domingo, 22 de janeiro de 2012

Dicionário Sakineh da Odalisca Moderna


Não me chama de “meu bem”! Eu não sou o seu bem! Porque bem a gente não esnoba, não joga pela janela, não despreza. Eu sou o seu mal, o seu veneno.

Sábias palavras, Anita. Olá, eu sou o filósofo que morreu no episódio passado. Você deve estar se perguntando: mas como é que um filósofo que morreu pode estar escrevendo alguma coisa se ele já está morto e os mortos não escrevem? Teria sido a sua morte uma farsa? Estaria sendo este texto psicografado por Chico Xavier mas, como se ele também está morto? Então eu lhe pergunto: o que é a morte? Você já morreu para saber? Porque você não morre então? Daí depois você me conta como é!

Enfim, estarei aqui para comentar a história de Sakineh, apenas uma odalisca qualquer de um harém qualquer de um país qualquer. Prestem atenção à sua história, suas vontades, suas necessidades, seus delírios e procurem entender esta alma perturbada que perturbou o mais imperturbável dos homens, o mais compreensivo e espiritualmente fechado dos psicólogos. Abre aspas...



Marrocos, janeiro de 2012

Eu colocaria a data aqui, mas estou tão louca em Allah que já não sei mais que dia em que estamos, onde estou ou quem eu sou. Por que os dias têm que mudar a cada amanhecer, assim que dá meia-noite? Por que não pode ser sempre 31 de maio, 7 de fevereiro ou 14 de julho? Por quê? Por que o de tantos por quês? Por que eu não nasci burra e insensível, cega, surda, muda? Por que eu não consigo me reduzir a uma vadia como as outras mulheres daqui? Porque se assim eu tivesse nascido, talvez eu não sofresse por gente que não entende o quanto isso me dói na alma.

Quando no Líbano eu ainda morava, com as minhas Barbies vestidas em burqas negras, eu brincava. E sonhava. Passaram-se os anos e a realidade pisou em meus sonhos e no meu conceito de felicidade. Casar, ter filhos, cuidar do lar, ensinar minha filha a dançar e a hipnotizar um homem e ter um camelo na garagem. Porém, este não era um mundo só meu, mas de muitas outras odaliscas.

Não sei o que é capitalismo. Sim, sou burra, odeie-me por isso. Um dia ouvi falar na “lei da oferta e da procura” e descobri que o mercado do amor funciona assim. Nos tempos de minha mãe, quando o homem dizia que iria ligar, ele ligava. De acordo com o Dicionário Sakineh da Odalisca Moderna, isto quer dizer que ele não vai te ligar, mas, mesmo ciente disto, como você é muito trouxa, mirará a vida passar a espera do tal telefonema. Ele não liga, você chora.

Hoje são as próprias odaliscas que estão indo atrás dos homens, que podem acumular até quatro mulheres se opulento ele for. E nós, temos que nos auto-humilhar aprendendo danças sensuais, cozinhar, lavar, cuidar das crianças, mudar o cabelo e eles nem reparam na gente! Odaliscas sabotam umas as outras, odaliscas se odeiam mutualmente.

Homens, odeio-os. Deveriam vir com uma placa na testa dizendo o que eles querem. Eles mentem para te conquistar, depois mentem para te descartar. São carinhosos e românticos para te conquistar, frios e insensíveis para te descartar. Odeiam quando somem. Odeiam quando não ligam de volta. Odeio quando não atendem. Odeio quando me comparam com as outras dizendo que elas eram melhores que eu. Odeio o discurso do “vamos ser somente amigos”. Odeio quando olham para as odaliscas com os olhos de fora no mercado público. Odeio quando descobrem meus sonhos e meus pontos fracos, me fazem feliz, depois me abandonam e eu sou obrigada e me reconstruir mais uma vez.

Sem mentiras, diga o que quer. Não peça desculpas, eu não vou, não quero te perdoar. Porque a dor que você me causou, dói somente em mim, não em você. Você não sabe como eu me sinto, você não tem sentimentos para entender.



