domingo, 23 de dezembro de 2012

A tragédia chique

Tudo é imagem. Sabemos que a beleza chama a atenção e que todos querem se sentir bonitos. Se não fosse por isso, não faria sentido tomar banho, pentear o cabelo, cortar as unhas, vestir roupas limpas, fazer academia, etc. Não é somente uma questão de saúde, mas é uma questão de estética também. Não há problema algum em querer se sentir mais bonito ou sentir atração pelo o que é belo; o problema é quando uma pessoa tem a beleza como único talento, ou quando a beleza é rechaçada por pessoas que são (ou pensam que são) feias devido ao seu complexo de inferioridade e com preguiça em cuidar da própria aparência.

A atração pela beleza não se resume somente à beleza física de algumas pessoas, mas pela beleza de modo geral. Isto inclui riqueza e poder também. Algumas tragédias recentes têm evidenciado o quanto as pessoas são fixadas na tríade beleza-riqueza-poder. Podemos falar de dois tipos de programas de TV que fazem muito sucesso no Brasil: novelas e reality shows. Os participantes de um reality show são pessoas jovens, ricas e bonitas – o padrão do ideal de beleza – e o público, muitas vezes, é o oposto dessa gente. As novelas e até mesmo a nossa literatura focam, principalmente, nos dramas de uma família burguesa.

Agora falando de um assunto que a mídia brasileira adora vender (tragédias) apesar da falsa comoção da população que finge pesar para disfarçar o seu fascínio por elas, temos vários exemplos do que pode ser chamado de “tragédia chique”.

O caso da menina Isabela Nardoni teria causado tanta comoção nacional se ela não fosse uma menina bonita de uma família de classe média? E se fosse uma menina negra, não muito bela e de uma família pobre, atirada da laje de um barraco da favela, ela teria conseguido causar a mesma comoção? Por que o “mendigo gato” de Curitiba foi capaz de mobilizar as redes sociais para localizar sua família e “comoveu” essa gente por causa de seu drama com as drogas? Por que os vários mendigos feios, sujos, drogados e alcoolizados não conseguiram comover esse povo tão “humano” das redes sociais se é tão mais fácil encontrar um mendigo dormindo nas ruas até mesmo em cidades pequenas? Por que é tão comum ver um menor de idade sendo tratado como um criminoso condenado em rede nacional enquanto ele é suspeito, especialmente se ele for negro e pobre? Por que a violência contra homossexuais causa revolta nas redes sociais somente quando o agredido é bonito e masculino, enquanto o feio e afeminado é motivo de chacota até mesmo entre os próprios gays? Por que não existe a mesma pré-condenação da mídia quando o criminoso é um apresentador de televisão que se recusa a fazer o teste do bafômetro, quando um grupo de jovens coloca fogo em um índio, ou quando adolescentes de classe média estupram uma garota?

E na esfera internacional, será que os ataques de 11 de setembro teriam o tradicional destaque mórbido mundial anual midiático se tivessem sido realizados em um país econômica e culturalmente pouco expressivo a nível mundial como a Somália? Por que o furacão Sandy chamou tanto a atenção da mídia e da população brasileira se problemas de proporções maiores e piores costumam acontecer todos os anos no sudeste asiático? Por que o recente ataque a estudantes em uma escola nos EUA causa tanta “comoção” por parte do Brasil e do mundo? O caso na escola do Realengo não fez o mundo chorar suas lágrimas de vapor e não existe um ritual doentio por parte da mídia internacional de noticiar o aniversário da tragédia.

A fixação da sociedade vai muito além da beleza física. Até mesmo a sua humanidade está condicionada a ela. A “tragédia chique” mostra que o sentimento de humanidade é seletivo: o que envolve pessoas ou coisas bonitas, ricas e poderosas, comove; o que envolve pessoas ou coisas feias, pobres e sem poder, não comove ou é seletivamente ignorado. A tragédia chique mostra o quanto as pessoas são superficiais e fúteis, até mesmo quando procuram não transparecer isso ao máximo devido à sua fixação pela própria imagem diante da sociedade. A tragédia chique mostra o quanto o mal está banalizado e o quanto as pessoas são hipócritas ao tentarem fingir pesar quando, na verdade, elas são sádicas e nutrem uma verdadeira obsessão pela dor e o insucesso alheio.

domingo, 2 de dezembro de 2012

O tortuoso ato de pensar e amar

O suposto fim do mundo se aproxima. Em cerca de três semanas, haverá um verdadeiro dilúvio de imagens compartilhadas toscas no Facebook. Teremos um dilúvio de reportagens inúteis e sensacionalistas instaurando o terror em busca de audiência. E teremos fanáticos religiosos vendendo lotes no céu, se autoflagelando ou até mesmo, cometendo suicídio. E nesse clima de caos e bizarrice poderíamos refletir um pouco sobre a raça humana.

O que o homem de hoje mudou em relação àquele do Egito Antigo, da Grécia, de Roma, da Idade Média ou da Idade Moderna? Exceto pelo desenvolvimento extraordinário das ciências e da tecnologia, talvez pouco no que diz respeito à civilidade. Pode parecer exagero, mas será que realmente estamos mais civilizados, mais críticos, mais inteligentes?

Vamos olhar ao nosso redor: a escravidão acabou mesmo ou ela apenas mudou de nome para trabalho assalariado? Realmente conquistamos mais poderes políticos ou estamos moldados a uma cultura que nos dita como pensar e se expressar? A democracia realmente existe ou é apenas uma falácia já que a população não participa e seu único poder político efetivo é o voto? Se somos animais racionais, por que consumimos pela necessidade de ter uma vida bem-sucedida ao invés de uma vida boa? Por que destruímos o meio-ambiente? Por que vemos pessoas morrendo de fome, matando, sofrendo e o máximo que fazemos é fingir pesar ou chorar lágrimas de vapor?

Estamos emburrecendo, estamos decaindo, estamos nos resumindo e tratando as pessoas como coisas, objetos. A palavra “humanidade” deveria ser banida dos dicionários pelos grupo do controle de linguagem: ela tem conotação pejorativa pois está associada a uma espécie que destrói a natureza, aos outros animais e a si própria.

Falta ao mundo amor. Falta ao mundo coragem. Falta ao mundo respeito. Falta ao mundo o mínimo de inteligência para pensar, discernir e analisar criticamente com sensatez. Falta ao mundo o mínimo de inteligência para sentir além do seu umbigo. Apenas gostaria de viver em um mundo que funcionasse e não onde até o mais básico, que é pensar e amar, o homem ainda não aprendeu.


domingo, 18 de novembro de 2012

A alienação é um refúgio

Estude. Trabalhe. Produza. Não pense. Ocupe-se. Isto faz bem. Mente vazia, oficina do diabo. Não vale a pena pensar muito. Não vale a pena pensar muito. Talvez isto seja o que chamam de destino. Alguns têm muito sem fazer esforço. Outros se esforçam muito para conquistar pouco. E o destino não está escrito, por completo, mas rascunhado e depende de você apagar algumas linhas e reescrevê-las. Demanda muita paciência e às vezes o que você pode fazer é uma reciclagem, uma série de sacrifícios visando uma meta, um ideal que se converte em satisfação pessoal e logo, em uma nova sensação de felicidade. Mas demora e isso cansa. Então não pense. Estude, trabalhe, produza, mantenha a mente ocupada. A alienação é um refúgio. Assim você não fica pensando merda. Assim você não fica se autodestruindo. Assim você conserva aquela reserva de esperanças que a sua ansiedade e desespero vem consumindo a medida que você fica mais velho.

And I Will Kiss by Underworld by HollyBanks

domingo, 11 de novembro de 2012

Equipe Capitão Planeta

Ela então desceu de seu carro, vestida elegantemente, pôs seus óculos escuros e acendeu um cigarro. Mas logo o barulho do ônibus chegando à estação a acordou de súbito e ela despertou para a sua realidade comum e banal. Ela havia conseguido um lugarzinho para sentar com muito esforço e ficou ali, comprimida entre a janela e a senhora obesa cuja banha serviu de travesseiro. Foi o que ela pensou e seu chip da moralidade apitou em sua consciência, censurando-a afinal, o termo “banha” soa extremamente ofensivo quando relacionado a uma pessoa obesa. Ela chamaria de “gorda”, mas o chip da moralidade condená-la-ia ainda mais. Estava se cansando dessa auto-vigilância constante que a reprimia o tempo todo, obrigando-a a pensar na etimologia de cada palavrinha para não ser condenada como um ser humano terrível e cheio de preconceitos desprezíveis.

Ela não se sentia mais livre para ser quem era. Ela se sentia uma pessoa moldada. Em uma conversa informal com um desconhecido que chamou a sua atenção na faculdade, não somente pelo físico, mas até por ter um “ar” de pessoa culta, ela ouviu uma lição de moral sutil quando empregou o termo “denegrir”. Aquilo a broxou tremendamente. Foi informada que denegrir significa “tornar negro”, numa relação negativa direta às pessoas de cor negra. Ela não era racista. Nunca tratou um negro de maneira descortês por sua cor, mas o simples fato de desconhecer a origem da palavra “denegrir” a tornava racista, mesmo que de forma velada. Parecia que ou ela se adaptava ao politicamente correto, que ela comparava ao “crime de pensamento” do livro 1984, de George Orwell, ou era obrigada a ser apedrejada com discursos de um mundo perfeito, florido, cheio de coelhos fofos e saltitantes com arco-íris no final que só não existia porque pessoas preconceituosas como ela existiam na Terra.

Resolveu ficar quieta. Gostaria de mandar este grupo de controle de linguagem tomarem em um determinado lugar, mas preferiu agir com moral e guardar seus xingamentos para si, afinal de contas, quem usa de violência verbal perde a razão e blablabla. Ela não se sentia mais livre nem para xingar.

