domingo, 15 de maio de 2011

Iceberg flutuando no Oceano Antártico

O marinheiro o viu de longe e imediatamente badalou o sino para alertar toda a tripulação para o choque iminente. Um imenso iceberg estava na rota do imponente navio.

Tarde de verão. Céu azul e sem nuvens. O mar tranquilo. Um iceberg movendo-se pelas ondas de água gelada do Oceano Antártico. Uma pintura em diferentes tons de azul. A reunião dos três estados da matéria: o líquido da água, o sólido do iceberg e o gasoso do vento congelante. O elemento da vida. O que você vê: frieza ou inércia?

Existe a possibilidade de encontrar algo muito valioso no centro do iceberg. O que pode haver lá dentro não é certo, assim como não se sabe se é durável ou não. Mas seja lá o que for, é algo que todos desejam por algum período de tempo.

Quebre o gelo de alguma forma, vamos desbravá-lo, descobrir o que ele esconde, qual o brinquedo surpresa do seu Kinder Ovo. Que tal usarmos uma picareta? Mas não é perigoso danificá-lo? Vamos lamber o gelo. Mas não é perigoso ficarmos com a língua colada nele? Vamos perfurá-lo com as unhas, ou enxugá-lo com uma toalha. Mas não corremos o risco de gangrenar nossas mãos?

Ei, que tal um pouco de calor? Sim, seguro e eficaz. Porém requer paciência, muita paciência. Muitas vezes esperar o gelo derreter cansa então, partimos para explorar outro iceberg – que também vai demorar para derreter. Como atingir o seu núcleo? O calor do Sol é impotente por aqui. A concentração do calor do raio de Sol tímido através de uma lupa também não ajuda muito. O aquecimento global e o buraco na camada de ozônio aceleraram o processo de derretimento, mas ele causa destruição e caos.

Quase um século atrás, o Titanic chocou-se contra um iceberg numa madrugada de abril de 1912. O navio inafundável afundou. E junto com ele afundaram os sonhos de uma vida nova numa terra nova. Ele estava movimentando-se rápido demais ou foi a inércia do imenso bloco de gelo flutuando no mar que o danificou?

É fascinante, atraente e nos instiga a descobrirmos a sua recompensa. Podemos explorá-lo e encontrar absolutamente nada. Há o risco que ele rache a caia sobre nós. É como se nossa vida dependesse desse garimpo. Misterioso, parado e calado. Vê-se quebrado e invadido, mas não reage. Precisa ser quebrado? Duro, impenetrável, letargo e frio... e isso mata o caçador de tesouros, deixa-o irritado, aborrecido, desapontado.

Mesmo com a companhia dos pinguins, o iceberg consegue viver tanto com ela quanto sem. Solitário e independente. Aparenta transparência, mas ninguém consegue enxergar através dele. O iceberg está ilhado no Oceano Antártico, deixando-se levar pelas ondas, prestes a ser explorado ou prestes a destruir os navios que vierem ao seu encontro.

VANGELIS - Antarctica by petersonflr

domingo, 8 de maio de 2011

Parque de diversões

O parque de diversões fechou. Depois de tantos acidentes, decidiu-se que era a melhor coisa a ser feita. Era tempo de fazer uma reforma, uma análise e de descansar os brinquedos.

O ambiente era majoritariamente frequentado por crianças. E não era apenas um parque de diversões, mas um pequeno universo desconhecido a ser explorado. O tesouro perdido, os patos nadando no lago, o piquenique debaixo da Pohutukawa Cornwallis, o pôr do Sol e as montanhas esmeraldas.

Uma voz misteriosa veio de fora e uma criança curiosa ouviu seu nome. A voz dizia que queria entrar e a criança, inocente e disposta a trazer o amigo misterioso àquele mundo belo que ela já conhecia, foi atropelada por um caminhão ao tentar atravessar a rua. Aquele ambiente alegre ficou triste.

Algumas semanas depois, a alegria retornou. Mais um chamado, mais uma criança tentando trazer quem estava chamando. Mais uma morte. A alegria cedeu à tristeza e o luto por uma segunda vez.

Após essas mortes, as coisas já não era mais as mesmas, alegres e felizes como havia sido antes. Divertir-se estava ficando mais difícil. O sorriso não estava sendo mais espontâneo, mas forçado para transparecer uma falsa alegria e simpatia.

O público estava diminuindo. Acidentes internos causaram mais mortes. Uma criança voou da montanha russa. Ninguém percebeu. Uma criança quebrou as pernas no carrinho de choque. Ninguém foi ajudar. Uma criança gritou por socorro enquanto era engolida por uma jiboia. Ninguém viu ou ouviu. Ninguém quis acreditar. Eles decidiram ignorar.