A odalisca havia se apaixonado pelo rei, pelo desejo. Não por ela mesma. Consumiu cocaína da Bolívia para parar a dor e dançou ao som de Coldplay para abstrair. Dançar era seu refúgio.

[Este post foi escrito com a participação de Juliamaris de Oliveira].

COLDPLAY - Princess Of China (feat. Rihanna) by DJ Erm

domingo, 15 de janeiro de 2012

Engrenagens do sistema


Os vizinhos do apartamento de baixo reclamaram e bateram com suas vassouras Scoth-Brite no teto.

O rei jovem e bonitão estava olhando para si no espelho. Olhou para o interior de sua pupila através do reflexo e algumas de suas lembranças foram revividas involuntariamente. Seu reino não era socialmente justo, mas o que é a justiça? Onde estão suas regras morais? Ele não seguia regras, seu pai não seguia regras, ninguém seguia regras. Eles eram as regras, escreviam as próprias. Sedentos pelo poder, traíram uns aos outros, mataram uns aos outros e fizeram com que inocentes lutassem pela defesa de seus interesses exclusivamente pessoais.

A verdade não existe, a justiça não existe, o certo e o errado não existem. O que existem são conceitos desenvolvidos por homens que queriam tornar suas visões e ideias em uma verdade absoluta, obviamente satisfazendo também seus anseios pessoais, mas com uma visão mais abrangente (ou que assim pareça). Enfim, a política da promoção da ignorância no reino deu certo. Qualquer política que precise do veto de toda a massa sempre dará certo.

Os reis, os príncipes, duques e a realeza em geral criavam leis que defendessem seus interesses pessoais enquanto o povo morria de fome e pestes. Ninguém reclamava, era o destino. A escolha divina determinava o destino que não podia ser mudado. Mas não estávamos mais na Idade Média e sim, nos dias contemporâneos. O pensamento medieval resistiu aos séculos e ainda é visto como uma escolha divina. O luxo da realeza é sustentado pela base da pirâmide capitalista e de seu povo sem acesso a verdadeira verdade, sem acesso ao conhecimento e totalmente manipuláveis e corruptíveis, seja pelo dinheiro, seja por temer a ira divina.

“Os sonhos são para os sonhadores porque sonhar um sonho é sonhar um sonho impossível. Sonhar é alimentar ilusões. Não sonhar é viver a realidade infeliz cógnita ou incógnita. Não existe um meio-termo entre o sonhar e o não sonhar nesta nossa sociedade de xiitas e sunitas. Sonhar é esperar que com o poder da prece, a graça seja alcançada e, como ela costuma não ser, muitos põe a culpa em Deus por seus fracassos. Não sonhar é apenas sobreviver: é viver a vida pensando na vida após a morte fazendo tudo com o intuito egoísta da salvação. Eu busquei o meio-termo e me senti sozinho. Meu conhecimento apenas me trouxe a solidão. A humanidade é desprezível, detestável, mesquinha e covarde.”

Estas foram as últimas palavras de um filósofo que bateu com o corpo na parede e rolou pelo chão até a morte, numa tentativa demorada e sofrida de suicídio que quase não deu certo. Os vizinhos do apartamento de baixo reclamaram e bateram com suas vassouras Scoth-Brite no teto. Reclamaram também da gotas de sangue que escorriam pelas lâmpadas, do fedor do corpo em decomposição do filósofo misantrópico e da polícia que estava em greve e que, por isso, recusou-se a retirar o corpo já podre e fétido que jazia no mesmo local há três semanas.

O suicídio não comoveu nem um pouco os seus vizinhos. Obviamente, sua morte foi criticada pelos religiosos e tema para a sua política do terror: “Quem se suicida, ou seja, que tira de si a sua própria vida, bom sujeito não é; ou é ruim da cabeça, ou doente do pé. E eles vão direto para o inferno queimar eternamente no fogo eterno enquanto são açoitados pelo Coisa Ruim. É isso o que vocês querem, irmãos? Hana Macantarava Suya!”