O pior é que ela via muita gente passando a fazer parte deste grupo engajado. Ela não sabia se isto era uma espécie de coerção moral ou até mesmo moda. Há algum tempo ela começara a reparar que há uma onda que dita que todos os seres humanos devem ser engajados em alguma causa. Quem não é engajado ou critica que esse engajamento é por pura vaidade, para parecer mais “inteligente” ou “cult” ou “revolucionário fodão”, parecia ser menos merecedor de respeito pelo o que ela percebia. E o rechaço vinha dos tais discursos moralistas, dos olhares de decepção ou censura, da mãozinha na boca numa expressão de incredulidade e horror, ou do suposto sentimento de “pena”. Ela estava fora dessa moda e isso a molestava. Não que ela quisesse fazer parte, mas ela sentia que as pessoas estavam passando a ser menos espontâneas e até mesmo, mais insuportáveis e chatas.

“Mas será que a chata não sou eu? Será que o problema não sou eu?” questionava-se o tempo todo.

Talvez fosse. Das vezes que ela tentara aderir a essa “moda”, por assim dizer, ela se sentia extremamente artificial. Risos artificiais, interesses artificiais. Ela não se sentia mais livre para ser ela mesma, aquela pessoa que soltava um palavrão de vez em quando, que não ia tão a fundo na raiz etimológica das palavras, que usava termos politicamente incorretos e que não era engajada numa causa ou escrava das próprias vaidades, obcecada em querer aparecer, soar culta e socialmente responsável, em causar ansiando por um Prêmio Nobel. Ela queria ser “preconceituosa”, “ignorante”, “irresponsável” de acordo com os engajados, mas se sentia sozinha sendo ela mesma. A nova ordem parecia ser a artificialidade no seu estágio mais elevado. Ela se considerava autêntica, mas isto era feio e algo do qual ela deveria se envergonhar.

Enfim, pensava demais também e isto era outra coisa que a aborrecia profundamente. Então o melhor era aceitar, procurar abstrair isto e pegar seu ônibus para a faculdade, num trajeto tortuoso de quase uma hora, novamente comprimida na janela por qualquer pessoa com um alto índice de massa corporal. Quem sabe ela pudesse adormecer novamente sobre uma área de grande reserva de glicogênio e sonhar com um mundo onde as pessoas não eram tão neuróticas em relação à linguagem ou em sair voando como o Capitão Planeta marxista, loucas para salvar o mundo da degradação causada pelo burguês capitalista opressor e fazer coraçãozinho com as mãos.

domingo, 14 de outubro de 2012

Quem sabe na próxima encarnação

Chove e faz frio lá fora. Gostaria de me enfiar debaixo de camadas e mais camadas de cobertor. De pular dentro de uma fonte de água quente e me deixar envolver, afundar, sentir o calor, sentir seu abraço. Gostaria de correr descalço pelo deserto, o Sol escaldante queimando minha pele, toda suja de suor e poeira. O cabelo desgrenhado.

Gostaria de jogar meu cérebro fora, ou pelo menos dar a ele um pouco de férias. Impressionante que nem durante o sono ele para, mas se ele para, estaremos mortos. Mas o problema mesmo é essa mania de querer respostas para tudo, de querer analisar tudo, de querer julgar tudo, comentar tudo. Meu Deus, que coisa mais chata!

Nascemos livres ou nascemos escravos, não importa onde quer que nasçamos: ou nos adequamos à ordem econômica e à ordem social dos padrões de sucesso, ou estaremos condenados à passar fome e a sermos isolados. É uma realidade difícil de escapar, pois o mundo sempre funcionou assim.

Nascemos para morrer. A religião educa as pessoas para o dia de suas mortes, e a vida na terra se torna apenas um curso extensivo para o vestibular do céu. E a vida passa para aqueles alienados a se culpabilizar por seus pecados. Mas há também a religião do sucesso pois, para sermos felizes, precisamos acumular bens materiais, trabalhar duro para conquistar riqueza, impressionar aos outros e assim, preenchermos vazios.

A vida é curta. Demasiado curta. Deveríamos amar mais e viver mais. Mas nesta, vamos trabalhar duro pois a nossa aposentadoria, de fato, será na nossa morte. Temos tempo. Quem sabe na próxima encarnação nós possamos amar aqueles que hoje odiamos ou desprezamos, nesta vida eles devem sofrer porque nossos egos estão feridos. Quem sabe na próxima encarnação nós estejamos livre desta ordem idiota de necessidade de salvação e de sucesso. Quem sabe na próxima encarnação nossos corações estejam limpos das mágoas de hoje e assim, estaremos livres para amar.

domingo, 23 de setembro de 2012

Durkheim sabia

Havia sido enviado ao inferno em Terra, mas não sabia exatamente como havia parado lá. Tudo estava errado, tudo dava errado. Seu emprego era uma bosta e mesmo que fosse muito talentoso e criativo, era sempre visto como preguiçoso e oportunista. Sentia que não tinha amigos porque ninguém demonstrava muita simpatia por ele. Eram todos interesseiros que apenas lembravam dele nos momentos de extrema tristeza e, depois que se sentiam melhores, fugiam dele como o diabo foge da cruz.

Era como se ele estivesse sendo excluído de todo o processo. Ele engoliu muitas coisas, procurou abstrair as mágoas, mas o silêncio polido apenas o corroía, o ódio o corroía. Chorava de raiva. Sentia muito ódio reprimido. Por que diabos ele se aprisionada em uma vida que não era a dele? Por que recebia indiferença quando dava amor? Por que via todo mundo amando viver naquele baile de máscaras, naquele teatro de roteiro previsível? Ele não conseguia enganar a si mesmo. Ele estava sempre fora do processo e esse isolamento o matava a cada dia, a cada hora, a cada segundo.

Decidiu então aceitar o mundo lúgubre onde vivia, apesar de querer desesperadamente sair dele. Ele apenas queria ser mais um, queria ser mais um alienado, que fosse, queria apenas não mais sentir-se rejeitado como sempre fora. Mas descobriu que não encontrava a plenitude nem mesmo se lançando espontaneamente no fogo do inferno. Que droga! É como se a merdidão de sua vida fosse uma espécie de reality show de humor negro, onde ele estava lá para ser o motivo de riso das pessoas normais e felizes.

Achou que era a hora de dar um basta. Que estava sendo demasiadamente altruísta em seguir os valores falidos de justiça de uma sociedade que excluía. Por que ser bom com aqueles que só o desprezavam? Por que sorrir para as pessoas que lhe mostravam o dedo médio? Por que contar até 10 quando era xingado em seu trabalho por seu chefe que estudou só até a 4ª série? Por que era tão bonzinho e correto? Por que não revidava?

Então ele explodiu. Resolveu destruir a sua vida de vez, fazer por merecer toda a repulsa que sempre sentira. Iria canalizar o seu ódio, iria finalmente ser ele mesmo, ser aquela pessoa louca e perigosa que o rotulavam em palavras nunca enunciadas. Iria para o inferno, mas não iria sozinho.

Roubou uma metralhadora de um trombadinha de 14 anos que foi esfaqueado previamente. Adentrou no shopping center mais chique da cidade portando suas melhores roupas. Comprou uma entrada para assistir uma adaptação de um conto de fadas da Disney. Entrou na sala de cinema lotada e a metralhadora foi acionada. Miolos voaram para tudo quando é canto e seus olhos brilhavam pela primeira vez na vida. Havia nascido para matar. Sentia prazer naquilo. Todos iriam pagar com a vida pela dor que ele sentira durante todos aqueles anos. A sala virara uma piscina de sangue e quando o príncipe beijou a Bela Adormecida, ele tirou a própria vida com um tiro na boca.

Um bilhete foi encontrado em seu bolso horas depois e divulgado para a mídia necromaníaca. Ele havia pedido perdão para as famílias das vítimas, mas havia recebido uma missão divina. Necromaníacos exigiam a pena de morte no Brasil, mesmo que o assassino em série tivesse cometido suicídio. Uma missa foi rezada para ele. Seus colegas de trabalho estavam perplexos com o tal comportamento: “ele era uma pessoa tão calma”, diziam. Mas a sociedade podre não foi capaz de analisar o que aconteceu. Era a mesma sociedade que fingia pesar e horror pela chacina, mas que fuçava na internet pelas fotos das vítimas todas despedaçadas porque isso dava a elas prazer sádico. Não perceberam que eram todos homicidas. Não sabiam quem havia sido Durkheim...

domingo, 16 de setembro de 2012

A raiva nunca morre

A vida não é fácil. A vida não é justa. A felicidade não é algo inalcançável, mas ela não cai do céu: você tem que fazer por onde, você tem que lutar para isso.

Felicidade é algo que todos buscam. Quem seria louco de ansiar pela infelicidade senão o louco? Mas o que é a felicidade? Poucos sabem, poucos entendem a respeito porque muitos pensam que o conceito de felicidade é universal quando, na verdade, ele é subjetivo.

A sociedade de performance procura padronizar este conceito e aqueles que vivem na minoridade constantemente se frustram pelo constante sentimento de infelicidade e vazio. Neste caso, a felicidade não está no presente, mas ou no futuro, repousando na esperança de que as coisas vão melhorar um dia, ou no passado, uma época de lembranças agradáveis. Este amor Eros à performance cega e o indivíduo fica incapacitado de questionar certas coisas sobre si e o mundo e, consequentemente, de compreender a miséria da qual tanto reclama.

