sábado, 31 de dezembro de 2011

Um ontem velho


Não somos pessoas cínicas e bondosas por conveniência como você.

Antes que o dia acabe, vamos expelir as nossas últimas gotas de vômito. Antes que o dia acabe, vamos dizer as últimas palavras. Antes que o dia acabe, vamos entregar a sua carta, mesmo que você não leia ou não saiba ler. Antes que o dia acabe, nos livraremos de toda esta nhaca, nos permitiremos que a chuva lave a nossa alma, e iremos incendiar as memórias e codificá-las para que o aprendizado seja útil depois.

Rasgaremos o saco de pão na nossa cabeça que abafou as nossas palavras, que não nos permitiu respirar. Preocupamo-nos com você e a sua suposta angustia, mas você teve a mesma preocupação conosco?

Palavras não são contratos, deveríamos saber. E contratos podem ser rescindidos quando bem entendemos, não? Deveríamos saber também que palavras não são nada para quem mente para proteger o próprio ego. Discurso maduro, atitudes infantis. Hipocrisia.

Você nos deu uma bomba a 5 minutos de explodir e deu a entender que o problema era nosso, mas não seu também. Porque não somos responsáveis pelas pessoas que cativamos. Cada um se ilude porque quer, cada um se apaixona porque quer, cada um sofre porque quer. É assim quando se é uma pessoa fria.

Não precisamos e não queremos uma pessoa covarde. Não queremos uma pessoa que só pensa em si mesma. Não queremos uma pessoa que se envolve logo com a primeira que lhe interessa. Não gostamos de gente fútil, não gostamos de gente que nem se respeita. Não queremos lixo que come lixo.

E não é que ainda nos importemos. Damos graças a Deus que você é realmente uma pessoa desprezível, uma mentira para nós e para você. Não somos pessoas cínicas e bondosas por conveniência como você e realmente desejamos que você encontre pessoas do seu calibre e que sofra como a gente um dia sofreu quando não conhecia o seu verdadeiro lado. Fomos honestos, você não. Nos importamos, você não. Estamos colocando fogo e destruindo todos os seus vestígios para que possamos deixar esse ontem velho para trás e nos sentirmos puros, limpos e preparados para um novo amanhã.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O começo do fim


Um voz imponente surgiu do nada e ordenou: “Calem a boca, eu quero assistir televisão”.

O dia estava ensolarado, poucas nuvens, temperatura agradável. Mas de repente, o céu enegreceu em poucos minutos. Trovões estremeciam as paredes e faziam os cães se esconderem debaixo das camas. O dia se tornou noite e não era um eclipse solar. Os raios iluminavam o céu negro.

O vento sul uivava raivoso enquanto as donas de casa obrigavam suas filhas a recolherem as roupas no varal antes que os pingos de chuva atingissem o solo como balas de metralhadora. As meninas que se recusavam e enfrentavam suas mães dizendo “vai você” apanhavam com as Havaianas que suas mães lançavam com força contra as suas cabeças. As mais azaradas, apanhavam com sandálias Crocs mesmo. A ventaria arrancava as telhas das casas que voavam em direção aos pobres. O caos estava instalado.

Do alto da laje de sua casa no ponto mais alto da favela, o pastor evangélico anunciava o arrebatamento. Realmente, parecia mesmo o apocalipse. Os fieis choravam e falavam em línguas implorando piedade enquanto telhas voavam contra eles como mísseis teleguiados. E os ateus apenas observavam e depois que o pastor foi atingido por uma telha Brasilit no meio da cara e voou da laje para a morte, caçoavam dos religiosos: “Onde está o seu Deus agora”? Então os dois grupos começaram se estapear defendendo a sua crença e a sua descrença.

Um voz imponente surgiu do nada e ordenou: “Calem a boca, eu quero assistir televisão”. E um raio caiu entre aqueles que estavam brigando, matando-os e silenciando-os.

E nesse cenário de juízo final, um grupo de pessoas tirava fotos em frente ao espelho para postá-las no Orkut: “Esse sou euzinho se preparando para o fim do mundo, beijos”. Ao se olharem no espelho, eles não enxergavam o próprio reflexo. Eles enxergavam muito mais. Era fortes, corajosos, imponentes. Pessoas que eram um exemplo a ser seguido. Enxergavam perfeição. Suas mentes eram fechadas, impenetráveis. Seus olhos viam apenas o que eles queriam ver. Seus ouvidos ouviam apenas o que eles queriam ouvir. E ao redor do piercing em seus umbigos, orbitavam as pessoas, a Terra, os planetas, as galáxias e o que mais puder existir.

Eles eram pessoas fodônicas. Ao mergulhar em suas mentes e enxergar o mundo através de seus olhos, enxergaremos uma realidade que não existe mas que, para os fodônicos, existe.

Se eles fossem um planeta, orbitariam um sistema falocêntrico e suas luas seriam falos. A inveja é o substantivo mais frequente em seu limitado vocabulário. O mundo sente inveja dos fodônicos. Não é fácil ser bonito, não é fácil ser gostoso, não é fácil ser uma pessoa que dita tendências, não é fácil. Possuir luas fálicas incomoda quem não possui. A felicidade alheia incomoda. Esse mundo é muito invejoso mesmo.

Os fodônicos não precisam fazer amigos, porque o mundo se joga a seus pés, solicita a sua amizade. Possuem centenas de amigos. Ao publicar uma foto sem camisa, várias pessoas curtem, várias pessoas desejam “ô lá em casa!”. Proctos flamejantes. Fodônicos não se arrependem do que fazem ou deixam de fazer. Fodônicos não se importam, não medem as consequências das atitudes que tomaram e não tomaram. O mundo sente inveja deles porque eles são serem superiores, simples assim.

O dilúvio inundou a cidadela. A arca de Noé não veio. Os ateus afundaram e os fundamentalistas religiosos boiaram e não subiram aos céus como tanto sonhavam. A laje caiu sobre a cabeça dos fodônicos que sobreviveram ao apocalipse. Eram baratas que se alimentavam dos detritos.

Now We Are Free by Cathrine Makabali

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A utopia da criação de novos estados


Os paraenses rejeitaram a divisão de seu estado em três. A separação traria mesmo as melhorias tão prometidas ou seria uma reles mudança no mapa político?

No último domingo, dia 11 de dezembro, os eleitores do Pará foram as urnas. Eles deveriam decidir se queriam ou não a criação dos estados de Carajás e Tapajós, ambos nascidos do desmembramento do estado do Pará, que poderia ter seu território reduzido a 17% do tamanho original. Após o encerramento da votação, os paraenses decidiram pela unidade, rejeitando a criação de dois novos estados. 66,60% dos votos disseram “não” à criação de Carajás e 66,06% também disseram “não” à criação de Tapajós.

Este resultado mostra que a maioria dos paraenses foi sensata. Por trás de toda a argumentação da centralização de recursos perto da região de Belém havia, é claro, um interesse único: a criação de novos cargos públicos, construção de prédios administrativos, ou seja, gastos. Gastos que deixariam de ser investidos na educação, saúde e segurança pública para poder proporcionar mais conforto aos nobres deputados, assessores, secretários, ao governador enquanto o povo continuaria a míngua. A divisão apenas saciaria o desejo de riqueza e poder de políticos e empresários mais poderosos e o povo, como sempre, seria apenas um peão conveniente em um xadrez de interesses.

Se os estados se separassem, os problemas continuariam os mesmos e não é separando que as coisas iriam se resolver. Certamente, o poder está centralizado nas grandes capitais de vários estados enquanto, no interior, os recursos não chegam e as obras também não. E não é exigindo a criação de novos estados que os problemas vão se resolver e os recursos vão se descentralizar. O povo tem que saber exigir estes recursos, tem que saber quem são os centralizadores e tem que boicotar, nas urnas, os aqueles que falharam nas suas promessas. Antes de tudo, o povo precisa saber votar!

Além da consciência de que a separação não vai distribuir recursos e construir obras de interesse público de forma descentralizada, não houve um sentimento de segregação ou de superioridade de certas regiões em relações a outras. Ou então um deslumbramento de fazer parte de um novo estado. Quer dizer, eles podem até fazer parte dos 30% de derrotados, mas agora é aceitar a derrota e chorar a frustração pelo resultado das urnas.

Esse tipo de consciência, por exemplo, falta nas populações de alguns estados do Centro-Sul do Brasil. E além de toda uma falácia, todo uma arrogância, temos uma demonstração nítida de falta de inteligência. Ano passado tivemos a estudante Mayara Petruso tendo piti no Twitter pela expressiva vitória da presidente Dilma Rousseff na região nordeste. E volta e meia temos outros exemplos de adolescentes recém-saídos da puberdade tendo aqueles típicos acessos de revolta infanto-juvenil, como este da imagem abaixo.

