domingo, 24 de outubro de 2010

Eras

Você finalmente se tornou uma pessoa independente. Você tem dinheiro para gastar no que quiser.. Mas qual é o preço que você está pagando por isso?

Havia tempo, muito tempo. Muito anos a serem vivido ainda. Havia tempo de sobra para visitar os amigos, para trocar figurinhas, para brincar com os pés descalços pela rua empoeirada. Andar de bicicleta, deixar a bola quebrar a vidraça da vizinha mal-humorada. Não havia grandes preocupações, responsabilidades e uma cobrança de si próprio.

O mundo era calmo e bonito. O choro era sincero e o sorriso também. A amizade era sincera e quando o grupo de amigos se reunia, todos riam de qualquer coisa. Tudo era engraçado. No entanto, não havia independência e tudo dependia do aval da mãe: dinheiro para comprar chiclete, ir ao cinema, uma bola de futebol, brinquedos, roupas, permissão para ficar fora de casa até mais tarde. Nada de independência, nada de dinheiro.

O tempo começou a passar mais rápido. A segunda-feira apenas começou e o dia seguinte, já é sexta. E o fim de semana passou em questão de segundos. O tempo corre e não dura. O dia de 24 horas resume-se a 6 horas, 4 horas, ou até menos. Você não tem mais tempo para conversar com seus amigos porque agora você trabalha. Seus amigos também não tem tempo para você porque agora eles trabalham. Você muda, seus amigos mudam, namoraram, se afastam e quando você vê, vocês não são mais amigos. Vocês são agora apenas conhecidos e a conversa entre vocês fica restrita ao “oi, como vai a família”?

Por que não tentar fazer novas amizades? Ah, agora as amizades sinceras são raras. Beleza e sucesso pessoal e profissional tornam-se pré-requisitos para isso. Seu amigo passa a perna em você e se torna seu supervisor porque roubou suas ideias. Você descobre que sua melhor amiga traiu você com o seu marido. Ou então o seu outro amigo simplesmeste sumiu porque está namorando e a namorada dele quer que ele viva somente para ela.

É a vida adulta, meu amigo. Sinta-se ridículo sempre que desejar brincar com seus amigos. Sinta-se ridículo sempre que sentir falta das amizades espontâneas e sinceras. Sinta-se ridículo sempre que tiver vontade de jogar tudo para o alto e sair correndo sem rumo. É a vida adulta, aguente!

Acorde cedo, vá trabalhar, almoce, ria da piada sem graça do seu chefe, ature a sua colega de trabalho que não para de reclamar de tudo e de todos o tempo todo, pegue o ônibus lotado, chegue em casa morto, faça o jantar, assista a novela, tome um banho e durma, porque no dia seguinte tem mais do mesmo. E quando chegar o fim de semana, você vai precisar beber para se divertir em ambientes onde somos mercadorias atrás de uma vitrine.

Há um estilo de vida a ser seguido. Force-se a se encaixar nele e a fingir gostar. Censure seus desejos de infância, os sonhos não-realizados. Você será chamado de louco. O tempo é curto. Seu emprego agora é sua mãe. Sua família são seus colegas de trabalho que só falam da família, atividades domésticas e sacanagem. Os amigos se foram e cada um seguiu seu rumo. Sua amiga é a televisão. E o trabalho além de ser nosso ganha-pão, é a nossa fuga da realidade. Porque aqui nós vivemos para trabalhar por nós e por aqueles que podem curtir a vida, que é algo que acontece enquanto os outros se divertem.

5 comentários:

  1. É lamentável ter que concordar com isso. Realmente a vida adulta não é regada de balões coloridos e risadas como a infância.
    Claro que o mundo na infância é mais legal por causa da nossa ingenuidade, sinceridade e pureza, mas sei lá, tem uma magia a mais.
    Claro também que a vida adulta pode ser legal, mas é muito mais difícil.

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  2. Eu vivo falando que quero minha vida de volta.

    Quero voltar a ter tempo pra viajar com a família, voltar à época em que a minha única preocupação era tirar notas boas na escola.
    Hoje temos que dividir essas tão ligeiras vinte e quatro horas entre trabalho, faculdade, família, namorado, igreja, amigos.
    Quase sempre desejamos a desejar.

    Aproveito pra dizer que sinceramente não lembro se já comentei aqui. Mas, faz muito tempo que o seu blog está no meu reader e sempre que é atualizado passo por aqui.
    Gosto muito dos temas abordados e da forma como o expõe.

    Parabéns!

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  3. Eu sou ridiculo.
    E não repreendo meus desejos de infancia. Não msm. Adoro lojas de brinquedos. kKk...


    Mas enfim, tudo o que vc escreveu é a mais pura verdade. Parecia até que estava falando de mim. Parabens.

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  4. Cara, agradeçco e agradeço muito pelo apoio que vc me dá, desde o inicio do blog.

    A postagem já foi feita, então infelizmente (por enquanto) não usarei suas 5 linhas. Mas se vc permitir, quero usá-las na "orelha" do livro com os melhores posts.

    Obrigado de novo.

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  5. cara, o importante é tentar encontrar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional e não viver pra trabalhar, mas trabalhar pra viver.

    eu, por ex, vim de minas pro rio e fiquei longe da família e amigos. concordo que é mais difícil fazer amigos quando se é adulto, já que muitos interesses estão em jogo. mas a vida da gente é assim, perdas e ganhos.

    daqui um tempo foi construir uma família e o tempo para os amigos ou conhecidos vai diminuir. mas vou ganhar alguém pra dormir junto todo junto, sexo seguro e por aí vai. depois vem os filhos, que tiram o sono da gente, enchem nossa cabeça de preocupação, mas o sorriso deles já vale tudo isso.

    desde crianças foram perdas e ganhos. e vai ser assim até o final da nossa vida.

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