A preguiça e a covardia são coisas tão difíceis de lutar contra... romper a bolha e sair de sua zona de conforto é tão difícil... “é tão cômodo ser menor”, diria Kant... é tão difícil ter atitude para procurar mudar: mudar a si, mudar a própria realidade. É tão mais fácil amaldiçoar e invejar. É tão mais fácil procurar menosprezar as conquistas dos outros para que o miserável de espírito sinta-se menos pior toda vez que se permite molestar pela felicidade alheia...

Para ser feliz, ou pelo menos sentir-se feliz sem precisar apelar para meios artificiais como drogas e remédios antidepressivos, o indivíduo deve, primeiro, ter a humildade de reconhecer os próprios defeitos e fragilidades. Isto não é abraçar a derrota ou ser ridículo. Ridículo é pensar que se está sendo ridículo ao confessar a si os próprios medos que podem soar bobos e infantis, mais ridículo ainda é ter uma visão romântica da vida achando que a felicidade repousa numa vida hollywoodiana incrível ou que ela é, necessariamente, o padrão da sociedade de performance.

A vida não é fácil. A vida não é justa. A felicidade não é algo inalcançável, mas ela não cai do céu: você tem que fazer por onde, você tem que lutar para isso. Inclui certos sacrifícios e o caminho para a felicidade pode ser, ironicamente, tortuoso no início. Sair da zona de conforto nunca é fácil, largar a mão do tutor e caminhar por um caminho pelo breu total é um pouco desesperador, mas se você quer ser livre, ouse romper com a minoridade! Você precisa ao menos tentar. Cair, chorar e ficar eternamente sequelado, traumatizado com a dor nunca vai ajudar ninguém a chegar a lugar algum, exceto talvez se houver uma apelação ao emocional e à pena, o que não é nem um pouco virtuoso, pelo contrário, é patético, é orgulhar-se da própria covardia.

Projetar os próprios defeitos nos outros usando-os como arma e escudo pode até ser inteligente em um primeiro momento, mas quem é que realmente perde com isso? Você pode tentar ferir uma pessoa, mas se ela tiver o mínimo de maturidade e amor-próprio, ela não vai se deixar abalar pelas palavras de alguém que parece sentir um prazer doentio pelo próprio sofrimento e em remoer ódios. Ela não está nem aí, ela está fazendo o que a criança rancorosa sempre quis fazer mas nunca teve coragem para tal: ela está sendo feliz, ela está vivendo! Por isso o sentimento de inveja e menosprezo pelo êxito alheio.

Ninguém gosta deste tipo de gente negativa. Ninguém gosta de gente que vive reclamando todo santo dia das mesmas coisas, projetando a razão de sua infelicidade nas outras. Ninguém gosta de gente que vive na defensiva pronta para dar coices e que recusa ajuda e recusa-se a se ajudar. Ninguém gosta de gente sequelada pelo primeiro e único tombo que acha que nada nem ninguém presta. Que o mundo é mau, que as pessoas lhe invejam, que o mundo é ignorante e que ela é apenas uma pessoa que, como não nasceu em berço de ouro, está fadada a ser um talento nunca reconhecido. Depois ela não entende porque o mundo lhe dá as costas e mesmo assim, graças a sua arrogância, ela acha que é o mundo que é errado e injusto, mas ela nunca é capaz de reconhecer que o problema é ela. Ela não permite que ninguém goste dela e vive desconfiada de que, a qualquer momento, poderá levar uma rasteira. É tão mais prático projetar este defeito nos outros e ironizar... Isto é ser feliz?

Bom, a felicidade é subjetiva. Se um indivíduo é feliz remoendo ódios, bom para ele, embora isto seja muito duvidoso Para ser feliz, não é preciso ter tudo o que a sociedade de performance nos impõe a ter e a ser, o que não significa também que é refutar tudo o que ela diz. O mais importante é estar bem consigo mesmo, fazendo as coisas que gosta, rodeado de pessoas que vem para somar e não diminuir e te diminuir, sentido-se bizarramente felizes ao tentarem puxar você para o fundo do poço onde elas espontaneamente decidiram viver.



Referências
FERRY, Luc. O que é uma vida bem sucedida? Rio de Janeiro: DIFEL, 2004. p. 9-40
KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: O que é o Esclarecimento? Königsberg: Revista Büsching, 13 de setembro de 1784.
COMTE-SPONVILLE, André. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Cap. 18.

domingo, 2 de setembro de 2012

Às vezes eu sinto muita raiva de você

Olhe para nós, micro crianças com ambos os corações bloqueados.

Às vezes eu sinto muita raiva de você. Você consegue impactar no meu humor, geralmente para pior. E então eu sinto muita raiva de mim mesmo e a raiva que eu sinto por você dobra porque eu me sinto extremamente ridículo.

Ridículo porque percebo que sou um mero fantoche de Eros, que o meu sistema límbico é defeituoso. Continuo repetindo os mesmos erros infantis, sendo escravo dos meus desejos egoístas, deixando-me abalar por um pessoa que está simplesmente cagando pra mim! Parece que eu nunca desenvolvo os anticorpos necessários para parar de me encantar por aqueles que pisam em mim, mas não, sou um masoquista acidental.

Odeio-me por ser, muitas vezes, extremamente leniente e insistir em pensar que todo mundo é bom, que algumas pessoas simplesmente tem um gênio difícil de lidar mas que, no fundo, são adoráveis. Chega até a soar como arrogância de minha parte achar serei eu a pessoa que irá mudar tudo, que irá transformar o pitbull violento em um gracioso poodle rosado.

Mas tudo bem. Nunca tive talento para fingir ser uma pessoa que não sou, nunca tive talento para fingir possuir as virtudes que eu gostaria de dominar. Agora encontro-me nesta posição embaraçosa de não saber como proceder e ter que ficar policiando a maneira como demonstro meu afeto. Se eu for gentil, você arrogantemente pode interpretar isto como uma demonstração de que estou morrendo de amores por você. Se eu controlar minhas palavras, sentirei como se eu estivesse me sufocando com um travesseiro no rosto. E quem me dera que a tática do afeto mensurado fosse absoluta e óbvia. Corro o risco de me torturar e acabar vendo você namorando outra pessoa no final.

Custa-me admitir que, embora haja algum traço de possibilidade de as coisas terem algum futuro, essa possibilidade é remota. Se você realmente gostasse de mim, teria sido mais receptivo aos meus elogios ao invés de sempre me jogar um balde de água fria. Se você realmente gostasse de mim, não tentaria a todo instante, procurar exibir-se como uma pessoa mais inteligente e entendida sobre a vida em relação a mim. Você parece constantemente querer me inferiorizar.

Das poucas vezes que você foi gentil, talvez tivesse sido por fragilidade e eu era o trouxa do momento que iria lhe ouvir sem te criticar pelo prazer de criticar. Ou porque as opções eram escassas. Ou porque você tivesse enxergado algo bom em mim, até cair em si e me enxergar apenas como mais um figurante da sua vida. Alguma vez você me deu alguma chance? Alguma vez você tentou enxergar algo de especial em mim?

Não! Parece que eu sempre serei alguém que você não descarta de vez porque para você, eu não faço a menor diferença. Eu não consigo enxergar muito de você porque você cria barreiras ao seu redor, como se eu fosse inapto a transpô-las. Eu gostaria de conhecer você melhor, mas você não me permite. Neste momento, queria uma certeza de que você realmente é um babaca. Talvez assim eu possa sentir raiva por você em paz e me sinta melhor comigo mesmo.

domingo, 26 de agosto de 2012

Luz e trevas

É bastante comum fazer comparações entre o presente e o passado. Ao mesmo tempo que tivemos avanços na medicina, na tecnologia e na conquista de maior respeito por grupos minoritários ou historicamente reprimidos (mulheres, homossexuais, negros, portadores de deficiência), a sociedade parece que não evoluiu muito na forma de pensar. O pensamento crítico, que não é muito complexo uma vez que se enxergue os pontos positivos e negativos de qualquer coisa, parece ser mais um “dom” do que uma habilidade que pode ser desenvolvida desde a infância.

Talvez o excesso de informação gerada pela mídia televisiva e pela internet atrofiou nosso cérebro ou perdemos o foco do que vale a pena aproveitar. Para absorver tudo, incluindo o útil é inútil, obras literárias foram ruminadas para aqueles que têm preguiça de pensar. Além disso, os “formadores de opinião” continuam existindo. Ao invés de darem voz àqueles que possuem conhecimento de causa (professores, especialistas, pesquisadores), muitos se baseiam na opinião de jornalistas tendenciosos ou sensacionalistas e de celebridades controversas, interessados apenas na manutenção do status quo.

Progredimos aqui... retrocedemos lá... É como se andássemos em uma esteira ergométrica: caminhamos e nos mantemos no mesmo lugar mas, se pararmos, caímos para trás. Podemos comparar a sociedade ao longo dos anos como a água em seus diferentes estados físicos: água, vapor, gelo... Ao mesmo tempo que ela muda de forma, não muda de essência: continua sendo água, a mesma água de sempre. Ao mesmo tempo que a sociedade mudou nos últimos anos, décadas, séculos, ela parece ter se mantido na mesma. O senso crítico é uma habilidade desenvolvida por poucos, enquanto a sociedade ainda venera a fama, o dinheiro, o poder.

O problema dessa falta de bom senso é que tudo parece se dividir entre o “certo” e o “errado”. Sempre existe esta dualidade, como se duas coisas, aparentemente antagônicas, não pudessem coexistir, ou então, que não existe uma terceira, quarta, quinta via. Vemos muito disso em qualquer comentário em um vídeo no YouTube, em qualquer reportagem de um site de notícias, nas conversas entre as pessoas nos lugares que frequentam. Para um grupo de pessoas, ter humildade de dizer que não sabe sobre determinado assunto soa como um “atestado de falta de cultura”. Para não ficar de fora do grupo dos “antenados”, alguns se convertem ao clichezismo. Entre eles, há uma necessidade desesperada em querer aparecer: se a pessoa não é nem bonita e nem gostosa, muito menos agradável, ela tende a se converter ao clichezismo para poder soar inteligente e querer passar a imagem de uma pessoa culta e de personalidade forte.