Talvez a derrota dos separatistas no Pará nos mostre que o povo já sabe perceber um mero interesse na criação de novos cargos políticos com a tradicional desculpa de que “vai ser melhor para o nosso povo”. Poderiam reduzir o Pará ou qualquer outro estado ao tamanho de um átomo que se, o povo não souber votar, não adianta: os problemas vão continuar sendo os mesmos de sempre. Quem pensa e defende a ideia da separação ou é um político interesseiro, ou é um empresário ou é um adolescente mimado e sem argumentos que xinga muito no Twitter evidenciando possuir uma superioridade que não existe e que não se conquista no grito. E talvez pior que esse grupo de pessoas interesseiras e adolescentes obtusos, seja o dos pobres deslumbrados que, por agora fazerem parte da nova classe média, se acham elite, mesmo morando de aluguel, mesmo ganhando um salário mínimo e mesmo parcelando um notebook Positivo em dezoito vezes sem entrada.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Você deveria ler isso


Você deveria acabar com a fome na África.
Você deveria acreditar que as celebridades são mais espertas que você.
Você deveria acreditar que o fim está próximo.
Você deveria acreditar que você não é nada.
Você deveria admirar o Bashar al-Assad.
Você deveria admirar quem é mais rico que você.
Você deveria amar este texto.
Você deveria amar o Nietzsche.
Você deveria andar pela faixa de pedestre.
Você deveria assistir um filme alternativo do Uzbequistão.
Você deveria assistir uma série de TV estadunidense.
Você deveria bater nas crianças desobedientes.
Você deveria beber cervejas sofisticadas.
Você deveria beber com moderação.
Você deveria boicotar a Rede Globo.
Você deveria chocar os políticos ao compartilhar fotos no Facebook.
Você deveria chocar pela bizarrice.
Você deveria chorar as tragédias do programa da Sônia Abrão.
Você deveria comprar produtos originais.
Você deveria deixar os seus problemas na mão de Deus.
Você deveria descartar o lixo no lixeira.
Você deveria desligar a TV e ler um livro.
Você deveria compartilhar fotos engraçadas.
Você deveria ditar tendências.
Você deveria divertir-se no carnaval.
Você deveria economizar água.
Você deveria emocionar-se com a novela das oito.
Você deveria estar salvando o mundo.
Você deveria falar como se vivesse no século XVIII.
Você deveria falar palavrão para chamar a atenção.
Você deveria falar polonês.
Você deveria fazer as pessoas chorarem ao criticar os ídolos deles no Twitter.
Você deveria fazer um monte de coisas.
Você deveria fazer uma viagem espiritual à Índia.
Você deveria fincar uma vassoura Scotch-Brite na praia de Copacabana.
Você deveria fotossintetizar.
Você deveria fumar narguilé.
Você deveria gostar de samba.
Você deveria honrar pai e mãe.
Você deveria julgar pela aparência.
Você deveria ler a Bíblia.
Você deveria lutar por um mundo melhor.
Você deveria malhar para o verão.
Você deveria morar em Cuba.
Você deveria mostrar o quanto você é superior.
Você deveria mudar o seu status no Facebook para “em um relacionamento”.
Você deveria não colocar os seus ombros sobre a mesa.
Você deveria não dar esmolas.
Você deveria não interromper as pessoas quando elas estão falando.
Você deveria não ser vítima de inveja.
Você deveria odiar a raça humana.
Você deveria odiar este texto.
Você deveria odiar o PSDB.
Você deveria odiar o PT.
Você deveria odiar o terrorismo.
Você deveria odiar os argentinos.
Você deveria odiar os Estados Unidos da América.
Você deveria orar pelos necessitados.
Você deveria parar de beber.
Você deveria parar de comprar produtos chineses.
Você deveria parar de fumar.
Você deveria parar de respirar.
Você deveria parar de usar sacolas plásticas.
Você deveria passar as férias em Paris.
Você deveria pensar que é mais interessante porque é bonito e gostoso.
Você deveria pensar que você é melhor que os outros porque tem dinheiro.
Você deveria pensar.
Você deveria plantar uma árvore.
Você deveria preocupar-se com a sua reputação.
Você deveria preocupar-se com a vida dos outros.
Você deveria preocupar-se com o aquecimento global.
Você deveria preocupar-se com tudo.
Você deveria reciclar.
Você deveria repudiar a violência.
Você deveria respeitar a opinião dos outros.
Você deveria respeitar o Papa.
Você deveria respeitar o seu chefe.
Você deveria respeitar os mais velhos.
Você deveria respeitar todas as religiões.
Você deveria ridicularizar os pobres.
Você deveria ridicularizar os travestis.
Você deveria sentir-se culpado por ser ter nascido homem e branco.
Você deveria sentir-se infeliz por ser gordo.
Você deveria sentir-se o centro do universo.
Você deveria ser bem sucedido.
Você deveria ser contra a ascensão social.
Você deveria ser contra a construção de Belo Monte.
Você deveria ser contra a corrupção.
Você deveria ser contra a pena de morte.
Você deveria ser contra as bolsas do governo.
Você deveria ser contra do progresso pelo progresso.
Você deveria ser contra o aborto.
Você deveria ser contra o capitalismo.
Você deveria ser contra o casamento de pessoas do mesmo sexo.
Você deveria ser contra o socialismo.
Você deveria ser culto.
Você deveria ser Flamengo e ter uma nega chamada Teresa.
Você deveria ser patriota.
Você deveria ser politicamente correto.
Você deveria ser tão desesperado quanto o Datena.
Você deveria ser vegetariano.
Você deveria ter a sua própria opinião.
Você deveria ter orgulho de ser afro-descendente.
Você deveria ter uma opinião sobre qualquer assunto que as pessoas conversem.
Você deveria tomar cuidado com as pessoas da favela.
Você deveria torcer para dar porrada no Programa do Ratinho.
Você deveria torcer pelo fracasso da presidente Dilma Rousseff.
Você deveria trabalhar como humorista no Zorra Total.
Você deveria viver cada o dia como se fosse o último.
Você deveria votar.

Você deveria acrescentar mais coisas a esta lista nos comentários.

PITTY - Admirável Chip Novo

domingo, 6 de novembro de 2011

Fonte de água podre

Não que ainda se importasse com ela, mas aquela fonte era agora, uma fonte de inspiração inesgotável sobre a putrefação das coisas.

E depois de andar sem rumo pelo deserto, perdido e com sede, engolfado pela loucura e desesperança pela falta de rumo, encontrou uma fonte. Uma fonte outrora bonita e de água muito limpa. Matou a sede. Não demorou muito e a água apodreceu. Sentiu-se mal e, como estava no deserto, não podia tomar remédios ou consultar um médico.

Mas o mal-estar passou e ele foi encontrado e resgatado por um grupo de beduínos que cruzava o deserto. A fonte continuava ali, jorrando água podre e contaminada, cheia de coliformes fecais.

Não que ainda se importasse com ela, mas aquela fonte era agora, uma fonte de inspiração inesgotável sobre a putrefação das coisas.

DIONNE BROMFIELD - If That's The Way You Wanna Play

domingo, 23 de outubro de 2011

Paraquedas

O sonho foi a realização de um desejo, não diretamente exposto, mas reconhecido e suprimido pela mente.

É perfeitamente possível economizar algum dinheiro se você tiver a mente aberta. Porque quando ela está fechada, ou você consulta um profissional que seja especialista no assunto ou confia no senso comum julgando conhecer o suficiente sobre si mesmo, o que é, muitas vezes, um equívoco e aquela falácia de sempre facilmente perceptível. Os sonhos são o elo entre o cógnito e o incógnito, a chave que abre a porta para o subconsciente. Se você tiver a mente aberta e a humildade para reconhecer para si mesmo as próprias fragilidades, será possível autoanalisar-se melhor e entender a razão de suas atitudes, medos e desejos.

O sonho foi a realização de um desejo, não diretamente exposto, mas reconhecido e suprimido pela mente. Algum tempo atrás, seria algo possível de acreditar como viável, embora demandasse muita energia mental. Hoje aceita-se o seu estado remoto. Chances existem, mas reconhece-se que seria mais sábio não cruzar as fronteiras. Soa grego, mas é apenas um reflexo, um eco.

Os portões deveriam ter ficado fechados, mas o descuido foi a brecha que o adolescente precisava para praticar o latrocínio. Implodiram o lugar inteiro porque não se quer, não se deseja a reconstrução. Apenas deseja-se que os caminhões levem os montes de entulho para bem longe. Mas deseja-se conectar-se e desconectar-se por algum tempo e desprender-se logo em seguida.

