sábado, 31 de dezembro de 2011

Um ontem velho


Não somos pessoas cínicas e bondosas por conveniência como você.

Antes que o dia acabe, vamos expelir as nossas últimas gotas de vômito. Antes que o dia acabe, vamos dizer as últimas palavras. Antes que o dia acabe, vamos entregar a sua carta, mesmo que você não leia ou não saiba ler. Antes que o dia acabe, nos livraremos de toda esta nhaca, nos permitiremos que a chuva lave a nossa alma, e iremos incendiar as memórias e codificá-las para que o aprendizado seja útil depois.

Rasgaremos o saco de pão na nossa cabeça que abafou as nossas palavras, que não nos permitiu respirar. Preocupamo-nos com você e a sua suposta angustia, mas você teve a mesma preocupação conosco?

Palavras não são contratos, deveríamos saber. E contratos podem ser rescindidos quando bem entendemos, não? Deveríamos saber também que palavras não são nada para quem mente para proteger o próprio ego. Discurso maduro, atitudes infantis. Hipocrisia.

Você nos deu uma bomba a 5 minutos de explodir e deu a entender que o problema era nosso, mas não seu também. Porque não somos responsáveis pelas pessoas que cativamos. Cada um se ilude porque quer, cada um se apaixona porque quer, cada um sofre porque quer. É assim quando se é uma pessoa fria.

Não precisamos e não queremos uma pessoa covarde. Não queremos uma pessoa que só pensa em si mesma. Não queremos uma pessoa que se envolve logo com a primeira que lhe interessa. Não gostamos de gente fútil, não gostamos de gente que nem se respeita. Não queremos lixo que come lixo.

E não é que ainda nos importemos. Damos graças a Deus que você é realmente uma pessoa desprezível, uma mentira para nós e para você. Não somos pessoas cínicas e bondosas por conveniência como você e realmente desejamos que você encontre pessoas do seu calibre e que sofra como a gente um dia sofreu quando não conhecia o seu verdadeiro lado. Fomos honestos, você não. Nos importamos, você não. Estamos colocando fogo e destruindo todos os seus vestígios para que possamos deixar esse ontem velho para trás e nos sentirmos puros, limpos e preparados para um novo amanhã.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O começo do fim


Um voz imponente surgiu do nada e ordenou: “Calem a boca, eu quero assistir televisão”.

O dia estava ensolarado, poucas nuvens, temperatura agradável. Mas de repente, o céu enegreceu em poucos minutos. Trovões estremeciam as paredes e faziam os cães se esconderem debaixo das camas. O dia se tornou noite e não era um eclipse solar. Os raios iluminavam o céu negro.

O vento sul uivava raivoso enquanto as donas de casa obrigavam suas filhas a recolherem as roupas no varal antes que os pingos de chuva atingissem o solo como balas de metralhadora. As meninas que se recusavam e enfrentavam suas mães dizendo “vai você” apanhavam com as Havaianas que suas mães lançavam com força contra as suas cabeças. As mais azaradas, apanhavam com sandálias Crocs mesmo. A ventaria arrancava as telhas das casas que voavam em direção aos pobres. O caos estava instalado.

Do alto da laje de sua casa no ponto mais alto da favela, o pastor evangélico anunciava o arrebatamento. Realmente, parecia mesmo o apocalipse. Os fieis choravam e falavam em línguas implorando piedade enquanto telhas voavam contra eles como mísseis teleguiados. E os ateus apenas observavam e depois que o pastor foi atingido por uma telha Brasilit no meio da cara e voou da laje para a morte, caçoavam dos religiosos: “Onde está o seu Deus agora”? Então os dois grupos começaram se estapear defendendo a sua crença e a sua descrença.

Um voz imponente surgiu do nada e ordenou: “Calem a boca, eu quero assistir televisão”. E um raio caiu entre aqueles que estavam brigando, matando-os e silenciando-os.

E nesse cenário de juízo final, um grupo de pessoas tirava fotos em frente ao espelho para postá-las no Orkut: “Esse sou euzinho se preparando para o fim do mundo, beijos”. Ao se olharem no espelho, eles não enxergavam o próprio reflexo. Eles enxergavam muito mais. Era fortes, corajosos, imponentes. Pessoas que eram um exemplo a ser seguido. Enxergavam perfeição. Suas mentes eram fechadas, impenetráveis. Seus olhos viam apenas o que eles queriam ver. Seus ouvidos ouviam apenas o que eles queriam ouvir. E ao redor do piercing em seus umbigos, orbitavam as pessoas, a Terra, os planetas, as galáxias e o que mais puder existir.

Eles eram pessoas fodônicas. Ao mergulhar em suas mentes e enxergar o mundo através de seus olhos, enxergaremos uma realidade que não existe mas que, para os fodônicos, existe.

Se eles fossem um planeta, orbitariam um sistema falocêntrico e suas luas seriam falos. A inveja é o substantivo mais frequente em seu limitado vocabulário. O mundo sente inveja dos fodônicos. Não é fácil ser bonito, não é fácil ser gostoso, não é fácil ser uma pessoa que dita tendências, não é fácil. Possuir luas fálicas incomoda quem não possui. A felicidade alheia incomoda. Esse mundo é muito invejoso mesmo.