Acaba então, existindo uma visão generalizada de tudo e com dois opostos, além de acabarem estimulando a ignorância e o reforço dos mais diversos tipos de preconceito. Ao falar sobre as coisas do Brasil, temos os ufanistas (em menor número) que amam o seu país cegamente e os pessimistas que acham que nada que se faça no Brasil presta ou é possível de dar certo. Na política, ainda há aquela contenda infantil entre petistas e tucanos, que procuram defender seus amados partidos políticos falando de mensalão para não falar de Cachoeira e de Cachoeira para não falar de mensalão (como se corrupção estivesse restrita a um determinado grupo político). Quando se fala de religião, os fervorosos infestam instituições públicas com crucifixos, defendem o moralismo para poder embasarem os seus preconceitos. Os ateus são tão fanáticos quanto ao procurarem atacar as religiões como forma de revide. Enquanto alguns são pessoas corretas e sinceras, outras são falsas e manipuladoras, etc. Estes são apenas alguns exemplos desse pensamento clichê e imaturo, como se todas as coisas fossem óbvias e simples de serem compreendidas e com fórmulas prontas para resolvê-las.

Por isso é desanimador estarmos em 2012, em pleno século XXI, uma era que costumava ser imaginada como aquela que o homem iria parar com as guerras e pensar no bem-comum, e notarmos que a sociedade pouco mudou em sua essência. Muitos ainda continuam agindo de maneira egoísta e irresponsável: o dinheiro é nosso deus moderno, um recurso básico e finito (a água) ainda é desperdiçada, o consumismo continua firme e forte destruindo os recursos naturais para que algumas pessoas possam se sentir melhores por possuírem coisas que as outras não são capazes de comprar, muita gente continua morrendo no trânsito por causa de bebida e por aí afora. É desanimador constatar que com tanta informação disponível para quem quiser acessá-la, o clichezismo venha ganhando força e desestimulando o pensamento crítico, sem que isto signifique ser rude ou alienado a uma visão bitolada de que tudo precisa ser ou luz ou trevas.

domingo, 19 de agosto de 2012

Uma vida incrível

Estamos submetidos à vários tipos de ditaduras em nossa sociedade. Muitas são impostas de maneira sutil, mas muito presente. Não há ninguém colocando uma arma em nossas cabeças nos obrigado a fazer uma determinada coisa. É a sociedade, é a cultura quem nos põe esta arma invisível na cabeça. Mas a mão que efetua o disparo nunca é a deles e sim, a nossa. A escolha é nossa.

Uma das ditaduras é a da felicidade. Não que a felicidade seja algo ruim, óbvio que não é, mas acontece que não dá para conceituá-la. O que faz alguém feliz, pode fazer outro infeliz. A ditadura da felicidade não leva isto em consideração e estabelece um padrão. E este padrão parece ser acessível apenas àqueles que tem dinheiro – muito dinheiro.

Felicidade é possuir uma casa grande e confortável, um carro importado, poder viajar ao exterior, ter uma pele bonita, ter um cabelo bonito, ter um corpo bonito, ter um bom emprego, poder frequentar as melhores festas e comer do bom e do melhor. Fama, poder e dinheiro: se você possui os três, você seria feliz de acordo com a ditadura.

Mas sabemos que os ricos também choram. De que adianta ter estas coisas se você não têm amigos, já que as pessoas se aproximam de você por interesse? É possível ser feliz vivendo como um prisioneiro escoltado por seguranças e vivendo em uma prisão de luxo? Enfim, pouca gente se dá conta desta ditadura. Pouca gente pensa de maneira crítica, adulta e sensata. Muitos preferem viver na confortável bolha da ignorância, felizes com suas verdades e filosofias de vida carpedienzistas.

Para ser feliz, você precisa pensar grande, ter grandes sonhos. A felicidade, então, fica atrelada a coisas que muitas vezes são irreais e inacessíveis para muita gente. Na busca por este sonho, as pessoas vivem o futuro e esquecem o presente. E na busca por coisas “maiores e melhores”, as coisas menores passam a ser ignoradas.

Não adianta seguir esta ditadura da felicidade, é preciso ostentá-la. Agindo assim, estaremos contribuindo para que as armas continuem apontadas para a cabeça das pessoas, perpetuando o ciclo. Precisamos afirmar e reafirmar para nós mesmos e para os outros que esta ditadura da felicidade traz felicidade. Quem está de fora, é tratado como infeliz e levado a acreditar que é realmente infeliz, passando a questionar a sua auto-estima.

Para sermos felizes, devemos ter uma vida incrível. Deveríamos nos envergonhar de fazer coisas simples e banais, especialmente de falar sobre elas. Devemos ter horror ao trivial, à rotina. E devemos, é claro, praticar o exercício da auto-afirmação. Tudo tem que ser grandioso, do contrário, é desprezível e merecedor de adjetivos de depreciação cuidadosamente escolhidos, pois é preciso destruir a auto-estima das pessoas para que nos sintamos melhores com nós mesmos.

Mas a verdade é que quase ninguém vive uma vida hollywoodiana. Quase ninguém vive a vida tão intensivamente assim que causaria comentários de inveja (boa): “Nossa! Que Carpe Diem bem seguido!” Somos levados a tratar as celebridades como deuses e a acreditar piamente que dinheiro traz todas aquelas coisas materiais, que traz fama, que traz sucesso, que traz amor e traz felicidade. Deveríamos nos envergonhar de nossa vida simples, ridícula e banal. E nessa busca cega por uma felicidade idealizada, deixamos a vida passar porque sempre estivemos vivendo o futuro, mas nunca o presente.

domingo, 8 de julho de 2012

A controvérsia do carpedienzismo


Se alguém seguia a filosofia de vida do “carpe diem” antes de o termo virar a filosofia de vida (verbal) dos clichezistas, provavelmente não deve ter gostado da ridicularização do termo. Tal como as pessoas que realmente leram Clarice, Nietzsche, Freud e compreenderam e não saíram por aí metralhando frases a torto e a direito, seja na Revista Caras virtual, seja na vida real mesmo. O “carpe diem” já é a filosofia de vida positivista dos clichezistas. Clarice é o livro de cabeceira dos românticos, Caio Fernando Abreu dos depressivos e Nietzsche dos intelectuais.

Clichezistas não pensam. O “carpe diem” e o pensamento dos escritores foram distorcidos, fatalmente. O pensamento ingênuo de que o mundo se divide em “bem” e “mal” ganhou mais força e, é claro, que muitos estão do lado do bem porque temem as dores do inferno.

A filosofia carpedienzista dos clichezistas é uma utopia, e por ser uma utopia, cedo ou tarde seus seguidores farão coisas que vão contra o que ela prega. O carpedienzista é aquela pessoa forçadamente positiva que enxerga o mundo com os olhos de Pollyana. É o ideal de ser humano moralmente perfeito: são pessoas educadas, amam os animais, ajudam os pobres, comovem-se com a fome na África, não falam palavrão, não bebem, não fumam, não escutam “baixarias”, não fazem piadas, não soltam gases, perdoam e não guardam mágoas, são sinceros, não sentem inveja, respeitam todas as pessoas independentemente da raça, cor, credo ou orientação sexual, etc.

Talvez esta pessoa seja a Maria do Bairro ou alguma Helena da novela do Manoel Carlos. Sabemos que pessoas assim não existem, mas mesmo assim, os clichezistas pensam e esperam que as pessoas sejam assim já que “eles são assim”.

Apesar de pregarem e procurarem seguir o carpedienzismo como filosofia de vida, eles acabam agindo de maneira contraditória quando alguém “pisa no calo deles”. É aí que eles relevam o seu lado “mau”, ou “justo” como eles preferem se justificar.

As frases acima ilustram um pouco desta dualidade do bem e do mal do clichezista. Onde está o perdão e todo o amor daquele ser humano imaculado carpedienzista?

Os clichezistas são pessoas agressivas e inflamáveis. Ao mesmo tempo que eles “são puro amor”, estão sempre com uma frase de efeito rude para ofender ao menor sinal de ameaça. Com a popularização da internet, não é raro se deparar com fóruns que terminem em barraco. Estas contendas geralmente envolvem os clichezistas durante o seu “repente de clichês”. Os clichezistas sentem a necessidade de vencer todas as suas argumentações, especialmente as mais irrelevantes e fúteis. É a guerra de egos. E uma guerra segura pois o clichezista “troll” está atrás de uma tela de computador e é covarde demais para se envolver em uma contenda offline.

“Sinceridade” virou sinônimo de grosseria. Todos os clichezistas são “sinceros”. Inveja é um sentimento que todos sentem pelo clichezista, por mais fracassado que ele seja na vida real. Todos usam máscaras e todos são falsos. O clichezista é um coitado, uma vítima de bullying e ele não é revoltado porque quer, mas porque “o mundo o fez assim”.

Os clichezistas carpedienzistas se magoam e se ofendem facilmente com a maldade do mundo. Os mais fervorosos procuram conter a raiva e as lágrimas diante das injustiças do mundo; “porque grandes garotas não choram”. Aqueles que sabem que Deus é justo rezam pedindo para que Ele tenha piedade na hora de castigá-los. Os mais polidos ofendem de maneira refinada, com sarcasmos e ironias puídas. Os mais toscos xingam. Não é a toa que eles estão sempre na defensiva, prontos para atacar ao menor sinal de ameaça.