É fácil lidar com isso quando caráter é algo que não se tem, quando um comportamento egoísta, frio e indiferente faz parte da personalidade. Sejamos francos e hemos de admitir que a imensidão do kardia, somado à bondade e ingenuidade são um problema, embora não sejam coisas repugnantes.

Seria preferível então ficar juntos por algum tempo usando-se com o consentimento mútuo. Nenhuma promessa, nenhuma dissimulação, nenhuma mentira, hipocrisia, covardia. O tempo que traga o oblívio e que transforme a energia de um tsunami em uma inofensiva e graciosa marolinha. E se houver vontade, que joguem o tie-break. Mas que não haja quedas ou um fechamento comparável à misteriosa Coreia do Norte.

domingo, 16 de outubro de 2011

A maçã retorna à árvore

E nesse mundo de gente paranoica e desequilibrada, verei tudo desabar, indiferente, com os pés descalços na areia tomando os meus bons “drinque”.

Talvez o grande equilíbrio das coisas esteja no desequilíbrio. Buscá-lo talvez seja mera utopia, ideal inalcançável que, caso fosse possível, traria-nos o verdadeiro caos. Já sabemos que não há ricos sem pobres, que um líder não tem autoridade sem seguidores, que o bonito não se destaca se inexistir o feio, o que seria do protagonista sem os figurantes, o que seria do vermelho se todos gostassem do azul? Este é o equilíbrio das coisas; nós já o atingimos mas, na nossa eterna teimosia, no nosso eterno foco de tornar as coisas ainda piores do que já estão, não enxergamos, não percebemos e daí estragamos as coisas de vez.

E fazer parte de uma minoria não é tão ruim quanto dizem, as pessoas adoram dramatizar. Realmente tem horas que cansa, gostaríamos apenas de ser mais um em um milhão, negar-se, anular-se, porque cedo ou tarde a crise de fazer parte da minoria bate, mas passa. No mundo da artificialidade e superficialidade, um pequeno e restrito grupo dita tendências, as modas que a massa alienada e obtusa consumirá para que eles se sintam parte da tétrica maioria. Digam que a minoria é esquisita, pelo menos eles têm bom gosto e uma cultura mais rica. As pessoas são demasiadamente covardes para desfrutar os extremos da vida justificando-se todos os seus medinhos, sua mediocridade e sua necessidade de autoafirmação na postura fodônica do boçal sem argumentos.

São pensamentos à toa. Se fosse um discurso, as pessoas estariam alheias a ele, conversando entre si sobre trivialidades: o tempo, a novela, o jogo do Avaí.

Pensar é bom. O equilíbrio é para poucos. Há quem não pense, há quem seja apenas um corpo ocupando um lugar no espaço, há quem seja reles passageiro em um trem sem rumo, reles peça de uma engrenagem que move todos os sistemas adiante. Apenas alguém que faz figuração na peça de teatro da vida, alguém que aceite a insignificância como destino. E há quem pense demais. Uma assustadora busca, quase esquizofrênica, por amor, felicidade, riqueza, ou o que quer que seja. É pateticamente óbvio que quem precisa gritar para tudo e para todos o tempo todo, gabando-se possuir algo que todos almejam, é porque notadamente ela não o possui, mas tem essa necessidade de obtê-la e propagar a ilusão cegando a si próprio.

E deve ser vazio ser idolatrado por quem você não ama, nunca foi e nem nunca será parte de uma suposta família. Os ratos colocam seus ídolos em um pedestal. E deve ser frustrante ser admirado e ter suas ideias compartilhadas por quem não entendeu o que se quis dizer, Clarice bocejou e lançou-lhes um olhar blasé. E Ele deve ficar saturado daqueles que manipulam e são manipulados por palavras que Ele sequer deve ter escrito afinal, se é o que dizem ser, por que teria perdido o Seu tempo escrevendo um livro dúbio e controverso falando de amor dentro de uma política de ódio. Talvez a Terra quisesse ejetar todo mundo universo afora anulando a força da gravidade, assim ela se livraria dessas bactérias humanas que estão a adoecê-la.

domingo, 2 de outubro de 2011

No fim das contas

No fim das contas, você conquista aquilo o que você merece.

As pessoas dizem que é impossível dar certo o amor entre pessoas ricas e pobres. Quem é rico ficaria incomodado com a falta de boas maneiras e o comodismo com o pouco. Quem é pobre ficaria constrangido com o vocabulário rico, a bagagem cultural, um estilo de vida totalmente oposto. Mas se não houver a vontade de construir algo juntos e superar as barreiras sociais e do complexo de inferioridade, pessoas pobres terminarão com pessoas pobres e pessoas ricas terminarão com pessoas ricas.

As pessoas dizem que é impossível dar certo o amor entre pessoas bonitas e feias. Quem é bonito ficaria incomodado por não ter uma pessoa “apresentável” aos seus pais e amigos. Quem é feio teria constantes acessos de ciúme e insegurança devido ao seu complexo de aparência. Mas se não houver a vontade de construir algo juntos e superar as barreiras da estética e da falta de confiança em si e no outro, pessoas feias terminarão com pessoas feias e pessoas bonitas terminarão com pessoas bonitas.

As pessoas dizem que é impossível dar certo o amor entre um homossexual assumido e outro no armário. Quem é assumido ficaria incomodado ao sentir que impinge constrangimento ao seu namorado. Quem está no armário ficaria constrangido ao demonstrar afeto em público e a revelar-se homossexual para seus pais e amigos. Mas se não houver a vontade de construir algo juntos e superar as barreiras da homofobia e do complexo de rejeição, homossexuais no armário terminarão com homossexuais no armário (ou sozinhos) e homossexuais assumidos terminarão com homossexuais assumidos.

As pessoas dizem que é impossível dar certo o amor entre uma pessoa que preste e um idiota. Quem presta ficaria incomodado com a falta de honestidade e de alguém que realmente o valorize. Quem é idiota sentiria falta da liberdade de colecionar affairs sem compromisso para poder descartá-los quando conveniente. Mas se não houver a vontade de construir algo juntos e superar as barreiras do egoísmo e da luxúria, pessoas que prestam terminarão com pessoas que prestam e idiotas terminarão com idiotas.

É assim que as coisas terminam. No fim das contas, você conquista aquilo o que você merece. Se um relacionamento não deu certo como você gostaria, é porque não era para dar. É muito comuns as pessoas terminarem com seus iguais porque o caminho está facilitado: elas têm mais coisas em comum e vivem realidades similares. O contrário demanda uma luta que poucos estão dispostos a enfrentar. Porque quando você gosta de alguém de verdade, você luta por ela e enfrenta o que vier porque seu amor é maior que o seu medo. E quando você não se gosta, você desiste mais cedo e deixa os caminhos abertos para que cada um conquiste o que tem a oferecer.

domingo, 25 de setembro de 2011

Soro antiofídico


Inutilizar a sabedoria proveniente de um revés na sua vida é burrice, é não aprender nada e estar suscetível a revivê-lo mais cedo ou mais tarde.

Algumas doenças são adquiridas apenas uma vez na vida e, depois de curado, o indivíduo torna-se imune a elas. O veneno de cobras, aranhas e de alguns outros animais peçonhentos pode ser utilizado como contraveneno no tratamento a alguém que foi picado por elas. Não é muito diferente no convívio entre os seres humanos.

Existe sempre um lado positivo até nas piores situações. É pouco inteligente recursar-se a enxergá-lo com os olhos de Pollyana. E não é clichê ver uma oportunidade na dificuldade. Inutilizar a sabedoria proveniente de um revés na sua vida é burrice, é não aprender nada e estar suscetível a revivê-lo mais cedo ou mais tarde. E a menos que você seja masoquista, ninguém quer voltar a sentir a mesma dor, o mesmo sofrimento.

Pessoas que nos molestem aparecerão sempre no decorrer de nossas vidas por mais que procuremos evitá-las e frequentar seus ambientes. Pessoas assim existem em todas as famílias, empresas, classes sociais... Os motivos podem ser diversos.

E então ela te ofende, te humilha, te destrói... Você pode esquecer as palavras, mas não esquece como se sentiu. Sempre há uma primeira vez para experimentar uma dessas sensações amargas – e situações como essas não são poucas e sempre haverá uma inédita. Por mais que você ouça conselhos de familiares e amigos, leia livros, você só vai aprender realmente a não se deixar abater depois de ter visto o lado bom que o sofrimento implicou após tê-lo sentido na alma. É aí que você cria a tal imunidade a ele e é por isso que é importante aproveitar a oportunidade que esta dificuldade está te proporcionando, do contrário, é provável que você acabe cometendo os mesmos erros no futuro.