Seus vizinhos eram pessoas desprezíveis, egoístas, hipócritas. Eram um exemplo do sucesso do descaso do rei com a educação e a justiça social. Eram exemplos de manipulação. Eram exemplos de pessoas que não sonhavam e que tomavam a miséria como destino.

Xucúncia era uma mulher que trabalhava de domingo a domingo, 10 horas por dia. Sua rotina se resumia ao trabalho, a cuidar dos filhos mal-educados e a aturar o marido, Clorisvaldo, que arrotava e soltava puns com frequência. Apesar disso, adorava essa vida de rainha do lar. Casou-se com Clorisvaldo porque ele era homem honesto, trabalhador, mas estava grávida e precisou juntar os trapos. Ela se considerava uma pessoa feliz, mas no fundo, ela não era porém, devido a sua susceptibilidade para a manipulação e a falta de autocrítica, faziam com que ela não tomasse conhecimento disso. Também era muito insegura e proibia que Clorisvaldo saísse de casa para jogar futebol aos domingos com o pessoal do trabalho.

Clorisvaldo, marido de Xucúncia, tinha um emprego humilde e dizia fazer horas-extras para a esposa enquanto, na verdade, estava no bar. Sua vida era vazia e sua esposa o sufocava. Ele se arrependia demais do dia que se casou porque tudo o que ganhava, ia para a casa. Seus breves momentos de felicidade se resumiam ao futebol aos domingos com o pessoal do trabalho e as idas à Boate Azul, onde mantinha relações sexuais promíscuas com travestis. Ele morreria anos depois pelas debilidades causadas pela AIDS e transmitiria o vírus HIV para Xucúncia.

Cássio era um outro vizinho do filósofo. Era homossexual assumido mas, mesmo assim, desejado pelas várias mulheres do prédio porém, ele as esnobava. Por ser bonito e malhado, também esnobava todos os outros gays da balada. Seus namoros não duravam mais de três semanas, mas ele quase sempre estava namorando alguém. Porém o tempo passou, a beleza foi embora e o peito caiu. Chegou aos 40 anos sozinho e sozinho morreu devido a um câncer no reto, sífilis no olho e outras DSTs.

Então o rei parou de olhar dentro do fundo de suas pupilas no espelho. Os vizinhos do filósofo, aquele era o seu povo, mas não era a sua realidade. Eles eram as engrenagens que faziam todo o sistema girar...

MARCUS VIANA - Sob O Sol by petersonflr

domingo, 8 de janeiro de 2012

Um novo amanhã


O rei jovem e bonitão alisou os seus cabelos loiros, brilhosos e macios. Montou em seu cavalo branco puro-sangue e rumou ao rio mais próximo acompanhado por seus empresários e suas voluptuosas assistentes. Os empresários trajavam um terno escuro, óculos de sol, alguns fechavam negócios em seus iPhones enquanto outros participavam de uma teleconferência pelo Skype com o emir Hamad bin Khalifa, do Qatar. Todos eles sendo conduzidos por seus choferes indianos, outrora atores de renome de Bollywood, dentro de suas Mercedes Benz.

As assistentes de palco vinham deslizando pela lama como cobras, como se estivessem nadando com bravura de Cuba a Miami. Trajavam biquínis microscópicos que ultravalorizavam seus seios e bundas. E nadavam muito rápido, acompanhando os carros de luxo e o rei em seu cavalo branco que parecia flutuar sobre o chão.

O céu, que permanecera o dia inteiro fechado por nuvens negras que anunciavam uma tempestade de verão iminente, abria-se aos poucos, proporcionando um pôr do sol que pintava os céus com tons muito intensos de laranja e, principalmente, vermelho. Ao chegar, o rei parou em seu cavalo, imponente. As Mercedes Bens frearam silenciosamente em sincronia e as assistentes de palco ergueram-se da lama e jogaram os longos cabelos para trás, ofegantes com os lábios carnudos semiabertos. Caiu a chuva enquanto o Sol se punha, lavando e revelando as curvas delas, a água escorrendo por seus rostos enquanto sussurravam sensualmente “yes, yes, yesss”!

