domingo, 15 de janeiro de 2012

Engrenagens do sistema


Os vizinhos do apartamento de baixo reclamaram e bateram com suas vassouras Scoth-Brite no teto.

O rei jovem e bonitão estava olhando para si no espelho. Olhou para o interior de sua pupila através do reflexo e algumas de suas lembranças foram revividas involuntariamente. Seu reino não era socialmente justo, mas o que é a justiça? Onde estão suas regras morais? Ele não seguia regras, seu pai não seguia regras, ninguém seguia regras. Eles eram as regras, escreviam as próprias. Sedentos pelo poder, traíram uns aos outros, mataram uns aos outros e fizeram com que inocentes lutassem pela defesa de seus interesses exclusivamente pessoais.

A verdade não existe, a justiça não existe, o certo e o errado não existem. O que existem são conceitos desenvolvidos por homens que queriam tornar suas visões e ideias em uma verdade absoluta, obviamente satisfazendo também seus anseios pessoais, mas com uma visão mais abrangente (ou que assim pareça). Enfim, a política da promoção da ignorância no reino deu certo. Qualquer política que precise do veto de toda a massa sempre dará certo.

Os reis, os príncipes, duques e a realeza em geral criavam leis que defendessem seus interesses pessoais enquanto o povo morria de fome e pestes. Ninguém reclamava, era o destino. A escolha divina determinava o destino que não podia ser mudado. Mas não estávamos mais na Idade Média e sim, nos dias contemporâneos. O pensamento medieval resistiu aos séculos e ainda é visto como uma escolha divina. O luxo da realeza é sustentado pela base da pirâmide capitalista e de seu povo sem acesso a verdadeira verdade, sem acesso ao conhecimento e totalmente manipuláveis e corruptíveis, seja pelo dinheiro, seja por temer a ira divina.

“Os sonhos são para os sonhadores porque sonhar um sonho é sonhar um sonho impossível. Sonhar é alimentar ilusões. Não sonhar é viver a realidade infeliz cógnita ou incógnita. Não existe um meio-termo entre o sonhar e o não sonhar nesta nossa sociedade de xiitas e sunitas. Sonhar é esperar que com o poder da prece, a graça seja alcançada e, como ela costuma não ser, muitos põe a culpa em Deus por seus fracassos. Não sonhar é apenas sobreviver: é viver a vida pensando na vida após a morte fazendo tudo com o intuito egoísta da salvação. Eu busquei o meio-termo e me senti sozinho. Meu conhecimento apenas me trouxe a solidão. A humanidade é desprezível, detestável, mesquinha e covarde.”

Estas foram as últimas palavras de um filósofo que bateu com o corpo na parede e rolou pelo chão até a morte, numa tentativa demorada e sofrida de suicídio que quase não deu certo. Os vizinhos do apartamento de baixo reclamaram e bateram com suas vassouras Scoth-Brite no teto. Reclamaram também da gotas de sangue que escorriam pelas lâmpadas, do fedor do corpo em decomposição do filósofo misantrópico e da polícia que estava em greve e que, por isso, recusou-se a retirar o corpo já podre e fétido que jazia no mesmo local há três semanas.

O suicídio não comoveu nem um pouco os seus vizinhos. Obviamente, sua morte foi criticada pelos religiosos e tema para a sua política do terror: “Quem se suicida, ou seja, que tira de si a sua própria vida, bom sujeito não é; ou é ruim da cabeça, ou doente do pé. E eles vão direto para o inferno queimar eternamente no fogo eterno enquanto são açoitados pelo Coisa Ruim. É isso o que vocês querem, irmãos? Hana Macantarava Suya!”

Seus vizinhos eram pessoas desprezíveis, egoístas, hipócritas. Eram um exemplo do sucesso do descaso do rei com a educação e a justiça social. Eram exemplos de manipulação. Eram exemplos de pessoas que não sonhavam e que tomavam a miséria como destino.

Xucúncia era uma mulher que trabalhava de domingo a domingo, 10 horas por dia. Sua rotina se resumia ao trabalho, a cuidar dos filhos mal-educados e a aturar o marido, Clorisvaldo, que arrotava e soltava puns com frequência. Apesar disso, adorava essa vida de rainha do lar. Casou-se com Clorisvaldo porque ele era homem honesto, trabalhador, mas estava grávida e precisou juntar os trapos. Ela se considerava uma pessoa feliz, mas no fundo, ela não era porém, devido a sua susceptibilidade para a manipulação e a falta de autocrítica, faziam com que ela não tomasse conhecimento disso. Também era muito insegura e proibia que Clorisvaldo saísse de casa para jogar futebol aos domingos com o pessoal do trabalho.

Clorisvaldo, marido de Xucúncia, tinha um emprego humilde e dizia fazer horas-extras para a esposa enquanto, na verdade, estava no bar. Sua vida era vazia e sua esposa o sufocava. Ele se arrependia demais do dia que se casou porque tudo o que ganhava, ia para a casa. Seus breves momentos de felicidade se resumiam ao futebol aos domingos com o pessoal do trabalho e as idas à Boate Azul, onde mantinha relações sexuais promíscuas com travestis. Ele morreria anos depois pelas debilidades causadas pela AIDS e transmitiria o vírus HIV para Xucúncia.

Cássio era um outro vizinho do filósofo. Era homossexual assumido mas, mesmo assim, desejado pelas várias mulheres do prédio porém, ele as esnobava. Por ser bonito e malhado, também esnobava todos os outros gays da balada. Seus namoros não duravam mais de três semanas, mas ele quase sempre estava namorando alguém. Porém o tempo passou, a beleza foi embora e o peito caiu. Chegou aos 40 anos sozinho e sozinho morreu devido a um câncer no reto, sífilis no olho e outras DSTs.

Então o rei parou de olhar dentro do fundo de suas pupilas no espelho. Os vizinhos do filósofo, aquele era o seu povo, mas não era a sua realidade. Eles eram as engrenagens que faziam todo o sistema girar...

MARCUS VIANA - Sob O Sol by petersonflr

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