Quando você é molestado, você pode acabar aprendendo mais sobre si mesmo no que concerne às suas fragilidades. Você descobre o que é que te ofende e pode trabalhar nisso e procurar solucionar esse problema caso ele tenha um fundo psicológico.

Algum tempo depois, você se encontra em uma situação de conflito com uma pessoa diferente que está com o intuito de colocar você para baixo. Munido do aprendizado que obteve numa dessas situações difíceis, você aprende a se defender e a revidar. E uma das armas mais interessantes é a arma herdada de um inimigo. Você pode usar as mesmas palavras ou ter as mesmas atitudes de alguém que te machucou porque você já sabe o quanto aquilo dói, o quanto aquilo te doeu. Talvez Freud tenha escrito algo sobre a transposição da dor...

Com o sofrimento, desenvolvemos nosso soro antiofídico, nossa imunidade. Com o sofrimento, descobrimos nossos pontos fracos para trabalhar no nosso fortalecimento espiritual ou então, escondê-los, ou projetá-los nos outros. E relembrando o sofrimento, podemos tentar machucar alguém da mesma maneira que alguém nos machucou...

domingo, 21 de agosto de 2011

Silencie as armas com flores


Ele havia enxergado o que havia de bom no coração daquele homem, mesmo que tivesse se sacrificado para salvá-lo.

[1] Silencie...
O diplomata saiu de casa, fechou a porta e partiu. Sabia das consequências, mas havia a esperança de que ele pudesse resolver aquele problema angustiante com um diálogo franco e aberto. Ao chegar, respirou fundo e bateu a porta da casa daquele cuja indiferença o feria.

O homem perguntou quem era. O diplomata se identificou e foi ignorado. Bateu novamente na porta. Não houve resposta.

Insistiu a bater na porta uma terceira vez após pedir “por favor”. Alguém desceu as escadas e a abriu. O diplomata assustou-se com o que viu. Embora pudesse ter previsto uma possível hostilidade, ele jamais imaginou que as coisas terminariam daquela maneira.

O homem então falou o que o diplomata já estava se preparando para ouvir e como se não tivesse ouvindo o que ele dizia, veio na defensiva e com armas na mão. E, sem piedade, deu dois tiros no diplomata que desabou no chão tendo, como última lembrança, o lado mais negro que aquele homem permitiu-se mostrar.

[2] ...as armas...
Naquela sexta-feira cinza e triste, o padre fazia as últimas homenagens ao diplomata assassinado. Era um homem honesto, gentil, generoso que enxergava o lado humano das pessoas e que acreditava veementemente que esse lado poderia trazer quem estivesse nas trevas de volta à luz.

Enquanto sua família chorava a sua morte, o assassino estava alheio ao enterro se divertindo com uma prostituta. Mal sabia ela que estes também eram os seus últimos minutos de vida.

[3] ...com flores.
A população e a imprensa não quiseram compreender o perdão dos filhos do diplomata ao assassino de seu pai, embora eles nunca tivesse trocado, sequer, uma única palavra com ele. Para eles, ele podia expressar todo o seu ódio que eles não o odiariam. O seu pai havia partido, não havia mais nada a fazer. Foram rotulados de “tolos” por muita gente, mas sabiam que seu pai estava orgulhoso da atitude que tiveram. Ele não queria que seus filhos pagassem um erro com um outro e que nutrir o ódio apenas envenenaria seus corações.

Depositaram flores no túmulo do diplomata na madrugada. Não eram seus filhos, mas um antigo amigo. Ele caiu de joelhos e começou a chorar, arrependido pelo mal que causou. Não estava sozinho. O diplomata estava ali ao lado dele, em espírito. A missão daquela noite que fora assassinado estava, finalmente, cumprida. Ele havia enxergado o que havia de bom no coração daquele homem e, mesmo que tivesse se sacrificado para salvá-lo, ele havia libertado aquele homem do mal que o matava e a todos ao seu redor.

domingo, 7 de agosto de 2011

Aprender a morrer


Você vai aprender a morrer para aprender a ressuscitar.

Então é a morte. O café e o pão não descem por causa do nó na garganta. O banho quente poderia demorar uma eternidade. O sono também se ele não fosse um flashback de momentos que nunca existiram, mas era um sonho em preto e branco, sem Sol e sem calor, sem contato, sem carinho. Acordar de madrugada e reviver os últimos minutos de esperança. Mas estou aqui, vivo. Morto, porém vivo. Talvez eu esteja no limbo.

Estamos morrendo a cada momento. Soa trágico, não? Mas morremos porque estamos mudando, o mundo está mudando, as pessoas e com eles, nossos sonhos e sentimentos. Não é a mesma coisa de outrora. Algumas vezes benéfica, há males que vem para o bem. Outras vezes, a morte é lenta e dolorosa. Você implora a para a Morte para que ela te leve embora, mas ela assiste a tudo, indiferente, lixando as unhas de pernas cruzadas sentada em um banquinho.

Por isso devemos estar preparados para morrer. Cada um há de encontrar o seu ponto de equilíbrio mais cedo ou mais tarde, querendo ou não. Estou tentando aprender a não criar expectativas para não me machucar enquanto corro atrás dos meus sonhos. Ou desejos, necessidades, seja lá o que for, é só no fim que saberei o que era e será no limbo onde irei descobrir. Se você não se preparar, vai doer insuportavelmente. Você vai cair e o mundo não vai parar para esperar você se levantar. Se você estiver preparado, sim, vai doer, mas logo você se recupera e renasce das cinzas.

Fênix. Ela morre e renasce de suas cinzas, sempre bela e sua cor vermelho fogo. Sempre.

Morrer não é fácil, não é agradável, nenhum de nós quer morrer. Mas a morte é uma lição, um aprendizado. É, meu amigo, a vida é sádica e nos expõe a dor para que aprendamos a morrer. Você vai aprender a morrer para aprender a ressuscitar. Seu remédio tem gosto amargo, é o tempo. Morrer não é o fim, mas um novo começo, aprenda com os seus erros, mas jamais corrompa a sua alma, a sua essência, você, para agradar quem não têm paciência, tolerância e que se recusa a amar e respeitar você do seu jeito. Morrer não é a oportunidade de jurar vingança, mas a de ter humildade de reconhecer erros e perdoar aos outros e a nós mesmos. Somos humanos, cometemos erros e matamos algumas vezes as pessoas que nós amamos, com ou sem intenção, para que elas tenham a oportunidade de renascer.

domingo, 31 de julho de 2011

Feiura do mundo


“Não tenha piedade dos mortos, Harry. Tenha piedade dos vivos e, acima de tudo, dos que vivem sem amor.”

Desde a morte de Amy Winehouse, no último 23 de julho, várias pessoas no Facebook têm homenageado e lamentado sua morte. Para muitos, ela tinha fama, dinheiro e um talento enorme mesmo sendo tão jovem, sendo então lamentável o modo que ela partiu. Porém, poucos são aqueles os que se perguntam o por que de, mesmo com fama e dinheiro, ela ser tão autodestrutiva, sendo flagrada diversas vezes bêbada e drogada?

Não precisamos esperar que um artista de fama internacional morra de overdose para que nos perguntemos o que leva uma pessoa às drogas e ao álcool. Muitos dos leitores devem ter alguém da família ou algum amigo que tenha problemas com esses entorpecentes. Porém, poucos são aqueles que procuram ajudá-los de alguma forma, muitos preferem julgar, afastar-se e ignorar a sua existência.

O brasileiro tem o grande defeito de refutar tudo o que possa atingir a sua preciosa “felicidade”. O mito de que o brasileiro é feliz se deve a sua irresponsabilidade e covardia para enfrentar qualquer situação que o desagrade. É muito mais fácil julgar e elaborar teorias totalmente infundadas e preconceituosas. Lágrimas de vapor e uma necessidade de fingir revolta diante de crimes bárbaros nada mais são do que uma tentativa de mostrar uma humanidade que não existe desde que as pessoas adotaram carpedienzismo da ditadura do disfarce emocional como filosofia de vida. Quem não é carpedienzista fanático é rotulado de infeliz, negativo e deve ser evitado.

É necessário, no entanto, ter discernimento para não apelar para os extremos. Ninguém precisa ser o patético carpedienzista fanático – que é a engrenagem que move a nossa sociedade para trás –, tampouco precisa ser aquela pessoa sempre focada em tornar o mundo um lugar melhor que quer ajudar a todos. Ninguém precisa de uma Bíblia e ser uma pessoa religiosa para entender o significado de “amar ao próximo”.