Detrás dos arbustos, emergiram mais assistentes de palco em um salto sincronizado, como se fizessem parte da equipe de ginástica rítmica da Rússia. Apanhavam livros que surgiam do nada, dando piruetas em uma coreografia perfeitamente sincronizada. Gemiam sensualmente ao lançá-los dentro da fogueira a poucos passos do rei, que permanecia parado ostentando um semblante de poder. Era um luxurioso e hipnotizante espetáculo de dança que prendia a atenção do rei. Os empresários tuitavam desde seus iPhones: “vadias dançando, acho uó, beijos”.

Os livros ardiam nas fogueiras. O conhecimento estava em chamas, o amor, a dor, os sonhos, a luxúria. O rei queria reiniciar todo o sistema porque não haveria reparo para a poluição existencial de seu reino e de seu passado. Queria poder escrever um novo livro, com novas tintas e novas cores.

Um último raio de sol projetou sua luz no corpo suado, sarado e peludo do rei. As assistentes de palco, ofegantes e descabeladas, deslizavam suas línguas em seus lábios em sincronia para mordiscá-los logo em seguida. Estavam desejosas pelo corpo do rei e todas, discretamente, alisavam as partes íntimas e sussurravam baixinho como se o som ecoasse sem origem “yes, yes, yesss”. Descendo lentamente do céu, um livro veio repousar na mão forte e peluda do rei que o apanhou com vigor. Ele leu:

“Aos corações partidos, o Super-Bonder!”

E as assistentes de palco curvaram-se à figura do rei, idolatrando-o ajoelhadas na lama. Complementavam as palavras do rei falando línguas exóticas num sussurro lascivo.

“Jsme otroky potěšení. Dělat, co chcete s námi. Yes, yes, yesss!”

Prosseguiu o rei:

“Aos que tiveram reveses, haverá um novo amanhã!”

Tal como a última vez, as assistentes de palco sibilaram:

“Jesteś tak mądry. Twoja wiedza sprawiają, że czujemy tak zajebiście. Yes, yes, yesss!”

E então o rei finalizou em tom de voz convicto:

“E que hoje a raiva, a angústia, o desespero e a indignação deem lugar à abstração e a única preocupação de gozar os prazeres da vida. Amém.”

As assistentes estavam em êxtase e pareciam implorar em suas palavras ofegantes enquanto idolatravam a figura do rei.

“Kérem, engedje meg, hogy érezzük az ízét a tested. Használja minket, dominál minket, mivagyunk itt, hogy megfelelnek valamennyi, a szexuális fantáziák. Yes, yes, oh yesss!”

Vendo toda aquela cena altamente erótica do rei sendo devorado pelas assistentes de palco desejosas e escravas do prazer, o filósofo coçou sua barba e ponderou:

“Nietzsche previu que Freud certamente ficaria interessado em uma cena tão épica e lasciva. E ele chorou, rolou pelo chão e bateu o corpo frágil contra a parede, totalmente louco em Cristo. Cristo mandá-los-ia todos para o inferno para arderem no fogo eterno para se arrependerem de seus pecados, mas esta não é uma questão religiosa. Talvez a grama do vizinho seja mais verde porque nossos quintais são feitos de cimento, não? Somos totalmente contra a vida, não permitimos que em nossos quintais não floresça sequer as menores unidades de vida. É triste, Nietzsche, eu entendo você.

Há urânio dentro de nós. E ao mesmo tempo que ele causa câncer nos fracos, faz-nos bem ao mesmo tempo que nos faz mal. Paradoxal, eu sei. É um conflito que travaremos contra nós mesmos para sempre, a menos que façamos como o rei e abramos nossas cabeças para jogar fora nossos cérebros. Por mais que tentemos extirpar ou irradiar nosso urânio interior ao máximo, ele será infinito, permanecerá dentro de nós até o dia que nossos corpos caiam no chão e sejam decompostos pelos vermes”.

Rolou uma última lágrima de seu rosto. O filósofo inflou e explodiu sutilmente em uma nuvem de poeira que foi prontamente levada pelo vento ao longo do horizonte vermelho.