domingo, 8 de janeiro de 2012

Um novo amanhã


O rei jovem e bonitão alisou os seus cabelos loiros, brilhosos e macios. Montou em seu cavalo branco puro-sangue e rumou ao rio mais próximo acompanhado por seus empresários e suas voluptuosas assistentes. Os empresários trajavam um terno escuro, óculos de sol, alguns fechavam negócios em seus iPhones enquanto outros participavam de uma teleconferência pelo Skype com o emir Hamad bin Khalifa, do Qatar. Todos eles sendo conduzidos por seus choferes indianos, outrora atores de renome de Bollywood, dentro de suas Mercedes Benz.

As assistentes de palco vinham deslizando pela lama como cobras, como se estivessem nadando com bravura de Cuba a Miami. Trajavam biquínis microscópicos que ultravalorizavam seus seios e bundas. E nadavam muito rápido, acompanhando os carros de luxo e o rei em seu cavalo branco que parecia flutuar sobre o chão.

O céu, que permanecera o dia inteiro fechado por nuvens negras que anunciavam uma tempestade de verão iminente, abria-se aos poucos, proporcionando um pôr do sol que pintava os céus com tons muito intensos de laranja e, principalmente, vermelho. Ao chegar, o rei parou em seu cavalo, imponente. As Mercedes Bens frearam silenciosamente em sincronia e as assistentes de palco ergueram-se da lama e jogaram os longos cabelos para trás, ofegantes com os lábios carnudos semiabertos. Caiu a chuva enquanto o Sol se punha, lavando e revelando as curvas delas, a água escorrendo por seus rostos enquanto sussurravam sensualmente “yes, yes, yesss”!

Detrás dos arbustos, emergiram mais assistentes de palco em um salto sincronizado, como se fizessem parte da equipe de ginástica rítmica da Rússia. Apanhavam livros que surgiam do nada, dando piruetas em uma coreografia perfeitamente sincronizada. Gemiam sensualmente ao lançá-los dentro da fogueira a poucos passos do rei, que permanecia parado ostentando um semblante de poder. Era um luxurioso e hipnotizante espetáculo de dança que prendia a atenção do rei. Os empresários tuitavam desde seus iPhones: “vadias dançando, acho uó, beijos”.

Os livros ardiam nas fogueiras. O conhecimento estava em chamas, o amor, a dor, os sonhos, a luxúria. O rei queria reiniciar todo o sistema porque não haveria reparo para a poluição existencial de seu reino e de seu passado. Queria poder escrever um novo livro, com novas tintas e novas cores.

Um último raio de sol projetou sua luz no corpo suado, sarado e peludo do rei. As assistentes de palco, ofegantes e descabeladas, deslizavam suas línguas em seus lábios em sincronia para mordiscá-los logo em seguida. Estavam desejosas pelo corpo do rei e todas, discretamente, alisavam as partes íntimas e sussurravam baixinho como se o som ecoasse sem origem “yes, yes, yesss”. Descendo lentamente do céu, um livro veio repousar na mão forte e peluda do rei que o apanhou com vigor. Ele leu:

“Aos corações partidos, o Super-Bonder!”

E as assistentes de palco curvaram-se à figura do rei, idolatrando-o ajoelhadas na lama. Complementavam as palavras do rei falando línguas exóticas num sussurro lascivo.

“Jsme otroky potěšení. Dělat, co chcete s námi. Yes, yes, yesss!”

Prosseguiu o rei:

“Aos que tiveram reveses, haverá um novo amanhã!”

Tal como a última vez, as assistentes de palco sibilaram:

“Jesteś tak mądry. Twoja wiedza sprawiają, że czujemy tak zajebiście. Yes, yes, yesss!”

E então o rei finalizou em tom de voz convicto:

“E que hoje a raiva, a angústia, o desespero e a indignação deem lugar à abstração e a única preocupação de gozar os prazeres da vida. Amém.”

As assistentes estavam em êxtase e pareciam implorar em suas palavras ofegantes enquanto idolatravam a figura do rei.

“Kérem, engedje meg, hogy érezzük az ízét a tested. Használja minket, dominál minket, mivagyunk itt, hogy megfelelnek valamennyi, a szexuális fantáziák. Yes, yes, oh yesss!”

Vendo toda aquela cena altamente erótica do rei sendo devorado pelas assistentes de palco desejosas e escravas do prazer, o filósofo coçou sua barba e ponderou:

“Nietzsche previu que Freud certamente ficaria interessado em uma cena tão épica e lasciva. E ele chorou, rolou pelo chão e bateu o corpo frágil contra a parede, totalmente louco em Cristo. Cristo mandá-los-ia todos para o inferno para arderem no fogo eterno para se arrependerem de seus pecados, mas esta não é uma questão religiosa. Talvez a grama do vizinho seja mais verde porque nossos quintais são feitos de cimento, não? Somos totalmente contra a vida, não permitimos que em nossos quintais não floresça sequer as menores unidades de vida. É triste, Nietzsche, eu entendo você.

Há urânio dentro de nós. E ao mesmo tempo que ele causa câncer nos fracos, faz-nos bem ao mesmo tempo que nos faz mal. Paradoxal, eu sei. É um conflito que travaremos contra nós mesmos para sempre, a menos que façamos como o rei e abramos nossas cabeças para jogar fora nossos cérebros. Por mais que tentemos extirpar ou irradiar nosso urânio interior ao máximo, ele será infinito, permanecerá dentro de nós até o dia que nossos corpos caiam no chão e sejam decompostos pelos vermes”.

Rolou uma última lágrima de seu rosto. O filósofo inflou e explodiu sutilmente em uma nuvem de poeira que foi prontamente levada pelo vento ao longo do horizonte vermelho.

2 comentários:

  1. Uau! Conhecimento e sabedoria excitaram as "panicats"? ( viva o Google Translator!) Mas quem diria...claro que o bombadão do rei deve ter ajudado na "decisão".

    Quem também gostaria de ver tal cena, quem sabe, seria Schopenhauer, o fofo, que por incrível que pareça soube escrever umas coisas certas sobre o amor...mas no caso das assistentes de palco, deixa com Bukowski, Miller ou Dalton Trevisan, com ilustrações do Crumb e Zéfiro!

    E pobre filósofo, seus átomos estão espalhados por aí...quem sabe sirvam para formar novos filósofos!

    Abs! Muito bom o texto!

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