O que leva uma pessoa ao álcool e as drogas? O que é que todos os viciados têm (e não têm) em comum? São todas pessoas sem rumo na vida que procuram alívio ao seu desespero interior através de alguma substância química que lhes dê a sensação de prazer. O prazer passa e ela sempre vai querer mais e mais e, sem que se dê conta disso, já estará perdendo os amigos, a família, a sanidade mental e principalmente, a saúde. Muitas delas não têm uma pessoa que lhes dê o conforto psicológico que todo o ser humano precisa. É claro que algumas pessoas experimentam estas substâncias por influência dos amigos e da propaganda de uma suposta “liberdade”, mas dificilmente quem têm uma boa estrutura mental e familiar vá ceder e usá-las.

A base de muitos problemas é a falta de amor, seja a falta de amor dos outros para si ou a falta de amor próprio. Não é preciso perder alguns anos na faculdade e formar-se psicólogo ou psiquiatra para aprender a desenvolver sentimentos – e no caso deles, costumeiramente artificializados. Qualquer um que tenha sensibilidade, humanidade e responsabilidade social, não será aquele que irá criticar os bêbados e drogados para, em seguida, virar-lhe as costas, mas será aquele que irá procurar ajudar dentro dos limites que o doente irá estabelecer baseado também, na vontade dele de ajudar a si próprio a sair do buraco.

Os doentes precisam procurar ajuda em clínicas de reabilitação, e os brasileiros carpedienzistas precisam extirpar o seu egoísmo e desenvolver o amor ao próximo. Todos precisam de amor.

***

*Créditos pela frase de introdução: J.K. Rowling em “Harry Potter e as Relíquias da Morte”.

domingo, 24 de julho de 2011

Quedas de julho


O que levaria você do céu ao inferno em questão de segundos? Como tremer de frio no deserto do Saara? Como suar de calor no frio da Antártida? Como explicar essa viagem entre os dois extremos?

Não é a primeira vez que há quedas em julho. Inverno aqui no hemisfério sul, verão no norte, mas as folhas ainda caem quando não é mais outono em lugar algum.

No início da segunda metade do ano, o músculo mais forte do nosso corpo faz hora extra e a mente é avaliada por psicólogos e submetida a exames laboratoriais de resistência.

A glória vem quando julho inicia com e-mails escritos com letras roxas e uma nova mina de diamantes é encontrada na África do Sul. Ficaremos fascinados com novas cores e brilhos.

Seremos envolvidos por um fogo que nos aquece durante as noites frias, um calor que nos alegra e nos faz querer contagiar e aquecer aqueles que sentem frio. Estamos pegando fogo, a casa está pegando fogo e então acontece: CABUM! O botijão de gás explode e o fogo sai de seu controle.

Você precisa de gás para novas explosões e alimentar as chamas, mas elas diminuem, o fogo apaga e o vermelho, amarelo e laranja dão lugar ao azul. Restam as cinzas...

Chamem os bombeiros! Vai buscar Dalila, ligeiro!

domingo, 3 de julho de 2011

Buenos Aires

No estoy más respirando con dificultad, no estoy más ahogandome con la contaminación del aire.

Vivi en la oscuridad. Cerré el portal del parque de diversiones, pero dejé la llave bajo el felpudo. Y la sacaste y andentraste. Las luces volveron a brillar nuevamente. Mi intuición, que no costumbra fallar para las cosas dolorosas, detectó algo diferente. Algo bueno, sincero, transparente como el água de un lago helado islandés.

No estoy más respirando con dificultad, no estoy más ahogandome con la contaminación del aire. Ahora yo respiro buenos aires. No necesito actuar para gustar a alguien. No necesito temer lo que decir y no estoy ansioso con el futuro porque tengo la tranquilidad y la seguridad que yo necesitaba para estar en paz. Puedo mirar a través del água limpia del lago. Todo viene a su tiempo.

La bateria está cargada. Las luces estan brillando. Las flores, florindo. Y el aire está limpio y a mi me gusta respirar estes buenos, buenos aires.

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Vivi na escuridão. Fechei o portão do parque de diversões, mas deixei a chave sob o capacho. Você a pegou e entrou. As luzes voltaram a brilhar novamente. Minha intuição, que não costuma falhar para as coisas dolorosas, detectou algo diferente. Algo bom, sincero, transparente como a água de um gelado lago islandês.

Não estou mais respirando com dificuldade, não estou mais sufocando com a poluição. Agora respiro bons ares. Não preciso mais atuar para agradar a alguém. Não preciso temer o que dizer e não estou ansioso com o futuro porque tenho a tranquilidade e segurança que precisava para estar em paz. Posso ver através da água limpa do lago. Tudo vem ao seu tempo.

A bateria está recarregada. As luzes estão brilhando. As flores, florindo. E o ar está limpo e gosto de respirar estes bons, bons ares.

domingo, 15 de maio de 2011

Iceberg flutuando no Oceano Antártico

O marinheiro o viu de longe e imediatamente badalou o sino para alertar toda a tripulação para o choque iminente. Um imenso iceberg estava na rota do imponente navio.

Tarde de verão. Céu azul e sem nuvens. O mar tranquilo. Um iceberg movendo-se pelas ondas de água gelada do Oceano Antártico. Uma pintura em diferentes tons de azul. A reunião dos três estados da matéria: o líquido da água, o sólido do iceberg e o gasoso do vento congelante. O elemento da vida. O que você vê: frieza ou inércia?

Existe a possibilidade de encontrar algo muito valioso no centro do iceberg. O que pode haver lá dentro não é certo, assim como não se sabe se é durável ou não. Mas seja lá o que for, é algo que todos desejam por algum período de tempo.

Quebre o gelo de alguma forma, vamos desbravá-lo, descobrir o que ele esconde, qual o brinquedo surpresa do seu Kinder Ovo. Que tal usarmos uma picareta? Mas não é perigoso danificá-lo? Vamos lamber o gelo. Mas não é perigoso ficarmos com a língua colada nele? Vamos perfurá-lo com as unhas, ou enxugá-lo com uma toalha. Mas não corremos o risco de gangrenar nossas mãos?

Ei, que tal um pouco de calor? Sim, seguro e eficaz. Porém requer paciência, muita paciência. Muitas vezes esperar o gelo derreter cansa então, partimos para explorar outro iceberg – que também vai demorar para derreter. Como atingir o seu núcleo? O calor do Sol é impotente por aqui. A concentração do calor do raio de Sol tímido através de uma lupa também não ajuda muito. O aquecimento global e o buraco na camada de ozônio aceleraram o processo de derretimento, mas ele causa destruição e caos.

Quase um século atrás, o Titanic chocou-se contra um iceberg numa madrugada de abril de 1912. O navio inafundável afundou. E junto com ele afundaram os sonhos de uma vida nova numa terra nova. Ele estava movimentando-se rápido demais ou foi a inércia do imenso bloco de gelo flutuando no mar que o danificou?

É fascinante, atraente e nos instiga a descobrirmos a sua recompensa. Podemos explorá-lo e encontrar absolutamente nada. Há o risco que ele rache a caia sobre nós. É como se nossa vida dependesse desse garimpo. Misterioso, parado e calado. Vê-se quebrado e invadido, mas não reage. Precisa ser quebrado? Duro, impenetrável, letargo e frio... e isso mata o caçador de tesouros, deixa-o irritado, aborrecido, desapontado.

Mesmo com a companhia dos pinguins, o iceberg consegue viver tanto com ela quanto sem. Solitário e independente. Aparenta transparência, mas ninguém consegue enxergar através dele. O iceberg está ilhado no Oceano Antártico, deixando-se levar pelas ondas, prestes a ser explorado ou prestes a destruir os navios que vierem ao seu encontro.

VANGELIS - Antarctica by petersonflr

domingo, 8 de maio de 2011

Parque de diversões

O parque de diversões fechou. Depois de tantos acidentes, decidiu-se que era a melhor coisa a ser feita. Era tempo de fazer uma reforma, uma análise e de descansar os brinquedos.

O ambiente era majoritariamente frequentado por crianças. E não era apenas um parque de diversões, mas um pequeno universo desconhecido a ser explorado. O tesouro perdido, os patos nadando no lago, o piquenique debaixo da Pohutukawa Cornwallis, o pôr do Sol e as montanhas esmeraldas.

Uma voz misteriosa veio de fora e uma criança curiosa ouviu seu nome. A voz dizia que queria entrar e a criança, inocente e disposta a trazer o amigo misterioso àquele mundo belo que ela já conhecia, foi atropelada por um caminhão ao tentar atravessar a rua. Aquele ambiente alegre ficou triste.

Algumas semanas depois, a alegria retornou. Mais um chamado, mais uma criança tentando trazer quem estava chamando. Mais uma morte. A alegria cedeu à tristeza e o luto por uma segunda vez.