Os fodônicos não precisam fazer amigos, porque o mundo se joga a seus pés, solicita a sua amizade. Possuem centenas de amigos. Ao publicar uma foto sem camisa, várias pessoas curtem, várias pessoas desejam “ô lá em casa!”. Proctos flamejantes. Fodônicos não se arrependem do que fazem ou deixam de fazer. Fodônicos não se importam, não medem as consequências das atitudes que tomaram e não tomaram. O mundo sente inveja deles porque eles são serem superiores, simples assim.

O dilúvio inundou a cidadela. A arca de Noé não veio. Os ateus afundaram e os fundamentalistas religiosos boiaram e não subiram aos céus como tanto sonhavam. A laje caiu sobre a cabeça dos fodônicos que sobreviveram ao apocalipse. Eram baratas que se alimentavam dos detritos.

Now We Are Free by Cathrine Makabali

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A utopia da criação de novos estados


Os paraenses rejeitaram a divisão de seu estado em três. A separação traria mesmo as melhorias tão prometidas ou seria uma reles mudança no mapa político?

No último domingo, dia 11 de dezembro, os eleitores do Pará foram as urnas. Eles deveriam decidir se queriam ou não a criação dos estados de Carajás e Tapajós, ambos nascidos do desmembramento do estado do Pará, que poderia ter seu território reduzido a 17% do tamanho original. Após o encerramento da votação, os paraenses decidiram pela unidade, rejeitando a criação de dois novos estados. 66,60% dos votos disseram “não” à criação de Carajás e 66,06% também disseram “não” à criação de Tapajós.

Este resultado mostra que a maioria dos paraenses foi sensata. Por trás de toda a argumentação da centralização de recursos perto da região de Belém havia, é claro, um interesse único: a criação de novos cargos públicos, construção de prédios administrativos, ou seja, gastos. Gastos que deixariam de ser investidos na educação, saúde e segurança pública para poder proporcionar mais conforto aos nobres deputados, assessores, secretários, ao governador enquanto o povo continuaria a míngua. A divisão apenas saciaria o desejo de riqueza e poder de políticos e empresários mais poderosos e o povo, como sempre, seria apenas um peão conveniente em um xadrez de interesses.

Se os estados se separassem, os problemas continuariam os mesmos e não é separando que as coisas iriam se resolver. Certamente, o poder está centralizado nas grandes capitais de vários estados enquanto, no interior, os recursos não chegam e as obras também não. E não é exigindo a criação de novos estados que os problemas vão se resolver e os recursos vão se descentralizar. O povo tem que saber exigir estes recursos, tem que saber quem são os centralizadores e tem que boicotar, nas urnas, os aqueles que falharam nas suas promessas. Antes de tudo, o povo precisa saber votar!

Além da consciência de que a separação não vai distribuir recursos e construir obras de interesse público de forma descentralizada, não houve um sentimento de segregação ou de superioridade de certas regiões em relações a outras. Ou então um deslumbramento de fazer parte de um novo estado. Quer dizer, eles podem até fazer parte dos 30% de derrotados, mas agora é aceitar a derrota e chorar a frustração pelo resultado das urnas.

Esse tipo de consciência, por exemplo, falta nas populações de alguns estados do Centro-Sul do Brasil. E além de toda uma falácia, todo uma arrogância, temos uma demonstração nítida de falta de inteligência. Ano passado tivemos a estudante Mayara Petruso tendo piti no Twitter pela expressiva vitória da presidente Dilma Rousseff na região nordeste. E volta e meia temos outros exemplos de adolescentes recém-saídos da puberdade tendo aqueles típicos acessos de revolta infanto-juvenil, como este da imagem abaixo.

Talvez a derrota dos separatistas no Pará nos mostre que o povo já sabe perceber um mero interesse na criação de novos cargos políticos com a tradicional desculpa de que “vai ser melhor para o nosso povo”. Poderiam reduzir o Pará ou qualquer outro estado ao tamanho de um átomo que se, o povo não souber votar, não adianta: os problemas vão continuar sendo os mesmos de sempre. Quem pensa e defende a ideia da separação ou é um político interesseiro, ou é um empresário ou é um adolescente mimado e sem argumentos que xinga muito no Twitter evidenciando possuir uma superioridade que não existe e que não se conquista no grito. E talvez pior que esse grupo de pessoas interesseiras e adolescentes obtusos, seja o dos pobres deslumbrados que, por agora fazerem parte da nova classe média, se acham elite, mesmo morando de aluguel, mesmo ganhando um salário mínimo e mesmo parcelando um notebook Positivo em dezoito vezes sem entrada.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Você deveria ler isso