O marketing não funcionava mais. Quanto mais promoções, menos gente. Apesar de todas as coisas bonitas que o parque pudesse oferecer, ninguém queria mais ir lá para visitar. No máximo, chamavam as crianças esperando que elas se arriscassem e se machucassem – ou moressem. Ou olhavam pelas frestas no muro. Subentendiam que o lugar era uma lástima e que não havia nada de interessante ali dentro então, decidiram dar meia-volta e ir embora.

Logo, decidiu-se fechar o parque. Não era fácil renunciar à alegria de quem já havia se divertido naquele pequeno mundo pouco conhecido, mas era necessário. Necessário consertar os brinquedos, regar as flores, cortar a grama, limpar o lugar e jogar o lixo no lixo. Era necessário recriar, revitalizar e aquilo só poderia ser feito com o parque vazio.

Quem quiser entrar, deve esperar a reforma terminar para não se machucar. A administração crê que não é mais preciso gastar tempo e dinheiro com marketing, já há divulgação demais. Quem quiser ingressar depois da reforma, será bem-vindo, quem não quiser, que fique de fora sem saber o que poderia ser desfrutado.

Informamos que o parque de diversões está em reformas. Ninguém mais vai se acidentar. Não vamos mais investir em mais divulgação para evitarmos a falência. Quem quiser entrar nesse pequeno universo, agora deve esperar a reforma terminar.

domingo, 1 de maio de 2011

Cheiro de caramelo

Tudo começou naquela manhã fria, quando o Sol pintou a cidade de laranja e preencheu o meu dia de calor e luz.

Aquela terça-feira poderia ser igual aos últimos dias: um saco! Mas não foi. E tinha os ingredientes para tal. Dormir apenas três horas para fazer um exame de saúde em um posto de saúde público, com um potinho de cocô dentro da mochila, além do frio do outono poderiam ter tornado o dia massante.

Muita gente reclama de ter que acordar cedo. Realmente não é muito agradável ter que acordar, sair do calor das cobertas para enfrentar o frio e toda a aporrinhação do trabalho e um possível congestionamento matinal. O período da manhã pode fazer toda a diferença durante o resto do dia. E é o período mais belo de todos.

Quando o Sol nasceu e foi iluminando aos poucos os carros da rodovia federal, as placas e as fachadas do comércio com seus tons de laranja, cada vez mais vivos e intensos, enchendo a cidade de vida, pressentiu-se que seria um bom dia. A confirmação veio quando Andrea Corr começou a cantar “Tinseltown In The Rain” dentro da minha cabeça. Obrigado, Andrea.

Algumas pessoas podem estar tão perto, mas tão longes de outras. E uma delas estava do outro lado da rodovia. Lembrei-me dela quando estava chegando e vi a logomarca vermelha com ondinhas brancas. E tem sido presente nos meus pensamentos todos os dias desde que eu a conheci. Logicamente, ela não deve fazer ideia disso. Imaginei o que ela estaria fazendo, mas principalmente, sentindo.

Amar é um sentimento muito bom, o melhor que uma pessoa pode sentir. A dor de amar e não ser correspondido é proporcionalmente inversa. O tempo é um remédio amargo e ele não é reservado em pequenos frascos de vidro, mas em barris. Não era amor, não era. Não era amor, era cilada. Um sorriso sádico no rosto de quem teve o coração quebrado. O objeto de afeição agora sofria também a dor de amar e não mais ser amado. Focou na pessoa errada e ignorou aquela que poderia ser a pessoa certa. Bem feito!

Não foi um dia brilhante, mas foi um dia agradável. E merecido. Após semanas de estresse no trabalho, cortes no dedo, cortes na mucosa bucal e limitações alimentares, e o período de reclusão para colocar as coisas em ordem, um dia feliz era mais que justo.

O cheiro de caramelo está em algum lugar da sala. Ou estaria impregnado na capa? A risada veio fácil, até mesmo na presença de gente ranzinza. As reflexões também e a constatação de que aquela terça-feira estava sendo um dia feliz, sem precisar ser perfeito. As coisas fluíam como se eu tivesse bebido uma dose de Felix Felicis.

Assim como o amor, a felicidade é um sentimento tão agradável que não importa se ela é verdadeira ou não. Não há espaço para medos e dúvidas quando uma pessoa sente isso. Apenas se quer sentir e fazê-lo durar, eternamente, se possível.

Tudo começou naquela manhã fria, quando o Sol pintou a cidade de laranja e preencheu o meu dia de calor e luz.