Após essas mortes, as coisas já não era mais as mesmas, alegres e felizes como havia sido antes. Divertir-se estava ficando mais difícil. O sorriso não estava sendo mais espontâneo, mas forçado para transparecer uma falsa alegria e simpatia.

O público estava diminuindo. Acidentes internos causaram mais mortes. Uma criança voou da montanha russa. Ninguém percebeu. Uma criança quebrou as pernas no carrinho de choque. Ninguém foi ajudar. Uma criança gritou por socorro enquanto era engolida por uma jiboia. Ninguém viu ou ouviu. Ninguém quis acreditar. Eles decidiram ignorar.

O marketing não funcionava mais. Quanto mais promoções, menos gente. Apesar de todas as coisas bonitas que o parque pudesse oferecer, ninguém queria mais ir lá para visitar. No máximo, chamavam as crianças esperando que elas se arriscassem e se machucassem – ou moressem. Ou olhavam pelas frestas no muro. Subentendiam que o lugar era uma lástima e que não havia nada de interessante ali dentro então, decidiram dar meia-volta e ir embora.

Logo, decidiu-se fechar o parque. Não era fácil renunciar à alegria de quem já havia se divertido naquele pequeno mundo pouco conhecido, mas era necessário. Necessário consertar os brinquedos, regar as flores, cortar a grama, limpar o lugar e jogar o lixo no lixo. Era necessário recriar, revitalizar e aquilo só poderia ser feito com o parque vazio.

Quem quiser entrar, deve esperar a reforma terminar para não se machucar. A administração crê que não é mais preciso gastar tempo e dinheiro com marketing, já há divulgação demais. Quem quiser ingressar depois da reforma, será bem-vindo, quem não quiser, que fique de fora sem saber o que poderia ser desfrutado.

Informamos que o parque de diversões está em reformas. Ninguém mais vai se acidentar. Não vamos mais investir em mais divulgação para evitarmos a falência. Quem quiser entrar nesse pequeno universo, agora deve esperar a reforma terminar.

domingo, 1 de maio de 2011

Cheiro de caramelo

Tudo começou naquela manhã fria, quando o Sol pintou a cidade de laranja e preencheu o meu dia de calor e luz.

Aquela terça-feira poderia ser igual aos últimos dias: um saco! Mas não foi. E tinha os ingredientes para tal. Dormir apenas três horas para fazer um exame de saúde em um posto de saúde público, com um potinho de cocô dentro da mochila, além do frio do outono poderiam ter tornado o dia massante.

Muita gente reclama de ter que acordar cedo. Realmente não é muito agradável ter que acordar, sair do calor das cobertas para enfrentar o frio e toda a aporrinhação do trabalho e um possível congestionamento matinal. O período da manhã pode fazer toda a diferença durante o resto do dia. E é o período mais belo de todos.

Quando o Sol nasceu e foi iluminando aos poucos os carros da rodovia federal, as placas e as fachadas do comércio com seus tons de laranja, cada vez mais vivos e intensos, enchendo a cidade de vida, pressentiu-se que seria um bom dia. A confirmação veio quando Andrea Corr começou a cantar “Tinseltown In The Rain” dentro da minha cabeça. Obrigado, Andrea.

Algumas pessoas podem estar tão perto, mas tão longes de outras. E uma delas estava do outro lado da rodovia. Lembrei-me dela quando estava chegando e vi a logomarca vermelha com ondinhas brancas. E tem sido presente nos meus pensamentos todos os dias desde que eu a conheci. Logicamente, ela não deve fazer ideia disso. Imaginei o que ela estaria fazendo, mas principalmente, sentindo.

Amar é um sentimento muito bom, o melhor que uma pessoa pode sentir. A dor de amar e não ser correspondido é proporcionalmente inversa. O tempo é um remédio amargo e ele não é reservado em pequenos frascos de vidro, mas em barris. Não era amor, não era. Não era amor, era cilada. Um sorriso sádico no rosto de quem teve o coração quebrado. O objeto de afeição agora sofria também a dor de amar e não mais ser amado. Focou na pessoa errada e ignorou aquela que poderia ser a pessoa certa. Bem feito!

Não foi um dia brilhante, mas foi um dia agradável. E merecido. Após semanas de estresse no trabalho, cortes no dedo, cortes na mucosa bucal e limitações alimentares, e o período de reclusão para colocar as coisas em ordem, um dia feliz era mais que justo.

O cheiro de caramelo está em algum lugar da sala. Ou estaria impregnado na capa? A risada veio fácil, até mesmo na presença de gente ranzinza. As reflexões também e a constatação de que aquela terça-feira estava sendo um dia feliz, sem precisar ser perfeito. As coisas fluíam como se eu tivesse bebido uma dose de Felix Felicis.

Assim como o amor, a felicidade é um sentimento tão agradável que não importa se ela é verdadeira ou não. Não há espaço para medos e dúvidas quando uma pessoa sente isso. Apenas se quer sentir e fazê-lo durar, eternamente, se possível.

Tudo começou naquela manhã fria, quando o Sol pintou a cidade de laranja e preencheu o meu dia de calor e luz.

domingo, 24 de abril de 2011

O poeta

O amor não é para os fracos.

O mundo dá voltas. O poeta, mesmo com seu discurso lindo, suas palavras doces e irresistíveis, seu coração enorme e cheio de amor, dorme na pia, dorme na praça, dorme sozinho. O fato de você conhecer algo profundamente, ou falar dele incessantemente, ou procurá-lo loucamente, não quer dizer que você seja digno dele ou que você realmente o conheça, e o queira.

O amor não é para os fracos. O poeta não sabe o que quer. Ele quer ser amado, mas não se permite amar. E ele escreve poesias na porta dos banheiros, lê Sabrina, lê Crepúsculo, assiste filmes românticos, escuta música romântica, coleciona papéis de carta. Ele tem graduação, pós-graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado na ciência do Amor. Mas isso ele nunca vivenciou.

O poeta é um homicida emocional, quiçá um assassino em série e um suicida também, por que não? Pobres os corações daqueles que se apaixonaram por ele, se magoaram e tentaram dar uma segunda, terceira, quarta, quinta chance ao poeta de amá-los. Ah, mas o poeta é superior, demasiado intolerante, demasiado orgulhoso, demasiado inflexível. Ninguém está a altura dele.

Quem perde no jogo do amor? Quem perde no jogo de adivinhação? Quem consegue ler a mente do poeta e enunciar tudo aquele o que ele quer que você diga, fazer tudo o que ele espera que você faça? Para amar o poeta, você tem que ser o príncipe encantado em seu cavalo branco.

E aí, poeta, você tem beijado muitos sapos? Sapos que magoam você por brincarem com o seu coração assim como você brincou com o coração daqueles que lhe amaram e foram desprezados? Oh, meu Deus! Você foi traído e tornou-se um Sapo de Chifres? Chora, chora, poeta. O amor passou várias e várias vezes por você, mas você sempre o rejeitou por medo, orgulho, intolerância. O seu amor superior só lhe trouxe insônia, aprendizado inútil, cicatrizes desnecessárias e a sua constante solidão.

É, poeta, você está perdendo as pessoas, fechando portas, trancando-se dentro de uma solitária e jogando todas as chaves fora por debaixo de porta. Enquanto você enlouquece com seu amor nunca realizado, as pessoas que você machucou dão graças a Deus por terem sido excluídas da sua vida triste. Você as poupou de mais cicatrizes desnecessárias, de um amor confuso e inutilmente doloroso. Elas não correm mais o risco de sofrer por alguém que estava muito abaixo da amplitude emocional delas, de amar alguém que conhecia muito de amor teórico e nada de amor prático.

domingo, 17 de abril de 2011

Câncer

O que nos mata mesmo é o câncer.

Os médicos podem atestar nossa morte da maneira que eles quiserem, mas o que nos mata mesmo é o câncer. Não há como fugir desse mal, estamos expostos a ele desde o nosso primeiríssimo dia de vida. É inevitável porque convivemos com humanos... não há criatura mais cancerígena que esta.

Estudos mostram que os casos mais graves de câncer ocorrem em áreas onde há uma grande concentração de miséria espiritual, um reflexo dos outros tipos de miséria. No entanto, os indivíduos mais suscetíveis aos seus males são aqueles com melhor desenvolvimento intelectual, uma vez que eles vejam que a sua sabedoria não ajuda muito nem a si, nem aos outros.

O seio da nossa sociedade está com um tumor maligno que vem ceifando a vida de muita gente. A morte espiritual vem antes da carnal, as pessoas são apenas zumbis. A instituição familiar não existe há muito tempo, exceto para algumas poucas famílias onde o amor e os valores morais brilham como vaga-lumes no campo. Violência doméstica, filhos desafiando os pais, os pais não se dando ao respeito. Alcoolismo, drogas, prostituição, gravidez precoce, casamento às pressas. Não há família que resista.

