domingo, 17 de abril de 2011

Câncer

O que nos mata mesmo é o câncer.

Os médicos podem atestar nossa morte da maneira que eles quiserem, mas o que nos mata mesmo é o câncer. Não há como fugir desse mal, estamos expostos a ele desde o nosso primeiríssimo dia de vida. É inevitável porque convivemos com humanos... não há criatura mais cancerígena que esta.

Estudos mostram que os casos mais graves de câncer ocorrem em áreas onde há uma grande concentração de miséria espiritual, um reflexo dos outros tipos de miséria. No entanto, os indivíduos mais suscetíveis aos seus males são aqueles com melhor desenvolvimento intelectual, uma vez que eles vejam que a sua sabedoria não ajuda muito nem a si, nem aos outros.

O seio da nossa sociedade está com um tumor maligno que vem ceifando a vida de muita gente. A morte espiritual vem antes da carnal, as pessoas são apenas zumbis. A instituição familiar não existe há muito tempo, exceto para algumas poucas famílias onde o amor e os valores morais brilham como vaga-lumes no campo. Violência doméstica, filhos desafiando os pais, os pais não se dando ao respeito. Alcoolismo, drogas, prostituição, gravidez precoce, casamento às pressas. Não há família que resista.

No trânsito, seja dentro de seu carro ou no transporte público, sentimos tanta raiva que nosso cabelo cai. Não é calvície, não é efeito colateral da quimioterapia, é simplesmente este maldito câncer. Engarrafamento, loucos do entardecer. Os idiotas dão um show de falta de educação ao ocuparem dois assentos, o espaço reservado aos idosos, quando querem compartilhar o seu mal gosto musical pelo mp3 do celular, ou quando tornam o trânsito ainda mais infernal com o seu buzinaço excessivo.

As crianças aprendem na escola que muitas delas não terão futuro e que serão a base da pirâmide da desigualdade social. Aprendamos a ler e a escrever, o governo quer que sejamos burros, assim tudo pode permanecer como está onde os ricos continuam ricos e os pobres permanecem pobres. Que mundo maravilhoso!

Bebamos o nosso suco com cianeto. Brindemos a morte. Viva Jim Jones! Viva o fanatismo religioso. Viva o preconceito, o ódio, o sadismo, a tragédia, a desonestidade, à crítica incessante.

Não é preciso ser atropelado por um motorista embriagado, ser esfaqueada pelo marido, levar um tiro na cabeça, sofrer de cirrose ou ter um piripaque do coração e agonizar nos corredores do hospital para morrer. Já estamos mortos há muito tempo, somos zumbis. O que nos mata mesmo é este câncer, é ter que conviver com estes suicidas pouco inteligentes que querem nos levar junto com eles. É o câncer que nos mata dia a dia, pouco a pouco, lenta e dolorosamente...

5 comentários:

  1. VC tinha sumido.... que que deu? Tem algo a ver com essa revolta do post? (da qual eu compartilho)...

    Abraços..

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  2. Mano, isso é pura poesia, é lindo.
    Sério, essa anologia foi simplesmente uma das melhores que vc já fez e uma das melhores que eu li.

    Sou seu fã, já devo ter dito isso.

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  3. Em suma, é uma sociedade doente que vive à base de quimioterapias para breve alívios da dor.

    E onde está esse tratamento? No consumismo. Nos bens finitos. Há uma preocupação muito grande em acumular bens e coisas, substituindo o que realmente importa - ou importava - por objetos que momentaneamente podem trazer alguma alegria, algum alívio, mas logo depois as pessoas sentem "um vazio, uma angústia".

    Como o câncer é uma espécie de disfunção ( e modificações) nas células e estas se espalham pelo corpo, o que mais vemos por aí são tumores aparentes, mas poucos procuram se tratar. E há tratamento para isso? - fora da "quimioterapia" oferecida pelo mercado?

    Eu ainda quero crer que sim, talvez tenha cura.

    Abs! Excelente texto, parabéns!

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  4. Sim porque o câncer da Desumanidade Humana não tem cura.

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  5. essas pessoas pobres de espírito realmente são um atraso.

    já tá mais do que provado que o que a gente faz pra alguém, volta pra gente. então, tá na hora de semear coisas boas!

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