domingo, 10 de abril de 2011

O óbvio não provado

Se eu pudesse antever o resultado do óbvio não provado, eu teria me estressado menos do que o habitual.

Nenhum cachorro latindo, nenhuma criança chorando, nenhuma mulher berrando. Há paz às quatro da manhã e a ideias tomam forma quando o grafite desliza pelo papel sem tantas interrupções causadas por hesitações.

O garoto queria ser astronauta quando crescesse. Cresceu e agora já não era mais tão garoto, mas ainda não era um homem. Num dia qualquer, ele ficou sabendo de uma promoção para uma viagem à Lua através do Twitter. Procurou informar-se, manter contato, demonstrando interesse pela viagem.

No começo, seus e-mails eram respondidos mas depois de algum tempo ele ficou no vácuo – não no vácuo do espaço. A caixa de entrada permanecia vazia. Um mês depois, ao pesquisar sobre esta promoção no Google, ele descobriu que a nave espacial já havia partido. Sentiu dois sentimentos antagônicos ao mesmo tempo: alívio por finalmente saber o resultado da promoção, mas infelicidade por não ter sido selecionado.

A partir daí, sua cabeça, que já estava sendo consumida pela angústia de não ter tido uma resposta durante esse um mês, abriu espaço para mais dúvidas inimigas da paz de espírito: “Onde eu errei? Perdi muito tempo com rodeios e a minha necessidade de ter o controle total das coisas? Eu deveria ter ido direto ao ponto? Eu não era bom o suficiente para esta viagem? Ou a viagem não era boa o bastante para mim?

Agora ele só podia teorizar. E se...? Talvez... Reticências... Talvez essa não fosse a hora e eu devesse esperar por uma outra oportunidade... oportunidade que não surge a qualquer hora. Talvez tenha sido melhor assim e eu tenha me poupado de algo desagradável. Talvez eu tenha mesmo perdido a chance de pisar na Lua, ver se ela é feita de queijo. Emmental ou gruyère?”

Agora o ônibus espacial já tinha partido e o que o homem-menino podia fazer era aceitar os fatos e escolher entre mastigar suas dúvidas ou engoli-las de vez. Talvez a viagem fosse apenas mais um de seus desejos, mas uma necessidade e um anseio é só um desejo frívolo? Talvez os tripulantes da nave tenham uma experiência única, linda e inesquecível que o homem que desejava ser astronauta jamais poderá experimentar. Ou talvez eles estejam indo encontrar-se com a morte ao serem devorados pelo Sol.

Se eu pudesse antever o resultado do óbvio não provado, eu teria me estressado menos do que o habitual.

2 comentários:

  1. algumas oportunidades passam, muitas vezes sem depender da gente, mas nós temos a capacidade de criá-las em momentos oportunos.

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  2. Graças a Deus não podemos prever.
    Eu ainda prefiro me frustrar com a novidade do que me frustrar esperando o óbvio acontecer.

    Se eu perdesse uma viagem pra Lua, talvez torcesse pra nave explodir.

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