No trânsito, seja dentro de seu carro ou no transporte público, sentimos tanta raiva que nosso cabelo cai. Não é calvície, não é efeito colateral da quimioterapia, é simplesmente este maldito câncer. Engarrafamento, loucos do entardecer. Os idiotas dão um show de falta de educação ao ocuparem dois assentos, o espaço reservado aos idosos, quando querem compartilhar o seu mal gosto musical pelo mp3 do celular, ou quando tornam o trânsito ainda mais infernal com o seu buzinaço excessivo.

As crianças aprendem na escola que muitas delas não terão futuro e que serão a base da pirâmide da desigualdade social. Aprendamos a ler e a escrever, o governo quer que sejamos burros, assim tudo pode permanecer como está onde os ricos continuam ricos e os pobres permanecem pobres. Que mundo maravilhoso!

Bebamos o nosso suco com cianeto. Brindemos a morte. Viva Jim Jones! Viva o fanatismo religioso. Viva o preconceito, o ódio, o sadismo, a tragédia, a desonestidade, à crítica incessante.

Não é preciso ser atropelado por um motorista embriagado, ser esfaqueada pelo marido, levar um tiro na cabeça, sofrer de cirrose ou ter um piripaque do coração e agonizar nos corredores do hospital para morrer. Já estamos mortos há muito tempo, somos zumbis. O que nos mata mesmo é este câncer, é ter que conviver com estes suicidas pouco inteligentes que querem nos levar junto com eles. É o câncer que nos mata dia a dia, pouco a pouco, lenta e dolorosamente...

domingo, 10 de abril de 2011

O óbvio não provado

Se eu pudesse antever o resultado do óbvio não provado, eu teria me estressado menos do que o habitual.

Nenhum cachorro latindo, nenhuma criança chorando, nenhuma mulher berrando. Há paz às quatro da manhã e a ideias tomam forma quando o grafite desliza pelo papel sem tantas interrupções causadas por hesitações.

O garoto queria ser astronauta quando crescesse. Cresceu e agora já não era mais tão garoto, mas ainda não era um homem. Num dia qualquer, ele ficou sabendo de uma promoção para uma viagem à Lua através do Twitter. Procurou informar-se, manter contato, demonstrando interesse pela viagem.

No começo, seus e-mails eram respondidos mas depois de algum tempo ele ficou no vácuo – não no vácuo do espaço. A caixa de entrada permanecia vazia. Um mês depois, ao pesquisar sobre esta promoção no Google, ele descobriu que a nave espacial já havia partido. Sentiu dois sentimentos antagônicos ao mesmo tempo: alívio por finalmente saber o resultado da promoção, mas infelicidade por não ter sido selecionado.

A partir daí, sua cabeça, que já estava sendo consumida pela angústia de não ter tido uma resposta durante esse um mês, abriu espaço para mais dúvidas inimigas da paz de espírito: “Onde eu errei? Perdi muito tempo com rodeios e a minha necessidade de ter o controle total das coisas? Eu deveria ter ido direto ao ponto? Eu não era bom o suficiente para esta viagem? Ou a viagem não era boa o bastante para mim?

Agora ele só podia teorizar. E se...? Talvez... Reticências... Talvez essa não fosse a hora e eu devesse esperar por uma outra oportunidade... oportunidade que não surge a qualquer hora. Talvez tenha sido melhor assim e eu tenha me poupado de algo desagradável. Talvez eu tenha mesmo perdido a chance de pisar na Lua, ver se ela é feita de queijo. Emmental ou gruyère?”

Agora o ônibus espacial já tinha partido e o que o homem-menino podia fazer era aceitar os fatos e escolher entre mastigar suas dúvidas ou engoli-las de vez. Talvez a viagem fosse apenas mais um de seus desejos, mas uma necessidade e um anseio é só um desejo frívolo? Talvez os tripulantes da nave tenham uma experiência única, linda e inesquecível que o homem que desejava ser astronauta jamais poderá experimentar. Ou talvez eles estejam indo encontrar-se com a morte ao serem devorados pelo Sol.

Se eu pudesse antever o resultado do óbvio não provado, eu teria me estressado menos do que o habitual.

domingo, 3 de abril de 2011

Catapora

Há a vontade de entender... ou calar.

Não era uma metáfora. Era apenas uma narrativa de como é estar doente. Narrar os fatos é algo mecânico. Metáforas exercitam o cérebro, desenvolvem a criatividade, instigam a curiosidade. O implícito pode ser mais excitante que o explícito.

Escrever alivia. É uma forma de livrar-se daquilo que nos deixa inquietos. Muitas vezes ajuda muito mais do que uma conversa transparente. Conversamos com nós mesmos. Não somos ingênuos de acreditar que um aceno positivo com a cabeça queira dizer que há empatia ou entendimento total. Há a vontade de entender... ou calar. Berrar é inútil pois todos estão berrando ao mesmo tempo. Quando você lança um sinalizador ao céu, você broxa ao saber que ele foi lançado à meia noite do dia 1º de janeiro. Há a esperança de que alguém perceba o seu sinal de S.O.S. em meio ao tsunami de informações egocêntricas e inúteis. Não conte com ela.

Deveríamos estar dormindo, temos um compromisso amanhã cedo, mas estamos aqui ouvindo sobre uma corrida de cavalos na neve no BandNews enquanto escrevemos. A barriga ronca. Não temos vontade de dormir nem a preocupação de ficarmos cansados o dia todo. Não há vontade de acordar quando dormimos tampouco.

Há coisas que não gostamos de falar, nem comentar, mas gostaríamos que as pessoas percebessem. A ansiedade novamente nos causa mau humor. Estamos esperando por uma resposta que nunca vem. Estamos nos perguntando sobre o que eles realmente querem e por que aquela pessoa gentil, educada e receptiva se transformou em uma pessoa muda que ignora nossa presença.

Vai passar, nós já sabemos. O corte no dedo há de cicatrizar e o estresse diminuir. Mendigamos algum respeito e alguma atenção, assim como todo mundo. Queremos nos livrar dessa gentinha espírito de porco. Queremos a nossa liberdade de volta, nosso tempo, nossos amigos. Queremos voltar a sentir o calor do Sol, o vento, a chuva, o frio. Queremos voltar a viver e a sermos sinceramente felizes. Onde está aquele sorriso que costumava estar no nosso rosto?

THE SMITHS - How Soon Is Now

domingo, 13 de março de 2011

United States of Mine

Para cada ambiente, diante de cada pessoa, adotamos uma postura ímpar, adotamos um “eu” apropriado, uma linguagem e um comportamento particular.

Interessante como um reality show como o Big Brother Brasil, duramente criticado pelos “maus exemplos” à nossa sociedade puritana e conservadora, possa ser uma fonte de temas relevantes a serem debatidos no que diz respeito ao comportamento humano e da sociedade. Apenas para exemplificar, uma das grandes preocupações dos participantes é em serem eles mesmos. Mas o que é ser você mesmo?

Talvez uma das respostas mais plausíveis seja “agir como você sempre agiu, sendo coerente com aquilo o que você pensa e sente”. Este pensamento faz sentido, no entanto, é importante ter em mente de que é impossível estabelecer uma espécie de perfil sobre quem se é.

Primeiramente, todos nós sabemos que nós mudamos com o passar dos dias, meses e anos. Podemos ter gostado muito de alguma coisa no passado e hoje não gostarmos mais, ou o contrário, podemos ter odiado algo e hoje o adorarmos. Segundo, qual é a data de validade de um perfil relativamente confiável sobre quem somos nós?

Não somente o tempo pode mudar a visão que nós e os outros têm a respeito de nossa personalidade. O ambiente também nos “molda”, juntamente com as pessoas que dividem este ambiente conosco. Por exemplo, a linguagem e as brincadeiras que fazemos com os nossos amigos e familiares nem sempre são as mesmas que fazemos com quem trabalha conosco. Uma pessoa pode ser muito alegre, brincalhona e divertida com um determinado grupo de pessoas, ao mesmo tempo que pode ser mais séria e rígida com outras. Ela não estaria sendo “ela mesma” em alguma dessas situações?

Em um BBB, um participante pode sentir-se intimidado pelas câmeras, pela exposição e pelo julgamento constante de seus colegas e do público. Ele pode acabar não sendo lá dentro quem ele imaginava ser por ter medido demais as palavras para não desagradar ninguém, como também pode ter passado por cima de quem ousasse se meter em seu caminho. Podemos descobrir um novo “eu” em situações assim. E somos um monte de “eus”, temos múltiplos perfis, quase todos parecidos em sua essência, mas nunca idênticos. Para cada ambiente, diante de cada pessoa, adotamos uma postura ímpar, adotamos um “eu” apropriado, uma linguagem e um comportamento particular.

