domingo, 21 de novembro de 2010

Continue caminhando

À esquerda, como os senhores podem observar, temos um caminho onde seus sonhos se tornam realidade... E à sua direita, temos a mesmice e as coisas tediosas de sempre.

O famoso asfalto escaldante e quente da Guiné-Bissau, agora Patrimônio da Humanidade da UNESCO, dividiu-se em dois. Você não pode parar de andar, é como se a garrafa de Johnnie Walker ordenasse: “keep walking!” Dois caminhos a serem seguidos. Faça sua escolha.

À esquerda, como os senhores podem observar, temos um caminho onde seus sonhos se tornam realidade. É onde a metade da sua laranja pode ser encontrada, encontrar aquilo que você perdeu, ter tudo o que você mais gosta no lugar que você sempre quis... E à sua direita, temos a mesmice e as coisas tediosas de sempre.

O caminho escolhido foi o da esquerda...

Seguindo o caminho da esquerda, você foi subindo cada vez mais alto. Você encontrou abrigo ali, voltou a ter esperanças ali, voltou a sonhar ali, voltou a sorrir ali. Pelas suas veias fluia o melhor sentimento que você pode sentir. Apenas mais alguns metros e você estaria no topo do Monte Everest, ou a poucos degraus da escadaria que te leva às estrelas. Estaria...

De repente, tudo escureceu e você não teve tempo para entender nada. Uma motocicleta veio voando e chocou-se propositalmente contra você que deu com a cara no asfalto e caiu desmaiado.

Escuridão.

O céu sem Lua e sem estrelas. O sangue se espalhando pelo asfalto e, dessa vez, em suas veias, que outrora fluia o melhor sentimento do mundo, agora fluia o pior. O atropelador era um ladrão de sonhos e de esperanças que levava suas vítimas até o topo do Monte Everest apenas para ter o prazer de lançá-las de lá direto para a Fossa das Marianas. Do céu ao inferno. Não contente, roubou o coração de sua vítima, deixando dentro dela, um grande vazio.

Preenchê-lo novamente, conseguirás?

A vítima tenta se livrar da pressão da fossa onde se encontra. Pressão demais para a sua cabeça que não consegue enxergar a luz e sentir o calor do sol. Perguntas sem resposta e o desespero para voltar à superfície e novamente. Quem a ajudará?

Há o medo, o trauma, as sequelas, as cicatrizes, o vazio.

Enquanto a vítima sofre sozinha debatendo-se no mar, o ladrão toma vinho tinto francês em um sofisticado restaurante francês. Enquanto a vítima sente frio, o ladrão está aquecido pelas esperanças e os sonhos que roubou. Enquanto a cicatriz não fecha e a dor não passa, o ladrão sente-se bem para mais uma. O ladrão não sofre, não sente, não escuta, não quer um feedback, ele ignora a dor que causou. Não sente remorso e não pede desculpas.

E a vítima vai emergindo à superfície para voltar a tomar o asfalto escaldante e quente da Guiné-Bissau. É o destino. Você não pode parar.

Keep walking!

2 comentários:

  1. Que demais. @@

    Já fui motoqueiro.
    Já fui vitima.

    Já fui um eu. Hoje sou outro. Pq assim como o cara do texto, eu ressurgi das cinzas. Da água na vdd.

    Enfim.

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  2. Fácil, muito fácil se alguém aparecesse para indicar caminhos a serem seguidos. Esquerda ou direita? Foi muito fácil e Dona Prudência manda desconfiar das facilidades "de mão beijada".

    Eu tento emergir da fossa abissal onde a luz não chega e poucos seres conseguem sobreviver. Onde tudo é escuridão e a pressão é insuportável, porque também carregaram meus sonhos e meu coração para um outro lugar que não sei que trilha percorrer para reencontrá-los.

    Talvez o melhor seja voltar para Guiné-Bissau e começar tudo novamente.

    Sem keep walking, mas com um "traz outra!"

    abs

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