O carpedienzimo clichezista é muito bonito, mas é uma utopia. O carpedienzismo real é uma contradição: são clichezistas pregando o amor desde que sejam amados, do contrário, pregarão o ódio e a intolerância. É o refúgio dos complexados ingênuos e egocentristas que acham que o mundo é como uma novela onde eles são os mocinhos cercados de “vilões com inveja do seu sucesso”, mas não importa, “seu sucesso faz a minha fama”, “bem ou mal, mas falem de mim”. E isto tudo é muito clichê, mas eles são clichezistas. E clichezistas não pensam.

domingo, 1 de julho de 2012

Ruminação não-intencional

Em uma época em que prevalecem as frases de efeito, pensar não está na moda.

É característica de todo clichezista o uso de frases de efeito e citações para qualquer situação da vida. Qualquer situação. Isto pode ser melhor observado na internet, seja nos comentários de um site de notícias, num comentário de um vídeo no YouTube, ou seja na universidade virtual do clichezismo, o Facebook.

A necessidade de sentir-se incluído nesta ordem talvez seja explicada pela necessidade de autoafirmação somada a um sentimento de inferioridade aos clichezistas, que conseguem passar a imagem de que são pessoas cultas, de personalidade forte e de opinião. Os clichezistas apenas conseguem impressionar dois tipos de pessoas: os obtusos e eles próprios quando o risco de perder uma argumentação é iminente. Perder uma argumentação é humilhante, eles precisam vencer todas, eles precisam ter sempre a última palavra, sempre. E são argumentações onde não há nenhum tema inteligente em discussão, até mesmo porque temas que pareçam inteligentes se resumem a um “repente de clichês”, ou seja, é chover no molhado e uma nítida guerra de egos.

O problema do clichezismo vai muito além da dificuldade de ter uma conversa que não seja o tal “repente de clichês” ou conversar com um “clichê player” que vai levar a conversa a rumos previsíveis. Ele reflete a falta de senso crítico do indivíduo e o seu analfabetismo funcional. O clichezista não pensa, não reflete, não contesta as verdades absolutas de certas frases. Os clichês são usados como argumentos “cala-boquistas” e a sua má-interpretação faz com que o clichezista reproduza certas frases em momentos absurdos, mostrando que ele não tem a mínima ideia do que está falando e de que não é capaz de falar por si.

Se todos os livros de filosofia e psicologia do mundo fossem queimados, juntamente com todas as suas reproduções digitais, os clichezistas entrariam em colapso. De quem iriam copiar as frases e pensamentos? Será que eles ficariam quietos por não terem mais munição? Será que ocorreria um processo de seleção natural onde só nos não-clichezistas sobreviveriam e os clichezistas se veriam obrigados a abandonar o clichezismo tendo que, finalmente, pensar por contra própria?

Os grandes filósofos e escritores literários precisaram pensar muito, observar, refletir para daí sim, poderem escrever suas obras que se tornariam leitura obrigatória dos universitários. Eles não subestimaram o senso comum e tiraram um proveito útil de todo o conhecimento que acumularam ao longo dos anos. Os grandes pensadores não pretendiam tornar-se “ruminantes”, que mastigam o conhecimento, engolem, mastigam de novo até que ele esteja ali, compactado em uma frase de efeito.

Talvez o analfabetismo funcional promova o clichezismo, talvez o clichezismo promova o analfabetismo funcional. Talvez os dois se promovam mutualmente. As tais obras dos filósofos e escritores literários são um convite à reflexão, à expansão os horizontes mas para que elas possam ser entendidas em sua essência, é necessário existir uma vontade em entendê-la. Elas nos poupam de começar do zero pois não podemos compreender o mundo achando também que a vida se resume ao nosso universo particular, além de serem leitura complementar para quem quer chegar o mais próximo da realidade do que está sendo estudado.

O clichezismo prega a superficialidade do conhecimento. De que adianta citar um pensamento de Freud, Nietzsche, Clarice Lispector ou qualquer outro grande nome da filosofia e da literatura se não se compreende o que elas querem dizer? De que adianta ler um livro inteiro se o analfabetismo funcional e o apego ao clichezismo limitam sua compreensão? Ler não é sinônimo de compreender. Antes de tudo, é preciso viver a situação para compreendê-la e para ser crítico e ter algum embasamento confiável.

Os clichezistas se iludem com números e afirmações de pessoas que se julgam mais inteligentes quando, na verdade, não passam de clichezistas intelectualóides. A partir do momento que o indivíduo passar a não desprezar o seu senso comum, desenvolver um senso-crítico independente de paixões e munido de um pouco de bom-senso, e não ver a autocrítica como um “atestado da falta de autoconfiança” (afinal de contas, não somos seres humanos perfeitos nem mesmo quando nos policiamos ao máximo para sermos), passaremos a compreender o por que de o clichezismo ser uma ordem ruim. O clichezismo limita, repreende o pensamento livre e independente, é agressivo e ofensivo por causa da postura defensiva, e prende o indivíduo em um universo de falácias e utopias, perpetuando a ignorância.

domingo, 24 de junho de 2012

A ordem clichezista


O que seria dos clichezistas se todos os livros de filosofia e psicologia do mundo fossem queimados? De quem iriam copiar frases de efeito?

Ultimamente não está sendo fácil ter uma conversa com qualquer pessoa não muito íntima além das formalidades. Não necessariamente porque elas não tenham conteúdo e sejam alienadas e manipuláveis, mas mais pela previsibilidade das respostas e de uma postura arrogante e inflexível. De uns tempos para cá, o fenômeno do clichezismo vem tomando força, especialmente na internet, o que não quer dizer que fora da internet a coisa seja muito diferente.

Podemos começar falando de bullying. O que é bullying? Até pouco tempo este termo era desconhecido para muita gente, embora qualquer um que já tenha visto um filme ou uma série de TV estadunidense ao menos uma vez na vida, tenha visto uma cena de uma criança ou adolescente fisicamente mais forte e rodeado de capangas, agredir e ridicularizar um outro mais fraco e mais recluso. Era agressão física e humilhação pública: somente isso. Mas estávamos errados, porque bullying é qualquer coisa que desagrade ou ofenda e que possa dificultar o convívio social da vítima mas... será que a vida, especialmente a adulta, é repleta de pessoas preocupadas em não magoar os sentimentos dos outros?

A ordem clichezista também está presente fortemente na política. Falar sobre política no Brasil ainda gera muito desgosto em muita gente, mas dos poucos que falam, muitos dificilmente não conseguem fazê-la sem pender para paixões irrefreadas e clichês. Existe uma verdadeira guerra entre militantes de esquerda e direita. Denúncias de corrupção são comuns e feitas para denegrir a imagem do rival político e fazer demagogias. E como parece ser impossível existir jornalismo sério e imparcial neste país, boicotes e críticas à programas de TV e novelas tendenciosas são sugeridos, além de que até os números 13 e 45 são tão horríveis quanto a suástica nazista.

O politicamente correto é um dos marcos da ordem clichezista. Termos que eram utilizados por décadas foram substituídos por outros com nomes mais complexos e pomposos. Era bullying. Grupos historicamente reprimidos como mulheres, negros e homossexuais vem, finalmente, conquistando um pouco mais de respeito nos últimos anos porém, parece que este respeito é imposto pelas cotas e pela psicologia da culpa. Se um homossexual diz ter orgulho de ser gay, palmas para ele, superou o preconceito. Se um heterossexual diz ter orgulho de ser heterossexual, joguem pedras neste evangélico homofóbico. Se um negro veste uma camisa 100% negro, palmas para ele, superou o preconceito. Se um branco diz ter orgulho de sua cor ou de sua descendência europeia, joguem pedras neste racista nazista.

Há uma tendência, uma ditadura sutil que prega a homogeneização das filosofias e das ideologias. Todos sabemos que não existe a perfeição, mas o erro não é bem aceito. O pensamento livre e a opinião própria são estimulados... Em tese, porque na prática, se você levanta uma opinião contrária a da ordem clichezista, eles respondem com agressão. Os mais toscos xingam. Os mais estudados, especialmente os “intelectuais”, deliciam-se ao ridicularizar com sarcasmo e, para estes, não basta ser pedante: tem que ser prolixo. Pasquales corrigem sua ortografia e pontuação de acordo com a norma culta. Advérbios devem estar de acordo com pesquisas e estudos. Os clichezistas do IBGE querem números: “maioria, minoria, muitos, poucos: quem são? Quero números!”

Reveja seus valores, os clichezistas contestadores antirreligiosos querem ridicularizar a sua fé e repudiar qualquer coisa que tenha base religiosa: “por que a promiscuidade é ruim, por que o estupro é ruim, por que fazer sexo em praça pública é ruim, por que ser hipócrita é ruim? Não sabe responder? Cadê seu Deus agora?”

E o clichezismo do Facebook não apenas recicla clichês clássicos, como também reafirma o óbvio e vende utopias de um mundo onde todos são imaculados, perfeitos, sábios e cheios de causas para nos descabelarmos. É óbvio que todo ser humano perfeito do Facebook respeita os idosos, as mulheres, os gays, os negros, as crianças, a natureza, os animais, Deus e todas as religiões. “É um absurdo um jogador de futebol ganhar milhões pra chutar uma bola e a corrupção, e a violência, e a fome na África, e a educação, e a saúde? Eu quero tchu, eu quero tcha, eu quero reclamar da música popular que faz sucesso enquanto o mundo está morrendo. Que imagem o Brasil vai ter lá fora, meus Deus, a Valesca tem uma música que diz 'pega no meu grelo e mama', meus Deus, acorda para a corrupção, Brasil, por isso esse país não vai para frente, só quer assistir o BBB”...