Qual é o seu “ser você mesmo”? Quais são os seus “eus” para os diferentes ambientes e pessoas? E quando é que você é fiel à sua essência e quando você está sendo falso com os outros ou com você mesmo?

domingo, 6 de março de 2011

Criatividade, cadê?

Onde foi parar a criatividade do século XX? Estaremos sempre de olho no passado em busca de coisas pseudo-novas?

Em 1997, a escritora britânica J. K. Rowling lançou o primeiro livro da série Harry Potter, “Harry Potter e a Pedra Filosofal” e tornando-se um best-seller mundial, passando a ser adaptado ao cinema pela Warner Bros. em 2001. Desde então, Harry Potter tornou-se um fenômeno mundial, quebrando recordes de vendas de livros e de bilheteria, no caso dos filmes. Tema central: bruxos.

Em 2008, outro fenômeno entre as adolescentes também sai dos livros para a tela grande: a Saga Crepúsculo. Não fez tanto sucesso quanto Harry Potter, mas apaixonou várias fãs ao redor do mundo e também foi criticado por muita gente. Tema central: vampiros e lobisomens.

Em 2010, a rede de televisão estadunidense Fox lança a série “The Walking Dead” após o fim de “Lost” que foi uma de suas séries de maior sucesso. Tema central: zumbis.

Estes são apenas alguns exemplos de filmes ou séries de TV que fizeram um sucesso mundial. O tema central deles era, respectivamente, bruxos, vampiros, lobisomens e zumbis. O que eles têm em comum?

Bem, são todas obras de ficção, de fantasia. Podemos constatar também que contos sobre estes seres e criaturas não são recentes. Até mesmo os contos de fadas da Disney contam estórias com os mesmos personagens: o príncipe, a princesa e a bruxa malvada. Onde foi parar a criatividade do século XX? Para onde irá a do século XXI?

Não vivemos mais na Idade das Trevas e a Igreja não tem mais o poder de mandar supostos “demônios” para a fogueira, não podemos acusar ninguém de bruxaria para que nosso “pecado” tenha fundamento. Somos tão esclarecidos e céticos que a imaginação se perdeu e até mesmo as crianças são educadas desde cedo que coelhinho da Páscoa e Papai Noel não existem. A magia foi embora. Elas se tornam adultos pouco criativos, pálidos, céticos, demasiado pés no chão.

Estaremos sempre de olho no passado em busca de coisas pseudo-novas? A moda estará sempre procurando algo retrô ou vintage para a modelo desfilar na passarela? Os cineastras estarão sempre de olho na lista de best-sellers de livros que poderão ser adaptadas ao cinema?

Inspirar-se em contos antigos ajuda a manter o folclore e a mitologia de uma cultura viva. Bruxos, lobisomens, zumbis, vampiros, gladiadores, deuses e semideuses não serão esquecidos tão cedo... Seremos uma geração de restauradores que não irá contribuir com nada de novo devido à nossa pouca criatividade e pelo excesso de ceticismo?

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Febre


Não consigo pensar, não consigo sentir. Apenas sei que não estou bem. Estou em stand-by, estou funcionando em piloto automático. Estou em estado de letargia, estou com febre.

Ouço o som da TV vindo de algum lugar, mas meus ouvidos estão abafados e não consigo ouvir direito, além de que sequer estou prestando atenção ao que dizem.

Há algumas nuvens negras no céu. Não sei se está calor ou se a temperatura está amena. O Sol está morno, seu brilho é fraco, como se eu estivesse dentro de um televisor a cores da década de 1970.

Estou de cama coberto dos pés à cabeça pelo meu cobertor. O corpo cansado e por mais que eu permaneça deitado, não consigo descansar. Não sei como me sinto. Não estou de bom humor, mas também não estou de mau humor. Não estou feliz, mas também não estou triste. Não quero companhia, mas não quero estar sozinho. Não estou com vontade de viver, mas também não estou com vontade de morrer.

Não consigo pensar, não consigo sentir. Apenas sei que não estou bem. Estou em stand by, estou funcionando em piloto automático. Estou em estado de letargia, estou com febre.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Mudar para agradar

Esperam a perfeição que não existe, eles admitem que sabem que não existe, mas mesmo assim, exigem perfeição.

Tuzky lançou suas estrelas ao céu. Queria ele extravasar suas esperanças e sonhos que o sufocam deliciosamente? Queria ele enfeitar o teu céu com estrelas, iluminando tua noite escura? Provavelmente, ele queria os dois.

Quanta controvérsia eles esperam de nós. Eles nos pedem para sermos sinceros, mas não têm a maturidade necessária para encarar a verdade, que nem sempre é agradável. Eles dizem que errar é humano, mas estão sempre prontos para jogar as pedras da Sakineh na tua cabeça. Esperam a perfeição que não existe, eles admitem que sabem que não existe, mas mesmo assim, exigem perfeição. Tudo tem que ser medido, pensado e repensado, polido e descartado. Perdemos em espontaneidade.

Amortentia e simpatias não funcionam para nós, os trouxas. No entanto, mesmo que funcionassem, o amor não seria sincero e natural e sim, imposto. Escravos de um feitiço, um amor unilateral. Ame a si mesma, dar o famoso golpe da barriga não fará seu homem casar contigo por amor e sim, por obrigação.

Gostarias de amar unilateralmente alguém, um amigo, namorado ou quem quer que seja? Tens mesmo que deixar de ser a pessoa que tu realmente és para agradar alguém que não te ama o suficiente para te aceitar desse jeito?

Sejas tu mesmo. Não sigas um roteiro escrito por algum babaca que quer ouvir somente o ele quer ouvir. Vale a pena sacrificar teus valores, opiniões, sentimentos e crenças para alguém que não se importa contigo?

Lady Gaga disse que Deus não comete erros, que és linda como Ele te fez, você nasceu assim, paciência. Katy Perry disse que há uma faísca dentro de ti, que talvez o motivo de as portas estarem fechadas é para você poder abrir aquela que te leva ao caminho perfeito, e saberás a hora que deverás deixar a tua luz brilhar. Pitty pediu para te mostrares e ela descobrirá se gosta do teu verdadeiro jeito de ser.

E então, quando o afeto for bilateral, poderás desfrutar do sentimento de ser verdadeiramente querido por alguém. Poderás viver e sentir tudo intensamente ao invés da superficialidade das mentiras e do fingimento. Não sejas um fantoche, não sigas um script, jogue-o no lixo. Viva a sua vida, ela é sua, não dos outros.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Ex-pectativas


Você tem expectativas e sua suposta falta delas nada mais é do que o reflexo daquilo que você desejava e falhou.

Não adianta tentar fingir que você não tem expectativas. Minta para o mundo, mas você consegue mentir para si mesmo mesmo que o exteriorize de forma convincente? Você tem expectativas e sua suposta falta delas nada mais é do que o reflexo daquilo que você desejava e falhou.

Quem vai para a final de uma Olimpíada desejando vencer a medalha de prata e rejeitando a de ouro? Quem sonha em tornar-se uma pessoa cada vez mais gorda? Quem sonha em “sofrer” de acne ou em ser feio? Quem é que não quer sentir-se amado? Todos possuem expectativas, muitas delas reprimidas até por nós mesmos temendo comentários daqueles que amamos e detestamos. Bem, queremos ser mimados e só condena isso quem gostaria de ser e nunca foi.

Expectativas como a de que você soubesse que gosto de sua companhia e gostaria que você ficasse mais um pouco por mim. Venha até mim e diga e demonstre gostar realmente de mim. Expectativa de você reparar que mudei alguma coisa na minha aparência para agradar você – e dessa vez você percebeu por conta própria. Expectativa de não sofrer do Mal de Cláudia.

Expectativa de tornar-se uma pessoa profissionalmente bem-sucedida, reconhecida pelo meu talento. De estar cercado de pessoas que se interessem pela pessoa que você é, não por aquilo que possui. De ter amigos sinceros que tem coragem para dizer a você aquilo que você não vai gostar de ouvir, mas precisa para seu próprio bem. Expectativa de comentários num blog.

Queremos nos destacar em alguma coisa. Se nossa vida amorosa afunda como o Titanic, que nossa vida profissional seja ascendente como o salário dos deputados. Expectativa de ter algo maior e melhor. Expectativa de que nossas expectativas não se tornem ex-pectativas.

E quais são as suas? Quais suas expectativas e ex-pectativas?