para eles dois...

domingo, 18 de março de 2012

Complexo de inferioridade


Sabe aquela frase “cuide de sua vida que eu cuido da minha? Pois bem, é pura hipocrisia, certo? Daí talvez você pense que não se intrometa na vida dos outros porque você não gosta que se metam na sua, não é mesmo? Errado! Não queremos que as pessoas nos julguem por sermos quem nós somos ou deixamos de ser, mas a verdade é que nós estamos sempre julgando os outros e, se julgamos, é porque o outro faz algo que nos desagrada (porque gostaríamos de fazer o que ele faz mas, por algum motivo somos obrigados ou nos obrigamos a não fazer).

Um tipo de comportamento bastante irritante dos brasileiros, antigamente desestimulado pelo fato de ter que lidar com conflitos cara a cara, que ganhou força na internet recentemente é a reclamação em massa. É o tipo de pessoal que, na internet reúne pessoas com as mesmas ideologias chatas e argumentações clichês e que se sente protegido para “trollar” todo e qualquer um que tiver qualquer opinião que o desagrade.

Todo começo de ano temos aquele pessoal de sempre, com argumentos de sempre que esperam que o Big Brother passe mensagens boas, bonitas, educativas, eruditas porque lá só tem “baixaria e gente sarada e fútil”. Agora neste ano, além do BBB (cuja audiência não para de cair e o programa fica cada vez mais monótono), temos o grupo que fica chocado com o programa “Mulheres Ricas”. Os argumentos dos “haters” não deixam de ser válidos porque BBB, Mulheres Ricas e qualquer outro reality-show de maior ou menor sucesso sempre tem “baixaria, pouca vergonha, não é bom exemplo pra nossa sociedade recatada da década de 1920”.

Agora por que será que esse pessoal se sente tão ofendido com pessoas saradas (que são previamente rotuladas de “ignorantes”), mulheres bonitas (previamente rotuladas de “vadias”), homens bonitos (previamente rotulados de “burros” ou “viados”) ou ricas (previamente rotulas de “fúteis”) têm de tão ruim que as pessoas ficam realmente ofendidas como aparentam nas redes sociais com seus argumentos pré-escolares agressivos recheados de ironia e/ou palavrões?

A resposta a estas questões tende a ser desviada e não diretamente respondida. “A televisão tem que passar coisas boas, coisas úteis, coisas que eduquem. O Brasil está cheio de problemas como a corrupção dos políticos e brasileiro só quer saber de Big Brother. É por isso que essa p* de país não vai pra frente”. O argumento de revolucionário virtual não costuma fugir disso. Devemos mobilizar o país para a causa deles, do contrário, sofreremos com sua cólera virtual.

Esta indignação toda pode (e potencialmente) ter um fundo psicológico. Tamanho ódio a este grupo de pessoas pode revelar uma frustração com a própria vida, possivelmente porque esta pessoa não se sente bonita, desejada, interessante, satisfeita com os rumos que a vida dela tomou, etc. Odiar estes participantes de reality-show pode ser, nada mais, nada menos, do que inveja mesmo. Devem ter sido pessoas que, em algum momento da vida, sofreram preconceito por não serem ou não se considerarem pessoas bonitas, saradas, fúteis, ricas, etc e este comportamento agressivo seria uma forma de dar o troco, de colocar para fora tudo aquilo que esteve engasgado Ver que pessoas “não-belas, não-saradas, não-fúteis, não-ricas” assistam a programas assim as enche de fúria mais ainda.

No fundo, todos nós gostaríamos ser pessoas bonitas, saradas, ricas. Todos nós gostaríamos de ter que trabalhar menos e nos divertir mais. Então por que criticam tanto uma coisa que gostariam de ter e ser? Não seria inveja ou então complexo de inferioridade?

domingo, 11 de março de 2012

Casa


A estrada corta os vales, montanhas, florestas. Aproxima, afasta, alimenta, contribui para o progresso, é cenário de acidentes fatais. Estradas. Rasgam o verde e mancham de cinza. Permite cruzar rios, fronteiras, limites físicos e psicológicos. Enfim, pode-se discorrer por linhas e linhas descrições sobre ela.

Um peixe grande dentro de aquário pequeno. Cansou, renunciou, mudou. Conquistou, se mudou. Um peixe do Aquárius em janeiro no Rio de Janeiro. Novos peixes, novos tubarões, novos crustáceos. A água tinha temperatura diferente. Conquistar alimento era diferente. O novo aquário, embora bonito, era intangível.

Sardinha com preço de caviar. Um aquário cheio de vazamentos e coisas com defeitos. Poucos aquários domésticos e dos poucos aquários domésticos, muitos com preços de oceanário. A água quente não agradava o peixe de água fria. E o peixe não estava mais com seus peixes queridos.

Ir atrás de um objetivo é derrubar uma barreira quase sempre mental. Oportunidades não caem do céu, mas aparecem com maior facilidade se você trabalha para isso. As coisas não são tão simples quanto parecem, mas não são tão complicadas também. Se vencer é motivo de orgulho, renunciar seria motivo de vergonha?

Cada coisa ao seu tempo. Dificuldades são um mal necessário para que aprendamos a valorizar nossas conquistas. Se você não está preparado para alguma coisa, ouse enfrentar. Se você cair, levante-se e tente novamente. Se um osso quebrar, engesse; ele irá melhorar mais cedo ou mais tarde.

Desconexo? Aparentemente, mas estradas, peixes e dificuldades são apenas metáforas para falar de nossa busca por um objetivo que às vezes não está preparado para nós, às vezes não estamos preparados para ele. Alguns pássaros nascem com asas e não voam. Alguns pássaros possuem asas, mas demasiado pequenas para voar. E outros não possuem asas, mas criam, inventam e voam mesmo assim.

A estrada trás de volta o lar, os amigos, a família, a vida. O imenso verde que não tem fim são um convite para pular da janela do ônibus e viver ali naquele mundo isolado e bonito. Um rio, uma linha de trem, o sol se pondo e inundando o horizonte de vermelho e laranja. A noite cai e na escuridão total, as estrelas brilham e até as menores podem ser vistas. A Lua ilumina a mata ao redor da estrada suspensa a metros de alturas, é como se voássemos baixo sobre as árvores.

Dormir não dá. Os ouvidos ficam zunindo, a sensação de balanço é constante, tal como uma tarde inteira dentro de um mar agitado. Daí amanhece no quintal de sua casa. O Atlântico à sua direita. As montanhas negras emergem. Tal como as casas, os prédios, a gente e o sotaque. Chegar em casa. A nuvem que te engolfa de aconchego.