Graças a ordem clichezista, as pessoas sentem a necessidade de se converter, de aderir ao movimento para se sentirem incluídos por um grupo que eles tanto detestam. Não se pode ser uma metamorfose ambulante, suas opiniões devem ser iguais as dos clichezistas porque ela é a politicamente correta e absoluta. Tenha uma opinião sobre tudo, tudo! E como isto é impossível, adote o clichezismo. Tenha uma frase pronta e decorada para qualquer situação da vida, curta uma página de humor inteligente no Facebook. Leia duas horas de sinopses no site da livraria e tenha discussões ganhas pelo resto do mês. Os clichezistas se contentam com argumentos e ideias superficiais porque o conhecimento deles também é superficial. Não é preciso captar a essência dos livros, muito menos lê-los, pois frases de efeito e os escritores pensaram e se expressaram por você. Com o clichezismo, você pode disfarçar a sua necessidade de autoafirmação através de frases com filosofias mastigadas. Não precisa pensar. Apenas vista a camisa.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Nostalgia dlç

Vai e vem como as ondas do mar, sobe e desce como as ações da bolsa de valores. Há dias onde tudo vai bem, outros onde nada vai bem, há dias de apatia, dias de revolta diante de coisas pequenas, noites de solidão e desesperança, e noites onde a alegria se recicla.

Cada pessoa vive o seu universo particular da maneira que mais lhe for conveniente. Apesar da tentativa de uniformização das ideologias e do estilo de vida, as pessoas ainda têm liberdade para imaginar. As memórias, embora possam parecer sem valor para algumas pessoas próximas ou distantes, são individuais, únicas, intransferíveis.

E não somente o que você viveu, como também o que você pensa e sente. As pessoas podem até tentar imaginar o que você sente quando compartilha algumas dessas emoções e memórias, mas elas nunca chegarão perto. Primeiro, porque elas não viveram a sua sensação; segundo, onde você enxerga magia, elas podem enxergar algo comum; terceiro, você não têm como saber devido a impenetrabilidade das almas.

Mas chegar perto é meio caminho andado. Identificar-se em partes também. É como sentir um perfume que pode agradar a você por trazer boas lembranças enquanto dá dor de cabeça à outra. Ou entender a profundidade de uma pintura enquanto um outro indivíduo enxerga apenas rabiscos. E pode ser apenas rabiscos, talvez o pintor estivesse tão de saco cheio pelo trabalho não reconhecido que resolveu rabiscar porque isso é art noveau – ou foi ou quiçá um dia será. O admirador da arte interpreta o mundo de acordo com a janela de seus olhos, não como lhe dizem para interpretá-lo. As pessoas dão um valor e um significado próprio as coisas. Impor é inútil. Contestar também. Então nesses casos é melhor artificializar expressões e reações.

A música... ah, a música. Capaz de promover um espetáculo de sinestesia e despertar memórias e sensações de anos e décadas atrás. É ouvir Crying In The Rain e lembrar-se de um amanhecer frio, as luzes do poste ainda acesas e todos dormindo em um colchão no chão da sala. É ouvir She Drives Me Crazy e isso remeter a vez que você pulou na barriga do seu irmão mais novo. É ouvir Total Eclipse of the Heart e lembrar que nesse momento as pessoas matutas da sua rua ficavam impressionadas com um balão de São João ardendo no céu – seria um ovni?

As músicas mais velhas trazem de volta sensações boas, trazem um pouco daquela pessoa que você foi; menos experiente, mas mais pura e sonhadora. E quando se olha de volta ao passado, é como se a vida tivesse mais cores. Cores que vão desaparecendo aos poucos, até que nos reste só o preto, o branco e o cinza enquanto não nos encontramos com a morte no breu total ou durante a escuridão da indiferença. Mas não só por isso, parecia que as pessoas eram mais alegres, simples e espontâneas, diferente das desesperadas de hoje para fazer parte de uma ditadura que promete felicidade mas que só as torna mais internamente infelizes, apesar dos sorrisos amarelos e das lágrimas de vapor serem aparentemente convincentes para provar o contrário.

As músicas têm esse poder de despertar a nostalgia delícia que você quer compartilhar, mas é meio desanimador quando você o faz e o retorno é menos efusivo. Não é uma questão de antipatia, mas o que tem um peso ego-histórico para você, pode não ter para o outro, enfim. E bem, aceitemos e curtamos o rico universo da nossa imaginação, da nossa terra da liberdade. Sonhar é bom, mas seria melhor poder sonhar a dois numa noite de sábado, fria e chuvosa, ouvindo a programação delícia da Antena 1 relembrando os grandes clássicos e se empanturrando de pizza sem culpa.

domingo, 20 de maio de 2012

Areia e sangue

Sentiu o cheiro de sangue saindo pelo seu nariz, seu gosto em sua garganta. Sangue que pingava e se misturava à areia. Sentiu-se fraco, estava tonto e muito machucado, via imagens distorcidas e o zumbido nos ouvidos se misturava aos gritos de seus agressores que sentiam prazer na violência.

“Não o machuquem ou a ONU não nos dará apoio político se demonstrarmos desrespeito pelos direitos humanos” - disse o líder da oposição. Ele se virou ao homem agredido: “Não que você não mereça, mas nos interessa mais ocupar o seu lugar e restaurar a república do que vê-lo morto. Isto podemos providenciar depois”.

A Primavera Árabe chegara e o rei, que havia tomado o poder através de um golpe de estado, estava caindo. Seu pai havia sido rei, mas foi assassinado pelos revolucionários que proclamaram a república.

O reinado do rei jovem e bonitão não durou muito e ele não se sentia muito motivado para tal. Sempre achou que o amor fosse besteira afinal de contas, desde quando era um adolescente, ele podia ter as odaliscas que quisesse graças à sua beleza e poder. Ter uma companhia feminina nunca havia sido um problema e achava que nunca fosse ser. Até que ele encontrou uma e se apaixonou de verdade, intensamente. Como ela não tinha uma boa fama diante da sociedade, prometeu fugir com ela para que eles vivessem esse sentimento.

Não foi o que aconteceu. Ele ficou com medo do que estava sentindo, medo de acabar cometendo um grande erro e jogar tudo o que tinha para o alto. Procurou convencer-se de que ela havia sido apenas uma paixão do interminável verão e resolveu dispensá-la. Ele seria rei e precisava de uma primeira-dama à altura.

Veio o golpe de estado, o casamento com uma atriz internacional, o poder mas... não veio a felicidade. Ele voltou a ser o que era antes de conhecer aquela mulher, mas não era a mesma coisa. Ele enxergava um novo mundo, mais amplo, mas via isso como uma maldição porque ele não era mais o mesmo de antes, sentia-se mais vulnerável e essa perda da segurança e a instabilidade psicológica preocupavam seus aliados.

Após um evento de diplomático, o rei começa a agir pior. É como se a loucura o tivesse atacado. Ele resolve se desfazer do conhecimento e entregar-se novamente à luxúria. Conduzido por choferes indianos e assistentes de palco de programas de humor machista do Leste Europeu, ele queimou livros, o conhecimento, o que sentia e foi devorado sexualmente por suas assistentes, para invejinha dos choferes. Esta espécie de sessão de autoexorcismo não deu muito certo porque o rei ficou cada vez pior, cada vez mais depressivo e autodestrutivo.

A onda da Primavera Árabe chegou ao Magreb através do Twitter e do Facebook. Era uma onda revolucionária contra a tirania e o fato de ter tomado o poder através de vias não-democráticas estimulou a oposição opulenta e desejar tomar o poder de uma forma mais aprovável aos olhos dos Estados Unidos e das Nações Unidas. O rei estava deprimido demais para reprimir qualquer manifestação contra o seu governo e assim, foi perdendo o apoio de seus aliados...

Aliados que mudaram de lado. Aliados que entregaram a sua cabeça ao grupo de revolucionários que o agrediam na frente de todos. Nada mais importava, perder o poder, perder sangue, perder a vida. Ele nunca havia se apaixonado antes tão intensamente e não havia aprendido ainda a se recuperar do amor perdido para qualquer mulher. Seu remorso era maior porque ele a dispensara. Amara Sakineh.

domingo, 13 de maio de 2012

Pensamentos ridículos

Cansei. Cansei de ser amigo, de tentar ser especial para gente que não sabe valorizar os meus gestos. De estar presente para quem quase sempre está ausente. De me sentir culpado por duvidar da amizade de alguém que me deu conselhos quando eu realmente precisava... mas sei lá, preciso de muito mais do que conselhos para horas difíceis e só.

Não me interprete mal. Não estou apaixonado, não quero estar apaixonado; esta não é a questão nem a solução. Este não é um texto para uma pessoa em especial, mas para pessoas, no plural. Preciso de presença, preciso de menos palavras e boas intenções, e mais gestos e atitudes.

Sim, me afastei. A invisibilidade não me agrada. Eu estava ali, sempre estive ali. Não é saudável mendigar a atenção e me importar com gente que simplesmente não se importa, que me trata como uma conveniência porque um dia ela pode precisar de mim ou então, porque ela se sente em dívida porque eu fui amigo dela quando isso era tudo o que ela mais precisava. Cansei de pensar em boas metáforas, belos eufemismos, ninguém lê meu blog mesmo a menos que eu force.

E bem, de que adiantaria eu vomitar e abrir o jogo, contar o que me incomoda? As pessoas não querem ou não podem ajudar, eu já conheço os clichês. E mesmo que quisessem, não poderiam ajudar, o máximo que poderiam fazer é sentirem constrangimento ou vergonha alheia e isso não ajuda. É broxante!

Não é desilusão juvenil, a encarnação de um emo ou um acesso de foreveralonismo noturno. Ou quem sabe algum problema mental, depressão ou misantropia. Talvez o problema não seja eu, mas o grupo de pessoas a minha volta com quem eu costumava me importar, me preocupar, ouvir e tentar ajudar. O ser humano é naturalmente egoísta, ele sempre quer ser retribuído por algo que julga ter feito de bom mesmo que seu superego e as regras morais da sociedade o reprimam. O ser humano é um animal que procura se autodomesticar e fugir da sua natureza. Bem, falo por mim.

