domingo, 18 de dezembro de 2011

O começo do fim


Um voz imponente surgiu do nada e ordenou: “Calem a boca, eu quero assistir televisão”.

O dia estava ensolarado, poucas nuvens, temperatura agradável. Mas de repente, o céu enegreceu em poucos minutos. Trovões estremeciam as paredes e faziam os cães se esconderem debaixo das camas. O dia se tornou noite e não era um eclipse solar. Os raios iluminavam o céu negro.

O vento sul uivava raivoso enquanto as donas de casa obrigavam suas filhas a recolherem as roupas no varal antes que os pingos de chuva atingissem o solo como balas de metralhadora. As meninas que se recusavam e enfrentavam suas mães dizendo “vai você” apanhavam com as Havaianas que suas mães lançavam com força contra as suas cabeças. As mais azaradas, apanhavam com sandálias Crocs mesmo. A ventaria arrancava as telhas das casas que voavam em direção aos pobres. O caos estava instalado.

Do alto da laje de sua casa no ponto mais alto da favela, o pastor evangélico anunciava o arrebatamento. Realmente, parecia mesmo o apocalipse. Os fieis choravam e falavam em línguas implorando piedade enquanto telhas voavam contra eles como mísseis teleguiados. E os ateus apenas observavam e depois que o pastor foi atingido por uma telha Brasilit no meio da cara e voou da laje para a morte, caçoavam dos religiosos: “Onde está o seu Deus agora”? Então os dois grupos começaram se estapear defendendo a sua crença e a sua descrença.

Um voz imponente surgiu do nada e ordenou: “Calem a boca, eu quero assistir televisão”. E um raio caiu entre aqueles que estavam brigando, matando-os e silenciando-os.

E nesse cenário de juízo final, um grupo de pessoas tirava fotos em frente ao espelho para postá-las no Orkut: “Esse sou euzinho se preparando para o fim do mundo, beijos”. Ao se olharem no espelho, eles não enxergavam o próprio reflexo. Eles enxergavam muito mais. Era fortes, corajosos, imponentes. Pessoas que eram um exemplo a ser seguido. Enxergavam perfeição. Suas mentes eram fechadas, impenetráveis. Seus olhos viam apenas o que eles queriam ver. Seus ouvidos ouviam apenas o que eles queriam ouvir. E ao redor do piercing em seus umbigos, orbitavam as pessoas, a Terra, os planetas, as galáxias e o que mais puder existir.

Eles eram pessoas fodônicas. Ao mergulhar em suas mentes e enxergar o mundo através de seus olhos, enxergaremos uma realidade que não existe mas que, para os fodônicos, existe.

Se eles fossem um planeta, orbitariam um sistema falocêntrico e suas luas seriam falos. A inveja é o substantivo mais frequente em seu limitado vocabulário. O mundo sente inveja dos fodônicos. Não é fácil ser bonito, não é fácil ser gostoso, não é fácil ser uma pessoa que dita tendências, não é fácil. Possuir luas fálicas incomoda quem não possui. A felicidade alheia incomoda. Esse mundo é muito invejoso mesmo.

Os fodônicos não precisam fazer amigos, porque o mundo se joga a seus pés, solicita a sua amizade. Possuem centenas de amigos. Ao publicar uma foto sem camisa, várias pessoas curtem, várias pessoas desejam “ô lá em casa!”. Proctos flamejantes. Fodônicos não se arrependem do que fazem ou deixam de fazer. Fodônicos não se importam, não medem as consequências das atitudes que tomaram e não tomaram. O mundo sente inveja deles porque eles são serem superiores, simples assim.

O dilúvio inundou a cidadela. A arca de Noé não veio. Os ateus afundaram e os fundamentalistas religiosos boiaram e não subiram aos céus como tanto sonhavam. A laje caiu sobre a cabeça dos fodônicos que sobreviveram ao apocalipse. Eram baratas que se alimentavam dos detritos.

Now We Are Free by Cathrine Makabali

Um comentário:

  1. uau, forte e com fundamento. realmente não é fácil aturar esses fodônicos...

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