domingo, 21 de agosto de 2011

Silencie as armas com flores


Ele havia enxergado o que havia de bom no coração daquele homem, mesmo que tivesse se sacrificado para salvá-lo.

[1] Silencie...
O diplomata saiu de casa, fechou a porta e partiu. Sabia das consequências, mas havia a esperança de que ele pudesse resolver aquele problema angustiante com um diálogo franco e aberto. Ao chegar, respirou fundo e bateu a porta da casa daquele cuja indiferença o feria.

O homem perguntou quem era. O diplomata se identificou e foi ignorado. Bateu novamente na porta. Não houve resposta.

Insistiu a bater na porta uma terceira vez após pedir “por favor”. Alguém desceu as escadas e a abriu. O diplomata assustou-se com o que viu. Embora pudesse ter previsto uma possível hostilidade, ele jamais imaginou que as coisas terminariam daquela maneira.

O homem então falou o que o diplomata já estava se preparando para ouvir e como se não tivesse ouvindo o que ele dizia, veio na defensiva e com armas na mão. E, sem piedade, deu dois tiros no diplomata que desabou no chão tendo, como última lembrança, o lado mais negro que aquele homem permitiu-se mostrar.

[2] ...as armas...
Naquela sexta-feira cinza e triste, o padre fazia as últimas homenagens ao diplomata assassinado. Era um homem honesto, gentil, generoso que enxergava o lado humano das pessoas e que acreditava veementemente que esse lado poderia trazer quem estivesse nas trevas de volta à luz.

Enquanto sua família chorava a sua morte, o assassino estava alheio ao enterro se divertindo com uma prostituta. Mal sabia ela que estes também eram os seus últimos minutos de vida.

[3] ...com flores.
A população e a imprensa não quiseram compreender o perdão dos filhos do diplomata ao assassino de seu pai, embora eles nunca tivesse trocado, sequer, uma única palavra com ele. Para eles, ele podia expressar todo o seu ódio que eles não o odiariam. O seu pai havia partido, não havia mais nada a fazer. Foram rotulados de “tolos” por muita gente, mas sabiam que seu pai estava orgulhoso da atitude que tiveram. Ele não queria que seus filhos pagassem um erro com um outro e que nutrir o ódio apenas envenenaria seus corações.

Depositaram flores no túmulo do diplomata na madrugada. Não eram seus filhos, mas um antigo amigo. Ele caiu de joelhos e começou a chorar, arrependido pelo mal que causou. Não estava sozinho. O diplomata estava ali ao lado dele, em espírito. A missão daquela noite que fora assassinado estava, finalmente, cumprida. Ele havia enxergado o que havia de bom no coração daquele homem e, mesmo que tivesse se sacrificado para salvá-lo, ele havia libertado aquele homem do mal que o matava e a todos ao seu redor.

domingo, 7 de agosto de 2011

Aprender a morrer


Você vai aprender a morrer para aprender a ressuscitar.

Então é a morte. O café e o pão não descem por causa do nó na garganta. O banho quente poderia demorar uma eternidade. O sono também se ele não fosse um flashback de momentos que nunca existiram, mas era um sonho em preto e branco, sem Sol e sem calor, sem contato, sem carinho. Acordar de madrugada e reviver os últimos minutos de esperança. Mas estou aqui, vivo. Morto, porém vivo. Talvez eu esteja no limbo.

Estamos morrendo a cada momento. Soa trágico, não? Mas morremos porque estamos mudando, o mundo está mudando, as pessoas e com eles, nossos sonhos e sentimentos. Não é a mesma coisa de outrora. Algumas vezes benéfica, há males que vem para o bem. Outras vezes, a morte é lenta e dolorosa. Você implora a para a Morte para que ela te leve embora, mas ela assiste a tudo, indiferente, lixando as unhas de pernas cruzadas sentada em um banquinho.

Por isso devemos estar preparados para morrer. Cada um há de encontrar o seu ponto de equilíbrio mais cedo ou mais tarde, querendo ou não. Estou tentando aprender a não criar expectativas para não me machucar enquanto corro atrás dos meus sonhos. Ou desejos, necessidades, seja lá o que for, é só no fim que saberei o que era e será no limbo onde irei descobrir. Se você não se preparar, vai doer insuportavelmente. Você vai cair e o mundo não vai parar para esperar você se levantar. Se você estiver preparado, sim, vai doer, mas logo você se recupera e renasce das cinzas.

Fênix. Ela morre e renasce de suas cinzas, sempre bela e sua cor vermelho fogo. Sempre.

Morrer não é fácil, não é agradável, nenhum de nós quer morrer. Mas a morte é uma lição, um aprendizado. É, meu amigo, a vida é sádica e nos expõe a dor para que aprendamos a morrer. Você vai aprender a morrer para aprender a ressuscitar. Seu remédio tem gosto amargo, é o tempo. Morrer não é o fim, mas um novo começo, aprenda com os seus erros, mas jamais corrompa a sua alma, a sua essência, você, para agradar quem não têm paciência, tolerância e que se recusa a amar e respeitar você do seu jeito. Morrer não é a oportunidade de jurar vingança, mas a de ter humildade de reconhecer erros e perdoar aos outros e a nós mesmos. Somos humanos, cometemos erros e matamos algumas vezes as pessoas que nós amamos, com ou sem intenção, para que elas tenham a oportunidade de renascer.