Enfim, talvez eu nem devesse mesmo perder meu tempo escrevendo este texto, me prestando a este papel de parecer ridículo ou mentalmente perturbado, mas não tenho talento para fingir que não estou vendo, nem sentindo, nem me reprimindo; não por muito tempo. Acho que não tenho mais paciência para fazer os cegos enxergarem o que sempre esteve bem diante do nariz deles. Nem devia me dar ao trabalho de escrever este texto dando dicas de leitura da psicologia humana. Não falo de Freud; falo do senso comum, da sensibilidade e do tato que parece que as pessoas perderam por aí.

THE CRANBERRIES – Ridiculous Thoughts by ocaoocidental

domingo, 29 de abril de 2012

O mural da fama do Facebook

Porque na internet, você pode ser uma estrela. Porque na internet, você pode aparecer. Todos querem ser uma estrela. Todos querem chamar a atenção...

Meninos e meninas pobres nasceram e cresceram em um ambiente pobre, sem higiene, sem saúde, sem brinquedos. A televisão velha era o pequeno portal para o mundo da fantasia. Dentro dela, crianças bonitas tinham uma família feliz que era capaz de lhes dar os presentes mais caros, seus pais eram atenciosos, a cidade bonita e tinham muitos amigos que gozavam de invejável qualidade e estilo de vida. Se eu me tornar uma modelo, poderei ser rica. Se eu for jogador de futebol, poderei ser rico e pegar geral a mulherada...

Meninos e meninas mais abastados nasceram e cresceram em um ambiente confortável, limpo, saudável em uma casa abastecida com aparelhos tecnológicos sofisticados. Mas era um país pobre. Quando iam para a Disney, sentiam o ar de arrogância das crianças estadunidenses de classe média, educadas a serem xenofóbicas e boçais. Voltavam ao Brasil sentido-se superiores somente às crianças pobres do país, as crianças dos sinais, os filhos do povão. Dinheiro eles já tinham, queriam apenas se sentirem importantes e reconhecidos por todos, até para o povão para que pudessem esnobar...

Porém nem todos se tornaram modelos, jogadores de futebol de renome ou artistas hollywoodianos da Rede Globo. Como poderei ser famoso, amado e odiado sem a televisão?

Então a internet se popularizou, o preço dos computadores caiu e as redes sociais se tornaram um sucesso. Não é a mesma coisa que ser o protagonista da novela das nove mas, pode vir a calhar. E veio. Vários estranhos começaram a fazer amizade entre si. Quanto mais amigos, mais popular serei. Cinquenta amigos... cem amigos... trezentos amigos... seiscentos amigos... novecentos amigos... perfil lotado...

Preciso de fotos bonitas para postar no Orkut... preciso de uma câmera digital nova. Preciso expor pra todo mundo que tenho uma vida social intensa... diga “xis”. Faça biquinho, bata fotos na frente do espelho... Acho que meu corpo não está legal... vou fazer academia... Partiu pra academia! Fotos sem camisa, fotos de peitos, fotos de bundas, fotos lascivas...

Ei, espere. Os pobres agora têm Orkut, vamos ridicularizá-los, vamos pô-los no seu devido lugar porque nós somos os pioneiros deste site e somos melhores que eles... É os pobres tomaram conta do Orkut, vamos para um lugar não tão popular, onde podemos comentar as fotos e ainda podemos nos autoproclamar pioneiros e donos do site...

Twitter para dizer o que estou fazendo, fiz, pretendo fazer. Bom dia, boa tarde, boa noite, Faces. Foursquare para dizer onde estou, na balada, na academia, no shopping, na praia... Instagram para tocar na cara desses pobres mulambentos que eu tenho um iPhone e minhas fotos são cult. Efeito anos 1920 para a praia, efeito anos 1970 para a balada, efeito anos 1980 para a lasanha que acabei de cozinhar.

Mas não basta apenas exibir os lugares requintados que frequento. Não basta apenas enunciar os lugares cool para onde estou indo. Não basta apenas exibir o meu corpo como o meu melhor talento... É necessário ser mais do que uma pessoa desejável financeira e sexualmente, é preciso mostrar conteúdo.

Nunca li Clarice, mas suas frases me impressionam. Não entendo nada de sentimentos, mas Caio Fernando Abreu me toca o coração. Não entendo na de filosofia e matemática, mas Nietzsche e Freud sabem tanto da vida e do ser humano... Ah, Freud era psicanalista? Desculpe, sou tão culto, tão erudito que até confundo os nomes e as profissões.

A situação no Brasil é lamentável mesmo né, a classe rica é rica, a classe pobre é pobre e a classe média, é media! Político ladrão deveria ser substantivo composto, ninguém presta. Dilma terrorista, Lula alcoólatra. A Globo têm razão, a Veja também. Vamos organizar a marcha para a corrupção porque a internet é a única arma que temos.

Que tal falar de amor o tempo todo, sofrer de amor? É um blablablá necessário quando queremos sexo ou um relacionamento para mascarar a solidão. Os likes e os comentários são o meu teste de popularidade. Quem curtir minha foto ousada ou me cutucar, quer transar comigo. Quem comentar positivamente minha postagem polêmica me acha inteligente - e quer transar comigo. Quem for contra a minha opinião, têm inveja de mim - e deveria transar!

Se alguém nos critica, é inveja do nosso sucesso...

Porque na internet você pode ser quem você quiser. Porque na internet, você pode ser o ser humano perfeito, gostoso e photoshopado, munido de frases de efeito que emocionam o Brasil. Porque na internet, você pode ser uma estrela. Porque na internet, você pode aparecer. Todos querem ser uma estrela. Todos querem chamar a atenção...

Era uma vez a simplicidade, a espontaneidade, a humildade e a liberdade de ser quem se é ao invés de se submeter a ser um ideal, uma utopia, o seguidor doente de uma ditadura.

domingo, 15 de abril de 2012

Tromsø

O leite quente aquecia minhas mãos durante o ensolarado, porém frio, dia de inverno em Tromsø. No momento em que meus olhos repousaram no pote de petit suisse aberto, a neve lá fora derreteu e voltei ao verão de 1992. A neve foi substituída pelo verde vivo da grama.

Corríamos descalços ao longo da margem do rio de água transparente. Podíamos ver seu fundo cheio de pedras e até alguns peixes. E pelos campos vastos e abertos, podíamos soltar pipa e admirar as formas curiosas das nuvens. Ou as várias estrelas que as luzes da cidade não podiam esconder no céu.

Os reis do mundo escavavam o chão procurando por tesouros. Escalavam algumas colinas como se fossem um grande fjord. Quanta história poderia haver em uma casa abandonada?

Dois potes de petit suisse e um barbante e tínhamos um telefone. Música calma e aconchegante tocando dentro da casa. Um cachorro correndo atrás de uma bola. O som da água da chuva caindo no telhando e na poça de água que se formava no chão. Sem preocupações.

Sopa de galinha se você pegou um resfriado. Conselhos quando você estava inseguro. Estudar juntos quando um de nós tinha uma prova difícil na faculdade. Abraços quando falhávamos, abraços quando vencíamos. Presença quando um de nossos parentes partia.

Naquele tempo, vivíamos bem. Éramos amigos, éramos parceiros. Pelo olhar, podíamos ler palavras nunca ditas, podíamos entender facilmente o que um estava sentindo e pensando. Não estávamos preocupados com a irritabilidade das pessoas chatas. Não víamos graça em rir de quem era diferente ou excêntrico. Não estávamos preocupados em julgar a tudo e a todos. Nunca queremos ser o centro das atenções, ser melhor ou pior. Nunca estivemos desesperados pelo feedback dos desconhecidos.

Estávamos preocupados apenas em viver, em apreciar a beleza da vida, aproveitar uma vida simples sem esperar milagres ou coisas grandiosas. Não queríamos perder tempo com a tristeza e suas consequências desagradáveis.

Nada mudou, estamos apenas mais velhos. Ainda vemos o mundo com os mesmos olhos. Ainda podemos ver a sentir a beleza mesmo nas pequenas coisas.

Temos um ao outro. Somos mais que amigos, mais que irmãos, mais que uma família. Somos uma fortaleza quando estamos juntos. Somos a luz quando está escuro. Nós nos importamos, nos cuidamos um do outro. Somos uma dupla que a vida uniu, incapazes de sermos separados por qualquer um.

domingo, 8 de abril de 2012

O vômito azedo de Sakineh

As recepções do embaixador são conhecidas pelo gosto requintado do anfitrião que conquista sempre os seus convidados.

Sakineh ficou negativamente surpresa ao revê-lo. Mesmo que ela tivesse superado seus traumas do passado, sentiu uma raiva crescente dentro de si. O fato de ele não estar solteiro e sim, casado com uma ocidental que mal sabia vestir um hijab com decência a enfurecia ainda mais.

Diferentemente dela, seu ex-amante ficou positivamente feliz ao revê-la. Isto devia-se ao fato de Sakineh estar ainda mais espetaculosa e também porque ele não havia visto o médico turco-iraquiano com quem ela havia se casado. Mas quando o garçom saiu de vista levando consigo a torre de bombons Ferrero Rocher, daí sim ele ficou transtornado ao ver que Sakineh era casada. Apesar de tudo o que ele havia feito e dito, ele ainda a amava.

Desconfortável, Sakineh pediu licença e dirigiu-se ao toalete. A esposa eslava do ex-amante ofereceu-lhe um bombom e disse sussurrando baixando em seu ouvido:

“Com Ferrero Rocher estamos conquistados”.

