domingo, 24 de abril de 2011

O poeta

O amor não é para os fracos.

O mundo dá voltas. O poeta, mesmo com seu discurso lindo, suas palavras doces e irresistíveis, seu coração enorme e cheio de amor, dorme na pia, dorme na praça, dorme sozinho. O fato de você conhecer algo profundamente, ou falar dele incessantemente, ou procurá-lo loucamente, não quer dizer que você seja digno dele ou que você realmente o conheça, e o queira.

O amor não é para os fracos. O poeta não sabe o que quer. Ele quer ser amado, mas não se permite amar. E ele escreve poesias na porta dos banheiros, lê Sabrina, lê Crepúsculo, assiste filmes românticos, escuta música romântica, coleciona papéis de carta. Ele tem graduação, pós-graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado na ciência do Amor. Mas isso ele nunca vivenciou.

O poeta é um homicida emocional, quiçá um assassino em série e um suicida também, por que não? Pobres os corações daqueles que se apaixonaram por ele, se magoaram e tentaram dar uma segunda, terceira, quarta, quinta chance ao poeta de amá-los. Ah, mas o poeta é superior, demasiado intolerante, demasiado orgulhoso, demasiado inflexível. Ninguém está a altura dele.

Quem perde no jogo do amor? Quem perde no jogo de adivinhação? Quem consegue ler a mente do poeta e enunciar tudo aquele o que ele quer que você diga, fazer tudo o que ele espera que você faça? Para amar o poeta, você tem que ser o príncipe encantado em seu cavalo branco.

E aí, poeta, você tem beijado muitos sapos? Sapos que magoam você por brincarem com o seu coração assim como você brincou com o coração daqueles que lhe amaram e foram desprezados? Oh, meu Deus! Você foi traído e tornou-se um Sapo de Chifres? Chora, chora, poeta. O amor passou várias e várias vezes por você, mas você sempre o rejeitou por medo, orgulho, intolerância. O seu amor superior só lhe trouxe insônia, aprendizado inútil, cicatrizes desnecessárias e a sua constante solidão.

É, poeta, você está perdendo as pessoas, fechando portas, trancando-se dentro de uma solitária e jogando todas as chaves fora por debaixo de porta. Enquanto você enlouquece com seu amor nunca realizado, as pessoas que você machucou dão graças a Deus por terem sido excluídas da sua vida triste. Você as poupou de mais cicatrizes desnecessárias, de um amor confuso e inutilmente doloroso. Elas não correm mais o risco de sofrer por alguém que estava muito abaixo da amplitude emocional delas, de amar alguém que conhecia muito de amor teórico e nada de amor prático.

2 comentários:

  1. o poeta é o pouco de esperança que ainda resta na gente, transformado em palavras.

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  2. O poeta é um fingidor.
    Finge tão completamente
    Que chega a fingir que é dor
    A dor que deveras sente.

    E os que lêem o que escreve,
    Na dor lida sentem bem,
    Não as duas que ele teve,
    Mas só a que eles não têm.

    E assim nas calhas de roda
    Gira, a entreter a razão,
    Esse comboio de corda
    Que se chama coração.

    Fernando Pessoa, que dispensa maiores apresentações.

    Outro poeta, que não vou recordar o nome, escreveu algo como "Cuidado para não afugentar um anjo de sua porta".

    A vida ensina...e às vezes é cruel.

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