Você deveria acabar com a fome na África.
Você deveria acreditar que as celebridades são mais espertas que você.
Você deveria acreditar que o fim está próximo.
Você deveria acreditar que você não é nada.
Você deveria admirar o Bashar al-Assad.
Você deveria admirar quem é mais rico que você.
Você deveria amar este texto.
Você deveria amar o Nietzsche.
Você deveria andar pela faixa de pedestre.
Você deveria assistir um filme alternativo do Uzbequistão.
Você deveria assistir uma série de TV estadunidense.
Você deveria bater nas crianças desobedientes.
Você deveria beber cervejas sofisticadas.
Você deveria beber com moderação.
Você deveria boicotar a Rede Globo.
Você deveria chocar os políticos ao compartilhar fotos no Facebook.
Você deveria chocar pela bizarrice.
Você deveria chorar as tragédias do programa da Sônia Abrão.
Você deveria comprar produtos originais.
Você deveria deixar os seus problemas na mão de Deus.
Você deveria descartar o lixo no lixeira.
Você deveria desligar a TV e ler um livro.
Você deveria compartilhar fotos engraçadas.
Você deveria ditar tendências.
Você deveria divertir-se no carnaval.
Você deveria economizar água.
Você deveria emocionar-se com a novela das oito.
Você deveria estar salvando o mundo.
Você deveria falar como se vivesse no século XVIII.
Você deveria falar palavrão para chamar a atenção.
Você deveria falar polonês.
Você deveria fazer as pessoas chorarem ao criticar os ídolos deles no Twitter.
Você deveria fazer um monte de coisas.
Você deveria fazer uma viagem espiritual à Índia.
Você deveria fincar uma vassoura Scotch-Brite na praia de Copacabana.
Você deveria fotossintetizar.
Você deveria fumar narguilé.
Você deveria gostar de samba.
Você deveria honrar pai e mãe.
Você deveria julgar pela aparência.
Você deveria ler a Bíblia.
Você deveria lutar por um mundo melhor.
Você deveria malhar para o verão.
Você deveria morar em Cuba.
Você deveria mostrar o quanto você é superior.
Você deveria mudar o seu status no Facebook para “em um relacionamento”.
Você deveria não colocar os seus ombros sobre a mesa.
Você deveria não dar esmolas.
Você deveria não interromper as pessoas quando elas estão falando.
Você deveria não ser vítima de inveja.
Você deveria odiar a raça humana.
Você deveria odiar este texto.
Você deveria odiar o PSDB.
Você deveria odiar o PT.
Você deveria odiar o terrorismo.
Você deveria odiar os argentinos.
Você deveria odiar os Estados Unidos da América.
Você deveria orar pelos necessitados.
Você deveria parar de beber.
Você deveria parar de comprar produtos chineses.
Você deveria parar de fumar.
Você deveria parar de respirar.
Você deveria parar de usar sacolas plásticas.
Você deveria passar as férias em Paris.
Você deveria pensar que é mais interessante porque é bonito e gostoso.
Você deveria pensar que você é melhor que os outros porque tem dinheiro.
Você deveria pensar.
Você deveria plantar uma árvore.
Você deveria preocupar-se com a sua reputação.
Você deveria preocupar-se com a vida dos outros.
Você deveria preocupar-se com o aquecimento global.
Você deveria preocupar-se com tudo.
Você deveria reciclar.
Você deveria repudiar a violência.
Você deveria respeitar a opinião dos outros.
Você deveria respeitar o Papa.
Você deveria respeitar o seu chefe.
Você deveria respeitar os mais velhos.
Você deveria respeitar todas as religiões.
Você deveria ridicularizar os pobres.
Você deveria ridicularizar os travestis.
Você deveria sentir-se culpado por ser ter nascido homem e branco.
Você deveria sentir-se infeliz por ser gordo.
Você deveria sentir-se o centro do universo.
Você deveria ser bem sucedido.
Você deveria ser contra a ascensão social.
Você deveria ser contra a construção de Belo Monte.
Você deveria ser contra a corrupção.
Você deveria ser contra a pena de morte.
Você deveria ser contra as bolsas do governo.
Você deveria ser contra do progresso pelo progresso.
Você deveria ser contra o aborto.
Você deveria ser contra o capitalismo.
Você deveria ser contra o casamento de pessoas do mesmo sexo.
Você deveria ser contra o socialismo.
Você deveria ser culto.
Você deveria ser Flamengo e ter uma nega chamada Teresa.
Você deveria ser patriota.
Você deveria ser politicamente correto.
Você deveria ser tão desesperado quanto o Datena.
Você deveria ser vegetariano.
Você deveria ter a sua própria opinião.
Você deveria ter orgulho de ser afro-descendente.
Você deveria ter uma opinião sobre qualquer assunto que as pessoas conversem.
Você deveria tomar cuidado com as pessoas da favela.
Você deveria torcer para dar porrada no Programa do Ratinho.
Você deveria torcer pelo fracasso da presidente Dilma Rousseff.
Você deveria trabalhar como humorista no Zorra Total.
Você deveria viver cada o dia como se fosse o último.
Você deveria votar.

Você deveria acrescentar mais coisas a esta lista nos comentários.

PITTY - Admirável Chip Novo