Exasperado, ele a empurrou no chão dizendo: “Sai de perto de mim, vadia”. Ela não se constrangeu com tamanho ato de grosseria e aproveitou para tentar seduzir os outros embaixadores com um olhar lascivo mordiscando os lábios. Alguns deles filmavam a primeira-dama jogada no chão na embaixada enquanto ela dizia “Me filma, me edita”.

Como nunca havia visitado a Embaixada da Arábia Saudita antes, Sakineh perdeu-se e acabou parando na cozinha. Foi onde seu ex-amante finalmente a encontrou para que pudessem conversar e Sakineh vomitar tudo o que ela sempre quis dizer e não pôde. Ela também se sentia segura e amparada naquela cozinha repleta de facas e cutelos de prata reluzentes.

Sakineh, como é bom revê-la. Senti sua falta por esses anos todos, dias e noites. É como se o Sol não pudesse me aquecer, como se a Lua não pudesse iluminar minhas noites escuras. – disse-lhe seu ex-amante usando as mesmas palavras de antes.
Sentiu tanta falta que me abandonou! Sentiu tanta falta que se casou com uma atriz pornô da Eslováquia! Você jogou fora o amor que eu te dei, o sonho que eu sonhei. Isso não se faz! Você jogou fora a minha ilusão, a louca paixão. É tarde demais... – falou Sakineh.
Saki, aconteceram coisas em minha vida. Coisas que eu não podia lhe contar, desconfiei que você pudesse ser uma odalisca interesseira nas minhas conquistas. Acabei ascendendo ao poder e eu precisava de uma mulher a altura e você era apenas uma odalisca. O que eu poderia esperar de uma mulher que eu conheci dançando pole dance para soldados estadunidenses em uma boate em Bagdá? 
Eu era uma dançarina que queria fazer fama e fortuna através da dança e a gente precisa começar de baixo, porém, isto não queria dizer que eu não te amava. Eu te dei todo o meu amor e você jogou ele na lata do lixo, me trocou por uma mulher que vê você como um pedaço de carne e você provavelmente deve vê-la da mesma forma afinal de contas, pior que dançar em pole dance é ser uma atriz pornô mundialmente famosa! – esbravejou Sakineh. 
Eu errei, Sakineh. Você sempre foi meu amor verdadeiro e eu fui estúpido por procurar coisa melhor. Com você, descobri que amar é muito fácil, difícil é esquecer que um dia todo o amor que eu tinha eu dei pra você. Quando percebi que não foi demais, já era muito tarde pra voltar atrás e te dar o que eu não te dei. 
Poupe-me do seu arrependimento tardio, não acredito em mais nada que saia de sua boca de veludo. Não diga que me ama se não for para sempre. Não diga que precisa de mim se você não vai ficar, não me dê esta impressão porque eu acreditaria somente nisso. Faça acontecer ou leve tudo isso embora com você.
Cozinheiros iranianos adentraram na cozinha e os dois ficaram quietos. Sakineh não quis olhar-lhe nos olhos. Ela apenas mirava um reluzente sobre a mesa, imaginando estar cortando aquele homem que um dia ela amou em partes bem miúdas para servi-lo em uma sopa de sangue.

Quando a cozinha foi novamente esvaziada. Sakineh resolveu acabar com aquela conversa. Ela não sentia mais nada por ele além de nojo e de uma grande mágoa por aquele homem que ela não tinha a mínima vontade de perdoar.

Sakineh, eu quero você de volta. Volta para mim, vem ser minha primeira-dama. Vem me fazer feliz! – implorou com os olhos marejados.
Sou feliz sem você. Nunca conheci um homem tão covarde, fraco, frio, insensível e mentalmente instável como você. Se você realmente me amasse, não teria feito o que fez, não teria falado comigo como falou. Teria me aceitado como sou com minhas imperfeições porque eu te aceitei mesmo com aquele comportamento dúbio. Eu realmente te amei e nunca duvidei deste meu sentimento por você. Nunca fui em busca de coisa melhor. Você construiu um sentimento bom a dois, mas quando destruiu, o fez sozinho e sem se importar com o que eu ia sentir. Minha vida se tornou um inferno, passei a ser usuária de drogas. Você teve a sua chance de ser feliz comigo antes e desperdiçou. Você poderia ter tido uma segunda chance se eu não tivesse conhecido meu marido turco-iraquiano que trata como uma mulher de verdade, que se importa comigo e com o que eu sinto. Você é um imaturo egoísta que não se importa com os outros, só com o próprio prazer... – dizia com frieza e aquilo a fazia bem; estava colocando pra fora o que sempre quis falar.
Mas Sakineh... – tentou interrompê-la.
Você cale a sua boca porque você não tem moral para falar. Quero mais é que você sofra porque só assim para você entender o que eu passei. Você é indigno do amor pois você não sabe amar ninguém. Siga a sua vida sem mim, você podia me ter, mas não quis. A escolha foi sua, a decisão foi somente sua. Cansei de você, arrumei outro. Não me procure mais. Adeus. – e Sakineh virou-lhe as costas...

Ele permaneceu na cozinha, paralisado com aquelas palavras. Ele esperava que Sakineh fosse se jogar em seus braços mas, para a sua surpresa, ela estava completamente diferente, mais madura do que ele, inclusive. Ele nunca havia sido amado tão fortemente e nunca havia amado alguém tão intensamente como a Sakineh. Sentiu-se sozinho e seu discurso sobre o calor do Sol deixou de ser uma conversa mole para ser um fato. Era como se um vento frio estivesse circulando seu corpo, como se um alçapão tivesse se aberto sobre seus pés...

domingo, 25 de março de 2012

As feridas abertas de Sakineh


Doidona após ter cheirado cocaína da Bolívia, Sakineh saiu para as ruas de Marrakesh. Devido ao efeito das drogas, ela sempre viajava, fugia para outra realidade, se livrava dos problemas quando dançava. Através da dança, ela se envolvia em uma espécie de abraço invisível que ela sempre quis receber. E permaneceu dançando no meio da rua totalmente alheia aos acontecimentos ao seu redor. Foi então, atropelada por um camelo...

Então começou. Era a sensação de rodar, rodar, rodar sem saber exatamente para onde estava indo, como se já estivesse no céu. Ela não sabia o que estava acontecendo porque não sabia como começou a acontecer. Uma tarde de domingo linda, maravilhosa. Um Sol belo, azul, dezessete horas. Ela havia ouvido alguém dizer “Berenice, segura! Nós vamos bater”. Nada mais ela se lembrava.

O subconsciente de Sakineh não resgatou memórias de seu passado como num flashback. Suas memórias repousaram no homem que a fez decair tanto e se afundar nas drogas. Ela reviveu esta dolorosa história que se somava a dor física de estar sangrando após o atropelamento enquanto Berenice e outra pessoa fugiam sem prestar socorro. As pessoas ao seu redor ouviam, curiosas os seus gemidos de dor. Ninguém se dispôs a ajudá-la. Estavam ocupados demais filmando-a com seus telefones celulares para postar tudo no YouTube depois.

Era um homem jovem e bonitão. Sakineh sempre teve baixa autoestima por ser pobre e por ter sido uma adolescente fora dos padrões de beleza, mesmo que se escondesse por detrás de um véu. Um homem bonito como aquele interessado nela é como se ela tivesse ganho na loteria. Mesmo assim, ele tinha um comportamento dúbio.
Havia ocasiões que ele era gentil com Sakineh. Dava presentes a ela como joias de ouro, reparava no seu hijab, ouvia-a, aconselhava-a. Ele era o tipo de homem perfeito que Sakineh sempre sonhou quando brincava com suas Barbies vestidas dos pés a cabeça com um longo niqab. Por outro lado, em algumas ocasiões, era distante, parecia querer evitá-la como se ela pudesse descobrir algo perigoso para ele. Era misterioso e cheio de segredos. Esta dualidade deixava-a constantemente angustiada porque sentia, às vezes, que era um romance pela metade e se perguntava qual era o problema. Devido a sua falta de autoconfiança, Sakineh sempre acreditava que era ela quem estava fazendo algo errado, e odiava-se por não saber exatamente o quê.
Sakineh também era muito intuitiva. Um dia, muito apressadamente, seu companheiro disse-lhe que eles precisavam conversar e, quando eles se encontraram em uma ruína abandonada, ele foi seco e direto ao ponto.
“Cansei de você. Arrumei outra. Não me procure mais. Adeus”.
E partiu, assim, sem maiores explicações. Sakineh ficou arrasada, embora sua intuição já lhe dissesse que o fim do relacionamento às escondidas dos dois fosse iminente. Nem os fogos de artifício que estouravam para comemorar o golpe de estado que depôs a família real foi capaz de animar aquela alma destruída que foi procurar conforto nas drogas e na dança...

Depois de permanecer vários minutos agonizando no meio da rua, ela foi resgatada por um médico turco que havia visto-a dançar. Ele a levou ao hospital mais próximo e, depois que Sakineh finalmente de recuperou, ele disse que sua irmã tinha uma escola de dança em Istambul onde ela poderia dançar e dar aulas de dança.

Sakineh largou as drogas e passou a ser conhecida e reconhecida como uma grande dançarina. Ela casou-se com esse médico de origem turco-iraquiana. Ela havia voltado a viver. Viver sem drogas, viver da dança, viver um relacionamento amoroso de verdade e sem mentiras ou omissões. Após uma vida toda de supressões e sofrimento, ela havia finalmente encontrado a felicidade.

Felicidade que ficou abalada em um evento diplomático na Embaixada da Arábia Saudita em Ankara. Ela havia reencontrado aquele homem que a abandonou e a fez sofrer. O mundo árabe era muito pequeno para eles dois...